La Pasionaria ficaria deslumbrada. Desde seu imortal "no pasarán" , não se ouve nada tão vigoroso quanto os discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu esforço para mostrar o Brasil como fortaleza invulnerável à crise financeira. Em seu entusiasmo, ele denuncia a irresponsabilidade americana, festeja o castigo dos jogadores e agiotas - "quem tentou especular quebrou a cara" - e alardeia tranqüilidade. "Como a formiguinha faz, nós nos preparamos para o inverno." De passagem, tem espinafrado as elites, como de costume, e atacado quem torce para dar tudo errado no Brasil. Ele não conta quem forma essa torcida, nem explica por que as elites, em sua opinião, são contrárias à educação dos pobres.
Para "muitos", disse o presidente, o governo "deveria fazer loucuras". Mas não fez, preferindo, segundo ele, a prudência das formiguinhas. Se quisesse identificar aqueles "muitos", teria de apontar uma porção de companheiros. São eles, em geral, os críticos mais freqüentes do superávit primário, destinado ao pagamento de juros e indispensável, portanto, à contenção da dívida pública.
A austeridade fiscal não é invenção petista e continua sendo execrada no interior do governo. O câmbio flutuante, defendido pelo presidente na fala de terça-feira, também nunca foi aceito por boa parte da companheirada. Partidários do câmbio administrado estão no governo e isso não deve ser novidade para Lula. Mas ele fala como se não soubesse.
A turma governista inclui também defensores notórios de uma política antiinflacionária mais frouxa. A tese de "mais inflação com mais crescimento" continua popular no Executivo, na bancada governista e na cúpula do partido. Se Lula não tivesse um forte instinto de sobrevivência, teria cedido e mandado embora, há muito tempo, o presidente do Banco Central.
Lula exagera, no entanto, ao fazer o elogio da formiguinha, assim como exagera o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, ao mencionar o "sacrifício" do superávit primário. O superávit é modesto e tem sido alcançado sem aperto de cinto. O gasto corrente, incluída a folha de salários, nunca deixou de crescer, nos últimos cinco anos. O pagamento de juros, ainda parcial, vem sendo garantido principalmente pelo aumento da carga tributária. A carga voltou a crescer em 2006, segundo a Receita Federal. Continua a aumentar em 2007 e a tendência será mantida nos próximos anos, de acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias.
O crescente peso de impostos e contribuições tem servido, até agora, apenas para sustentar um setor público voraz e perdulário. O investimento do governo continua emperrado, não por falta de dinheiro, mas porque faltam competência gerencial e disposição política para as despesas mais produtivas.
A incapacidade gerencial está associada a uma concepção de exercício do poder. A conseqüência mais dramática e mais chocante dessa concepção vem sendo mostrada nos últimos dias, com destaque, em todos os grandes jornais. A Justiça Federal, com base em documento inválido apresentado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), liberou a pista de Congonhas para pouso de grandes aviões em pista molhada. Segundo aquele documento, os aviões só poderiam pousar com o uso de reversos. O papel, soube-se depois, não tinha valor normativo. Teriam morrido 199 pessoas, naquele pouso do Airbus da TAM, se a proibição judicial continuasse em vigor, ou se o papel da Anac valesse como regra? Essa pergunta não será descartada facilmente.
Se a Anac errou nesse episódio, não foi por causa de sua autonomia operacional, mas porque seus dirigentes eram pessoas inadequadas para a função. E eram inadequadas porque foram escolhidas com base no critério do companheirismo e do loteamento de cargos. As nomeações poderiam não ter ocorrido, se os congressistas encarregados de avaliar os indicados tivessem cumprido sua obrigação. Executivo e Legislativo erraram miseravelmente, e o erro inicial decorreu de uma noção teratológica de governo.
Essa noção não foi abandonada. O loteamento continuou e não está concluído. A crise aérea é a conseqüência mais pavorosa, até agora, dessa forma de usar o poder (o verbo governar seria impróprio, neste caso). Dessa máquina pública dependerá a capacidade brasileira de investir, produzir, competir e crescer num cenário global quase certamente menos favorável que o dos últimos cinco anos. O risco não terminará com a crise do mercado hipotecário. As formiguinhas fizeram muito menos que o necessário - talvez contaminadas pelo espírito das cigarras bandalhas.
Rolf Kuntz - Estadão
23.8.07
22.8.07
Sanha de coletivização de terras
Com a mesma sanha que se coletivizam terras em assentamentos, em áreas delimitadas para quilombolas e em territórios indígenas ( em todos eles emprega-se o modelo coletivista), agora chegou a vez de 14 reservas extrativistas que o governo está implantando em áreas de cerrado. Enquanto isso, no Pará, procuradores de Santarém e Altamira ajuizaram ação civil pedindo anulação de todos os 99 assentamentos da Reforma Agrária que o Incra criou na região entre 2005 e 2007.
São 204 mil hectares no cerrado
Localizam-se essas áreas extrativistas em 204.000 hectares em três estados e lá serão fixadas 550 famílias, reunidas em associações. Agindo na área está também a Comissão Pastoral da Terra. O processo é capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.
CIMI quer ampliar o processo
É bom lembrar que o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), no Documento Final de sua XVII Assembléia Geral terminada dia 3 de agosto passado, colocou entre seus propósitos manter e ampliar “os espaços territoriais dos povos indígenas, dos quilombolas, camponeses e aqueles destinados à proteção ambiental”.
Nessa assembléia estiveram presentes representantes de toda América Latina e movimentos sociais entre os quais a onipresente Via Campesina, a multinacional das invasões, que cada dia mais se infiltra em todos os movimentos políticos, ditos sociais. O que eles querem realmente é a destruição da propriedade privada, trocando-a por áreas coletivas sob controle de socialistas revolucionários.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Governo vai criar um fato consumado?
Se agregarmos a esse cenário a extremamente rápida e superficial implantação de áreas para quilombolas o quadro é ameaçador. Nestes últimos dias, o Governo estuda formas de acelerar repasse de recursos para quilombolas. Segundo Bárbara Lobato, na Agência Brasil, “o governo federal pretende acelerar a execução orçamentária dos recursos destinados a comunidades quilombolas ainda em 2007. Usaria para isso um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) dos Quilombolas.
Segundo a sub-secretária de Políticas para Comunidades Tradicionais da Secretária Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Givânia Silva, “o PAC dos Quilombolas foi apresentado no dia 30 de julho ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desejo do presidente da República é o de que o programa seja lançado o mais rápido possível. Agora estamos na outra fase, que é a de pactuação desses recursos no Ministério do Planejamento."
Fala-se em 3 bilhões de reais!!!
Para criar um fato consumado inconstitucional, por incrível que pareça! Quem poderá reverter o quadro, tendo em vista a enorme crise social que criaria?
www.paznocampo.org.br
São 204 mil hectares no cerrado
Localizam-se essas áreas extrativistas em 204.000 hectares em três estados e lá serão fixadas 550 famílias, reunidas em associações. Agindo na área está também a Comissão Pastoral da Terra. O processo é capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente.
CIMI quer ampliar o processo
É bom lembrar que o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), no Documento Final de sua XVII Assembléia Geral terminada dia 3 de agosto passado, colocou entre seus propósitos manter e ampliar “os espaços territoriais dos povos indígenas, dos quilombolas, camponeses e aqueles destinados à proteção ambiental”.
Nessa assembléia estiveram presentes representantes de toda América Latina e movimentos sociais entre os quais a onipresente Via Campesina, a multinacional das invasões, que cada dia mais se infiltra em todos os movimentos políticos, ditos sociais. O que eles querem realmente é a destruição da propriedade privada, trocando-a por áreas coletivas sob controle de socialistas revolucionários.
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Governo vai criar um fato consumado?
Se agregarmos a esse cenário a extremamente rápida e superficial implantação de áreas para quilombolas o quadro é ameaçador. Nestes últimos dias, o Governo estuda formas de acelerar repasse de recursos para quilombolas. Segundo Bárbara Lobato, na Agência Brasil, “o governo federal pretende acelerar a execução orçamentária dos recursos destinados a comunidades quilombolas ainda em 2007. Usaria para isso um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) dos Quilombolas.
Segundo a sub-secretária de Políticas para Comunidades Tradicionais da Secretária Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Givânia Silva, “o PAC dos Quilombolas foi apresentado no dia 30 de julho ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O desejo do presidente da República é o de que o programa seja lançado o mais rápido possível. Agora estamos na outra fase, que é a de pactuação desses recursos no Ministério do Planejamento."
Fala-se em 3 bilhões de reais!!!
Para criar um fato consumado inconstitucional, por incrível que pareça! Quem poderá reverter o quadro, tendo em vista a enorme crise social que criaria?
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A crise na saúde
Do caos que, há mais de três meses, se instalou no atendimento hospitalar de três estados do Nordeste — Alagoas, Pernambuco e Paraíba — se extrai mais uma prova convincente da falência das políticas públicas de saúde. Milhares de pacientes se acotovelam nas entradas e no chão dos hospitais, a maioria crianças e velhos, sem esperança de assistência. Na rede oficial, grande parte dos médicos pediu demissão inconformados com os salários. Os demais e funcionários se mantêm em greve em busca de aumento de vencimentos e melhores condições de trabalho.
No sistema privado, com maior intensidade na Paraíba, cirurgiões e clínicos acusam o Sistema Único de Saúde (SUS) de remunerá-los com pagamentos aviltantes. Recusam-se a prestar socorro aos enfermos enquanto a tabela do órgão, segundo eles da ordem de R$ 76 por cirurgia, não for revista. O valor estaria defasado há mais de 10 anos. Uma jovem, carente de intervenção cardiovascular emergencial, pagou com a vida o preço da omissão de socorro.
Quando a vida é o bem em jogo, é obrigação de todos colocá-la acima de quaisquer outras conveniências e interesses. Dever, explique-se, sacralizado no voto missioneiro de quem se entrega ao ofício da medicina. Abandonar enfermos ao infortúnio da dor, largados como restolho humano à mercê da morte nas portas ou nos pisos dos hospitais, antes de tudo é violar os direitos essenciais da pessoa e adotar conduta criminosa. Não importa se o motivo da barbárie seja a reivindicação de condições mais dignas de sobrevivência.
Aí está apenas uma face do problema. A outra, carregada da mesma dramaticidade, é a incúria do poder público, à frente o governo federal, em acionar diretrizes capazes de assegurar meios eficientes de saúde à população. Há 10 anos criou-se fonte tributária específica — a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) — para resolver o problema. Mas os recursos, salvo migalhas, jamais foram aplicados para cumprir os objetivos da inovação fiscal. Os desvios das receitas, antes como hoje, constituem a regra que se aplica para distribuí-las.
O drama do Nordeste não é particularidade da região. Situações de risco à população e graves carências estão presentes em todos os quadrantes do país. Mas repõe em cena questão antiga e só lembrada em momentos de crise aguda. Trata-se da legislação para disciplinar o direito de greve no âmbito da administração oficial. É iniciativa indispensável e urgente. Cumpre garantir, em caso de greve, limites à execução de serviços essenciais, como os relacionados com a saúde, previdência social, ensino, energia, água, transportes e os concedidos à iniciativa privada.
Quanto a pacientes mortos ou que vierem a morrer por falta de atendimento, é obrigação do Ministério Público indiciar os responsáveis por omissão de socorro, crime capitulado no Código Penal. Ninguém pode louvar-se no fato de estar em greve ou de ser mal pago para justificar o desleixo com a vida humana.
Editorial Correio Brasiliense
No sistema privado, com maior intensidade na Paraíba, cirurgiões e clínicos acusam o Sistema Único de Saúde (SUS) de remunerá-los com pagamentos aviltantes. Recusam-se a prestar socorro aos enfermos enquanto a tabela do órgão, segundo eles da ordem de R$ 76 por cirurgia, não for revista. O valor estaria defasado há mais de 10 anos. Uma jovem, carente de intervenção cardiovascular emergencial, pagou com a vida o preço da omissão de socorro.
Quando a vida é o bem em jogo, é obrigação de todos colocá-la acima de quaisquer outras conveniências e interesses. Dever, explique-se, sacralizado no voto missioneiro de quem se entrega ao ofício da medicina. Abandonar enfermos ao infortúnio da dor, largados como restolho humano à mercê da morte nas portas ou nos pisos dos hospitais, antes de tudo é violar os direitos essenciais da pessoa e adotar conduta criminosa. Não importa se o motivo da barbárie seja a reivindicação de condições mais dignas de sobrevivência.
Aí está apenas uma face do problema. A outra, carregada da mesma dramaticidade, é a incúria do poder público, à frente o governo federal, em acionar diretrizes capazes de assegurar meios eficientes de saúde à população. Há 10 anos criou-se fonte tributária específica — a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) — para resolver o problema. Mas os recursos, salvo migalhas, jamais foram aplicados para cumprir os objetivos da inovação fiscal. Os desvios das receitas, antes como hoje, constituem a regra que se aplica para distribuí-las.
O drama do Nordeste não é particularidade da região. Situações de risco à população e graves carências estão presentes em todos os quadrantes do país. Mas repõe em cena questão antiga e só lembrada em momentos de crise aguda. Trata-se da legislação para disciplinar o direito de greve no âmbito da administração oficial. É iniciativa indispensável e urgente. Cumpre garantir, em caso de greve, limites à execução de serviços essenciais, como os relacionados com a saúde, previdência social, ensino, energia, água, transportes e os concedidos à iniciativa privada.
Quanto a pacientes mortos ou que vierem a morrer por falta de atendimento, é obrigação do Ministério Público indiciar os responsáveis por omissão de socorro, crime capitulado no Código Penal. Ninguém pode louvar-se no fato de estar em greve ou de ser mal pago para justificar o desleixo com a vida humana.
Editorial Correio Brasiliense
21.8.07
Chinês diz ter uma Hong Kong na Amazônia
PEQUIM. Um rico empresário chinês respeitado no seu país declara aos quatro ventos ter comprado dos índios brasileiros uma parte da floresta amazônica e acaba alvo de um inquérito no Brasil. Pode parecer ficção, mas não é. Nos círculos empresariais chineses, o executivo Lu Weiguang, dono da produtora de pisos de madeira e importadora Shanghai Anxin, é respeitadíssimo como “o líder do setor de madeira” e está entre os 400 homens mais ricos do país, segundo a revista americana “Forbes”. Ele é o tipo do empreendedor chinês que deu certo, festejado pelo governo, com o qual mantém boas relações. A mídia estatal chinesa, no entanto, gosta de chamar este empresário de 39 anos de “o primeiro chinês a ser dono de parte da floresta amazônica”.
Improvável? É o que garante a Funai. Mas Lu Weiguang, em entrevista ao GLOBO por fax, afirma que comprou em 2004 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica nativa de uma reserva indígena na região pertencente a uma tribo, que ele se recusa a identificar por temer “trazer problemas para a população indígena, meus amigos”. Lu não gosta de falar sobre o assunto nem se deixa fotografar:
— O Brasil é um país muito violento, onde mais de 50 pessoas morrem por dia só em São Paulo. Não gostaria de aparecer num jornal.
Ele só concordou em responder perguntas por escrito quando confrontado com o fato de que a região de floresta amazônica nativa que ele adquiriu é grande demais para ser ignorada. Trata-se de uma área em Mato Grosso (cuja localização exata Lu não revela) maior que Cingapura, um país de 693 quilômetros quadrados. É equivalente a todo o território de Hong Kong (1.092 quilômetros quadrados), ou mais de duas vezes a ilha de Florianópolis (cerca de 450 quilômetros quadrados). Ou o equivalente, como gostam de dizer os jornais chineses, à ilha de Congming, próxima a Xangai e visível claramente em qualquer mapa da China.
— Tenho muito orgulho desse empreendimento porque a Amazônia não é apenas um tesouro dos brasileiros, mas um tesouro do mundo inteiro — afirma Lu.
Tesouro que pertence aos brasileiros, pelo menos segundo as leis brasileiras. Mas Lu teria conseguido contornar possíveis impedimentos legais com uma estratégia no mínimo controversa:
— Ele e a mulher, Chen Jie, tiveram um filho no Brasil. O filho tem cidadania brasileira e as terras foram compradas em nome dele — diz a vice-presidente da Anxin, Chen Hong.
A trajetória de Lu como empresário começou em 1994, quando ele deixou um cargo público no Escritório de Administração de Pesca de Wenzhou, na província de Zhejiang. Com um empréstimo de 300 mil yuans (US$ 37,5 mil) do pai, fundou a Anxin, que começou vendendo pisos de madeira e hoje é a líder do setor na China e a maior importadora de madeira bruta do país.
Lu diz que tomou conhecimento da qualidade da madeira brasileira em 1996, ao conversar com empresas de Taiwan e Hong Kong que negociavam madeira entre Brasil e China. Naquele ano, uma decisão do governo chinês foi fundamental para a idéia do empresário de comprar terras no Brasil:
— Em 1996, o Conselho de Estado da China proibiu a exploração comercial das florestas nativas, por isso eu decidi comprar um pedaço da floresta brasileira. Quando estive no Brasil, em 1997, me apaixonei pela Amazônia e pela cultura indígena, pela qual tenho muito respeito — conta.
Segundo Lu, não foi fácil convencer os índios brasileiros. Em 1997, quando ele começou a abordagem, os índios se recusaram a negociar. Mas a barreira foi vencida, conta, quando a tribo passou a acreditar que ele tinha as melhores intenções para a floresta:
— Para ganhar a confiança dos índios, forneci remédios, construí escolas e até investi em infra-estrutura na região. Para monitorar e ajudar os índios, aluguei um satélite americano do sistema GPS. Os índios perceberam que minha intenção era boa.
Metade da madeira usada por Lu vem do Brasil
Em 2004, finalmente, Lu teria negociado seu latifúndio, em duas etapas: primeiro, teria comprado dos índios uma área de 150 quilômetros quadrados e, posteriormente, outra de 850 quilômetros quadrados. O valor pago ele não revela. Diz apenas que o dinheiro foi depositado num fundo administrado por uma instituição financeira do Brasil em nome dos índios.
E o que ele pretende fazer com o terreno? A idéia, segundo Chen Hong, é exportar a madeira do Brasil para a China, onde será transformada em pisos e até móveis para os mercados chinês, europeu e americano. Parte vai virar piso de madeira na fábrica que a empresa tem em Curitiba.
Lu garante que o projeto não vai danificar a flora amazônica. A área no Brasil, diz ele, está sendo dividida em 25 pedaços e cada um deles será explorado durante um ano e, depois, reflorestado. Assim, em 25 anos, a primeira área explorada já estará pronta para novos cortes.
A preocupação com a auto-suficiência da produção de madeira parece ser mesmo uma constante na empresa de Lu. A Anxin é, de fato, uma das empresas chinesas com mais certificação de organismos internacionais por manejo responsável das florestas chinesas — quando ela ainda podia fazê-lo na China, claro. Mark Hurley, da Global Forest & Trade Network, braço da ONG WWF que cuida do manejo responsável de recursos naturais, confirma que a Anxin faz parte do grupo de empresas monitoradas pela instituição:
— Eles fazem um trabalho muito responsável na China — diz Hurley. — A empresa busca usar produtos certificados e evita processar madeiras de árvores derrubadas ilegalmente. Todos os anos, auditamos a empresa com relação às práticas de exploração da madeira.
Lu afirma que 50 quilômetros quadrados da área adquirida foram devolvidos aos índios, sem explicar a razão.
Nada menos que 50% da madeira importada pela Anxin hoje vem do Brasil, onde ela trabalha com mais de cem madeireiras. Lu garante que nenhuma opera ilegalmente. A empresa tem hoje 1.370 empregados no Brasil e na China, e produz anualmente três milhões de metros quadrados de piso de madeira e 36 mil metros cúbicos de madeira bruta nos dois países. Seu faturamento anual ultrapassa US$ 100 milhões.
A Shanghai Anxin é membro do Conselho Empresarial Brasil-China, pelo lado chinês, e o site da empresa traz uma prosaica imagem de uma índia brasileira encostada em uma tora de madeira. Ano passado, o empresário diz que trouxe “vários índios brasileiros para realizar um show pela China e, assim, ter a chance de mostrar sua rica cultura”.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155386.asp
Rio, 06 de agosto de 2006
A notícia dos negócios na floresta
Para braço direito, um narciso que fala mas não faz
Ana Paula de Carvalho
Especial para O GLOBO
CURITIBA. No Brasil, Lu Weiguang mantém um apartamento em bairro nobre de Curitiba, para onde trouxe a mulher, Chen Jie, grávida de três meses. Com o nascimento do filho brasileiro, Victor Lu, em abril de 2003, o empresário chinês garantiu visto permanente no Brasil.
— Eles têm apartamento aqui, mas devem estar na China ou nos Estados Unidos — informa o porteiro do endereço residencial da família.
O braço-direito do empresário chinês no Brasil, Luiz Renato Durski Junior, conta que, com o filho brasileiro, Lu obteve benefícios do governo chinês e empréstimos em bancos. Íntimo de Lu, Durski diz que sua própria mãe foi quem deu o nome Victor ao filho do empresário (de acordo com as tradições chinesas, a avó dá nome aos netos). Durski mantém em Curitiba a empresa Marine Box — uma trading que negocia madeiras, fundada em 1999 —, que ostenta no escritório a logomarca da Anxin Flooring Co. A parede da sala de reuniões é enfeitada por duas molduras com a figura de Lu ao lado do presidente Lula e de Rubens Ricupero.
— A Anxin é o principal cliente na China há seis anos, mas ele (Lu Weiguang) não é sócio no Brasil — garante o dono da Marine Box.
Uma das empresas coligadas da Marine Box em Várzea Grande, no Mato Grosso, usa a sigla AXN, mas o empresário diz que é coincidência qualquer semelhança com a Anxin:
— Como trabalhamos muito com os chineses, o “A” quer dizer seriedade, o “X”, eficiência e o “N”, honestidade no ideograma chinês — afirma.
A Marine destina hoje ao mercado chinês 60% da produção de madeira produzida no Brasil, o que representou 1.200 contêineres em 2005. Além de Curitiba, a empresa mantém escritórios de apoio pelo Brasil, especialmente em pólos madeireiros. O empresário paranaense conta que viaja para a China de cinco a seis vezes por ano e negocia com Lu Weiguang há seis anos.
— Ele esteve aqui na semana passada e o plano dele agora é montar uma agência de viagens e um hotel no Rio de Janeiro, uma pousada no Pantanal e outra em Manaus para trazer chineses.
Mas Durski minimiza as investidas do chinês no Brasil:
— Ele é o cara mais marqueteiro do mundo, diferente do que é a realidade. Agora ele está com os planos dos hotéis, mas depois muda de idéia.
Durski desmente Lu no que diz respeito à compra de terras de índios brasileiros:
— Na época, ele disse para comprar floresta, mas não comprou nem um hectare.
E vai além:
— Ele disse que índio dava “ibope” na China e propôs procurar uma tribo para a Anxin ajudar. Achamos índios em Jaciara, no Mato Grosso. Ele levou presentes, comida, R$ 5 mil e voltou para a China com fotos. Fez o maior marketing, apontando como sendo os índios da sua floresta. Depois, eu fui junto: os índios ganharam do empresário R$ 2 mil por dez meses e só.
Durski contabiliza como resultado dessa ação de marketing a associação com investidores americanos, entre eles a empresa Carlyle:
— Ele é narciso e um cara que consegue muito. Não chega a ser mentiroso. Ele simplesmente começa a fazer um negócio, divulga, mas depois não faz.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155383.asp
Rio, 06 de agosto de 2006
Polêmica com madeireiras da Malásia
O interesse de asiáticos pela Amazônia não é novo. Acusadas por ambientalistas de devastarem enormes florestas em seu país, madeireiras da Malásia começaram a operar na região no fim da década de 90. Pelo menos três grupos daquele país atuaram na área florestal nos últimos anos, causando polêmica: a Samling, com o controle da Amcol, no Pará; a Rimbunan Hijau, com a holding Verde Vivo, para administrar as madeireiras Selvaplac e Maginco, também no Pará; e a WTK, por meio da Amaplac, no Amazonas.
Na maioria dos casos, os grupos adquiriram a baixo preço serrarias quase falidas para entrar no país. Depois, a idéia era comprar terras para extrair madeira. Reportagem do GLOBO de março de 1998 mostrou que o Ibama, surpreendido num primeiro momento, começou a agir quando ONGs ambientais denunciaram a questão.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155385.asp
Rio, 06 de agosto de 2006
Funai pede à PF abertura de inquérito
Eliane Oliveira
BRASÍLIA. A notícia de que o chinês Lu Weiguang teria comprado mil quilômetros quadrados de terras indígenas no Brasil e de que se apresentaria como defensor do meio ambiente em eventos internacionais causou perplexidade ao governo brasileiro. Preocupada, a Fundação Nacional do Índio (Funai) pediu à Polícia Federal a instauração de um inquérito para apurar o caso, uma vez que o próprio chinês confirma a compra ao GLOBO.
— As terras indígenas são inalienáveis e a Constituição proíbe sua exploração. Isso é crime. Além da Polícia Federal, estamos acionando as Funais nos estados, para tentar conseguir mais informações e, se for o caso, tomar as providências cabíveis — disse o procurador-geral da Funai, Luiz Fernando Villares e Silva.
Segundo ele, o mais provável é que Lu esteja apenas contando vantagem em seu país. Villares comentou que há casos semelhantes envolvendo estrangeiros que afirmaram ter comprado terras públicas ocupadas por índios brasileiros.
— Há também estrangeiros que são enganados, compram terras de grileiros ou de fazendeiros que invadiram reservas indígenas e, mais tarde, descobrem que foram enganados. Mas não creio que este seja o caso do chinês — afirmou.
Ele explicou que a proibição de venda e exploração comercial de terras indígenas está na Constituição e no Estatuto do Índio, de 1973.
— Ele (o chinês) pode estar usando uma estratégia de marketing. Mas vamos averiguar, pois, se for verdade, é um crime — disse Villares, lembrando que a legislação prevê, entre outras punições, multa e prisão de dois a quatro anos.
O assunto também preocupa o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Ao saber da história, o presidente do SFB, Tasso Azevedo, buscou se informar com madeireiros da região:
— Ninguém conhece esse empresário chinês. O ideal é sabermos a localização exata da operação, pois não temos qualquer referência a respeito.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155387.asp
Improvável? É o que garante a Funai. Mas Lu Weiguang, em entrevista ao GLOBO por fax, afirma que comprou em 2004 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica nativa de uma reserva indígena na região pertencente a uma tribo, que ele se recusa a identificar por temer “trazer problemas para a população indígena, meus amigos”. Lu não gosta de falar sobre o assunto nem se deixa fotografar:
— O Brasil é um país muito violento, onde mais de 50 pessoas morrem por dia só em São Paulo. Não gostaria de aparecer num jornal.
Ele só concordou em responder perguntas por escrito quando confrontado com o fato de que a região de floresta amazônica nativa que ele adquiriu é grande demais para ser ignorada. Trata-se de uma área em Mato Grosso (cuja localização exata Lu não revela) maior que Cingapura, um país de 693 quilômetros quadrados. É equivalente a todo o território de Hong Kong (1.092 quilômetros quadrados), ou mais de duas vezes a ilha de Florianópolis (cerca de 450 quilômetros quadrados). Ou o equivalente, como gostam de dizer os jornais chineses, à ilha de Congming, próxima a Xangai e visível claramente em qualquer mapa da China.
— Tenho muito orgulho desse empreendimento porque a Amazônia não é apenas um tesouro dos brasileiros, mas um tesouro do mundo inteiro — afirma Lu.
Tesouro que pertence aos brasileiros, pelo menos segundo as leis brasileiras. Mas Lu teria conseguido contornar possíveis impedimentos legais com uma estratégia no mínimo controversa:
— Ele e a mulher, Chen Jie, tiveram um filho no Brasil. O filho tem cidadania brasileira e as terras foram compradas em nome dele — diz a vice-presidente da Anxin, Chen Hong.
A trajetória de Lu como empresário começou em 1994, quando ele deixou um cargo público no Escritório de Administração de Pesca de Wenzhou, na província de Zhejiang. Com um empréstimo de 300 mil yuans (US$ 37,5 mil) do pai, fundou a Anxin, que começou vendendo pisos de madeira e hoje é a líder do setor na China e a maior importadora de madeira bruta do país.
Lu diz que tomou conhecimento da qualidade da madeira brasileira em 1996, ao conversar com empresas de Taiwan e Hong Kong que negociavam madeira entre Brasil e China. Naquele ano, uma decisão do governo chinês foi fundamental para a idéia do empresário de comprar terras no Brasil:
— Em 1996, o Conselho de Estado da China proibiu a exploração comercial das florestas nativas, por isso eu decidi comprar um pedaço da floresta brasileira. Quando estive no Brasil, em 1997, me apaixonei pela Amazônia e pela cultura indígena, pela qual tenho muito respeito — conta.
Segundo Lu, não foi fácil convencer os índios brasileiros. Em 1997, quando ele começou a abordagem, os índios se recusaram a negociar. Mas a barreira foi vencida, conta, quando a tribo passou a acreditar que ele tinha as melhores intenções para a floresta:
— Para ganhar a confiança dos índios, forneci remédios, construí escolas e até investi em infra-estrutura na região. Para monitorar e ajudar os índios, aluguei um satélite americano do sistema GPS. Os índios perceberam que minha intenção era boa.
Metade da madeira usada por Lu vem do Brasil
Em 2004, finalmente, Lu teria negociado seu latifúndio, em duas etapas: primeiro, teria comprado dos índios uma área de 150 quilômetros quadrados e, posteriormente, outra de 850 quilômetros quadrados. O valor pago ele não revela. Diz apenas que o dinheiro foi depositado num fundo administrado por uma instituição financeira do Brasil em nome dos índios.
E o que ele pretende fazer com o terreno? A idéia, segundo Chen Hong, é exportar a madeira do Brasil para a China, onde será transformada em pisos e até móveis para os mercados chinês, europeu e americano. Parte vai virar piso de madeira na fábrica que a empresa tem em Curitiba.
Lu garante que o projeto não vai danificar a flora amazônica. A área no Brasil, diz ele, está sendo dividida em 25 pedaços e cada um deles será explorado durante um ano e, depois, reflorestado. Assim, em 25 anos, a primeira área explorada já estará pronta para novos cortes.
A preocupação com a auto-suficiência da produção de madeira parece ser mesmo uma constante na empresa de Lu. A Anxin é, de fato, uma das empresas chinesas com mais certificação de organismos internacionais por manejo responsável das florestas chinesas — quando ela ainda podia fazê-lo na China, claro. Mark Hurley, da Global Forest & Trade Network, braço da ONG WWF que cuida do manejo responsável de recursos naturais, confirma que a Anxin faz parte do grupo de empresas monitoradas pela instituição:
— Eles fazem um trabalho muito responsável na China — diz Hurley. — A empresa busca usar produtos certificados e evita processar madeiras de árvores derrubadas ilegalmente. Todos os anos, auditamos a empresa com relação às práticas de exploração da madeira.
Lu afirma que 50 quilômetros quadrados da área adquirida foram devolvidos aos índios, sem explicar a razão.
Nada menos que 50% da madeira importada pela Anxin hoje vem do Brasil, onde ela trabalha com mais de cem madeireiras. Lu garante que nenhuma opera ilegalmente. A empresa tem hoje 1.370 empregados no Brasil e na China, e produz anualmente três milhões de metros quadrados de piso de madeira e 36 mil metros cúbicos de madeira bruta nos dois países. Seu faturamento anual ultrapassa US$ 100 milhões.
A Shanghai Anxin é membro do Conselho Empresarial Brasil-China, pelo lado chinês, e o site da empresa traz uma prosaica imagem de uma índia brasileira encostada em uma tora de madeira. Ano passado, o empresário diz que trouxe “vários índios brasileiros para realizar um show pela China e, assim, ter a chance de mostrar sua rica cultura”.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155386.asp
Rio, 06 de agosto de 2006
A notícia dos negócios na floresta
Para braço direito, um narciso que fala mas não faz
Ana Paula de Carvalho
Especial para O GLOBO
CURITIBA. No Brasil, Lu Weiguang mantém um apartamento em bairro nobre de Curitiba, para onde trouxe a mulher, Chen Jie, grávida de três meses. Com o nascimento do filho brasileiro, Victor Lu, em abril de 2003, o empresário chinês garantiu visto permanente no Brasil.
— Eles têm apartamento aqui, mas devem estar na China ou nos Estados Unidos — informa o porteiro do endereço residencial da família.
O braço-direito do empresário chinês no Brasil, Luiz Renato Durski Junior, conta que, com o filho brasileiro, Lu obteve benefícios do governo chinês e empréstimos em bancos. Íntimo de Lu, Durski diz que sua própria mãe foi quem deu o nome Victor ao filho do empresário (de acordo com as tradições chinesas, a avó dá nome aos netos). Durski mantém em Curitiba a empresa Marine Box — uma trading que negocia madeiras, fundada em 1999 —, que ostenta no escritório a logomarca da Anxin Flooring Co. A parede da sala de reuniões é enfeitada por duas molduras com a figura de Lu ao lado do presidente Lula e de Rubens Ricupero.
— A Anxin é o principal cliente na China há seis anos, mas ele (Lu Weiguang) não é sócio no Brasil — garante o dono da Marine Box.
Uma das empresas coligadas da Marine Box em Várzea Grande, no Mato Grosso, usa a sigla AXN, mas o empresário diz que é coincidência qualquer semelhança com a Anxin:
— Como trabalhamos muito com os chineses, o “A” quer dizer seriedade, o “X”, eficiência e o “N”, honestidade no ideograma chinês — afirma.
A Marine destina hoje ao mercado chinês 60% da produção de madeira produzida no Brasil, o que representou 1.200 contêineres em 2005. Além de Curitiba, a empresa mantém escritórios de apoio pelo Brasil, especialmente em pólos madeireiros. O empresário paranaense conta que viaja para a China de cinco a seis vezes por ano e negocia com Lu Weiguang há seis anos.
— Ele esteve aqui na semana passada e o plano dele agora é montar uma agência de viagens e um hotel no Rio de Janeiro, uma pousada no Pantanal e outra em Manaus para trazer chineses.
Mas Durski minimiza as investidas do chinês no Brasil:
— Ele é o cara mais marqueteiro do mundo, diferente do que é a realidade. Agora ele está com os planos dos hotéis, mas depois muda de idéia.
Durski desmente Lu no que diz respeito à compra de terras de índios brasileiros:
— Na época, ele disse para comprar floresta, mas não comprou nem um hectare.
E vai além:
— Ele disse que índio dava “ibope” na China e propôs procurar uma tribo para a Anxin ajudar. Achamos índios em Jaciara, no Mato Grosso. Ele levou presentes, comida, R$ 5 mil e voltou para a China com fotos. Fez o maior marketing, apontando como sendo os índios da sua floresta. Depois, eu fui junto: os índios ganharam do empresário R$ 2 mil por dez meses e só.
Durski contabiliza como resultado dessa ação de marketing a associação com investidores americanos, entre eles a empresa Carlyle:
— Ele é narciso e um cara que consegue muito. Não chega a ser mentiroso. Ele simplesmente começa a fazer um negócio, divulga, mas depois não faz.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155383.asp
Rio, 06 de agosto de 2006
Polêmica com madeireiras da Malásia
O interesse de asiáticos pela Amazônia não é novo. Acusadas por ambientalistas de devastarem enormes florestas em seu país, madeireiras da Malásia começaram a operar na região no fim da década de 90. Pelo menos três grupos daquele país atuaram na área florestal nos últimos anos, causando polêmica: a Samling, com o controle da Amcol, no Pará; a Rimbunan Hijau, com a holding Verde Vivo, para administrar as madeireiras Selvaplac e Maginco, também no Pará; e a WTK, por meio da Amaplac, no Amazonas.
Na maioria dos casos, os grupos adquiriram a baixo preço serrarias quase falidas para entrar no país. Depois, a idéia era comprar terras para extrair madeira. Reportagem do GLOBO de março de 1998 mostrou que o Ibama, surpreendido num primeiro momento, começou a agir quando ONGs ambientais denunciaram a questão.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155385.asp
Rio, 06 de agosto de 2006
Funai pede à PF abertura de inquérito
Eliane Oliveira
BRASÍLIA. A notícia de que o chinês Lu Weiguang teria comprado mil quilômetros quadrados de terras indígenas no Brasil e de que se apresentaria como defensor do meio ambiente em eventos internacionais causou perplexidade ao governo brasileiro. Preocupada, a Fundação Nacional do Índio (Funai) pediu à Polícia Federal a instauração de um inquérito para apurar o caso, uma vez que o próprio chinês confirma a compra ao GLOBO.
— As terras indígenas são inalienáveis e a Constituição proíbe sua exploração. Isso é crime. Além da Polícia Federal, estamos acionando as Funais nos estados, para tentar conseguir mais informações e, se for o caso, tomar as providências cabíveis — disse o procurador-geral da Funai, Luiz Fernando Villares e Silva.
Segundo ele, o mais provável é que Lu esteja apenas contando vantagem em seu país. Villares comentou que há casos semelhantes envolvendo estrangeiros que afirmaram ter comprado terras públicas ocupadas por índios brasileiros.
— Há também estrangeiros que são enganados, compram terras de grileiros ou de fazendeiros que invadiram reservas indígenas e, mais tarde, descobrem que foram enganados. Mas não creio que este seja o caso do chinês — afirmou.
Ele explicou que a proibição de venda e exploração comercial de terras indígenas está na Constituição e no Estatuto do Índio, de 1973.
— Ele (o chinês) pode estar usando uma estratégia de marketing. Mas vamos averiguar, pois, se for verdade, é um crime — disse Villares, lembrando que a legislação prevê, entre outras punições, multa e prisão de dois a quatro anos.
O assunto também preocupa o Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Ao saber da história, o presidente do SFB, Tasso Azevedo, buscou se informar com madeireiros da região:
— Ninguém conhece esse empresário chinês. O ideal é sabermos a localização exata da operação, pois não temos qualquer referência a respeito.
http://oglobo.globo.com/jornal/economia/285155387.asp
Brasil "vende a Amazônia"
Brasil "vende a Amazônia" sob a capa de projetos de desenvolvimento
O governo brasileiro foi acusado de vender grandes porções da floresta tropical amazônica --entre as quais o mais velho parque nacional de preservação ecológica-- a empresas madeireiras inescrupulosas, sob o disfarce de um plano ineficiente de desenvolvimento sustentável.
Luiz Inácio Lula da Silva chegou à presidência em 2003 com a promessa de assentar 400 mil famílias de sem terras em seu mandato de quatro anos, uma meta pouco realista que ele é acusado de só ter conseguido realizar por meio de acordos de último minuto antes de sua reeleição, no ano passado.
Uma investigação de oito meses sobre a trapaça de terras, conduzida pelo Greenpeace, revelou que a agência brasileira de reforma agrária, Incra, estabeleceu grandes assentamentos em áreas florestais, em lugar de posicioná-los em áreas já desmatadas, e os povoou com famílias urbanas que imediatamente venderam os direitos de exploração madeireira às grandes empresas do setor.
"Em lugar de ajudar, os esforços oficiais estão na verdade criando mecanismos que garantem às madeireiras um suprimento de matéria-prima. Isso abre as portas a destruição ainda maior da floresta e a alterações climáticas mais intensas", disse André Muggiati, do Greenpeace.
Em 2006, o Incra criou 97 "projetos de desenvolvimento sustentável" (PDS) em Santarém, na região oeste do Pará, um dos Estados da Amazônia, em áreas de floresta primária muito procuradas pelas madeireiras. Os assentamentos ocupam uma área de 2,2 milhões de hectares, e 33,7 mil famílias foram designadas para ocupá-los.
"Todos esses assentamentos foram criados nos três últimos meses do ano passado", diz um funcionário do Incra. "Era o final do primeiro mandato de Lula, de modo que ele tinha de realizar as metas. Foram os políticos que se beneficiaram do sistema PDS".
Em outubro de 2006, Lula conseguiu a reeleição.
Além dos políticos, o esquema beneficia os colonos, que recebem terras e vendem os direitos de exploração florestal a grandes madeireiras, as quais ganham acesso a recursos preciosos, e o Incra, que estás perto de atingir as metas estipuladas pelo governo.
Ainda na semana passada o governo brasileiro estava se vangloriando de uma queda no nível de desflorestamento pelo terceiro ano consecutivo, mas agora abriu as portas a desflorestamento ainda mais intenso, com as conseqüências adversas que isso acarreta sobre as alterações no clima mundial. O Brasil é o quarto maior emissor mundial dos gases responsáveis pelo efeito-estufa. Uma grande proporção das emissões deriva do desflorestamento da Amazônia, e 15,5% do desflorestamento total é gerado pela criação de assentamentos.
O Incra está criando assentamentos com tamanha rapidez que não consegue fornecer a infra-estrutura necessária aos colonos. Por isso, a agência improvisa encorajando as associações de moradores a fecharem acordos com madeireiras, que constroem estradas e saneamento em troca dos direitos de exploração florestal nessas áreas.
O conceito do PDS foi concebido em 1999 por Raimundo Lima, diretor do Incra, como forma de sustentar as famílias que seguem um modo de vida tradicional, de forma a permitir que vivessem da terra. Cada família deveria receber alojamento e um certo montante de crédito financeiro que lhes desse a oportunidade de começar a plantar; elas teriam permissão de cultivar 20% das terras que lhes seriam destinadas, e explorar a madeira dos 80% restantes, de acordo com um plano rígido de gestão de recursos florestais. Agora, esses planos são ditados pelas madeireiras, o que significa que elas podem violar as normas de desenvolvimento sustentável e pagar valor bem inferior ao de mercado pela madeira extraída.
Felipe Fritz Braga, procurador da Justiça Federal brasileira em Santarém, diz que a forma original do PDS como assentamento para famílias que seguiam o modo de vida tradicional da região foi abandonado, e que as madeireiras bancaram as eleições do ano passado para salvaguardar o programa.
"Dez anos atrás, foram criados diversos PDS que deveriam servir a preservar comunidades tradicionais. Com o passar do tempo, eles sofreram uma metamorfose jurídica e agora estão sendo usados na Amazônia a fim de assentar pessoas que não formam comunidades tradicionais", explica Braga. "A fonte de verbas de campanha para o governo, nas eleições, foram as madeireiras". No escritório do Incra em Santarém, que quadruplicou de tamanho em 2005, antecipando a atual onda colonizatória, os funcionários estão insatisfeitos com os métodos que foram encorajados a seguir a fim de obter aprovação a tantos assentamos em prazo tão curto. Dois informantes anônimos alegam que foram forçados a falsificar as datas de importantes documentos, que viram em computadores da instituição mapas que um funcionário do Incra desenhou para um grileiro de terras e que a pesquisa para a criação de um PDS foi realizada com o uso do avião de um próspero empresário madeireiro.
Eles também alegam que 11 assentamentos foram criados no Parque Nacional da Amazônia, onde não há quaisquer famílias assentadas, a pedido de um poderoso fazendeiro, e estão preocupados com a possibilidade de que a situação em torno de Santarém sirva como indicação de maior devastação na Amazônia. "Acreditamos que o que está acontecendo seja um teste de laboratório e que o modelo venha a ser reproduzido posteriormente no restante da Amazônia", afirmaram. O Incra não discute oficialmente um assentamento chamado Renascer, criado no território disputado entre duas madeireiras, a Alecrim e a José Pires. O assentamento deveria abrigar 200 famílias, mas em lugar disso os direitos sobre a terra estão sendo disputados pelos presidentes de duas associações rivais de moradores, cada uma das quais apoiada por uma madeireira. Comandar esse tipo de associação é uma atividade em crescimento entre os empresários locais. Sancler Oliveira está negociando os direitos de exploração florestal em nome do seu quinto grupo de famílias.
Um assentamento chamado Santa Clara foi criado em outra área já controlada por madeireiras. Francisco das Chagas Dias recebeu terras no local em companhia de 26 outras famílias de colonos depois que foram ordenados pelo Incra a sair de outro assentamento por se recusaram a acatar as ordens da madeireira que dirigia a área. Eles recusaram a transferência para Santa Clara, e estão de novo à espera de assentamento em alguma outra região.
Em Igarapé do Anta, o PDS modelo do Incra, a maioria dos residentes deixou suas casas novas para trás e encontrou empregos na cidade. "Eles as usam como casas de fim de semana", disse Antonio Rodriguez dos Santos, ex-presidente da associação de moradores de Igarapé do Anta.
A irmã Dorothy Stang, uma veemente militante ecológica, foi assassinada em 2005 quando estava defendendo dois desses assentamentos, em Anapu, Pará, uma região notória por sua falta de supervisão governamental. Devido ao apoio da irmã Dorothy, o conceito dos PDS se tornou, indevidamente, sinônimo de boas práticas ambientais.
A Amazônia há muito está sob ameaça de grandes empresas; as madeireiras desbastam a floresta densa antes que os fazendeiros se instalem nas terras para criar gado, criar imensas plantações de sojas, e exaurir o solo. Passada quase uma década de sua concepção institucional, o sistema PDS se transformou em um catalisador que permite à indústria madeireira abocanhar parcela ainda maior dos recursos naturais da Amazônia.
Independent, em Santarém
O governo brasileiro foi acusado de vender grandes porções da floresta tropical amazônica --entre as quais o mais velho parque nacional de preservação ecológica-- a empresas madeireiras inescrupulosas, sob o disfarce de um plano ineficiente de desenvolvimento sustentável.
Luiz Inácio Lula da Silva chegou à presidência em 2003 com a promessa de assentar 400 mil famílias de sem terras em seu mandato de quatro anos, uma meta pouco realista que ele é acusado de só ter conseguido realizar por meio de acordos de último minuto antes de sua reeleição, no ano passado.
Uma investigação de oito meses sobre a trapaça de terras, conduzida pelo Greenpeace, revelou que a agência brasileira de reforma agrária, Incra, estabeleceu grandes assentamentos em áreas florestais, em lugar de posicioná-los em áreas já desmatadas, e os povoou com famílias urbanas que imediatamente venderam os direitos de exploração madeireira às grandes empresas do setor.
"Em lugar de ajudar, os esforços oficiais estão na verdade criando mecanismos que garantem às madeireiras um suprimento de matéria-prima. Isso abre as portas a destruição ainda maior da floresta e a alterações climáticas mais intensas", disse André Muggiati, do Greenpeace.
Em 2006, o Incra criou 97 "projetos de desenvolvimento sustentável" (PDS) em Santarém, na região oeste do Pará, um dos Estados da Amazônia, em áreas de floresta primária muito procuradas pelas madeireiras. Os assentamentos ocupam uma área de 2,2 milhões de hectares, e 33,7 mil famílias foram designadas para ocupá-los.
"Todos esses assentamentos foram criados nos três últimos meses do ano passado", diz um funcionário do Incra. "Era o final do primeiro mandato de Lula, de modo que ele tinha de realizar as metas. Foram os políticos que se beneficiaram do sistema PDS".
Em outubro de 2006, Lula conseguiu a reeleição.
Além dos políticos, o esquema beneficia os colonos, que recebem terras e vendem os direitos de exploração florestal a grandes madeireiras, as quais ganham acesso a recursos preciosos, e o Incra, que estás perto de atingir as metas estipuladas pelo governo.
Ainda na semana passada o governo brasileiro estava se vangloriando de uma queda no nível de desflorestamento pelo terceiro ano consecutivo, mas agora abriu as portas a desflorestamento ainda mais intenso, com as conseqüências adversas que isso acarreta sobre as alterações no clima mundial. O Brasil é o quarto maior emissor mundial dos gases responsáveis pelo efeito-estufa. Uma grande proporção das emissões deriva do desflorestamento da Amazônia, e 15,5% do desflorestamento total é gerado pela criação de assentamentos.
O Incra está criando assentamentos com tamanha rapidez que não consegue fornecer a infra-estrutura necessária aos colonos. Por isso, a agência improvisa encorajando as associações de moradores a fecharem acordos com madeireiras, que constroem estradas e saneamento em troca dos direitos de exploração florestal nessas áreas.
O conceito do PDS foi concebido em 1999 por Raimundo Lima, diretor do Incra, como forma de sustentar as famílias que seguem um modo de vida tradicional, de forma a permitir que vivessem da terra. Cada família deveria receber alojamento e um certo montante de crédito financeiro que lhes desse a oportunidade de começar a plantar; elas teriam permissão de cultivar 20% das terras que lhes seriam destinadas, e explorar a madeira dos 80% restantes, de acordo com um plano rígido de gestão de recursos florestais. Agora, esses planos são ditados pelas madeireiras, o que significa que elas podem violar as normas de desenvolvimento sustentável e pagar valor bem inferior ao de mercado pela madeira extraída.
Felipe Fritz Braga, procurador da Justiça Federal brasileira em Santarém, diz que a forma original do PDS como assentamento para famílias que seguiam o modo de vida tradicional da região foi abandonado, e que as madeireiras bancaram as eleições do ano passado para salvaguardar o programa.
"Dez anos atrás, foram criados diversos PDS que deveriam servir a preservar comunidades tradicionais. Com o passar do tempo, eles sofreram uma metamorfose jurídica e agora estão sendo usados na Amazônia a fim de assentar pessoas que não formam comunidades tradicionais", explica Braga. "A fonte de verbas de campanha para o governo, nas eleições, foram as madeireiras". No escritório do Incra em Santarém, que quadruplicou de tamanho em 2005, antecipando a atual onda colonizatória, os funcionários estão insatisfeitos com os métodos que foram encorajados a seguir a fim de obter aprovação a tantos assentamos em prazo tão curto. Dois informantes anônimos alegam que foram forçados a falsificar as datas de importantes documentos, que viram em computadores da instituição mapas que um funcionário do Incra desenhou para um grileiro de terras e que a pesquisa para a criação de um PDS foi realizada com o uso do avião de um próspero empresário madeireiro.
Eles também alegam que 11 assentamentos foram criados no Parque Nacional da Amazônia, onde não há quaisquer famílias assentadas, a pedido de um poderoso fazendeiro, e estão preocupados com a possibilidade de que a situação em torno de Santarém sirva como indicação de maior devastação na Amazônia. "Acreditamos que o que está acontecendo seja um teste de laboratório e que o modelo venha a ser reproduzido posteriormente no restante da Amazônia", afirmaram. O Incra não discute oficialmente um assentamento chamado Renascer, criado no território disputado entre duas madeireiras, a Alecrim e a José Pires. O assentamento deveria abrigar 200 famílias, mas em lugar disso os direitos sobre a terra estão sendo disputados pelos presidentes de duas associações rivais de moradores, cada uma das quais apoiada por uma madeireira. Comandar esse tipo de associação é uma atividade em crescimento entre os empresários locais. Sancler Oliveira está negociando os direitos de exploração florestal em nome do seu quinto grupo de famílias.
Um assentamento chamado Santa Clara foi criado em outra área já controlada por madeireiras. Francisco das Chagas Dias recebeu terras no local em companhia de 26 outras famílias de colonos depois que foram ordenados pelo Incra a sair de outro assentamento por se recusaram a acatar as ordens da madeireira que dirigia a área. Eles recusaram a transferência para Santa Clara, e estão de novo à espera de assentamento em alguma outra região.
Em Igarapé do Anta, o PDS modelo do Incra, a maioria dos residentes deixou suas casas novas para trás e encontrou empregos na cidade. "Eles as usam como casas de fim de semana", disse Antonio Rodriguez dos Santos, ex-presidente da associação de moradores de Igarapé do Anta.
A irmã Dorothy Stang, uma veemente militante ecológica, foi assassinada em 2005 quando estava defendendo dois desses assentamentos, em Anapu, Pará, uma região notória por sua falta de supervisão governamental. Devido ao apoio da irmã Dorothy, o conceito dos PDS se tornou, indevidamente, sinônimo de boas práticas ambientais.
A Amazônia há muito está sob ameaça de grandes empresas; as madeireiras desbastam a floresta densa antes que os fazendeiros se instalem nas terras para criar gado, criar imensas plantações de sojas, e exaurir o solo. Passada quase uma década de sua concepção institucional, o sistema PDS se transformou em um catalisador que permite à indústria madeireira abocanhar parcela ainda maior dos recursos naturais da Amazônia.
Independent, em Santarém
Juíza foi enganada pela Anac
Fui enganada sobre Congonhas, diz juíza
Cecília Marcondes, do TRF, disse que recebeu de Denise Abreu, diretora da Anac, documento com falsas medidas de segurança
Documento foi usado para convencer a Justiça a liberar as operações no aeroporto, que estavam restritas para alguns tipos de aviões
A juíza do TRF (Tribunal Regional Federal) Cecília Marcondes disse ontem que recebeu das mãos da própria diretora da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) Denise Abreu o documento com as falsas medidas de segurança para pousos de aviões em pista molhada no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
O documento foi utilizado para convencer a Justiça a liberar, no início do ano, as operações no aeroporto, que estavam restritas para alguns tipos de aviões. O problema é que a tal norma em questão, a IS-RBHA 121-189, não estava em vigor.
A "norma" que constava do recurso ao TRF (3ª Região) vedava às empresas o uso de aviões com um reverso inoperante em pistas molhadas.
Se estivesse sendo aplicada, o acidente com o vôo 3054 da TAM (199 mortes) teria sido evitado -naquele dia, a aeronave estava com o reversor direito inoperante, e a pista, molhada.
Na última quinta-feira, em depoimento na CPI do Apagão Aéreo do Senado, Denise disse que o documento não tem valor legal por se tratar de um "estudo interno", publicado no site de internet da agência por "falha da área de informática".
"Ela [Denise] estava presente, tinha ciência absoluta da existência daquele documento que estava sendo apresentado para mim. Até porque todos falavam a respeito dele", disse ontem a juíza. "Ou mentiram na CPI ou agiram com improbidade pelo fato de não terem aplicado as regras estabelecidas por aquele documento."
Segundo a juíza, o documento foi entregue por Denise no dia 22 de fevereiro.
A juíza disse que a diretora da Anac foi auxiliada por dois técnicos que explicaram detalhadamente que as normas publicadas pela agência, contidas no documento, garantiriam a segurança dos vôos. Convencida pela comitiva, composta por mais duas pessoas, a juíza suspendeu a restrição.
A diretora da Anac, ainda segundo Cecília, demonstrava muita pressa na liberação do aeroporto para todos os tipos de avião. A decisão da Justiça foi assinada horas depois.
A juíza afirmou que recebeu a declarações de Denise com "espanto muito grande" e "revolta". "Não é só a pessoa da juíza que está sendo enganada. Está sendo enganada uma instituição, está sendo enganado um Poder do Estado e por um órgão que está também inserido dentro do Poder do Estado. Isso é o mais grave de tudo."
E continuou: "Se nós não podemos confiar nas agências que fiscalizam, não temos em quem confiar. É uma situação muito desagradável. É uma coisa extremamente séria, estamos mexendo com vidas. Parece uma brincadeira isso aqui".
A juíza disse que, mesmo com a alegação da Anac, da não-validade do documento, a direção da agência não está isenta de responsabilidade porque, para a Justiça, a norma está em vigor. "Por isso que deixei claro que caberia responsabilidade criminal e administrativa para aqueles que não cumprissem aquilo que estava escrito lá. Deixei ressaltado para evitar esquecimentos."
O Ministério Público Federal de São Paulo irá pedir que a Anac seja investigada por improbidade administrativa e falsidade ideológica.
Para a Procuradoria-Geral da Anac, subordinada à AGU (Advocacia-Geral da União), a sindicância aberta ontem deve investigar o grupo de técnicos que subsidiou a estratégia de defesa e "quem mandou".
"É preciso investigar se não houve crime de falsidade ideológica e de improbidade administrativa", disse a procuradora federal Fernanda Taubemblatt, que moveu a ação inicial pedindo o fechamento da pista.
Dentro da Anac, o procurador-geral João Ilídio de Lima Filho considera que os procuradores de São Paulo são responsáveis pela parte jurídica do processo, não pelos anexos técnicos. "A peça jurídica está primorosa. No mérito, está perfeita. Agora, se alguém anexa um documento para subsidiar a tese da defesa, então tem que ser apurado o motivo, por que os técnicos utilizaram o estudo e por ordem de quem", disse.
As CPIs do Apagão Aéreo também irão examinar o caso.
Folha
Cecília Marcondes, do TRF, disse que recebeu de Denise Abreu, diretora da Anac, documento com falsas medidas de segurança
Documento foi usado para convencer a Justiça a liberar as operações no aeroporto, que estavam restritas para alguns tipos de aviões
A juíza do TRF (Tribunal Regional Federal) Cecília Marcondes disse ontem que recebeu das mãos da própria diretora da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) Denise Abreu o documento com as falsas medidas de segurança para pousos de aviões em pista molhada no aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
O documento foi utilizado para convencer a Justiça a liberar, no início do ano, as operações no aeroporto, que estavam restritas para alguns tipos de aviões. O problema é que a tal norma em questão, a IS-RBHA 121-189, não estava em vigor.
A "norma" que constava do recurso ao TRF (3ª Região) vedava às empresas o uso de aviões com um reverso inoperante em pistas molhadas.
Se estivesse sendo aplicada, o acidente com o vôo 3054 da TAM (199 mortes) teria sido evitado -naquele dia, a aeronave estava com o reversor direito inoperante, e a pista, molhada.
Na última quinta-feira, em depoimento na CPI do Apagão Aéreo do Senado, Denise disse que o documento não tem valor legal por se tratar de um "estudo interno", publicado no site de internet da agência por "falha da área de informática".
"Ela [Denise] estava presente, tinha ciência absoluta da existência daquele documento que estava sendo apresentado para mim. Até porque todos falavam a respeito dele", disse ontem a juíza. "Ou mentiram na CPI ou agiram com improbidade pelo fato de não terem aplicado as regras estabelecidas por aquele documento."
Segundo a juíza, o documento foi entregue por Denise no dia 22 de fevereiro.
A juíza disse que a diretora da Anac foi auxiliada por dois técnicos que explicaram detalhadamente que as normas publicadas pela agência, contidas no documento, garantiriam a segurança dos vôos. Convencida pela comitiva, composta por mais duas pessoas, a juíza suspendeu a restrição.
A diretora da Anac, ainda segundo Cecília, demonstrava muita pressa na liberação do aeroporto para todos os tipos de avião. A decisão da Justiça foi assinada horas depois.
A juíza afirmou que recebeu a declarações de Denise com "espanto muito grande" e "revolta". "Não é só a pessoa da juíza que está sendo enganada. Está sendo enganada uma instituição, está sendo enganado um Poder do Estado e por um órgão que está também inserido dentro do Poder do Estado. Isso é o mais grave de tudo."
E continuou: "Se nós não podemos confiar nas agências que fiscalizam, não temos em quem confiar. É uma situação muito desagradável. É uma coisa extremamente séria, estamos mexendo com vidas. Parece uma brincadeira isso aqui".
A juíza disse que, mesmo com a alegação da Anac, da não-validade do documento, a direção da agência não está isenta de responsabilidade porque, para a Justiça, a norma está em vigor. "Por isso que deixei claro que caberia responsabilidade criminal e administrativa para aqueles que não cumprissem aquilo que estava escrito lá. Deixei ressaltado para evitar esquecimentos."
O Ministério Público Federal de São Paulo irá pedir que a Anac seja investigada por improbidade administrativa e falsidade ideológica.
Para a Procuradoria-Geral da Anac, subordinada à AGU (Advocacia-Geral da União), a sindicância aberta ontem deve investigar o grupo de técnicos que subsidiou a estratégia de defesa e "quem mandou".
"É preciso investigar se não houve crime de falsidade ideológica e de improbidade administrativa", disse a procuradora federal Fernanda Taubemblatt, que moveu a ação inicial pedindo o fechamento da pista.
Dentro da Anac, o procurador-geral João Ilídio de Lima Filho considera que os procuradores de São Paulo são responsáveis pela parte jurídica do processo, não pelos anexos técnicos. "A peça jurídica está primorosa. No mérito, está perfeita. Agora, se alguém anexa um documento para subsidiar a tese da defesa, então tem que ser apurado o motivo, por que os técnicos utilizaram o estudo e por ordem de quem", disse.
As CPIs do Apagão Aéreo também irão examinar o caso.
Folha
JOSÉ DIRCEU, EM ENTREVISTA PARA A PLAYBOY
Uma conversa franca com o ex-todo-poderoso ministro da Casa Civil, e agora bem-sucedido consultor de empresas, sobre a crise do mensalão, conselhos ao presidente Lula, saudade do poder, sósias indigestos, fama de namorador e sua eterna birra com a imprensa.
Quando ainda usava calças cur-tas em Passa Quatro, interior de Minas Gerais, José Dirceu de Oliveira e Silva, num surto de grandeza, disse à mãe, dona Olga: “Um dia seu filho será presidente da República”. Hoje, aos 61 anos, ele revê a história. “Ela diz que eu falei isso, mas eu não lembro. Como mãe não mente, deve ser verdade.” O fato é que, mesmo que não tenha ocupado o cargo mais alto da República, Dirceu provou como ninguém o gosto do poder quando assumiu, em 2003, o cargo de ministro da Casa Civil. Era ele quem dava as cartas. Deu tantas cartas que, no dia 1º de dezembro de 2005, acabou tendo seus direitos políticos cassados até 2015 pela Câmara por quebra de decoro.
José Dirceu tem uma ligação histórica com a PLAYBOY. Foi aqui, num perfil publicado em janeiro de 1992, que o então deputado federal revelou como ficou de 1975 a 1979 na clandestinidade, vivendo como se fosse o comerciante Carlos Henrique Gouveia de Mello, em Cruzeiro do Oeste, interior do Paraná. Dirceu estava banido do país desde que fora, junto com outros militantes de esquerda, trocado pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Em 1970, em Cuba, o guerrilheiro teve o rosto modificado por cirurgiões plásticos – o nariz original seria devolvido dez anos depois. Carlos enganou a todos, inclusive à mulher, Clara Becker. Quando saiu a anistia, ele a chamou e mostrou um jornal com uma foto sua sob os dizeres “procurado pela polícia”. O casamento acabou.
Com a experiência de quem efetivamente já “morreu” e “ressuscitou”, o Dirceu de hoje desafia aqueles que apostam que ele esteja sepultado politicamente. Sempre que surge uma oportunidade, repete que quer ser julgado (e absolvido) pelo Supremo Tribunal Federal. Sua vontade pode ser atendida no fim deste mês, quando os ministros do Supremo decidem se abrem processo contra ele e mais 39 pessoas denunciadas como integrantes da “organização criminosa” responsável pelo mensalão.
Enquanto espera a definição do seu futuro político, toca uma próspera empresa de consultoria. Há quem jure que sua lista de clientes inclui o presidente da República Dominicana e o homem mais rico do mundo, o mexicano Carlos Slim, o que ele não confirma, nem nega. Para entrevistar José Dirceu, PLAYBOY escalou o jornalista e escritor Tom Cardoso e o repórter Fernando Barros de Mello. Foram três encontros – dois no seu amplo escritório e o último num hotel de luxo em São Paulo. No seu QG, ele controla um exército de assessores, secretárias e copeiras. Antes de começar a primeira bateria de perguntas, Zé, como é chamado pelos amigos, distribuiu ordens. Primeiro, para o seu assessor de imprensa: “Não deixe de atender às minhas ligações”. Depois, para a copeira: “Veja um café com leite quente. Mas tem de ser café descafeinado! Não compraram? Vou criar uma crise. E o leite tem de ser de fazenda, com cheiro de bosta de vaca!”. Dirceu só relaxou quando recebeu uma PLAYBOY com Carol, a musa do BBB, na capa. Foi direto ao pôster e lembrou uma história recente: “Outro dia eu estava no Copacabana Palace e uma menina veio me paquerar. Não sei quem me avisou: ‘Zé, essa moça já foi capa da PLAYBOY’. Pulei fora rapidinho”.
[ PLAYBOY ] Quem era a moça?
[ José Dirceu ] Evidentemente não vou contar.
[ PLAYBOY ] Fernando Morais, seu biógrafo, disse que só duas coisas o tiram do sério: mulher e comida.
[ José Dirceu ] [Risos.] O que me tira do sério é incompetência. É a mídia brasileira, o que fizeram comigo, o que fazem com Cuba, o que os norte-americanos fizeram no Iraque. Mas realmente comida ruim e mulher ruim, pelo amor de Deus! Tem homem ruim também. Eu estou brincando, hein?
[ PLAYBOY ] No começo de sua vida estudantil, nos anos 60, o senhor estava mais próximo da revolução sexual ou da revolução socialista?
[ José Dirceu ] Eu tinha uma intensa relação com várias companheiras, como era muito próprio da época. No movimento estudantil tinha um pouco de mito do líder, me chamavam de “Alain Delon dos Pobres”. Outros diziam que eu era o “Ronnie Von das Massas”, para ridicularizar meu cabelo comprido. A geração de 68 também fez uma revolução de comportamento no Brasil, mas eu estava com a mente e o coração na revolução política, democrática e na revolução da luta pelo socialismo.
[ PLAYBOY ] O que não impediu que o senhor fosse chamado por dois comunistas italianos, na sua prisão de 1966, de “boêmio inofensivo e namorador”...
[ José Dirceu ] Essa prisão foi fantástica! Esses dois italianos eram meus vizinhos de frente no apartamento da alameda Barros, em São Paulo. Eles cozinhavam maravilhosamente e eu sou apaixonado por comida italiana. Um belo dia fui preso e não entendi nada. Eu estudava direito na PUC, já fazia movimento estudantil, mas não era uma liderança. Só na prisão fiquei sabendo: os dois tinham sido enviados ao Brasil para fornecer explosivos e armamentos para a Ação Libertadora Nacional. Eu acabei solto. Até o [então deputado federal] Franco Montoro depôs a meu favor.
[ PLAYBOY ] Experimentar drogas também fazia parte da revolução?
[ José Dirceu ] Não. Droga é depois de 1969, depois da queda de Ibiúna [Dirceu e mais de 800 estudantes foram presos no 30º Congresso da UNE, realizado clandestinamente em Ibiúna em 12 de outubro de 1968]. Em 60, existia maconha na minha escola, mas eu nunca fumei. E comecei a beber depois dos 30. Nessa época eu não tomava chá nem café, só leite. Fumei cigarro por um período muito pequeno e depois parei. Agora fumo charuto uma vez por mês.
[ PLAYBOY ] Uma passagem famosa da sua biografia foi o casamento com a Clara Becker. Durante a ditadura, vocês ficaram quatro anos juntos sem que ela soubesse quem o senhor realmente era. Há quem diga que um sujeito que consegue esconder sua identidade da própria mulher é capaz de qualquer coisa...
[ José Dirceu ] Uma pessoa que fala isso tem mulher, mas dorme com uma amante e não conta pra ela. Coisa mais grave. O que eu estava fazendo do ponto de vista ético e moral era totalmente defensável. A Clara nunca deu essa versão que as pessoas atribuem a ela. Fiz tudo para protegê-la.
[ PLAYBOY ] Houve algum momento em que ela quase descobriu?
[ José Dirceu ] Eu andava sempre armado e uma vez esqueci minha capanga – onde eu guardava a arma [aponta dentro da manga da camisa] – numa livraria em Ponta Grossa. Entrei em pânico, mas o proprietário não desconfiou e devolveu a arma. Numa outra vez o prefeito de Cruzeiro do Oeste, onde eu morava, resolveu perguntar para a Clara se ela conhecia minha família. Ela mentiu e disse que conhecia. Até hoje não sei por quê. O pessoal da cidade me chamava de Pedro Caroço, o personagem daquela música “Ele tá de olho é na butique dela”. Eu era casado com uma mulher que era dona de quatro butiques.
[ PLAYBOY ] A Clara já declarou que, se tivesse enviuvado, seria mais fácil esquecê-lo. Ela também fez um sacrifício ao abrir mão do Carlos Henrique [codinome usado por Dirceu depois de mudar o rosto para viver clandestinamente em Cruzeiro do Oeste, onde se casou]?
[ José Dirceu ] Fez. Eu reconheço.
[ PLAYBOY ] Então não era melhor o senhor fazer um sacrifício consciente, não ficar com a mulher amada, do que deixá-la se sacrificar e perdê-lo do dia pra noite?
[ José Dirceu ] Se eu não ficasse com ela, estaria correndo um risco sério porque seria totalmente atípico e anormal não namorar, não casar. Eu passaria a ter uma vida artificial, o que é mortal nesses casos. A regra número um da clandestinidade é que ninguém pode saber quem você é. Todo mundo que rompeu essa regra morreu. Como eu gostava dela e ela gostava de mim... Tanto é que até hoje nós nos gostamos. Apesar de separados, temos um filho e uma neta em comum.
[ PLAYBOY ] Faria tudo de novo?
[ José Dirceu ] Não sei se faria luta armada como fiz. Em tese, não. A luta armada era moral e eticamente justificada, mas a exclusividade que demos a ela foi um erro. Tinha que combinar com a luta política e eleitoral.
[ PLAYBOY ] O senhor fez uma plástica para mudar de rosto e se esconder da ditadura. Faria por vaidade?
[ José Dirceu ] Não fiz botox, mas não tenho objeção. Para 61 anos, acho que estou até razoavelmente, como diria meu pai, conservado. Ele morreu com 88 anos e ainda era um homem muito bonito.
[ PLAYBOY ] Já tomou Viagra?
[ José Dirceu ] Não! Se tivesse tomado, falaria. Eu não tenho preconceito com fazer plástica, colocar botox, mas saiu coisa que não é verdade, dizendo que eu teria feito isso [plástica]. Foi o jornal O Globo que publicou. Eu tenho uma saúde boa, faço ginástica. Por estética também; seria hipocrisia não admitir que sou vaidoso.
[ PLAYBOY ] E atualmente, o senhor está namorando?
[ José Dirceu ] Namorar a gente sempre está namorando.
[ PLAYBOY ]Com alguém especificamente?
[ José Dirceu ] Não vou falar sobre isso.
[ PLAYBOY ] Já foi traído por uma mulher?
[ José Dirceu ] Muitas vezes. Quem não traiu e não foi traído? Precisa ver esse conceito de trair. Eu sempre fiquei com quem eu gostava e sempre procuro terminar da melhor maneira possível.
[ PLAYBOY ] Até agora, o senhor falou mais de mulheres que de armas. O senhor atirava bem?
[ José Dirceu ] Dava pro gasto. Nunca fiz com paixão a luta armada.
[ PLAYBOY ] Atirou em alguém?
[ José Dirceu ] [Sorriso.] Depois que eu fizer 80 anos eu conto.
[ PLAYBOY ] Confirme o que disse uma fonte. O senhor teria atirado durante um assalto a um cartório em 1971, quando voltou para o Brasil para levantar fundos para a Ação Libertadora Nacional?
[ José Dirceu ] Eu participei de assalto? Eu não lembro. Estou com amnésia [irônico]. Eu participei de ações políticas e militares na luta armada aqui no Brasil em 1971 e 1972. Ponto final. Contar tudo só depois que fizer 80.
[ PLAYBOY ] Aprendeu a atirar durante o exílio em Cuba?
[ José Dirceu ] Sim. Eu andava armado [no movimento estudantil], tinha atirado, mas coisa amadora. Em Cuba fiz treinamento, tropa especial, 18 meses.
[ PLAYBOY ] Quando era estudante, o senhor sempre andava armado?
[ José Dirceu ] Sim. Andava com uma .22. Certa vez, eu conheci uma moça, a Heloísa. Ela era muito bonita e eu comecei a ter relação com ela, mas alguma coisa não encaixava. Comecei a ficar desconfiado. Um dia, eu tirei da cintura a arma e ela, para a minha surpresa, a desmontou com a maior naturalidade e precisão. Descobrimos tudo: ela era espiã do Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. Fomos ao apartamento dela e encontramos tudo. Ela foi levada para uma sala, interrogada e a entregamos, com a imprensa presente, para a família dela. Eu conheci a Heloísa na sala de imprensa do [Centro Universitário] Maria Antônia, onde tinha uma placa que dizia: “Imprensa burguesa, fique quietinha e não mexa nas cadeiras”.
[ PLAYBOY ] Quem mandou escrever isso?
[ José Dirceu ] Fui eu.
[ PLAYBOY ] A briga é antiga, então?
[ José Dirceu ] A imprensa fez uma grande cobertura do movimento estudantil. O primeiro editorial que ganhei, acho que do Jornal da Tarde ou do Estadão, chamava-se “Os Baderneiros da PUC”. Éramos eu e o Luís Travassos [presidente da UNE].
[ PLAYBOY ] A imprensa continua “burguesa”?
[ José Dirceu ] Acho que a imprensa é partidária, ideológica, engajada, com projeto político. Isso existe no Brasil. Pena que não existe uma nossa assim tão forte.
[ PLAYBOY ] O Getúlio Vargas também se queixava até que decidiu financiar um jornal, o Última Hora. O Lula também poderia ter o seu?
[ José Dirceu ] Sim, seria legítimo. Eu quero um jornal pra gente também. A imprensa queria me tirar do governo desde o começo. Os tucanos e os peefelistas romperam o pacto democrático no caso Waldomiro Diniz, quando partiram para desestabilizar o governo. O Lula nem era presidente, eu nem era ministro [a gravação em que Waldomiro é flagrado cobrando propina de um empresário de jogos é de 2002, no Rio de Janeiro].
[ PLAYBOY ] Como assim, romperam pacto democrático? Teve corrupção documentada naquele caso.
[ José Dirceu ] Eles foram para derrubar o governo. A imprensa em geral partiu contra o Lula abertamente nessa crise e trabalhou para derrubá-lo. E muitos articulistas e chefes de redação articularam com PFL e PSDB.
[ PLAYBOY ] Na oposição, o PT não era fonte da imprensa, não passava denúncias também?
[ José Dirceu ] Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tenho que conviver com a imprensa, é uma democracia. Não estou dizendo que ela não deva fazer isso, é um direito, só não gosto de hipocrisia. Se começa a ter imprensa do outro lado, eles querem fechar. Foi o caso do Última Hora e do Samuel Wainer. A imprensa tem o direito editorial de fazer isso, mas não pode editorializar a notícia.
[ PLAYBOY ] A proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo apoiada pelo senhor não foi uma tentativa de cercear a liberdade de imprensa?
[ José Dirceu ] [Enfático.] Não. Existe em outros países. Mas não querem concorrência nem regulação. Tem que haver uma nova lei de comunicação de massa com regulamentação e concorrência.
[ PLAYBOY ] O texto dizia que a missão seria “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício da profissão de jornalista.
[ José Dirceu ] É só tirar isso. Nem me lembro mais do texto. Era uma proposta da Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas] enviada ao governo. Não se permitiu nem que ela fosse discutida.
[ PLAYBOY ] E o que o senhor achou da ameaça de morte que o MR-8 fez [em maio passado] ao colunista de Veja Diogo Mainardi?
[ José Dirceu ] Aquilo é forçar a barra. O MR-8 não ameaça ninguém de morte. O Diogo Mainardi está fazendo o que ele sabe fazer, Agitprop. Ele devia ser nomeado secretário de Agitprop [referência ao Departamento de Agitação e Propaganda do Partido Comunista soviético criado para difundir os ideais da revolução] de todas as direitas de todo grande Brasil. É um espertalhão. É o pistoleiro que o Roberto Civita contratou para assassinar a honra das pessoas*. Da mesma maneira que existia pistoleiro para assassinar as pessoas, que os coronéis contratavam. O Diogo Mainardi é um pistoleiro. A arma dele é a caneta. Ele atira contra a honra das pessoas.
[ PLAYBOY ] Mas o Diogo Mainardi traz furos, entrevistas. Ele faz alguma coisa indevida? Ele mente?
[ José Dirceu ] Isso aí a Justiça vai dizer. Está cheio de processos contra ele. Não estou dizendo que ele não é bom jornalista, que não escreve bem, que não tem cultura. Não o estou ofendendo. Estou fazendo a imagem dele, que é a de um pistoleiro contratado.
[ PLAYBOY ] O senhor não acha que ele é contratado para simplesmente fazer jornalismo mesmo?
[ José Dirceu ] Mas isso é jornalismo. Existe jornalismo marrom, amarelo e existe o jornalismo do Diogo Mainardi.
[ PLAYBOY ] “Por que deveria um governo, que está fazendo o que acredita estar certo, permitir que o critiquem? Ele não aceitaria a oposição de armas letais, mas idéias são muito mais fatais que armas.” O senhor concorda com a frase de Lênin sobre a imprensa?
[ José Dirceu ] A crítica é fundamental, outra coisa é campanha articulada por partidos e parlamentares. Não estou dizendo que o PT não tenha feito isso, que não fizemos no passado. Não estou dizendo que tem de fechar ou censurar os jornais. Só estou denunciando.
[ PLAYBOY ] “Se coubesse a mim decidir se precisamos de um governo sem imprensa ou de uma imprensa sem governo, eu não hesitaria um momento em escolher a segunda situação”...
[ José Dirceu ] Foi o Thomas Jefferson que falou isso. Mas o governo Lula nunca fez nada contra a imprensa. É um mito dizer isso. A imprensa coopera mais contra a credibilidade dela própria do que o governo poderia fazer quando faz certas reportagens. Os meios de comunicação do país têm qualidade. Temos os melhores jornais, excelentes televisões. A Veja tem a sua qualidade. A maioria da classe média brasileira lê a Veja. O que faço é uma análise política. Quero ter o direito de falar tudo isso, por isso tenho que defender o direito de eles escreverem o que quiserem. O que não quero é que comecem a dizer que eu não posso falar. Posso sim.
[ PLAYBOY ] Justiça não basta para processar os jornalistas que cometem excessos?
[ José Dirceu ] Ah, no meu caso eu sei como ela é lenta e tardia. Existe a Justiça, você pode apelar, mas precisa melhorar as multas, as perdas e danos serem mais rápidos. E apertar no bolso.
[ PLAYBOY ] Por que o senhor foi para o outro lado, o de jornalista, de blogueiro [www.zedirceu.com.br]?
[ José Dirceu ] No começo eu resisti muito à idéia, achava que não seria capaz de me disciplinar o suficiente. Mas depois eu me convenci da necessidade, porque o blog me possibilita conversar com o Brasil todo.
[ PLAYBOY ] O senhor não deixa de ser personagem de blogs. O do jornalista Cláudio Humberto, por exemplo, noticiou até sua crise de labirintite, e muitos dizem que o senhor ainda tem poder no governo.
[ José Dirceu ] Cláudio Humberto é bem informado: eu tive mesmo uma crise de labirintite. Tratei. Agora, eu nem tenho a influência que eu gostaria de ter no governo, nem deixo de ter a que meus inimigos e adversários gostariam que eu não tivesse. Mas eu não tenho influência direta no governo ou no PT. Sou um militante do PT, sou um ex-ministro, ex-deputado, ex-presidente do partido. Mas seria mentira falar que eu não tenho alguma influência.
[ PLAYBOY ] Qual foi o último conselho que o Lula lhe pediu?
[ José Dirceu ] [Sorriso.] O Lula depois que foi reeleito é um homem de certezas, não é um homem de conselhos. Evidentemente que só o presidente da República pode revelar o que ele me solicita, o que me aconselha. Eu não posso revelar. Quando ele me pede algo, eu faço com prazer. A última vez que ele pediu, eu fiz.
[ PLAYBOY ] O que foi?
[ José Dirceu ] Não posso revelar. Mas não tenho tido conversas regulares com o presidente. A última vez que estive com ele foi na véspera do Natal, Ano Novo.
[ PLAYBOY ] O seu gabinete ficava fisicamente próximo ao do presidente, um andar de diferença. O senhor sente falta da proximidade com o poder?
[ José Dirceu ] Eu ficava embaixo. Sempre ficou, desde o Fernando Henrique. Desculpa, ficava em cima, no quarto andar. É que eu sempre falava “Vou descer”. As pessoas me corrigiam e eu respondia: “Não! Em cima do presidente não fica ninguém”. Eu sinto falta do governo porque governar é uma coisa fantástica. É lutar para realizar aquilo que você sempre sonhou para o seu país. A força que me moveu sempre foi o Brasil, mais até que o socialismo. Mas eu não tenho saudade do poder, sei viver muito bem fora do governo. Eu sempre fui um soldado muito disciplinado, sempre soube ser dirigido e soube jogar um segundo papel. Por isso que deu certo com o Lula. É mito essa idéia de que eu tinha um rolo compressor, mandava no PT, que o PT se submetia ao governo.
[ PLAYBOY ] Como político, quais são suas qualidades?
[ José Dirceu ] Ter sobrevivido e ter aprendido com várias gerações. Pode se dizer que minha maior qualidade é que eu sempre tomei decisões e sempre executei as decisões, sempre soube organizar tudo aquilo que me atribuíram como responsabilidade. Sempre soube planejar, ter objetivo, metas, executar e controlar a execução. Também sempre trabalhei coletivamente. Nunca trabalhei sozinho.
[ PLAYBOY ] Vamos aos defeitos?
[ José Dirceu ] Assim eu acho que vou falar demais.
[ PLAYBOY ] Um pelo menos. Qual é o que mais te dá problema?
[ José Dirceu ] Falar demais. O defeito é muitas vezes ser impetuoso, não sou voluntarista, mas sou impetuoso. Muitas vezes não tenho paciência para esperar o resultado. Tenho pressa, porque a vida é bela, mas é curta. Outro defeito é que não meço as minhas limitações e assumo muitas tarefas para além das possibilidades. E como não suporto a incompetência, não suporto aquilo que não é feito, vou assumindo. Isso me traz muitos problemas. Trouxe no PT e no governo. Também sou corinthiano...
[ PLAYBOY ] O presidente Lula tem algum defeito?
[ José Dirceu ] [Pensativo.] O Lula é um político que opta sempre mais pela segurança que pelo risco. E muitas vezes na política você tem que optar mais pelo risco que pela segurança. É de forma inata um negociador, alguém que busca resultados. E também alguém que luta. Sempre que eu convivi com ele, estávamos discutindo objetivos, metas, projetos e idéias. Ele não é uma pessoa que queria ser presidente da República e para isso adotou um pragmatismo que o inviabilizasse de fazer aquilo que queria.
[ PLAYBOY ] Vamos falar sobre a ascensão do filho do presidente, que saiu de monitor de zoológico para sócio da Telemar. O senhor conheceu o Lulinha pessoalmente? Ele é realmente muito talentoso nos negócios?
[ José Dirceu ] Conheço. Ele e o Kalil Bittar há muitos anos vinham trabalhando e desenvolvendo esses jogos. Eles têm qualidade.
[ PLAYBOY ] Como a Telemar tem capital público e é uma concessionária de serviço público, o senhor não acha que a sociedade com o filho do presidente causa, no mínimo, estranheza?
[ José Dirceu ] Lógico que não! Se não valessem no mercado o que eles valem, não tivessem qualidade, aí podia levantar suspeitas. Tem que provar que foi favorecimento. Senão, nenhum filho de governante poderia ter atividade profissional. Não era só a Telemar que queria comprar, outras também.
[ PLAYBOY ] É verdade que, no auge da crise do mensalão, numa festa junina no colégio de uma de suas filhas, em São Paulo, o senhor recebeu um correio elegante pedindo a sua prisão?
[ José Dirceu ] Não teve nada disso. Fui muito bem recebido. Teve uma professora que falou besteira e bateu boca com meu motorista, que levava a minha filha Joana para a escola e era muito amigo dela. Ela foi até madrinha do casamento dele. Eu sei que havia pessoas ali que já me condenavam. Inventaram que colocaram uma música de quadrilha dirigida a mim. Isso não é verdade.
[ PLAYBOY ] Um sósia do senhor se queixou de ter sido agredido em feiras e supermercados. O senhor evita lugares públicos?
[ José Dirceu ] Não é verdade! Essa matéria [do sósia] não é verdadeira! Porque eu mandei pesquisar quem é o sujeito. Olha a ficha corrida dele, manda olhar a ficha corrida dele.
[ PLAYBOY ] O senhor mandou investigar o seu sósia?
[ José Dirceu ] Sim. Levantei inquérito. É um cidadão lá, um empresário falido.
[ PLAYBOY ] O senhor se arrepende de ter comandado alianças com PP, PL, PTB?
[ José Dirceu ] Eu não me arrependo porque, se não tivesse feito essas alianças, o governo não teria conseguido maioria na Câmara e no Senado. Tanto que no Senado foi preciso fazer aliança até mesmo com alguns setores do PFL e do PSDB, pelo menos durante os 13 meses que eu dirigi a Articulação Política. Depois, há uma coisa que me chama a atenção: por que houve mensalão na Câmara e não no Senado? Porque não houve mensalão na Câmara.
[ PLAYBOY ] Mas o então deputado do PP José Janene admitiu ter recebido 600 mil reais negociados entre a direção do PP e o senhor. Segundo ele, o senhor teria encaminhado o partido ao Delúbio [Soares, então tesoureiro do PT]...
[ José Dirceu ] Eu jamais tratei com o deputado José Janene coisa alguma. Com nenhum deputado ou senador. Ninguém foi à Casa Civil para tratar de qualquer assunto que não fosse de interesse público e republicano. Eu já falei isso no plenário da Câmara olhando para todos os senadores e deputados.
[ PLAYBOY ] As alianças não estão na origem de todos esses escândalos?
[ José Dirceu ] Não. Os erros foram nossos e do sistema político. O sistema político induz ao caixa dois.
[ PLAYBOY ] O deputado Valdemar Costa Neto [PR-SP] disse que antes das eleições de 2002 pensou em não levar adiante a aliança do PL com o PT. Mas em uma reunião foi feito um acordo de 10 milhões de reais. Vocês não transformaram uma aliança política numa operação financeira?
[ José Dirceu ] José Alencar ser o vice do PL na chapa do Lula não tinha nada a ver com apoio financeiro ao PL. Primeiro que isso é legítimo. Se depois o apoio foi feito com recursos de origem ilegal é outra questão que a Justiça está apurando. Não tem nada a ver: a discussão era política, programática, de participação na campanha e estava havendo acordo. O Valdemar Costa Neto me inocenta completamente. Minha posição foi muito clara: eu não vou discutir, não tenho participação nisso, não tenho nada a ver com a coligação e apoio. É problema de campanha eleitoral, financeiro. Você discute com o partido.
[ PLAYBOY ] Com o Delúbio?
[ José Dirceu ] Com o Delúbio e o partido. Mesmo que nós não tivéssemos nos comprometido com a campanha do PL para deputado, pois eles não iam poder fazer coligação, nós financiaríamos. Não tem nada de ilegal. O PL estava sofrendo prejuízo ao fazer aliança conosco. Tinha necessidade de recurso. A rigor não tem nada de errado. Quando os recursos vêm de origem não declarada, você cai no caixa dois.
[ PLAYBOY ] Em entrevista ao Estadão, Marcos Valério fez a seguinte declaração: “Delúbio tinha uma fidelidade canina e não fazia nada sem conversar com Zé Dirceu”.
[ José Dirceu ] [Risos.] Acho que o Delúbio não tem fidelidade canina a ninguém. Segundo, ele era tesoureiro do PT e eu era presidente. Eu saí da presidência do PT em dezembro de 2002. O Marcos Valério falou muita coisa, que era meu inimigo. Eu nunca falei com ele, nunca recebi um telefonema dele. Ele foi em duas audiências acompanhando outras empresas, mas eu nunca tive relação com ele. Pode ver em todos os depoimentos.
[ PLAYBOY ] O senhor ouviu o famoso discurso da volta do ex-presidente Collor ao Senado, em que ele diz que foi cassado sem provas e que o STF o absolveu? Há quem diga que o discurso dele e o seu são muito parecidos.
[ José Dirceu ] Isso não é agravante pra mim, é atenuante. Zé Dirceu é Zé Dirceu; Collor é Collor. Basta ver a história dos dois. Se o Collor foi cassado sem provas, ele foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o Senado não cassou o Collor e suspendeu os direitos políticos dele por dez anos pelas acusações das quais ele foi absolvido no Supremo. No meu caso é a mesma coisa: chefe do mensalão, chefe da quadrilha. O meu é quebra de decoro. Além disso, o Collor renunciou. Eu não. Me submeti ao julgamento da Câmara e ao julgamento da Justiça do meu país.
[ PLAYBOY ] Ainda que o senhor tenha criticado a denúncia feita pelo procurador-geral, Antonio Fernando, Lula o manteve no cargo por mais dois anos. O ministro Tarso Genro [Justiça] declarou: “O trabalho dele não tem inflexão partidária e nem cria crises artificiais”. Isso não significa que o governo aprovou o trabalho de Antonio Fernando, incluindo a denúncia?
[ José Dirceu ] Essa pergunta você faz para o Tarso Genro, porque eu não ouvi o presidente falar isso.
[ PLAYBOY ] Mas o Tarso é um nome importante do governo. Ele não falou em nome do presidente?
[ José Dirceu ] Eu não tenho relações com o Tarso. Só de filiado do PT. Nós nos conhecemos, nos cumprimentamos e pronto.
[ PLAYBOY ] Quais foram, afinal, os erros que o senhor cometeu?
[ José Dirceu ] Não fazer reforma política, não viabilizar que o PMDB fosse a principal base aliada, depois do PCdoB e do PSB, evidentemente. Nós devíamos ter feito uma grande mobilização no país e não fizemos. Começou a crise e, de certa maneira, o governo estava desarmado.
[ PLAYBOY ] O senhor continua defendendo a aliança com o PMDB mesmo depois da crise envolvendo o presidente do Senado, Renan Calheiros?
[ José Dirceu ] O Renan tem direito à presunção da inocência. Se o Senado quer cassá-lo politicamente porque considera que ele quebrou o decoro, tem que apresentar provas. Por isso que o Conselho de Ética tem que investigar mais. O afastamento dele ou não da presidência do Senado é uma questão do PMDB. Evidente que há na sociedade uma demanda grande, justa, para que se apure e se esclareça e para que a corrupção seja combatida, o que o governo vem fazendo.
[ PLAYBOY ] A defesa dele não é muito frágil?
[ José Dirceu ] Precisa ver, precisa ser checada pela Receita Federal. Eu passei 17 meses sob investigação da Receita Federal, fizeram uma devassa no meu imposto de renda. E saí ileso. De qualquer maneira, acho que o caso Renan Calheiros ganhou uma dimensão mais política, por causa da aliança do PMDB com o governo do PT. Mesmo o comportamento da oposição mostra que ela tem muitos compromissos com o Renan Calheiros.
[ PLAYBOY ] Por exemplo?
[ José Dirceu ] O próprio comportamento. Há muitos interesses comuns no Senado. Pode ver que o Senado nunca investiga. Os senadores que foram acusados renunciaram. Sempre predomina um certo corporativismo. A minha crítica é que o Renan foi linchado e julgado sem direito de defesa, sem processo legal.
[ PLAYBOY ] Mas isso não abala a aliança PT e PMDB?
[ José Dirceu ] Não vejo por quê. Cada um responde pelos atos que pratica. Mas tem de ter a presunção de inocência e direito de defesa. Eu vou manter essa linha, até porque fui vítima e paguei muito caro por isso.
[ PLAYBOY ] Ainda sobre alianças: o presidente Lula errou ao dizer que daria um cheque em branco ao Roberto Jefferson (PTB-RJ)?
[ José Dirceu ] Nem sei se ele disse isso. Essas coisas viram dito pelo não dito. Mas o Lula não dá cheque em branco pra ninguém. Não é da natureza dele. Pelo contrário, ele delega, mas controla, cobra. Ele é um presidente da República que tem controle sobre tudo o que está acontecendo. O Lula trabalha, chega cedo e sai tarde. E quem acha o contrário, ótimo. Porque vai subestimar o Lula e vai nos subestimar.
[ PLAYBOY ] Mas então ele sabia do caixa dois, do dossiê fajuto contra os tucanos, não?
[ José Dirceu ] [Irritado.] Não está sob atribuição da Presidência da República. Isso não era matéria de governo, era de partido. Tanto é que o país reconheceu isso, o TSE reconheceu. Presidente da República não pode ser responsabilizado. Aliás, eu não posso ser responsável como ministro da Casa Civil por nada que aconteceu no PT, nada que aconteceu no Congresso. Por isso que eu sou inocente. Não há como me responsabilizar.
[ PLAYBOY ] O senhor já disse que a sua maior qualidade é saber “planejar, ter objetivo, metas, executar e controlar a execução”. A partir disso, não é verossímil que o classifiquem como o “chefe do mensalão”?
[ José Dirceu ] No caso, eu fui incompetente. Saí do PT e não continuei acompanhando o PT. Saí da Câmara e não continuei acompanhando a Câmara depois que eu deixei a Articulação Política, em janeiro de 2004. Foi um caso de incompetência.
[ PLAYBOY ] O ex-deputado Roberto Jefferson desperta os piores instintos no senhor?
[ José Dirceu ] Nada, zero. Eu nunca mais tive relação com ele e não pretendo ter. Eu nunca convivi com ele, fui à casa dele para reuniões. Eu não desperto isso em ninguém, só nele. Eu não trato as questões políticas como pessoais.
[ PLAYBOY ] Há uma diferença entre o homem político e o pessoal?
[ José Dirceu ] Não. O homem pessoal se expressa na política. O que eu digo é que você não pode deixar de se relacionar com alguém pelo que aconteceu no passado, se você faz política. Eu tenho amigos que são adversários, como o Aloysio Nunes Ferreira [secretário-chefe da Casa Civil do governo do tucano José Serra em São Paulo].
[ PLAYBOY ] O senhor está dizendo que não faz política com o fígado?
[ José Dirceu ] Não faço. Imagina se eu fizesse política com o fígado...
[ PLAYBOY ] Vamos falar do futuro. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, foi convidado a trocar o PSDB pelo PMDB. O Lula disse que é possível que ele apóie um candidato do PMDB. Vai ser o Aécio?
[ José Dirceu ] O Lula disse que apóia um candidato da coalizão, mas ele não falou o partido! Falou que a base vai ter um candidato. A base vai do PP até o PT. O PT deve trabalhar para ter um candidato, mas tem que partir do princípio que pode ser de outro partido, seja Ciro Gomes ou outro nome.
[ PLAYBOY ] O Aécio Neves é um bom nome?
[ José Dirceu ] Para o PSDB é um bom nome. Para o PSDB!
[ PLAYBOY ] Se Lula chegar com popularidade alta em 2010, ele pode copiar o presidente venezuelano Hugo Chávez e tentar um terceiro mandato?
[ José Dirceu ] Primeiro, o Lula jamais fará isso. Segundo, não existe nenhuma possibilidade de a sociedade brasileira aceitar. Terceiro, seria completamente inconstitucional. Não tem chance. Mas em 2014, o Lula vai estar com 68 anos, forte como um touro.
[ PLAYBOY ] A vaia ao Lula na abertura do Pan foi ensaiada? Coisa do Cesar Maia [prefeito do Rio pelo DEM]?
[ José Dirceu ] Não tenho idéia. Do Cesar Maia pode se esperar tudo. Não quer dizer que nós não possamos ser vaiados. Depende do público.
[ PLAYBOY ] Fernando Morais ia escrever um livro sobre a sua passagem pelo governo, mas os originais sumiram. Como o senhor recebeu a notícia?
[ José Dirceu ] Estava tranqüilo porque tínhamos a base, roubaram algo semi-organizado. Preciso retomar esse projeto, mas agora faria um livro sobre a minha vida, a passagem pelo governo e sobre o processo que estou vivendo, kafkaniano. O [Antonio] Palocci fez o dele. Li e gostei muito.
[ PLAYBOY ] O senhor fala com o Palocci?
[ José Dirceu ] Regularmente, a cada 15, 20 dias.
[ PLAYBOY ] O que achou do caso da quebra do sigilo bancário do caseiro Nildo?
[ José Dirceu ] Eu diria que é um caso a ser esclarecido.
[ PLAYBOY ] Mas o senhor não acha que a quebra ter acontecido já é um fato?
[ José Dirceu ] Precisa de um tempo para se debruçar sobre ele, para repor a verdade histórica. Como o caso do mensalão. A Câmara sabe que não houve mensalão: os partidos receberam dinheiro para fazer a campanha eleitoral de 2004. Eu viajo pelo Brasil, faço palestras, falo nas TVs, rádios e jornais. Sei que é um trabalho longo. Não vão achar que eu vou ser derrotado, sair da vida política.
[ PLAYBOY ] O senhor tem sido bem-sucedido como consultor de empresas?
[ José Dirceu ] Para os meus objetivos, sim: sustentar minha atividade política e a minha família. Não é verdade que ganho 150 mil reais por mês. Já declarei meu imposto de renda e está lá quanto ganho. Gosto de ir ao cinema, de ler, de comer bem; sempre que posso faço algo na minha casa em Vinhedo. Tenho esse escritório que fiz há dois anos. Comprei em 2001 e levei cinco anos para construir a casa.
[ PLAYBOY ] Seus velhos companheiros de luta não se queixam dos seus hábitos burgueses?
[ José Dirceu ] Há 20 anos eu ando com chofer, registrado, pago o salário. Eu dirijo razoavelmente bem, mas eu parei de dirigir quando dormi duas vezes de tanto trabalhar e subi num canteiro. Eu gosto de comer bem. Gosto de vinho, mas nada exagerado: 80, 100, 150 reais. Quando ganho um melhor, tomo. Gosto de Jack Daniel’s, único whisky que bebo, e de rum. Procuro me vestir bem, mas nada luxuoso. Quando vou a restaurantes mais caros, estou com empresas, clientes, mas é minha atividade profissional.
[ PLAYBOY ] O senhor não parece muito à vontade ao falar da sua atividade de consultor.
[ José Dirceu ] A lei me obriga ao sigilo e à confidencialidade, tanto no escritório de advocacia como aqui. Fazem campanha para me prejudicar. A minha vida é pública, eu continuo fazendo política, então é natural que escrevam e falem de mim. A minha atividade como consultor está totalmente legal, faz dois anos que saí do governo. Eu esperei um ano e meio. Posso fazer qualquer atividade.
[ PLAYBOY ] Ter passado pelo governo que continua no poder não ajuda?
[ José Dirceu ] O Fernando Henrique pode cobrar 85 mil reais por palestra, e eu não posso fazer consultoria? No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas que com empresas que têm relação com o governo.
[ PLAYBOY ] Recentemente, o nome do senhor foi citado por causa de um grampo feito durante investigação envolvendo a MSI, o Corinthians e o russo Boris Berezovski. O senhor evita falar no telefone?
[ José Dirceu ] Não evito porque não trato nada que seja ilegal. Você toma as medidas razoáveis que tomaria para conversar em qualquer lugar público. Mas tenho preocupação porque é um direito constitucional. Podem começar a quebrar sigilo telefônico dos jornalistas para saber as matérias que estão sendo feitas. Não sou contra [grampos], mas é preciso ter limites. Fui grampeado e não encontraram nada contra mim. Aí acharam uma conversa minha com um cliente discutindo embargo de carne para a Rússia. Como tinha a palavra Rússia, juntaram no processo.
[ PLAYBOY ] O senhor disse que o presidente Lula não passa cheque em branco pra ninguém. E o senhor?
[ José Dirceu ] Pra ninguém.
[ PLAYBOY ] Nem pra sua mãe?
[ José Dirceu ] Pra ela eu dou dinheiro vivo.
[ PLAYBOY ] Pra terminar. O senhor ficou mais de 800 dias como ministro e foi chamado de “técnico do time” pelo presidente. Em time que está ganhando se mexe?
[ José Dirceu ] Às vezes você é obrigado a mexer, por exemplo quando o adversário faz uma falta grave. No caso, tentaram quebrar as minhas pernas.
Quando ainda usava calças cur-tas em Passa Quatro, interior de Minas Gerais, José Dirceu de Oliveira e Silva, num surto de grandeza, disse à mãe, dona Olga: “Um dia seu filho será presidente da República”. Hoje, aos 61 anos, ele revê a história. “Ela diz que eu falei isso, mas eu não lembro. Como mãe não mente, deve ser verdade.” O fato é que, mesmo que não tenha ocupado o cargo mais alto da República, Dirceu provou como ninguém o gosto do poder quando assumiu, em 2003, o cargo de ministro da Casa Civil. Era ele quem dava as cartas. Deu tantas cartas que, no dia 1º de dezembro de 2005, acabou tendo seus direitos políticos cassados até 2015 pela Câmara por quebra de decoro.
José Dirceu tem uma ligação histórica com a PLAYBOY. Foi aqui, num perfil publicado em janeiro de 1992, que o então deputado federal revelou como ficou de 1975 a 1979 na clandestinidade, vivendo como se fosse o comerciante Carlos Henrique Gouveia de Mello, em Cruzeiro do Oeste, interior do Paraná. Dirceu estava banido do país desde que fora, junto com outros militantes de esquerda, trocado pelo embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Em 1970, em Cuba, o guerrilheiro teve o rosto modificado por cirurgiões plásticos – o nariz original seria devolvido dez anos depois. Carlos enganou a todos, inclusive à mulher, Clara Becker. Quando saiu a anistia, ele a chamou e mostrou um jornal com uma foto sua sob os dizeres “procurado pela polícia”. O casamento acabou.
Com a experiência de quem efetivamente já “morreu” e “ressuscitou”, o Dirceu de hoje desafia aqueles que apostam que ele esteja sepultado politicamente. Sempre que surge uma oportunidade, repete que quer ser julgado (e absolvido) pelo Supremo Tribunal Federal. Sua vontade pode ser atendida no fim deste mês, quando os ministros do Supremo decidem se abrem processo contra ele e mais 39 pessoas denunciadas como integrantes da “organização criminosa” responsável pelo mensalão.
Enquanto espera a definição do seu futuro político, toca uma próspera empresa de consultoria. Há quem jure que sua lista de clientes inclui o presidente da República Dominicana e o homem mais rico do mundo, o mexicano Carlos Slim, o que ele não confirma, nem nega. Para entrevistar José Dirceu, PLAYBOY escalou o jornalista e escritor Tom Cardoso e o repórter Fernando Barros de Mello. Foram três encontros – dois no seu amplo escritório e o último num hotel de luxo em São Paulo. No seu QG, ele controla um exército de assessores, secretárias e copeiras. Antes de começar a primeira bateria de perguntas, Zé, como é chamado pelos amigos, distribuiu ordens. Primeiro, para o seu assessor de imprensa: “Não deixe de atender às minhas ligações”. Depois, para a copeira: “Veja um café com leite quente. Mas tem de ser café descafeinado! Não compraram? Vou criar uma crise. E o leite tem de ser de fazenda, com cheiro de bosta de vaca!”. Dirceu só relaxou quando recebeu uma PLAYBOY com Carol, a musa do BBB, na capa. Foi direto ao pôster e lembrou uma história recente: “Outro dia eu estava no Copacabana Palace e uma menina veio me paquerar. Não sei quem me avisou: ‘Zé, essa moça já foi capa da PLAYBOY’. Pulei fora rapidinho”.
[ PLAYBOY ] Quem era a moça?
[ José Dirceu ] Evidentemente não vou contar.
[ PLAYBOY ] Fernando Morais, seu biógrafo, disse que só duas coisas o tiram do sério: mulher e comida.
[ José Dirceu ] [Risos.] O que me tira do sério é incompetência. É a mídia brasileira, o que fizeram comigo, o que fazem com Cuba, o que os norte-americanos fizeram no Iraque. Mas realmente comida ruim e mulher ruim, pelo amor de Deus! Tem homem ruim também. Eu estou brincando, hein?
[ PLAYBOY ] No começo de sua vida estudantil, nos anos 60, o senhor estava mais próximo da revolução sexual ou da revolução socialista?
[ José Dirceu ] Eu tinha uma intensa relação com várias companheiras, como era muito próprio da época. No movimento estudantil tinha um pouco de mito do líder, me chamavam de “Alain Delon dos Pobres”. Outros diziam que eu era o “Ronnie Von das Massas”, para ridicularizar meu cabelo comprido. A geração de 68 também fez uma revolução de comportamento no Brasil, mas eu estava com a mente e o coração na revolução política, democrática e na revolução da luta pelo socialismo.
[ PLAYBOY ] O que não impediu que o senhor fosse chamado por dois comunistas italianos, na sua prisão de 1966, de “boêmio inofensivo e namorador”...
[ José Dirceu ] Essa prisão foi fantástica! Esses dois italianos eram meus vizinhos de frente no apartamento da alameda Barros, em São Paulo. Eles cozinhavam maravilhosamente e eu sou apaixonado por comida italiana. Um belo dia fui preso e não entendi nada. Eu estudava direito na PUC, já fazia movimento estudantil, mas não era uma liderança. Só na prisão fiquei sabendo: os dois tinham sido enviados ao Brasil para fornecer explosivos e armamentos para a Ação Libertadora Nacional. Eu acabei solto. Até o [então deputado federal] Franco Montoro depôs a meu favor.
[ PLAYBOY ] Experimentar drogas também fazia parte da revolução?
[ José Dirceu ] Não. Droga é depois de 1969, depois da queda de Ibiúna [Dirceu e mais de 800 estudantes foram presos no 30º Congresso da UNE, realizado clandestinamente em Ibiúna em 12 de outubro de 1968]. Em 60, existia maconha na minha escola, mas eu nunca fumei. E comecei a beber depois dos 30. Nessa época eu não tomava chá nem café, só leite. Fumei cigarro por um período muito pequeno e depois parei. Agora fumo charuto uma vez por mês.
[ PLAYBOY ] Uma passagem famosa da sua biografia foi o casamento com a Clara Becker. Durante a ditadura, vocês ficaram quatro anos juntos sem que ela soubesse quem o senhor realmente era. Há quem diga que um sujeito que consegue esconder sua identidade da própria mulher é capaz de qualquer coisa...
[ José Dirceu ] Uma pessoa que fala isso tem mulher, mas dorme com uma amante e não conta pra ela. Coisa mais grave. O que eu estava fazendo do ponto de vista ético e moral era totalmente defensável. A Clara nunca deu essa versão que as pessoas atribuem a ela. Fiz tudo para protegê-la.
[ PLAYBOY ] Houve algum momento em que ela quase descobriu?
[ José Dirceu ] Eu andava sempre armado e uma vez esqueci minha capanga – onde eu guardava a arma [aponta dentro da manga da camisa] – numa livraria em Ponta Grossa. Entrei em pânico, mas o proprietário não desconfiou e devolveu a arma. Numa outra vez o prefeito de Cruzeiro do Oeste, onde eu morava, resolveu perguntar para a Clara se ela conhecia minha família. Ela mentiu e disse que conhecia. Até hoje não sei por quê. O pessoal da cidade me chamava de Pedro Caroço, o personagem daquela música “Ele tá de olho é na butique dela”. Eu era casado com uma mulher que era dona de quatro butiques.
[ PLAYBOY ] A Clara já declarou que, se tivesse enviuvado, seria mais fácil esquecê-lo. Ela também fez um sacrifício ao abrir mão do Carlos Henrique [codinome usado por Dirceu depois de mudar o rosto para viver clandestinamente em Cruzeiro do Oeste, onde se casou]?
[ José Dirceu ] Fez. Eu reconheço.
[ PLAYBOY ] Então não era melhor o senhor fazer um sacrifício consciente, não ficar com a mulher amada, do que deixá-la se sacrificar e perdê-lo do dia pra noite?
[ José Dirceu ] Se eu não ficasse com ela, estaria correndo um risco sério porque seria totalmente atípico e anormal não namorar, não casar. Eu passaria a ter uma vida artificial, o que é mortal nesses casos. A regra número um da clandestinidade é que ninguém pode saber quem você é. Todo mundo que rompeu essa regra morreu. Como eu gostava dela e ela gostava de mim... Tanto é que até hoje nós nos gostamos. Apesar de separados, temos um filho e uma neta em comum.
[ PLAYBOY ] Faria tudo de novo?
[ José Dirceu ] Não sei se faria luta armada como fiz. Em tese, não. A luta armada era moral e eticamente justificada, mas a exclusividade que demos a ela foi um erro. Tinha que combinar com a luta política e eleitoral.
[ PLAYBOY ] O senhor fez uma plástica para mudar de rosto e se esconder da ditadura. Faria por vaidade?
[ José Dirceu ] Não fiz botox, mas não tenho objeção. Para 61 anos, acho que estou até razoavelmente, como diria meu pai, conservado. Ele morreu com 88 anos e ainda era um homem muito bonito.
[ PLAYBOY ] Já tomou Viagra?
[ José Dirceu ] Não! Se tivesse tomado, falaria. Eu não tenho preconceito com fazer plástica, colocar botox, mas saiu coisa que não é verdade, dizendo que eu teria feito isso [plástica]. Foi o jornal O Globo que publicou. Eu tenho uma saúde boa, faço ginástica. Por estética também; seria hipocrisia não admitir que sou vaidoso.
[ PLAYBOY ] E atualmente, o senhor está namorando?
[ José Dirceu ] Namorar a gente sempre está namorando.
[ PLAYBOY ]Com alguém especificamente?
[ José Dirceu ] Não vou falar sobre isso.
[ PLAYBOY ] Já foi traído por uma mulher?
[ José Dirceu ] Muitas vezes. Quem não traiu e não foi traído? Precisa ver esse conceito de trair. Eu sempre fiquei com quem eu gostava e sempre procuro terminar da melhor maneira possível.
[ PLAYBOY ] Até agora, o senhor falou mais de mulheres que de armas. O senhor atirava bem?
[ José Dirceu ] Dava pro gasto. Nunca fiz com paixão a luta armada.
[ PLAYBOY ] Atirou em alguém?
[ José Dirceu ] [Sorriso.] Depois que eu fizer 80 anos eu conto.
[ PLAYBOY ] Confirme o que disse uma fonte. O senhor teria atirado durante um assalto a um cartório em 1971, quando voltou para o Brasil para levantar fundos para a Ação Libertadora Nacional?
[ José Dirceu ] Eu participei de assalto? Eu não lembro. Estou com amnésia [irônico]. Eu participei de ações políticas e militares na luta armada aqui no Brasil em 1971 e 1972. Ponto final. Contar tudo só depois que fizer 80.
[ PLAYBOY ] Aprendeu a atirar durante o exílio em Cuba?
[ José Dirceu ] Sim. Eu andava armado [no movimento estudantil], tinha atirado, mas coisa amadora. Em Cuba fiz treinamento, tropa especial, 18 meses.
[ PLAYBOY ] Quando era estudante, o senhor sempre andava armado?
[ José Dirceu ] Sim. Andava com uma .22. Certa vez, eu conheci uma moça, a Heloísa. Ela era muito bonita e eu comecei a ter relação com ela, mas alguma coisa não encaixava. Comecei a ficar desconfiado. Um dia, eu tirei da cintura a arma e ela, para a minha surpresa, a desmontou com a maior naturalidade e precisão. Descobrimos tudo: ela era espiã do Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. Fomos ao apartamento dela e encontramos tudo. Ela foi levada para uma sala, interrogada e a entregamos, com a imprensa presente, para a família dela. Eu conheci a Heloísa na sala de imprensa do [Centro Universitário] Maria Antônia, onde tinha uma placa que dizia: “Imprensa burguesa, fique quietinha e não mexa nas cadeiras”.
[ PLAYBOY ] Quem mandou escrever isso?
[ José Dirceu ] Fui eu.
[ PLAYBOY ] A briga é antiga, então?
[ José Dirceu ] A imprensa fez uma grande cobertura do movimento estudantil. O primeiro editorial que ganhei, acho que do Jornal da Tarde ou do Estadão, chamava-se “Os Baderneiros da PUC”. Éramos eu e o Luís Travassos [presidente da UNE].
[ PLAYBOY ] A imprensa continua “burguesa”?
[ José Dirceu ] Acho que a imprensa é partidária, ideológica, engajada, com projeto político. Isso existe no Brasil. Pena que não existe uma nossa assim tão forte.
[ PLAYBOY ] O Getúlio Vargas também se queixava até que decidiu financiar um jornal, o Última Hora. O Lula também poderia ter o seu?
[ José Dirceu ] Sim, seria legítimo. Eu quero um jornal pra gente também. A imprensa queria me tirar do governo desde o começo. Os tucanos e os peefelistas romperam o pacto democrático no caso Waldomiro Diniz, quando partiram para desestabilizar o governo. O Lula nem era presidente, eu nem era ministro [a gravação em que Waldomiro é flagrado cobrando propina de um empresário de jogos é de 2002, no Rio de Janeiro].
[ PLAYBOY ] Como assim, romperam pacto democrático? Teve corrupção documentada naquele caso.
[ José Dirceu ] Eles foram para derrubar o governo. A imprensa em geral partiu contra o Lula abertamente nessa crise e trabalhou para derrubá-lo. E muitos articulistas e chefes de redação articularam com PFL e PSDB.
[ PLAYBOY ] Na oposição, o PT não era fonte da imprensa, não passava denúncias também?
[ José Dirceu ] Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. Tenho que conviver com a imprensa, é uma democracia. Não estou dizendo que ela não deva fazer isso, é um direito, só não gosto de hipocrisia. Se começa a ter imprensa do outro lado, eles querem fechar. Foi o caso do Última Hora e do Samuel Wainer. A imprensa tem o direito editorial de fazer isso, mas não pode editorializar a notícia.
[ PLAYBOY ] A proposta de criação do Conselho Federal de Jornalismo apoiada pelo senhor não foi uma tentativa de cercear a liberdade de imprensa?
[ José Dirceu ] [Enfático.] Não. Existe em outros países. Mas não querem concorrência nem regulação. Tem que haver uma nova lei de comunicação de massa com regulamentação e concorrência.
[ PLAYBOY ] O texto dizia que a missão seria “orientar, disciplinar e fiscalizar” o exercício da profissão de jornalista.
[ José Dirceu ] É só tirar isso. Nem me lembro mais do texto. Era uma proposta da Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas] enviada ao governo. Não se permitiu nem que ela fosse discutida.
[ PLAYBOY ] E o que o senhor achou da ameaça de morte que o MR-8 fez [em maio passado] ao colunista de Veja Diogo Mainardi?
[ José Dirceu ] Aquilo é forçar a barra. O MR-8 não ameaça ninguém de morte. O Diogo Mainardi está fazendo o que ele sabe fazer, Agitprop. Ele devia ser nomeado secretário de Agitprop [referência ao Departamento de Agitação e Propaganda do Partido Comunista soviético criado para difundir os ideais da revolução] de todas as direitas de todo grande Brasil. É um espertalhão. É o pistoleiro que o Roberto Civita contratou para assassinar a honra das pessoas*. Da mesma maneira que existia pistoleiro para assassinar as pessoas, que os coronéis contratavam. O Diogo Mainardi é um pistoleiro. A arma dele é a caneta. Ele atira contra a honra das pessoas.
[ PLAYBOY ] Mas o Diogo Mainardi traz furos, entrevistas. Ele faz alguma coisa indevida? Ele mente?
[ José Dirceu ] Isso aí a Justiça vai dizer. Está cheio de processos contra ele. Não estou dizendo que ele não é bom jornalista, que não escreve bem, que não tem cultura. Não o estou ofendendo. Estou fazendo a imagem dele, que é a de um pistoleiro contratado.
[ PLAYBOY ] O senhor não acha que ele é contratado para simplesmente fazer jornalismo mesmo?
[ José Dirceu ] Mas isso é jornalismo. Existe jornalismo marrom, amarelo e existe o jornalismo do Diogo Mainardi.
[ PLAYBOY ] “Por que deveria um governo, que está fazendo o que acredita estar certo, permitir que o critiquem? Ele não aceitaria a oposição de armas letais, mas idéias são muito mais fatais que armas.” O senhor concorda com a frase de Lênin sobre a imprensa?
[ José Dirceu ] A crítica é fundamental, outra coisa é campanha articulada por partidos e parlamentares. Não estou dizendo que o PT não tenha feito isso, que não fizemos no passado. Não estou dizendo que tem de fechar ou censurar os jornais. Só estou denunciando.
[ PLAYBOY ] “Se coubesse a mim decidir se precisamos de um governo sem imprensa ou de uma imprensa sem governo, eu não hesitaria um momento em escolher a segunda situação”...
[ José Dirceu ] Foi o Thomas Jefferson que falou isso. Mas o governo Lula nunca fez nada contra a imprensa. É um mito dizer isso. A imprensa coopera mais contra a credibilidade dela própria do que o governo poderia fazer quando faz certas reportagens. Os meios de comunicação do país têm qualidade. Temos os melhores jornais, excelentes televisões. A Veja tem a sua qualidade. A maioria da classe média brasileira lê a Veja. O que faço é uma análise política. Quero ter o direito de falar tudo isso, por isso tenho que defender o direito de eles escreverem o que quiserem. O que não quero é que comecem a dizer que eu não posso falar. Posso sim.
[ PLAYBOY ] Justiça não basta para processar os jornalistas que cometem excessos?
[ José Dirceu ] Ah, no meu caso eu sei como ela é lenta e tardia. Existe a Justiça, você pode apelar, mas precisa melhorar as multas, as perdas e danos serem mais rápidos. E apertar no bolso.
[ PLAYBOY ] Por que o senhor foi para o outro lado, o de jornalista, de blogueiro [www.zedirceu.com.br]?
[ José Dirceu ] No começo eu resisti muito à idéia, achava que não seria capaz de me disciplinar o suficiente. Mas depois eu me convenci da necessidade, porque o blog me possibilita conversar com o Brasil todo.
[ PLAYBOY ] O senhor não deixa de ser personagem de blogs. O do jornalista Cláudio Humberto, por exemplo, noticiou até sua crise de labirintite, e muitos dizem que o senhor ainda tem poder no governo.
[ José Dirceu ] Cláudio Humberto é bem informado: eu tive mesmo uma crise de labirintite. Tratei. Agora, eu nem tenho a influência que eu gostaria de ter no governo, nem deixo de ter a que meus inimigos e adversários gostariam que eu não tivesse. Mas eu não tenho influência direta no governo ou no PT. Sou um militante do PT, sou um ex-ministro, ex-deputado, ex-presidente do partido. Mas seria mentira falar que eu não tenho alguma influência.
[ PLAYBOY ] Qual foi o último conselho que o Lula lhe pediu?
[ José Dirceu ] [Sorriso.] O Lula depois que foi reeleito é um homem de certezas, não é um homem de conselhos. Evidentemente que só o presidente da República pode revelar o que ele me solicita, o que me aconselha. Eu não posso revelar. Quando ele me pede algo, eu faço com prazer. A última vez que ele pediu, eu fiz.
[ PLAYBOY ] O que foi?
[ José Dirceu ] Não posso revelar. Mas não tenho tido conversas regulares com o presidente. A última vez que estive com ele foi na véspera do Natal, Ano Novo.
[ PLAYBOY ] O seu gabinete ficava fisicamente próximo ao do presidente, um andar de diferença. O senhor sente falta da proximidade com o poder?
[ José Dirceu ] Eu ficava embaixo. Sempre ficou, desde o Fernando Henrique. Desculpa, ficava em cima, no quarto andar. É que eu sempre falava “Vou descer”. As pessoas me corrigiam e eu respondia: “Não! Em cima do presidente não fica ninguém”. Eu sinto falta do governo porque governar é uma coisa fantástica. É lutar para realizar aquilo que você sempre sonhou para o seu país. A força que me moveu sempre foi o Brasil, mais até que o socialismo. Mas eu não tenho saudade do poder, sei viver muito bem fora do governo. Eu sempre fui um soldado muito disciplinado, sempre soube ser dirigido e soube jogar um segundo papel. Por isso que deu certo com o Lula. É mito essa idéia de que eu tinha um rolo compressor, mandava no PT, que o PT se submetia ao governo.
[ PLAYBOY ] Como político, quais são suas qualidades?
[ José Dirceu ] Ter sobrevivido e ter aprendido com várias gerações. Pode se dizer que minha maior qualidade é que eu sempre tomei decisões e sempre executei as decisões, sempre soube organizar tudo aquilo que me atribuíram como responsabilidade. Sempre soube planejar, ter objetivo, metas, executar e controlar a execução. Também sempre trabalhei coletivamente. Nunca trabalhei sozinho.
[ PLAYBOY ] Vamos aos defeitos?
[ José Dirceu ] Assim eu acho que vou falar demais.
[ PLAYBOY ] Um pelo menos. Qual é o que mais te dá problema?
[ José Dirceu ] Falar demais. O defeito é muitas vezes ser impetuoso, não sou voluntarista, mas sou impetuoso. Muitas vezes não tenho paciência para esperar o resultado. Tenho pressa, porque a vida é bela, mas é curta. Outro defeito é que não meço as minhas limitações e assumo muitas tarefas para além das possibilidades. E como não suporto a incompetência, não suporto aquilo que não é feito, vou assumindo. Isso me traz muitos problemas. Trouxe no PT e no governo. Também sou corinthiano...
[ PLAYBOY ] O presidente Lula tem algum defeito?
[ José Dirceu ] [Pensativo.] O Lula é um político que opta sempre mais pela segurança que pelo risco. E muitas vezes na política você tem que optar mais pelo risco que pela segurança. É de forma inata um negociador, alguém que busca resultados. E também alguém que luta. Sempre que eu convivi com ele, estávamos discutindo objetivos, metas, projetos e idéias. Ele não é uma pessoa que queria ser presidente da República e para isso adotou um pragmatismo que o inviabilizasse de fazer aquilo que queria.
[ PLAYBOY ] Vamos falar sobre a ascensão do filho do presidente, que saiu de monitor de zoológico para sócio da Telemar. O senhor conheceu o Lulinha pessoalmente? Ele é realmente muito talentoso nos negócios?
[ José Dirceu ] Conheço. Ele e o Kalil Bittar há muitos anos vinham trabalhando e desenvolvendo esses jogos. Eles têm qualidade.
[ PLAYBOY ] Como a Telemar tem capital público e é uma concessionária de serviço público, o senhor não acha que a sociedade com o filho do presidente causa, no mínimo, estranheza?
[ José Dirceu ] Lógico que não! Se não valessem no mercado o que eles valem, não tivessem qualidade, aí podia levantar suspeitas. Tem que provar que foi favorecimento. Senão, nenhum filho de governante poderia ter atividade profissional. Não era só a Telemar que queria comprar, outras também.
[ PLAYBOY ] É verdade que, no auge da crise do mensalão, numa festa junina no colégio de uma de suas filhas, em São Paulo, o senhor recebeu um correio elegante pedindo a sua prisão?
[ José Dirceu ] Não teve nada disso. Fui muito bem recebido. Teve uma professora que falou besteira e bateu boca com meu motorista, que levava a minha filha Joana para a escola e era muito amigo dela. Ela foi até madrinha do casamento dele. Eu sei que havia pessoas ali que já me condenavam. Inventaram que colocaram uma música de quadrilha dirigida a mim. Isso não é verdade.
[ PLAYBOY ] Um sósia do senhor se queixou de ter sido agredido em feiras e supermercados. O senhor evita lugares públicos?
[ José Dirceu ] Não é verdade! Essa matéria [do sósia] não é verdadeira! Porque eu mandei pesquisar quem é o sujeito. Olha a ficha corrida dele, manda olhar a ficha corrida dele.
[ PLAYBOY ] O senhor mandou investigar o seu sósia?
[ José Dirceu ] Sim. Levantei inquérito. É um cidadão lá, um empresário falido.
[ PLAYBOY ] O senhor se arrepende de ter comandado alianças com PP, PL, PTB?
[ José Dirceu ] Eu não me arrependo porque, se não tivesse feito essas alianças, o governo não teria conseguido maioria na Câmara e no Senado. Tanto que no Senado foi preciso fazer aliança até mesmo com alguns setores do PFL e do PSDB, pelo menos durante os 13 meses que eu dirigi a Articulação Política. Depois, há uma coisa que me chama a atenção: por que houve mensalão na Câmara e não no Senado? Porque não houve mensalão na Câmara.
[ PLAYBOY ] Mas o então deputado do PP José Janene admitiu ter recebido 600 mil reais negociados entre a direção do PP e o senhor. Segundo ele, o senhor teria encaminhado o partido ao Delúbio [Soares, então tesoureiro do PT]...
[ José Dirceu ] Eu jamais tratei com o deputado José Janene coisa alguma. Com nenhum deputado ou senador. Ninguém foi à Casa Civil para tratar de qualquer assunto que não fosse de interesse público e republicano. Eu já falei isso no plenário da Câmara olhando para todos os senadores e deputados.
[ PLAYBOY ] As alianças não estão na origem de todos esses escândalos?
[ José Dirceu ] Não. Os erros foram nossos e do sistema político. O sistema político induz ao caixa dois.
[ PLAYBOY ] O deputado Valdemar Costa Neto [PR-SP] disse que antes das eleições de 2002 pensou em não levar adiante a aliança do PL com o PT. Mas em uma reunião foi feito um acordo de 10 milhões de reais. Vocês não transformaram uma aliança política numa operação financeira?
[ José Dirceu ] José Alencar ser o vice do PL na chapa do Lula não tinha nada a ver com apoio financeiro ao PL. Primeiro que isso é legítimo. Se depois o apoio foi feito com recursos de origem ilegal é outra questão que a Justiça está apurando. Não tem nada a ver: a discussão era política, programática, de participação na campanha e estava havendo acordo. O Valdemar Costa Neto me inocenta completamente. Minha posição foi muito clara: eu não vou discutir, não tenho participação nisso, não tenho nada a ver com a coligação e apoio. É problema de campanha eleitoral, financeiro. Você discute com o partido.
[ PLAYBOY ] Com o Delúbio?
[ José Dirceu ] Com o Delúbio e o partido. Mesmo que nós não tivéssemos nos comprometido com a campanha do PL para deputado, pois eles não iam poder fazer coligação, nós financiaríamos. Não tem nada de ilegal. O PL estava sofrendo prejuízo ao fazer aliança conosco. Tinha necessidade de recurso. A rigor não tem nada de errado. Quando os recursos vêm de origem não declarada, você cai no caixa dois.
[ PLAYBOY ] Em entrevista ao Estadão, Marcos Valério fez a seguinte declaração: “Delúbio tinha uma fidelidade canina e não fazia nada sem conversar com Zé Dirceu”.
[ José Dirceu ] [Risos.] Acho que o Delúbio não tem fidelidade canina a ninguém. Segundo, ele era tesoureiro do PT e eu era presidente. Eu saí da presidência do PT em dezembro de 2002. O Marcos Valério falou muita coisa, que era meu inimigo. Eu nunca falei com ele, nunca recebi um telefonema dele. Ele foi em duas audiências acompanhando outras empresas, mas eu nunca tive relação com ele. Pode ver em todos os depoimentos.
[ PLAYBOY ] O senhor ouviu o famoso discurso da volta do ex-presidente Collor ao Senado, em que ele diz que foi cassado sem provas e que o STF o absolveu? Há quem diga que o discurso dele e o seu são muito parecidos.
[ José Dirceu ] Isso não é agravante pra mim, é atenuante. Zé Dirceu é Zé Dirceu; Collor é Collor. Basta ver a história dos dois. Se o Collor foi cassado sem provas, ele foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal. Mas o Senado não cassou o Collor e suspendeu os direitos políticos dele por dez anos pelas acusações das quais ele foi absolvido no Supremo. No meu caso é a mesma coisa: chefe do mensalão, chefe da quadrilha. O meu é quebra de decoro. Além disso, o Collor renunciou. Eu não. Me submeti ao julgamento da Câmara e ao julgamento da Justiça do meu país.
[ PLAYBOY ] Ainda que o senhor tenha criticado a denúncia feita pelo procurador-geral, Antonio Fernando, Lula o manteve no cargo por mais dois anos. O ministro Tarso Genro [Justiça] declarou: “O trabalho dele não tem inflexão partidária e nem cria crises artificiais”. Isso não significa que o governo aprovou o trabalho de Antonio Fernando, incluindo a denúncia?
[ José Dirceu ] Essa pergunta você faz para o Tarso Genro, porque eu não ouvi o presidente falar isso.
[ PLAYBOY ] Mas o Tarso é um nome importante do governo. Ele não falou em nome do presidente?
[ José Dirceu ] Eu não tenho relações com o Tarso. Só de filiado do PT. Nós nos conhecemos, nos cumprimentamos e pronto.
[ PLAYBOY ] Quais foram, afinal, os erros que o senhor cometeu?
[ José Dirceu ] Não fazer reforma política, não viabilizar que o PMDB fosse a principal base aliada, depois do PCdoB e do PSB, evidentemente. Nós devíamos ter feito uma grande mobilização no país e não fizemos. Começou a crise e, de certa maneira, o governo estava desarmado.
[ PLAYBOY ] O senhor continua defendendo a aliança com o PMDB mesmo depois da crise envolvendo o presidente do Senado, Renan Calheiros?
[ José Dirceu ] O Renan tem direito à presunção da inocência. Se o Senado quer cassá-lo politicamente porque considera que ele quebrou o decoro, tem que apresentar provas. Por isso que o Conselho de Ética tem que investigar mais. O afastamento dele ou não da presidência do Senado é uma questão do PMDB. Evidente que há na sociedade uma demanda grande, justa, para que se apure e se esclareça e para que a corrupção seja combatida, o que o governo vem fazendo.
[ PLAYBOY ] A defesa dele não é muito frágil?
[ José Dirceu ] Precisa ver, precisa ser checada pela Receita Federal. Eu passei 17 meses sob investigação da Receita Federal, fizeram uma devassa no meu imposto de renda. E saí ileso. De qualquer maneira, acho que o caso Renan Calheiros ganhou uma dimensão mais política, por causa da aliança do PMDB com o governo do PT. Mesmo o comportamento da oposição mostra que ela tem muitos compromissos com o Renan Calheiros.
[ PLAYBOY ] Por exemplo?
[ José Dirceu ] O próprio comportamento. Há muitos interesses comuns no Senado. Pode ver que o Senado nunca investiga. Os senadores que foram acusados renunciaram. Sempre predomina um certo corporativismo. A minha crítica é que o Renan foi linchado e julgado sem direito de defesa, sem processo legal.
[ PLAYBOY ] Mas isso não abala a aliança PT e PMDB?
[ José Dirceu ] Não vejo por quê. Cada um responde pelos atos que pratica. Mas tem de ter a presunção de inocência e direito de defesa. Eu vou manter essa linha, até porque fui vítima e paguei muito caro por isso.
[ PLAYBOY ] Ainda sobre alianças: o presidente Lula errou ao dizer que daria um cheque em branco ao Roberto Jefferson (PTB-RJ)?
[ José Dirceu ] Nem sei se ele disse isso. Essas coisas viram dito pelo não dito. Mas o Lula não dá cheque em branco pra ninguém. Não é da natureza dele. Pelo contrário, ele delega, mas controla, cobra. Ele é um presidente da República que tem controle sobre tudo o que está acontecendo. O Lula trabalha, chega cedo e sai tarde. E quem acha o contrário, ótimo. Porque vai subestimar o Lula e vai nos subestimar.
[ PLAYBOY ] Mas então ele sabia do caixa dois, do dossiê fajuto contra os tucanos, não?
[ José Dirceu ] [Irritado.] Não está sob atribuição da Presidência da República. Isso não era matéria de governo, era de partido. Tanto é que o país reconheceu isso, o TSE reconheceu. Presidente da República não pode ser responsabilizado. Aliás, eu não posso ser responsável como ministro da Casa Civil por nada que aconteceu no PT, nada que aconteceu no Congresso. Por isso que eu sou inocente. Não há como me responsabilizar.
[ PLAYBOY ] O senhor já disse que a sua maior qualidade é saber “planejar, ter objetivo, metas, executar e controlar a execução”. A partir disso, não é verossímil que o classifiquem como o “chefe do mensalão”?
[ José Dirceu ] No caso, eu fui incompetente. Saí do PT e não continuei acompanhando o PT. Saí da Câmara e não continuei acompanhando a Câmara depois que eu deixei a Articulação Política, em janeiro de 2004. Foi um caso de incompetência.
[ PLAYBOY ] O ex-deputado Roberto Jefferson desperta os piores instintos no senhor?
[ José Dirceu ] Nada, zero. Eu nunca mais tive relação com ele e não pretendo ter. Eu nunca convivi com ele, fui à casa dele para reuniões. Eu não desperto isso em ninguém, só nele. Eu não trato as questões políticas como pessoais.
[ PLAYBOY ] Há uma diferença entre o homem político e o pessoal?
[ José Dirceu ] Não. O homem pessoal se expressa na política. O que eu digo é que você não pode deixar de se relacionar com alguém pelo que aconteceu no passado, se você faz política. Eu tenho amigos que são adversários, como o Aloysio Nunes Ferreira [secretário-chefe da Casa Civil do governo do tucano José Serra em São Paulo].
[ PLAYBOY ] O senhor está dizendo que não faz política com o fígado?
[ José Dirceu ] Não faço. Imagina se eu fizesse política com o fígado...
[ PLAYBOY ] Vamos falar do futuro. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, foi convidado a trocar o PSDB pelo PMDB. O Lula disse que é possível que ele apóie um candidato do PMDB. Vai ser o Aécio?
[ José Dirceu ] O Lula disse que apóia um candidato da coalizão, mas ele não falou o partido! Falou que a base vai ter um candidato. A base vai do PP até o PT. O PT deve trabalhar para ter um candidato, mas tem que partir do princípio que pode ser de outro partido, seja Ciro Gomes ou outro nome.
[ PLAYBOY ] O Aécio Neves é um bom nome?
[ José Dirceu ] Para o PSDB é um bom nome. Para o PSDB!
[ PLAYBOY ] Se Lula chegar com popularidade alta em 2010, ele pode copiar o presidente venezuelano Hugo Chávez e tentar um terceiro mandato?
[ José Dirceu ] Primeiro, o Lula jamais fará isso. Segundo, não existe nenhuma possibilidade de a sociedade brasileira aceitar. Terceiro, seria completamente inconstitucional. Não tem chance. Mas em 2014, o Lula vai estar com 68 anos, forte como um touro.
[ PLAYBOY ] A vaia ao Lula na abertura do Pan foi ensaiada? Coisa do Cesar Maia [prefeito do Rio pelo DEM]?
[ José Dirceu ] Não tenho idéia. Do Cesar Maia pode se esperar tudo. Não quer dizer que nós não possamos ser vaiados. Depende do público.
[ PLAYBOY ] Fernando Morais ia escrever um livro sobre a sua passagem pelo governo, mas os originais sumiram. Como o senhor recebeu a notícia?
[ José Dirceu ] Estava tranqüilo porque tínhamos a base, roubaram algo semi-organizado. Preciso retomar esse projeto, mas agora faria um livro sobre a minha vida, a passagem pelo governo e sobre o processo que estou vivendo, kafkaniano. O [Antonio] Palocci fez o dele. Li e gostei muito.
[ PLAYBOY ] O senhor fala com o Palocci?
[ José Dirceu ] Regularmente, a cada 15, 20 dias.
[ PLAYBOY ] O que achou do caso da quebra do sigilo bancário do caseiro Nildo?
[ José Dirceu ] Eu diria que é um caso a ser esclarecido.
[ PLAYBOY ] Mas o senhor não acha que a quebra ter acontecido já é um fato?
[ José Dirceu ] Precisa de um tempo para se debruçar sobre ele, para repor a verdade histórica. Como o caso do mensalão. A Câmara sabe que não houve mensalão: os partidos receberam dinheiro para fazer a campanha eleitoral de 2004. Eu viajo pelo Brasil, faço palestras, falo nas TVs, rádios e jornais. Sei que é um trabalho longo. Não vão achar que eu vou ser derrotado, sair da vida política.
[ PLAYBOY ] O senhor tem sido bem-sucedido como consultor de empresas?
[ José Dirceu ] Para os meus objetivos, sim: sustentar minha atividade política e a minha família. Não é verdade que ganho 150 mil reais por mês. Já declarei meu imposto de renda e está lá quanto ganho. Gosto de ir ao cinema, de ler, de comer bem; sempre que posso faço algo na minha casa em Vinhedo. Tenho esse escritório que fiz há dois anos. Comprei em 2001 e levei cinco anos para construir a casa.
[ PLAYBOY ] Seus velhos companheiros de luta não se queixam dos seus hábitos burgueses?
[ José Dirceu ] Há 20 anos eu ando com chofer, registrado, pago o salário. Eu dirijo razoavelmente bem, mas eu parei de dirigir quando dormi duas vezes de tanto trabalhar e subi num canteiro. Eu gosto de comer bem. Gosto de vinho, mas nada exagerado: 80, 100, 150 reais. Quando ganho um melhor, tomo. Gosto de Jack Daniel’s, único whisky que bebo, e de rum. Procuro me vestir bem, mas nada luxuoso. Quando vou a restaurantes mais caros, estou com empresas, clientes, mas é minha atividade profissional.
[ PLAYBOY ] O senhor não parece muito à vontade ao falar da sua atividade de consultor.
[ José Dirceu ] A lei me obriga ao sigilo e à confidencialidade, tanto no escritório de advocacia como aqui. Fazem campanha para me prejudicar. A minha vida é pública, eu continuo fazendo política, então é natural que escrevam e falem de mim. A minha atividade como consultor está totalmente legal, faz dois anos que saí do governo. Eu esperei um ano e meio. Posso fazer qualquer atividade.
[ PLAYBOY ] Ter passado pelo governo que continua no poder não ajuda?
[ José Dirceu ] O Fernando Henrique pode cobrar 85 mil reais por palestra, e eu não posso fazer consultoria? No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas que com empresas que têm relação com o governo.
[ PLAYBOY ] Recentemente, o nome do senhor foi citado por causa de um grampo feito durante investigação envolvendo a MSI, o Corinthians e o russo Boris Berezovski. O senhor evita falar no telefone?
[ José Dirceu ] Não evito porque não trato nada que seja ilegal. Você toma as medidas razoáveis que tomaria para conversar em qualquer lugar público. Mas tenho preocupação porque é um direito constitucional. Podem começar a quebrar sigilo telefônico dos jornalistas para saber as matérias que estão sendo feitas. Não sou contra [grampos], mas é preciso ter limites. Fui grampeado e não encontraram nada contra mim. Aí acharam uma conversa minha com um cliente discutindo embargo de carne para a Rússia. Como tinha a palavra Rússia, juntaram no processo.
[ PLAYBOY ] O senhor disse que o presidente Lula não passa cheque em branco pra ninguém. E o senhor?
[ José Dirceu ] Pra ninguém.
[ PLAYBOY ] Nem pra sua mãe?
[ José Dirceu ] Pra ela eu dou dinheiro vivo.
[ PLAYBOY ] Pra terminar. O senhor ficou mais de 800 dias como ministro e foi chamado de “técnico do time” pelo presidente. Em time que está ganhando se mexe?
[ José Dirceu ] Às vezes você é obrigado a mexer, por exemplo quando o adversário faz uma falta grave. No caso, tentaram quebrar as minhas pernas.
No Planalto, a ordem é o silêncio
Apesar de prever uma batalha política com a oposição e setores da mídia devido ao julgamento da denúncia do mensalão, o governo resolveu adotar a tática do silêncio. Em público, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministros não comentam o caso. Negam, inclusive, que tenha sido objeto de discussão na reunião da coordenação política realizada ontem. O objetivo é tentar descolar o governo da decisão que será tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a partir de amanhã.
Para que a estratégia dê certo e o Palácio do Planalto não fique nas cordas durante o julgamento, caberá a aliados saírem a campo para defender o governo e o PT. A missão começou a ser cumprida ontem. “Não é um julgamento político. Nem o governo nem o PT estão no banco dos réus. É óbvio que a oposição e setores da mídia farão um esforço enorme para colocá-los lá”, disse o governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT).
O Supremo decidirá se abre ação penal contra 40 pessoas acusadas pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, de participação no esquema do mensalão. Entre elas, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, denunciado como chefe da “quadrilha”, e o ex-presidente do PT José Genoino (SP), hoje deputado federal. “Uma ação penal é uma ação penal. Não vejo relação automática entre um processo que começa agora e a vida interna do PT e do governo. Para mim, isso é forçar a barra”, acrescentou Déda.
Se a denúncia contra Dirceu for arquivada, aliados do ex-ministro tentarão dar celeridade ao processo destinado a anistiá-lo. Em 2005, Dirceu teve os direitos políticos cassados por oito anos por decisão do plenário da Câmara. Há ainda a possibilidade, discutida nos bastidores, de o ex-deputado voltar a presidir o PT. Caso o Supremo decida processá-lo, a oposição dirá que a condição de réu é a prova de que o governo teve participação direta no suposto esquema de pagamento de mesada em troca de votos favoráveis no Congresso.
Pressa
“Não tem nada a ver uma coisa com a outra”, declarou o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, negando implicações políticas do julgamento. “O que o procurador fez é uma proposta de ação penal, nada mais do que isso.” Bastos pediu ao Supremo pressa no julgamento dos processos que forem abertos. Torce para que a prescrição não beneficie os réus, como ocorreu recentemente com o deputado Paulo Maluf (PP-SP).
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), entoou discurso parecido. Disse que o julgamento é positivo para o país. Ruim seria se não fosse realizado, se não fossem dadas à sociedade satisfações sobre o principal escândalo político do primeiro mandato do presidente Lula. “O julgamento mostra que as instituições estão funcionando.” Campos, Déda e Bastos prestigiaram ontem o lançamento do PAC da Segurança no Palácio do Planalto.
Ouviram do presidente uma declaração otimista capaz de fazer inveja a Pangloss, célebre personagem do clássico Cândido, de Voltaire, para quem tudo estava sempre o melhor possível. Como todos nós fizemos curso de perseverança, está dando tudo certo no Brasil , festejou Lula.
Correio Brasiliense
Para que a estratégia dê certo e o Palácio do Planalto não fique nas cordas durante o julgamento, caberá a aliados saírem a campo para defender o governo e o PT. A missão começou a ser cumprida ontem. “Não é um julgamento político. Nem o governo nem o PT estão no banco dos réus. É óbvio que a oposição e setores da mídia farão um esforço enorme para colocá-los lá”, disse o governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT).
O Supremo decidirá se abre ação penal contra 40 pessoas acusadas pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, de participação no esquema do mensalão. Entre elas, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, denunciado como chefe da “quadrilha”, e o ex-presidente do PT José Genoino (SP), hoje deputado federal. “Uma ação penal é uma ação penal. Não vejo relação automática entre um processo que começa agora e a vida interna do PT e do governo. Para mim, isso é forçar a barra”, acrescentou Déda.
Se a denúncia contra Dirceu for arquivada, aliados do ex-ministro tentarão dar celeridade ao processo destinado a anistiá-lo. Em 2005, Dirceu teve os direitos políticos cassados por oito anos por decisão do plenário da Câmara. Há ainda a possibilidade, discutida nos bastidores, de o ex-deputado voltar a presidir o PT. Caso o Supremo decida processá-lo, a oposição dirá que a condição de réu é a prova de que o governo teve participação direta no suposto esquema de pagamento de mesada em troca de votos favoráveis no Congresso.
Pressa
“Não tem nada a ver uma coisa com a outra”, declarou o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, negando implicações políticas do julgamento. “O que o procurador fez é uma proposta de ação penal, nada mais do que isso.” Bastos pediu ao Supremo pressa no julgamento dos processos que forem abertos. Torce para que a prescrição não beneficie os réus, como ocorreu recentemente com o deputado Paulo Maluf (PP-SP).
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), entoou discurso parecido. Disse que o julgamento é positivo para o país. Ruim seria se não fosse realizado, se não fossem dadas à sociedade satisfações sobre o principal escândalo político do primeiro mandato do presidente Lula. “O julgamento mostra que as instituições estão funcionando.” Campos, Déda e Bastos prestigiaram ontem o lançamento do PAC da Segurança no Palácio do Planalto.
Ouviram do presidente uma declaração otimista capaz de fazer inveja a Pangloss, célebre personagem do clássico Cândido, de Voltaire, para quem tudo estava sempre o melhor possível. Como todos nós fizemos curso de perseverança, está dando tudo certo no Brasil , festejou Lula.
Correio Brasiliense
20.8.07
Empréstimos que irrigaram valerioduto não são pagos
Fato reforça tese de que dívidas teriam sido feitas sem a intenção de quitá-las
Bancos foram à Justiça sem usar garantias dos débitos; STF decide nesta semana se acolhe denúncia contra envolvidos no esquema
A suposta dívida de mais de R$ 100 milhões do esquema do valerioduto com os bancos BMG e Rural -produto dos ora chamados na denúncia do mensalão de "pseudo-empréstimos", ora, de "empréstimos simulados", ou ainda de meras operações de lavagem de dinheiro destinado ao caixa dois do PT- não foi paga até hoje.
Mais de dois anos depois do auge do escândalo, ainda faltam provas sobre a real origem do dinheiro movimentado no esquema do mensalão, no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a inexistência de pagamento reforça a tese do procurador-geral Antonio Fernando de Souza de que os empréstimos bancários usados para justificar os repasses milionários a políticos foram criados para não serem quitados.
A partir desta quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal inicia as sessões em que se decidirá sobre o acolhimento das denúncias relativas ao caso mensalão. São 40 os envolvidos, incluindo o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
A Folha pesquisou o andamento de sete ações de cobrança e execução em que se transformaram as sete operações bancárias apresentadas pela dupla Marcos Valério Fernandes de Souza e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares como a origem do dinheiro do caixa dois. A versão surgiu para contestar indícios de desvio de recursos públicos para o esquema -o que envolveria diretamente o governo federal.
As ações de cobrança só foram apresentadas nos últimos meses de 2005, como parte da estratégia de defesa dos bancos e do publicitário Marcos Valério, quando a CPI dos Correios já contestava a versão apresentada para a origem do dinheiro. Tramitam nos tribunais de Justiça de Minas Gerais e do Distrito Federal.
São como espectros do mensalão: os bancos BMG e Rural cobram do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza e suas empresas. O publicitário empurra a dívida para o PT, que se recusa a pagar -porque nem sequer a reconhece.
O tamanho do fantasma é incerto. A suposta dívida passava de R$ 100 milhões (exatos R$ 100.082.166,35) em 16 de dezembro de 2005, data da mais recente atualização oficial. Tanto o BMG quanto o Rural se recusaram a informar o valor corrigido da dívida, contabilizados juros e encargos. Alegam sigilo bancário.
Por ordem do Banco Central, também posterior ao escândalo, os supostos empréstimos foram classificados como créditos podres -quando as chances de pagamento são consideradas remotas, quase nulas.
Consulta aos processos de cobrança mostra que a versão dos empréstimos bancários -desacreditada pela CPI dos Correios e pela denúncia do Ministério Público- foi contestada até pelos advogados do PT. E não apenas por falta de registros formais na contabilidade do partido, como se espera de movimentações de recursos de caixa dois.
PT contra PT
Em maio do ano passado, o PT respondeu nos autos que os supostos empréstimos haviam sido concedidos "ao arrepio das mais comezinhas regras bancárias". Por serem irregulares, não seriam pagos pelo partido, resumia a defesa da agremiação, menos de um ano depois de o PT endossar a versão dos empréstimos para escapar dos indícios de desvio de dinheiro público.
Diante da contradição apontada pela reportagem, o presidente do partido, Ricardo Berzoini, afirmou que caberia à Justiça apurar a origem do dinheiro do caixa dois.
Questionado novamente na semana passada, o PT voltou a negar responsabilidade no negócio. "A defesa do PT é consistente", alega o tesoureiro Paulo Ferreira. "Não há nos referidos empréstimos responsabilidade institucional do partido, [eles] não cumpriram com os requisitos legais necessários, não foram assinados, a instituição PT não os aprovou", completou.
Persiste o empurra-empurra. Procurado pela Folha, o publicitário Marcos Valério reiterou, por meio de advogados, que depende dos pagamentos do PT para honrar as dívidas com o BMG e o Rural. "A dívida do PT não foi paga", respondeu o escritório Rodolfo Gropen. Com os bens penhorados, Valério diz esperar resposta da Justiça. A sentença do juiz da 11ª vara cível de Brasília está para sair há mais de um ano.
Sem garantia
Os processos de cobrança não lançaram mão do texto em que Delúbio Soares assumia, perante o BMG, o compromisso "irretratável e irrevogável de garantir, como avalista e devedor solidário" as supostas operações de empréstimo.
O documento foi apresentado à CPI dos Correios como parte da defesa combinada do publicitário e do ex-tesoureiro, operadores do caixa dois petista. Sua validade "é nula", concluíram as investigações do Congresso.
Antes de ir à Justiça, os bancos tampouco usaram garantias apresentadas pelas empresas de Marcos Valério para os supostos empréstimos, sustentadas sobretudo em grandes contratos de publicidade com empresas estatais (Banco do Brasil, Correios e Eletronorte).
"O banco ainda não recebeu os valores em questão, aguarda pelas decisões judiciais", respondeu o Rural por meio de sua assessoria. Apontado na denúncia do Ministério Público como braço financeiro do mensalão, o banco é responsável por pouco mais da metade dos recursos contabilizados no caixa dois petista.
Segundo a assessoria, depois de um período de "ajustes duríssimos" que se seguiu ao escândalo, o banco "já voltou a lucrar e é uma instituição financeira com perspectivas de futuro bastante positivas".
O BMG informou que reduziu em R$ 10 milhões a dívida das empresas de Valério, por meio da liquidação de uma aplicação financeira no próprio banco, oferecida como garantia. O advogado Raphael Miranda avaliou que a cobrança da maior parte da dívida tornou-se "mais difícil em virtude da situação da SMPB e da Graffiti". As duas empresas fecharam as portas.
Considerado pela CPI suspeito de favorecimento na licença para operar com crédito consignado a aposentados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o BMG ampliou a carteira após o escândalo.
Folha
Bancos foram à Justiça sem usar garantias dos débitos; STF decide nesta semana se acolhe denúncia contra envolvidos no esquema
A suposta dívida de mais de R$ 100 milhões do esquema do valerioduto com os bancos BMG e Rural -produto dos ora chamados na denúncia do mensalão de "pseudo-empréstimos", ora, de "empréstimos simulados", ou ainda de meras operações de lavagem de dinheiro destinado ao caixa dois do PT- não foi paga até hoje.
Mais de dois anos depois do auge do escândalo, ainda faltam provas sobre a real origem do dinheiro movimentado no esquema do mensalão, no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a inexistência de pagamento reforça a tese do procurador-geral Antonio Fernando de Souza de que os empréstimos bancários usados para justificar os repasses milionários a políticos foram criados para não serem quitados.
A partir desta quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal inicia as sessões em que se decidirá sobre o acolhimento das denúncias relativas ao caso mensalão. São 40 os envolvidos, incluindo o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
A Folha pesquisou o andamento de sete ações de cobrança e execução em que se transformaram as sete operações bancárias apresentadas pela dupla Marcos Valério Fernandes de Souza e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares como a origem do dinheiro do caixa dois. A versão surgiu para contestar indícios de desvio de recursos públicos para o esquema -o que envolveria diretamente o governo federal.
As ações de cobrança só foram apresentadas nos últimos meses de 2005, como parte da estratégia de defesa dos bancos e do publicitário Marcos Valério, quando a CPI dos Correios já contestava a versão apresentada para a origem do dinheiro. Tramitam nos tribunais de Justiça de Minas Gerais e do Distrito Federal.
São como espectros do mensalão: os bancos BMG e Rural cobram do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza e suas empresas. O publicitário empurra a dívida para o PT, que se recusa a pagar -porque nem sequer a reconhece.
O tamanho do fantasma é incerto. A suposta dívida passava de R$ 100 milhões (exatos R$ 100.082.166,35) em 16 de dezembro de 2005, data da mais recente atualização oficial. Tanto o BMG quanto o Rural se recusaram a informar o valor corrigido da dívida, contabilizados juros e encargos. Alegam sigilo bancário.
Por ordem do Banco Central, também posterior ao escândalo, os supostos empréstimos foram classificados como créditos podres -quando as chances de pagamento são consideradas remotas, quase nulas.
Consulta aos processos de cobrança mostra que a versão dos empréstimos bancários -desacreditada pela CPI dos Correios e pela denúncia do Ministério Público- foi contestada até pelos advogados do PT. E não apenas por falta de registros formais na contabilidade do partido, como se espera de movimentações de recursos de caixa dois.
PT contra PT
Em maio do ano passado, o PT respondeu nos autos que os supostos empréstimos haviam sido concedidos "ao arrepio das mais comezinhas regras bancárias". Por serem irregulares, não seriam pagos pelo partido, resumia a defesa da agremiação, menos de um ano depois de o PT endossar a versão dos empréstimos para escapar dos indícios de desvio de dinheiro público.
Diante da contradição apontada pela reportagem, o presidente do partido, Ricardo Berzoini, afirmou que caberia à Justiça apurar a origem do dinheiro do caixa dois.
Questionado novamente na semana passada, o PT voltou a negar responsabilidade no negócio. "A defesa do PT é consistente", alega o tesoureiro Paulo Ferreira. "Não há nos referidos empréstimos responsabilidade institucional do partido, [eles] não cumpriram com os requisitos legais necessários, não foram assinados, a instituição PT não os aprovou", completou.
Persiste o empurra-empurra. Procurado pela Folha, o publicitário Marcos Valério reiterou, por meio de advogados, que depende dos pagamentos do PT para honrar as dívidas com o BMG e o Rural. "A dívida do PT não foi paga", respondeu o escritório Rodolfo Gropen. Com os bens penhorados, Valério diz esperar resposta da Justiça. A sentença do juiz da 11ª vara cível de Brasília está para sair há mais de um ano.
Sem garantia
Os processos de cobrança não lançaram mão do texto em que Delúbio Soares assumia, perante o BMG, o compromisso "irretratável e irrevogável de garantir, como avalista e devedor solidário" as supostas operações de empréstimo.
O documento foi apresentado à CPI dos Correios como parte da defesa combinada do publicitário e do ex-tesoureiro, operadores do caixa dois petista. Sua validade "é nula", concluíram as investigações do Congresso.
Antes de ir à Justiça, os bancos tampouco usaram garantias apresentadas pelas empresas de Marcos Valério para os supostos empréstimos, sustentadas sobretudo em grandes contratos de publicidade com empresas estatais (Banco do Brasil, Correios e Eletronorte).
"O banco ainda não recebeu os valores em questão, aguarda pelas decisões judiciais", respondeu o Rural por meio de sua assessoria. Apontado na denúncia do Ministério Público como braço financeiro do mensalão, o banco é responsável por pouco mais da metade dos recursos contabilizados no caixa dois petista.
Segundo a assessoria, depois de um período de "ajustes duríssimos" que se seguiu ao escândalo, o banco "já voltou a lucrar e é uma instituição financeira com perspectivas de futuro bastante positivas".
O BMG informou que reduziu em R$ 10 milhões a dívida das empresas de Valério, por meio da liquidação de uma aplicação financeira no próprio banco, oferecida como garantia. O advogado Raphael Miranda avaliou que a cobrança da maior parte da dívida tornou-se "mais difícil em virtude da situação da SMPB e da Graffiti". As duas empresas fecharam as portas.
Considerado pela CPI suspeito de favorecimento na licença para operar com crédito consignado a aposentados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o BMG ampliou a carteira após o escândalo.
Folha
19.8.07
JULGAMENTO DO MENSALÃO
Com consultorias secretas, Dirceu mantém influência
Ex-ministro, que viaja de 2 a 3 vezes por semana para atender empresas privadas, mantém sob sigilo nomes de seus clientes
Atual refúgio do petista é seu sobrado em Vinhedo, avaliado em R$ 500 mil; ex-ministro se recusa a mostrar contratos e nega fazer lobby
Portugal, República Dominicana, Argentina, Peru, Chile, duas vezes nos Estados Unidos, México, Nicarágua e, por fim, uma semana de folga em Toronto, no Canadá - só de janeiro para cá. Duas a três viagens por semana pelo Brasil, palestras e consultorias remuneradas para empresas privadas.
Para descansar, um sobrado avaliado em R$ 500 mil, de 300 metros quadrados com três quartos, quatro banheiros e dois escritórios, em Vinhedo, a 76 km de São Paulo.
Aos 61 anos, o ex-líder estudantil, ex-aprendiz de guerrilheiro em Cuba, ex-vendedor de jeans, ex-ministro e ex-homem forte do governo Lula - acusado de ser o "chefe da quadrilha" do mensalão -, o advogado José Dirceu de Oliveira e Silva cumpre uma rotina tão agitada quanto reservada -ninguém fora de seu círculo sabe para quem ele trabalha e quem sustenta a maratona de hotéis e aeroportos. E ele não faz questão de esclarecer.
A Folha encaminhou à assessoria do ex-ministro lista de 17 possíveis clientes de Dirceu, citados pela imprensa. A resposta: "Os contratos de consultoria têm cláusulas de confidencialidade, o que é normal e rotineiro. Ele teria de pedir aos contratantes autorização para confirmar e não acha que deva fazer isso". A reportagem pediu então para ver as "cláusulas de confidencialidade", mas não houve retorno.
Sabem-se cacos dessa história. Uma escuta telefônica da PF neste ano captou, acidentalmente, a informação de que ele trabalharia para o frigorífico Minerva, de Barretos (SP) - o que Dirceu confirmou, indiretamente, numa entrevista à revista "Playboy".
No ano passado, Dirceu esteve na Bolívia a bordo de um jato contratado pelo empresário de siderurgia Eike Batista. Em abril, um jornal do Tocantins informou que Dirceu circulou durante três dias na região num jato Cessna Citation registrado em nome de uma empresa de táxi aéreo de Fortaleza. Segundo contas da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que pediu esclarecimentos, a viagem teria custado não menos que R$ 200 mil.
Na entrevista à "Playboy", Dirceu negou fazer lobby no governo: "No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas que com empresas que têm relação com o governo".
Dirceu toca duas empresas ao mesmo tempo, uma de consultoria e outra de advocacia, ambas na Vila Mariana, em São Paulo. Divide a segunda com a advogada Lilian Ribeiro. Passa pouco tempo nos escritórios.
O presidente do Irib (Instituto de Registro Imobiliário do Brasil), Helvécio Duia Castello, é dos poucos a divulgar na internet que manteve encontro com Dirceu. Disse que foram cerca de 20 minutos, no escritório da rua Sena Madureira. Castello, filiado ao PT do Espírito Santo, foi deputado federal entre 1991 e 1994.
O Irib retirou de sua página na internet a menção ao encontro. O instituto define-se como uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo "o estudo e a pesquisa de procedimentos e normas jurídicas referentes ao registro de imóveis e o assessoramento de autoridades públicas e órgãos governamentais".
Não há relatos de que Dirceu passe muito tempo em Vinhedo - em novembro, o ex-ministro disse à Folha que ficava "a maior parte da semana" na cidade. A ausência é referida no boletim de ocorrência lavrado para apurar furto ocorrido em sua casa em novembro de 2005 - Dirceu deixara a Casa Civil em 23 de junho daquele ano, após as denúncias do mensalão feitas pelo ex-aliado e ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ).
A empregada da casa de Dirceu disse à Polícia Civil que os ladrões arrombaram uma janela e levaram uma TV com tela de plasma, charutos, medalhas, chocolates, um tapete vermelho", além de tentarem carregar um aparelho de som, que acabou abandonado no jardim da casa. O dado revelador é que tudo estava embalado na casa, intocado, havia mais de dois meses, junto com aparelho de microondas, sofá e cama.
Dirceu comprou o terreno em Vinhedo em dezembro de 2001, por R$ 50 mil. Escolheu um dos condomínios mais distantes e isolados, a cerca de 10 km do centro. Construiu a casa nos dois anos seguintes.
Folha
Ex-ministro, que viaja de 2 a 3 vezes por semana para atender empresas privadas, mantém sob sigilo nomes de seus clientes
Atual refúgio do petista é seu sobrado em Vinhedo, avaliado em R$ 500 mil; ex-ministro se recusa a mostrar contratos e nega fazer lobby
Portugal, República Dominicana, Argentina, Peru, Chile, duas vezes nos Estados Unidos, México, Nicarágua e, por fim, uma semana de folga em Toronto, no Canadá - só de janeiro para cá. Duas a três viagens por semana pelo Brasil, palestras e consultorias remuneradas para empresas privadas.
Para descansar, um sobrado avaliado em R$ 500 mil, de 300 metros quadrados com três quartos, quatro banheiros e dois escritórios, em Vinhedo, a 76 km de São Paulo.
Aos 61 anos, o ex-líder estudantil, ex-aprendiz de guerrilheiro em Cuba, ex-vendedor de jeans, ex-ministro e ex-homem forte do governo Lula - acusado de ser o "chefe da quadrilha" do mensalão -, o advogado José Dirceu de Oliveira e Silva cumpre uma rotina tão agitada quanto reservada -ninguém fora de seu círculo sabe para quem ele trabalha e quem sustenta a maratona de hotéis e aeroportos. E ele não faz questão de esclarecer.
A Folha encaminhou à assessoria do ex-ministro lista de 17 possíveis clientes de Dirceu, citados pela imprensa. A resposta: "Os contratos de consultoria têm cláusulas de confidencialidade, o que é normal e rotineiro. Ele teria de pedir aos contratantes autorização para confirmar e não acha que deva fazer isso". A reportagem pediu então para ver as "cláusulas de confidencialidade", mas não houve retorno.
Sabem-se cacos dessa história. Uma escuta telefônica da PF neste ano captou, acidentalmente, a informação de que ele trabalharia para o frigorífico Minerva, de Barretos (SP) - o que Dirceu confirmou, indiretamente, numa entrevista à revista "Playboy".
No ano passado, Dirceu esteve na Bolívia a bordo de um jato contratado pelo empresário de siderurgia Eike Batista. Em abril, um jornal do Tocantins informou que Dirceu circulou durante três dias na região num jato Cessna Citation registrado em nome de uma empresa de táxi aéreo de Fortaleza. Segundo contas da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que pediu esclarecimentos, a viagem teria custado não menos que R$ 200 mil.
Na entrevista à "Playboy", Dirceu negou fazer lobby no governo: "No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas que com empresas que têm relação com o governo".
Dirceu toca duas empresas ao mesmo tempo, uma de consultoria e outra de advocacia, ambas na Vila Mariana, em São Paulo. Divide a segunda com a advogada Lilian Ribeiro. Passa pouco tempo nos escritórios.
O presidente do Irib (Instituto de Registro Imobiliário do Brasil), Helvécio Duia Castello, é dos poucos a divulgar na internet que manteve encontro com Dirceu. Disse que foram cerca de 20 minutos, no escritório da rua Sena Madureira. Castello, filiado ao PT do Espírito Santo, foi deputado federal entre 1991 e 1994.
O Irib retirou de sua página na internet a menção ao encontro. O instituto define-se como uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo "o estudo e a pesquisa de procedimentos e normas jurídicas referentes ao registro de imóveis e o assessoramento de autoridades públicas e órgãos governamentais".
Não há relatos de que Dirceu passe muito tempo em Vinhedo - em novembro, o ex-ministro disse à Folha que ficava "a maior parte da semana" na cidade. A ausência é referida no boletim de ocorrência lavrado para apurar furto ocorrido em sua casa em novembro de 2005 - Dirceu deixara a Casa Civil em 23 de junho daquele ano, após as denúncias do mensalão feitas pelo ex-aliado e ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ).
A empregada da casa de Dirceu disse à Polícia Civil que os ladrões arrombaram uma janela e levaram uma TV com tela de plasma, charutos, medalhas, chocolates, um tapete vermelho", além de tentarem carregar um aparelho de som, que acabou abandonado no jardim da casa. O dado revelador é que tudo estava embalado na casa, intocado, havia mais de dois meses, junto com aparelho de microondas, sofá e cama.
Dirceu comprou o terreno em Vinhedo em dezembro de 2001, por R$ 50 mil. Escolheu um dos condomínios mais distantes e isolados, a cerca de 10 km do centro. Construiu a casa nos dois anos seguintes.
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