16.1.06

Cesar Maia fala

Entrevista - Cesar Maia - Correio Braziliense

Em que pé está a candidatura própria do PFL a presidente da República?

Em primeiro de julho de 2004, em reunião na casa do senador (Jorge) Bornhausen (presidente nacional do PFL), chamei a atenção de que uma hipotética candidatura do Serra inviabilizava a minha candidatura. Temos perfis semelhantes. Não cabe disputarmos o mesmo eleitor. Para os dois partidos terem candidatos, têm que ter perfis diferentes, para ambos terem chances de ir ao segundo turno. E quem for, receber o apoio do outro. Reiterei isso agora, quando falei que a candidatura do Serra inviabiliza a minha. Não é a mesma coisa com a do Alckmin, que tem outro perfil, porque é uma candidatura pouco competitiva.

Mas, no plano administrativo, quem parece ter o mesmo perfil do senhor é o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Qual é a diferença?

A diferença está na percepção do eleitor. Falo do eleitor que conhece os candidatos. O eleitor me percebe como um político com uma ação forte, uma verticalidade grande no exercício sistemático da autoridade, como um político com ousadia, que fala o que acha que deve falar, que confronta. O perfil do Alckmin é mais suave, ele é visto como um político de docilidade. São personagens distintos. Quando chega na eleição, as questões de conteúdo têm um peso, mas o que é fundamental são as diferenças de imagem. Diria que prevalecem sobre o conteúdo.

Mas, na definição de alianças, nem sempre isso acontece…

O Alckmin é uma pessoa cheia de virtudes. Não tenho mais virtudes do que ele. A questão do Alckmin é que ele não ganha a eleição. Vai perder a eleição porque tem uma dimensão paulista, regional, muito acentuada. Quando ele deflagra o processo, a declaração dele é: “Eu não farei um paulistério”. Ele tem consciência de que sua genética é a de um prefeito paulista, que depois se tornou parlamentar, constituinte e tertius na disputa da vice do (Mário) Covas (ex-governador paulista que faleceu após ser reeleito). Já o Serra tem mais inserção nacional, entrou na política a partir da questão nacional, como presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Então a aliança do PFL com o PSDB, no primeiro turno, está condicionada à disputa entre os tucanos?

Quem decide é a direção do PFL. Mas a minha proposta ao partido é a seguinte: com José Serra não devemos ter candidato; com Alckmin , teremos uma candidatura competitiva, seja o meu nome ou de outro.

Quem é que o senhor avalia que pode ganhar? O presidente Lula?

Acho que o Lula, não. A questão do escândalo inviabiliza o candidato em eleições majoritárias. Se não for no primeiro, será no segundo turno. Temos exemplos à vontade na história eleitoral, pelo mundo afora. Agora, no Canadá, os conservadores passaram os liberais, que vinham de um escândalo um ano atrás. Aqui, nós temos o exemplo do (Miguel) Arraes (ex-governador de Pernambuco, morto no ano passado). O caso dos precatórios tirou-o do segundo turno. O (ex-presidente Fernando) Collor pensou que poderia voltar, não voltou, nem em Alagoas. Os casos de escândalos, na hora em que são retomados, numa campanha eleitoral, eliminam a possibilidade de vitória. Se você entra com o Serra, que tem um perfil mais amplo — compõe pela centro-direita e é de esquerda, mas ao mesmo tempo encarna a autoridade e, portanto, agrega —, isso vai eliminando a probabilidade do surgimento de um tertius.

A eleição seria polarizada logo no primeiro turno?

É claro que pode surgir um tertius. O Aécio Neves (governador de Minas Gerais) diz que não existe nomeação para presidente da República. Concordo inteiramente. Há possibilidade de surgimento de um tertius, seja com um perfil populista de direita, o caso do (Anthony) Garotinho (ex-governador do Rio de Janeiro), seja com um perfil de autoridade, um general entre aspas.

Um candidato da ordem…

Exatamente, um candidato da ordem. Neste momento do Brasil em que os políticos estão expostos e, do meu ponto de vista, exageradamente desmoralizados. Esses escândalos, a convocação extraordinária, o mensalão, isso gera uma desintegração da imagem dos políticos em geral e abre espaço para a entrada em cena de uma candidatura de perfil conservador, autoritário. A gente viu o caso do referendo das armas. Aqueles que imaginam que o referendo foi resolvido na televisão, se equivocam. Aquilo foi o voto pela autoridade, pela verticalidade, pela ordem. Existe espaço para o tertius, e para um quarto. Eu não sei porque os institutos ainda não colocaram o Enéas (Carneiro, do Prona) nas pesquisas. Ele é candidato a presidente de novo e vai dar o sinal de que existe espaço para crescimento por aí, embora ele tenha lá os seus limites.

O senhor está falando isso por intuição ou com base em pesquisas?

Nos últimos 15 anos da minha vida, mergulho em pesquisas permanentemente. Existe espaço para um tertius, existe espaço para um quarto. As pesquisas eleitorais hoje só dizem duas coisas: falam da inviabilidade do Lula e falam que a memória do governo Fernando Henrique Cardoso ainda é muito prejudicial a uma candidatura do PSDB. O nome do Fernando Henrique é o pior nome do PSDB de São Paulo. O governo Lula ainda ganha do governo dele. Não tenho dúvida de que o PT vai usar a memória do final do governo Fernando Henrique na campanha.

O governo Lula aproveita a crise cambial do final do governo FHC e os números atuais da economia e cria dificuldades para o discurso do PSDB. Isso tem eficácia?

Uma coisa são as pessoas que trabalham com um volume grande de informações, que são minoria. Outra coisa é aquilo que a dona Maria e o seu João percebem do ponto de vista econômico. É muito diferente. Na medida em que eles olham a dificuldade de conseguir emprego, de conseguir aumento de salário, melhorar de vida. Para eles, a economia é isso. O impacto da ação econômica do governo sobre a qualidade de vida, na percepção da população, é quase nenhum. Tiveram ali uma curva na metade do ano de 2004 e criaram a expectativa de que isso viria. Não veio.

Mas o governo tem um grande volume de recursos para gastar nesse começo de ano…

Vai ajudar na eleição de deputados, num ou outro caso de eleição de governador, mas, pelo impacto nacional, não dá para dizer que se espargiu pelo país, produziu uma opinião favorável, um clima de confiança. A Fundação Getúlio Vargas, hoje, tem uma pesquisa em que a expectativa de piora do emprego em relação ao primeiro trimestre de 2006 aumentou para 32%.

Então, não existe um ambiente de otimismo?

A frase “é a economia, estúpido!”, que o assessor James Carville deu a Bill Clinton em 1992 contra George Bush I, funciona nos dois extremos: quando a economia vai espetacularmente bem , com 6% , 7% de crescimento sustentado, durante três, quatro anos, isso tem impacto para a população; ou, então, quando ela está parada, em recessão. Nesse momento, o impacto que a economia traz para a população é de incerteza.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem falado que, depois do controle da inflação, a questão dos juros é o desafio que precisa ser enfrentado. Esse será o foco da política econômica
do novo governo?

É uma questão de ousadia. Aí vem de novo um elemento que distinguiria o Alckmin de mim, o Serra do Alckmin. No caso do PT, existe um risco quanto ao que fará no futuro, o que, segundo analistas internacionais, explicaria uns cinco ou seis pontos desta taxa de juros. Então, se você simplesmente tirasse o Lula e colocasse o Fernando Henrique, a taxa de juros cairia de 18% para 13%. Depois, tem outro elemento: a coragem política para tomar uma decisão e dizer àqueles que se sensibilizam com esse movimento dos juros que passam a ter menos estímulo para investir a curto prazo na economia brasileira, que o governo bancará essa decisão. Na Argentina, houve um estressamento, um confronto, que terminou resultando benéfico e sinalizou ao mercado internacional que tem jogo no confronto.

Mas eles não tinham saída…

Para aqueles outros que não querem adotar as mesmas medidas — ninguém é louco —, Argentina sinalizou que a moratória não é o caos. Aumentou o poder de barganha daqueles que não querem fazer isso. Sinalizou para o mercado: não joga contra, olha o que aconteceu lá. A Argentina ajudou muito àqueles que precisam sinalizar para fora a necessidade de crescimento , como é a situação brasileira.

Qual o papel do Rio de Janeiro na política nacional?

O Rio de Janeiro foi a razão da unidade nacional, pelo seu papel na construção da identidade nacional no século XIX. Até quase a guerra do Paraguai, quando esse processo foi resolvido, havia uma situação permanente de conflitos armados tendo como referência o Rio de Janeiro, que se tornou um espaço de síntese nacional. Os militares sabiam disso e trabalharam para desnacionalizar a política do Rio de Janeiro. Isso afetou a qualidade da política carioca. Há uma reação, que veio com (Leonel) Brizola (ex-governador do Rio por duas vezes, que relançou o Rio na política nacional, mas depois veio Moreira (Franco, ex-governador e deputado federal pelo PMDB), que não cumpriu esse papel, o Marcelo Alencar (ex-governador), o Garotinho, que não cumpre. Ele é nacional enquanto evangélico, ele não é nacional pela relevância de suas idéias. Precisamos resgatar esse papel do Rio de janeiro, voltando ao debate nacional com políticos que busquem essa dimensão. Vivemos hoje um momento melhor porque o ciclo Garotinho está liquidado na cidade do Rio e isso abre espaço para a emergência de lideranças com vocação nacional. Quando a minha opinião sobre o candidato do PSDB repercute em São Paulo, isso revela que o Rio volta a ter peso na política nacional.