21.8.07
No Planalto, a ordem é o silêncio
Para que a estratégia dê certo e o Palácio do Planalto não fique nas cordas durante o julgamento, caberá a aliados saírem a campo para defender o governo e o PT. A missão começou a ser cumprida ontem. “Não é um julgamento político. Nem o governo nem o PT estão no banco dos réus. É óbvio que a oposição e setores da mídia farão um esforço enorme para colocá-los lá”, disse o governador de Sergipe, Marcelo Déda (PT).
O Supremo decidirá se abre ação penal contra 40 pessoas acusadas pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, de participação no esquema do mensalão. Entre elas, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, denunciado como chefe da “quadrilha”, e o ex-presidente do PT José Genoino (SP), hoje deputado federal. “Uma ação penal é uma ação penal. Não vejo relação automática entre um processo que começa agora e a vida interna do PT e do governo. Para mim, isso é forçar a barra”, acrescentou Déda.
Se a denúncia contra Dirceu for arquivada, aliados do ex-ministro tentarão dar celeridade ao processo destinado a anistiá-lo. Em 2005, Dirceu teve os direitos políticos cassados por oito anos por decisão do plenário da Câmara. Há ainda a possibilidade, discutida nos bastidores, de o ex-deputado voltar a presidir o PT. Caso o Supremo decida processá-lo, a oposição dirá que a condição de réu é a prova de que o governo teve participação direta no suposto esquema de pagamento de mesada em troca de votos favoráveis no Congresso.
Pressa
“Não tem nada a ver uma coisa com a outra”, declarou o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, negando implicações políticas do julgamento. “O que o procurador fez é uma proposta de ação penal, nada mais do que isso.” Bastos pediu ao Supremo pressa no julgamento dos processos que forem abertos. Torce para que a prescrição não beneficie os réus, como ocorreu recentemente com o deputado Paulo Maluf (PP-SP).
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), entoou discurso parecido. Disse que o julgamento é positivo para o país. Ruim seria se não fosse realizado, se não fossem dadas à sociedade satisfações sobre o principal escândalo político do primeiro mandato do presidente Lula. “O julgamento mostra que as instituições estão funcionando.” Campos, Déda e Bastos prestigiaram ontem o lançamento do PAC da Segurança no Palácio do Planalto.
Ouviram do presidente uma declaração otimista capaz de fazer inveja a Pangloss, célebre personagem do clássico Cândido, de Voltaire, para quem tudo estava sempre o melhor possível. Como todos nós fizemos curso de perseverança, está dando tudo certo no Brasil , festejou Lula.
Correio Brasiliense
20.8.07
Empréstimos que irrigaram valerioduto não são pagos
Bancos foram à Justiça sem usar garantias dos débitos; STF decide nesta semana se acolhe denúncia contra envolvidos no esquema
A suposta dívida de mais de R$ 100 milhões do esquema do valerioduto com os bancos BMG e Rural -produto dos ora chamados na denúncia do mensalão de "pseudo-empréstimos", ora, de "empréstimos simulados", ou ainda de meras operações de lavagem de dinheiro destinado ao caixa dois do PT- não foi paga até hoje.
Mais de dois anos depois do auge do escândalo, ainda faltam provas sobre a real origem do dinheiro movimentado no esquema do mensalão, no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a inexistência de pagamento reforça a tese do procurador-geral Antonio Fernando de Souza de que os empréstimos bancários usados para justificar os repasses milionários a políticos foram criados para não serem quitados.
A partir desta quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal inicia as sessões em que se decidirá sobre o acolhimento das denúncias relativas ao caso mensalão. São 40 os envolvidos, incluindo o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.
A Folha pesquisou o andamento de sete ações de cobrança e execução em que se transformaram as sete operações bancárias apresentadas pela dupla Marcos Valério Fernandes de Souza e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares como a origem do dinheiro do caixa dois. A versão surgiu para contestar indícios de desvio de recursos públicos para o esquema -o que envolveria diretamente o governo federal.
As ações de cobrança só foram apresentadas nos últimos meses de 2005, como parte da estratégia de defesa dos bancos e do publicitário Marcos Valério, quando a CPI dos Correios já contestava a versão apresentada para a origem do dinheiro. Tramitam nos tribunais de Justiça de Minas Gerais e do Distrito Federal.
São como espectros do mensalão: os bancos BMG e Rural cobram do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza e suas empresas. O publicitário empurra a dívida para o PT, que se recusa a pagar -porque nem sequer a reconhece.
O tamanho do fantasma é incerto. A suposta dívida passava de R$ 100 milhões (exatos R$ 100.082.166,35) em 16 de dezembro de 2005, data da mais recente atualização oficial. Tanto o BMG quanto o Rural se recusaram a informar o valor corrigido da dívida, contabilizados juros e encargos. Alegam sigilo bancário.
Por ordem do Banco Central, também posterior ao escândalo, os supostos empréstimos foram classificados como créditos podres -quando as chances de pagamento são consideradas remotas, quase nulas.
Consulta aos processos de cobrança mostra que a versão dos empréstimos bancários -desacreditada pela CPI dos Correios e pela denúncia do Ministério Público- foi contestada até pelos advogados do PT. E não apenas por falta de registros formais na contabilidade do partido, como se espera de movimentações de recursos de caixa dois.
PT contra PT
Em maio do ano passado, o PT respondeu nos autos que os supostos empréstimos haviam sido concedidos "ao arrepio das mais comezinhas regras bancárias". Por serem irregulares, não seriam pagos pelo partido, resumia a defesa da agremiação, menos de um ano depois de o PT endossar a versão dos empréstimos para escapar dos indícios de desvio de dinheiro público.
Diante da contradição apontada pela reportagem, o presidente do partido, Ricardo Berzoini, afirmou que caberia à Justiça apurar a origem do dinheiro do caixa dois.
Questionado novamente na semana passada, o PT voltou a negar responsabilidade no negócio. "A defesa do PT é consistente", alega o tesoureiro Paulo Ferreira. "Não há nos referidos empréstimos responsabilidade institucional do partido, [eles] não cumpriram com os requisitos legais necessários, não foram assinados, a instituição PT não os aprovou", completou.
Persiste o empurra-empurra. Procurado pela Folha, o publicitário Marcos Valério reiterou, por meio de advogados, que depende dos pagamentos do PT para honrar as dívidas com o BMG e o Rural. "A dívida do PT não foi paga", respondeu o escritório Rodolfo Gropen. Com os bens penhorados, Valério diz esperar resposta da Justiça. A sentença do juiz da 11ª vara cível de Brasília está para sair há mais de um ano.
Sem garantia
Os processos de cobrança não lançaram mão do texto em que Delúbio Soares assumia, perante o BMG, o compromisso "irretratável e irrevogável de garantir, como avalista e devedor solidário" as supostas operações de empréstimo.
O documento foi apresentado à CPI dos Correios como parte da defesa combinada do publicitário e do ex-tesoureiro, operadores do caixa dois petista. Sua validade "é nula", concluíram as investigações do Congresso.
Antes de ir à Justiça, os bancos tampouco usaram garantias apresentadas pelas empresas de Marcos Valério para os supostos empréstimos, sustentadas sobretudo em grandes contratos de publicidade com empresas estatais (Banco do Brasil, Correios e Eletronorte).
"O banco ainda não recebeu os valores em questão, aguarda pelas decisões judiciais", respondeu o Rural por meio de sua assessoria. Apontado na denúncia do Ministério Público como braço financeiro do mensalão, o banco é responsável por pouco mais da metade dos recursos contabilizados no caixa dois petista.
Segundo a assessoria, depois de um período de "ajustes duríssimos" que se seguiu ao escândalo, o banco "já voltou a lucrar e é uma instituição financeira com perspectivas de futuro bastante positivas".
O BMG informou que reduziu em R$ 10 milhões a dívida das empresas de Valério, por meio da liquidação de uma aplicação financeira no próprio banco, oferecida como garantia. O advogado Raphael Miranda avaliou que a cobrança da maior parte da dívida tornou-se "mais difícil em virtude da situação da SMPB e da Graffiti". As duas empresas fecharam as portas.
Considerado pela CPI suspeito de favorecimento na licença para operar com crédito consignado a aposentados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o BMG ampliou a carteira após o escândalo.
Folha
19.8.07
JULGAMENTO DO MENSALÃO
Ex-ministro, que viaja de 2 a 3 vezes por semana para atender empresas privadas, mantém sob sigilo nomes de seus clientes
Atual refúgio do petista é seu sobrado em Vinhedo, avaliado em R$ 500 mil; ex-ministro se recusa a mostrar contratos e nega fazer lobby
Portugal, República Dominicana, Argentina, Peru, Chile, duas vezes nos Estados Unidos, México, Nicarágua e, por fim, uma semana de folga em Toronto, no Canadá - só de janeiro para cá. Duas a três viagens por semana pelo Brasil, palestras e consultorias remuneradas para empresas privadas.
Para descansar, um sobrado avaliado em R$ 500 mil, de 300 metros quadrados com três quartos, quatro banheiros e dois escritórios, em Vinhedo, a 76 km de São Paulo.
Aos 61 anos, o ex-líder estudantil, ex-aprendiz de guerrilheiro em Cuba, ex-vendedor de jeans, ex-ministro e ex-homem forte do governo Lula - acusado de ser o "chefe da quadrilha" do mensalão -, o advogado José Dirceu de Oliveira e Silva cumpre uma rotina tão agitada quanto reservada -ninguém fora de seu círculo sabe para quem ele trabalha e quem sustenta a maratona de hotéis e aeroportos. E ele não faz questão de esclarecer.
A Folha encaminhou à assessoria do ex-ministro lista de 17 possíveis clientes de Dirceu, citados pela imprensa. A resposta: "Os contratos de consultoria têm cláusulas de confidencialidade, o que é normal e rotineiro. Ele teria de pedir aos contratantes autorização para confirmar e não acha que deva fazer isso". A reportagem pediu então para ver as "cláusulas de confidencialidade", mas não houve retorno.
Sabem-se cacos dessa história. Uma escuta telefônica da PF neste ano captou, acidentalmente, a informação de que ele trabalharia para o frigorífico Minerva, de Barretos (SP) - o que Dirceu confirmou, indiretamente, numa entrevista à revista "Playboy".
No ano passado, Dirceu esteve na Bolívia a bordo de um jato contratado pelo empresário de siderurgia Eike Batista. Em abril, um jornal do Tocantins informou que Dirceu circulou durante três dias na região num jato Cessna Citation registrado em nome de uma empresa de táxi aéreo de Fortaleza. Segundo contas da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), que pediu esclarecimentos, a viagem teria custado não menos que R$ 200 mil.
Na entrevista à "Playboy", Dirceu negou fazer lobby no governo: "No fundo, o que eu faço é isso: analiso a situação, aconselho. Se eu fizesse lobby, o presidente saberia no outro dia. Porque no governo, quando eu dou um telefonema, modéstia à parte, é um telefonema! As empresas que trabalham comigo estão satisfeitas. E eu procuro trabalhar mais com empresas privadas que com empresas que têm relação com o governo".
Dirceu toca duas empresas ao mesmo tempo, uma de consultoria e outra de advocacia, ambas na Vila Mariana, em São Paulo. Divide a segunda com a advogada Lilian Ribeiro. Passa pouco tempo nos escritórios.
O presidente do Irib (Instituto de Registro Imobiliário do Brasil), Helvécio Duia Castello, é dos poucos a divulgar na internet que manteve encontro com Dirceu. Disse que foram cerca de 20 minutos, no escritório da rua Sena Madureira. Castello, filiado ao PT do Espírito Santo, foi deputado federal entre 1991 e 1994.
O Irib retirou de sua página na internet a menção ao encontro. O instituto define-se como uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo "o estudo e a pesquisa de procedimentos e normas jurídicas referentes ao registro de imóveis e o assessoramento de autoridades públicas e órgãos governamentais".
Não há relatos de que Dirceu passe muito tempo em Vinhedo - em novembro, o ex-ministro disse à Folha que ficava "a maior parte da semana" na cidade. A ausência é referida no boletim de ocorrência lavrado para apurar furto ocorrido em sua casa em novembro de 2005 - Dirceu deixara a Casa Civil em 23 de junho daquele ano, após as denúncias do mensalão feitas pelo ex-aliado e ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ).
A empregada da casa de Dirceu disse à Polícia Civil que os ladrões arrombaram uma janela e levaram uma TV com tela de plasma, charutos, medalhas, chocolates, um tapete vermelho", além de tentarem carregar um aparelho de som, que acabou abandonado no jardim da casa. O dado revelador é que tudo estava embalado na casa, intocado, havia mais de dois meses, junto com aparelho de microondas, sofá e cama.
Dirceu comprou o terreno em Vinhedo em dezembro de 2001, por R$ 50 mil. Escolheu um dos condomínios mais distantes e isolados, a cerca de 10 km do centro. Construiu a casa nos dois anos seguintes.
Folha
18.8.07
Fisco de Alagoas comprova "laranjas" do caso Renan
Documento, que pode balizar perícia da Polícia Federal, mostra ilícitos tributários e localização duvidosa das empresas
Relatório da Secretaria de Fazenda de Alagoas enviado ao Conselho de Ética do Senado para balizar a perícia da Polícia Federal afirma textualmente que as empresas compradoras de gado do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), montaram um esquema de "laranjas" e, em alguns casos, são firmas fantasmas.
O documento, ao qual a Folha teve acesso, afirma que os compradores do gado de Renan "têm o mesmo perfil socioeconômico": são "moradores de periferia, em endereço de difícil localização".
"As empresas, que seriam responsáveis pelo cumprimento da obrigação tributária, transferem dolosamente a condição de sujeito passivo a pessoas jurídicas outras, cujos responsáveis são laranjas que, pela sua condição de vulnerabilidade socioeconômica, estão fora do alcance do fisco estadual", conclui o relatório.
Assinado pela secretária estadual de Fazenda, Maria Fernanda Quintella Brandão Vilela, o relatório sustenta que as empresas praticaram ilícitos tributários, "inclusive a maioria delas exercendo atividades comerciais em lugar incerto e não sabido por esta secretaria." E acrescenta: "Fica evidenciado o esquema fraudulento organizado com a finalidade de se eximir do pagamento do ICMS relativo às operações com o abate de gado".
O texto foi enviado ao procurador-geral do Estado, Mário Jorge de Uchoa Silva, cobrando investigação "urgente" e "providências judiciais cabíveis".
Renan diz ter lucrado R$ 1,9 milhão vendendo gado entre 2003 e 2006. Com esses rendimentos, alega que tinha recursos para pagar pensão à jornalista Mônica Veloso, com quem tem uma filha. Ele enfrenta processo no conselho sob suspeita de que quem custeava essas despesas era a empreiteira Mendes Júnior.
O documento afirma que Carnal, GF da Silva Costa, José Vicente Ferreira Açougue e Stop Carnes são "laranjas" do frigorífico Mafrial, ao qual Renan diz ter vendido o gado.
O laudo relaciona, uma a uma, as irregularidades fiscais cometidas pelas pessoas jurídicas e físicas, algumas delas sem cadastro no Estado.
Sobre a Mafrial, o relatório afirma que a empresa declarou em vendas um montante de R$ 5,1 milhões, mas nenhum contribuinte declarou essas compras. Diz também que, de março de 2003 até junho deste ano, as entradas declaradas pela Mafrial, um montante de R$ 1,3 milhão, referem-se a empresas que comercializam "mercadorias diversas da atividade fim do estabelecimento". E conclui: "nenhum fornecedor de gado de corte declarou ter efetuado vendas a Mafrial".
Em relação aos açougues Carnal, GF da Silva Costa e José Vicente Ferreira Açougue, a conclusão é que todos têm as inscrições canceladas, possuem os mesmos clientes e "não apresentaram entradas de mercadorias compatíveis com suas saídas, nem com referência aos valores, nem com referência aos fornecedores".
O argumento de Renan é que não é sua responsabilidade se os matadouros realizavam operações irregulares. Ele diz que negociou gado diretamente com a Mafrial.
Folha
Lula e o "veneno"
Afirmação foi feita no Rio, durante jantar com a família de Chico Buarque
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que evita ler algumas reportagens e colunas de jornal que contenham "veneno" e possam "contaminar" a confiança que ele tem no trabalho de seu governo.
Os comentários foram feitos em jantar com a família de Chico Buarque, anteontem à noite, no apartamento da mãe do compositor, em Copacabana. Lula se mostrou bem-humorado, segundo relato de participantes, e jantou macarronada.
Ele citou como exemplo de "veneno" o artigo do psicanalista Francisco Daudt, publicado na Folha de 19 de julho, em que o governo era chamado de assassino e criminoso devido ao desastre com o avião da TAM.
Lula não se mostrou preocupado com as turbulências financeiras internacionais e disse ter "libertado" o país do FMI (Fundo Monetário Internacional). Também não comentou as vaias recebidas à tarde, em Campos (norte fluminense). "Parece que ele queria desopilar", afirmou um dos presentes.
Lula estava com Luiz Dulci, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência. Da família Buarque, participaram Chico, sua irmã Ana de Holanda, três filhos da cantora Cristina Buarque e a matriarca Maria Amélia, 97. Brincando, o presidente lançou a candidatura de Memélia, como é conhecida, à sua sucessão em 2010, quando ela completará 100 anos. "Ele estava muito solto. É um amigo de 30 anos", disse ela, ontem.
Memélia e seu marido, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), ajudaram a fundar o PT em 1980. Lembranças de Sérgio ocuparam parte das conversas do jantar, que durou cerca de duas horas. Lula falou com Chico sobre futebol e lamentou não jogar mais na Granja do Torto.
Antes do jantar, Lula esteve com Renée de Carvalho, 82, viúva do líder comunista Apolônio de Carvalho (1912-2005) no Leblon (zona sul). Na saída, foi aplaudido e vaiado. Amigo de Apolônio desde a criação do PT, ele já havia visitado Renée após ser eleito, em 2002.
A visita durou cerca de 40 minutos. "Além da honra que o presidente me fez, valeu sobretudo a alegria de receber um velho amigo de sempre."
Renée comentou as vaias recebidas por Lula na saída de seu apartamento. "Foi uma coisa muito de leve. Havia, por outro lado, um varredor da Comlurb e outras pessoas que o aplaudiram", declarou.
Folha
A agenda de Dirceu
| A agenda de Dirceu |
| 18 de agosto de 2007 | ||
Recebi uma agenda de telefones de José Dirceu. Passei os últimos dias bisbilhotando-a, checando nomes, analisando datas, conferindo números. Sou um rapaz sortudo. A agenda surgiu num momento oportuno. Nesta semana, o STF tem de decidir se aceita a denúncia contra os mensaleiros. O procurador-geral da República declarou que pretende reunir mais provas contra os acusados. A agenda de Dirceu, que entregarei a ele, pode ajudá-lo a cruzar alguns dados. A agenda está incompleta. Lista nomes de A a J. Era usada pelas secretárias de Dirceu na Casa Civil. O bom é que, além dos números de telefone, foram anotados alguns recados de seus interlocutores. Os recados se referem à primeira metade de 2003. Naquele período, o esquema de pagamento ilegal aos deputados ainda era muito incipiente. O principal empenho de Dirceu e seus homens era aparelhar a máquina estatal com parentes e amigos, como sua mulher, Maria Rita Garcia. Em 7/3/2003, o tucano Arnaldo Madeira telefonou para avisar que já atendera ao pedido de Dirceu, transferindo Maria Rita de um cargo concursado no governo paulista para um comissionado em Brasília, com relativo aumento salarial. Na agenda de Dirceu, há 35 recados de seu amigo do peito, o advogado Kakay (tel: XXX9292, XXXX5050). Há alguns muito claros: "Precisa falar pessoalmente antes do compromisso". Há outros mais enigmáticos: "Assunto: Marconi – OK". Em certos casos, Kakay aparece cuidando dos encontros de trabalho de Dirceu: "Avisa que a reunião ficou marcada para 22:15". Em outros, ele parece se intrometer em matérias do governo, como num recado de 31/3/2003: "Lembrar: circuito IRB e ligação p/ Dep. Eunício Oliveira". Sabe-se que o IRB foi uma das fontes de financiamento dos mensaleiros. Sabe-se também que uma assessora de Eunício Oliveira foi acusada de sacar dinheiro da conta de Marcos Valério, no Banco Rural. A agenda tem 27 recados de Bob Marques (XXXX3241, XXXX2228). Dirceu já o chamou de "assessor informal". Depois o definiu apenas como "amigo". Isso aconteceu quando o questionaram acerca de um saque no valerioduto em nome de Roberto Marques. Aparentemente, um dos papéis do amigo era intermediar o relacionamento de Dirceu com sua ex-mulher, Ângela Saragoça. Em 29/4/2003, Bob Marques passou o seguinte recado ao chefe: "Avisa que hoje deu tudo certo c/ a Ângela". Naquele mesmo dia, Dirceu ligou para ela. Bob Marques voltou ao assunto em 19/5/2003. Muita gente já deve ter esquecido, mas Marcos Valério ajudou a ex-mulher de Dirceu a arrumar um emprego no BMG e um empréstimo no Banco Rural. Outro recado de Bob Marques que merece destaque é de 15/4/2003. Diz: "Sobre viagem do Gaspar a Cuba – assunto Cervantes". Só pode se tratar de Sérgio Cervantes (XXXX1629), o cubano que, segundo assessores de Antonio Palocci, entregou ao PT uma mala cheia de dólares. Nunca se soube quem teria doado o dinheiro. Uma pista é o tal Gaspar, cuja viagem a Cuba foi programada por Dirceu e Bob Marques. O único Gaspar que consta da agenda é Luiz Gaspar (XXXX1906, XXXX2019), um companheiro de Dirceu dos tempos da luta armada. Durante o regime militar, ele se refugiou em Cuba e montou uma empreiteira. Em 2001, foi apresentado ao empresário Mario Garnero e se associou a ele num projeto para construir hotéis em Cuba, com uma promessa de empréstimo do BNDES. Os dólares poderiam ter sido doados por um empresário com interesses na terra de Fidel Castro? É o que o pistoleiro Diogo tinha a dizer. (*) Fonte: http://veja.abril.com.br | ||
Só falta a degola
Roberto Stuckert/Ag. O Globo![]() |
| O senador Renan Calheiros: tentativa de acordo com o governo para deixar a presidência mas ser absolvido no plenário |
A Polícia Federal encaminha ainda nesta semana ao Conselho de Ética os resultados da perícia feita nos documentos apresentados pelo senador Renan Calheiros. O material examinado demole o frágil mas alardeado álibi do senador, com o qual ele queria demonstrar ter os recursos financeiros necessários para pagar suas despesas pessoais sem ter de recorrer aos préstimos de um lobista de empreiteira. As conclusões da polícia são devastadoras para Renan. Os peritos concluíram que não há evidência de que os recursos para pagar a pensão alimentícia da filha do senador saíram das suas contas bancárias. Aos olhos da polícia, a documentação apresentada fica aquém de comprovar a origem da fortuna de Renan Calheiros e não confirma sua alegada arrecadação de 1,9 milhão de reais com a venda de bois. Entre os papéis de defesa do senador, segundo a polícia, há notas fiscais frias, recibos falsos e comprovantes de transações com empresas fantasmas. A perícia era a única peça de convencimento que faltava para o conselho concluir o relatório final e pedir a cassação de Renan Calheiros por quebra de decoro parlamentar. Não falta mais nada.
Dida Sampaio/AE![]() |
| Fazenda de Renan: documentos frios e frigoríficos fantasmas não enganaram a PF |
Sergio Dutti/AE![]() |
| O relator Casagrande: depois da perícia, a única possibilidade é pedir a cassação de Renan |
Na semana passada, dois dos relatores do caso Renan Calheiros no Conselho de Ética, Renato Casagrande (PSB-ES) e Marisa Serrano (PSDB-MS), estiveram na sede da Polícia Federal, em Brasília. Reuniram-se reservadamente com Clênio Guimarães Belluco, diretor do Instituto Nacional de Criminalística, e com peritos que analisaram os documentos de Renan. Ouviram dos peritos que não há conexão entre as datas dos pagamentos de pensão feitos à jornalista Mônica Veloso, mãe da filha de Renan, e os saques na conta do senador. Ouviram que os documentos apresentados por Renan para justificar sua fortuna agropecuária não são idôneos, por envolver empresas e funcionários fantasmas e notas fiscais frias. Ouviram finalmente que há dúvidas até se o presidente do Congresso foi realmente dono do milionário rebanho bovino que diz ter vendido a frigoríficos que não existem. Depois da reunião na Polícia Federal, um dos relatores resumiu assim o pensamento dele e dos colegas do Conselho de Ética: "Apresentar documentos falsos aos pares do Senado é uma clara quebra de decoro parlamentar. Usar um lobista para pagar despesas pessoais é uma clara quebra de decoro parlamentar. A única possibilidade é pedir a cassação de Renan".
Arquivo O Jornal![]() |
| Renan recebe Lyra no Planalto quando ocupou a Presidência: sócios e amigos |
O laudo técnico confirma um relatório preliminar feito pela própria PF no fim de junho. Ele foi dividido em quatro partes. Na primeira, são apresentadas a estrutura do trabalho e as questões levantadas pela perícia. Na segunda, faz-se um histórico do primeiro laudo e detalha-se seu cruzamento com o segundo. Na terceira parte, listam-se os documentos analisados. Por fim, os peritos dão resposta técnica a cada uma das trinta perguntas feitas pelo Conselho de Ética sobre as negociações de gado do presidente do Senado. Dois terços das respostas são fatais para a defesa de Renan e envergonhariam qualquer cidadão honesto. Depois de tomarem conhecimento das informações periciais, os senadores encarregados de determinar o futuro do processo em curso contra Renan descrevem como iminente o desenlace do caso. Até o senador Almeida Lima, do PMDB, terceiro relator do caso, nomeado com o claro propósito de garantir a absolvição de Renan, já aceita a tese da punição do aliado. Almeida Lima gostaria de circunscrever a punição a uma advertência, mas deve ser levado a aceitar o pedido de suspensão de mandato. O próprio senador já dá como certa a aprovação do relatório com o pedido de sua cassação na votação do Conselho de Ética. Renan aposta tudo agora na votação em plenário, em que o voto secreto permitiria a seus simpatizantes salvar-lhe o pescoço sem se expor ao escárnio público.
Dida Sampaio/AE![]() |
| Tuma, o corregedor do Senado: a situação de Renan ficou pior |
O cerco aos negócios escusos do senador aumenta a cada dia. Além dos bois fantasmas, o Conselho de Ética vai instaurar um novo processo contra Renan com o objetivo de investigar o uso de "laranjas" para ocultar a compra de um jornal e duas emissoras de rádio em Alagoas. O usineiro João Lyra, ex-sócio de Renan em uma empresa de comunicação, na semana passada, prestou ao senador Romeu Tuma, corregedor do Senado, depoimento em que confirmou a compra de um jornal e duas rádios em sociedade com o senador. Valor do negócio: 2,6 milhões de reais. A parte de Renan, metade, foi paga em dinheiro vivo. Para manter o anonimato da transação, Renan utilizou dois laranjas – um primo e um assessor do Senado. João Lyra contou ainda que, quando a sociedade foi desfeita, em 2005, ele ficou com o jornal e Renan com a rádio. Como parte do acerto, Renan prometeu conseguir a renovação da concessão vencida de outra emissora de João Lyra. Em 24 de junho, o presidente do Senado mandou uma carta a João Lyra comunicando a renovação da concessão. Tudo conforme o combinado. Homem de palavra, esse Renan.
A defesa de Calheiros foi centrada na semana passada na desqualificação do acusador, João Lyra. Renan afirmou que o usineiro responde a diversos processos e que faz as denúncias motivado por ressentimentos políticos. Voltou também a negar que tivesse negócios e até mesmo relações pessoais com o usineiro. De fato, os dois romperam em 2005, mas as provas dos negócios e da amizade são mais que evidentes. O usineiro entregou a Romeu Tuma cópias de documentos e recibos da operação de compra das emissoras de rádio e do jornal assinados por Tito Uchôa, primo-laranja de Renan Calheiros. Lyra também confirmou que deixava um jato e um helicóptero à disposição do senador e nunca cobrou nada por isso. As provas de que a amizade entre os dois era intensa são muitas e indeléveis. Em 2006, ao assumir interinamente a Presidência da República durante quatro dias, Renan convidou João Lyra para uma reunião no Palácio do Planalto. O fotógrafo oficial foi chamado para registrar o encontro. Dias depois, o usineiro recebeu a recordação do momento histórico.
Acuado pelo acúmulo de evidências irrefutáveis, Renan autorizou seus aliados a negociar alternativas à cassação. A exemplo dos negócios do senador, são todas saídas heterodoxas. Uma delas é tão estapafúrdia que poderia ser chamada de Operação Mafrial, em homenagem ao agora notório frigorífico alagoano, aquele das notas frias e dos bois de ouro. Envolveria um acordo entre governo e oposição, e, por seus termos, os parlamentares teriam de aprovar o relatório de Almeida Lima sugerindo apenas a suspensão do mandato de Renan por seis meses. Nesse período, assumiria o vice-presidente, o petista Tião Viana. Renan ficaria no limbo, mas preservaria seus direitos políticos. A segunda alternativa também envolveria uma aliança entre peemedebistas e a base governista. Eles fechariam questão sobre a absolvição do senador em plenário. Em troca, Renan se afastaria da presidência e apoiaria a eleição de um petista para o cargo. Consultados, os ministros Walfrido Mares Guia, das Relações Institucionais, e Tarso Genro, da Justiça, teriam dado sinal verde ao acordo. Essas saídas são mais um bofetão na sociedade. Será tão difícil de explicá-las quanto responder à pergunta: por que ainda acreditar em Renan?
Veja
A sombra do estado policial
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Criado com o nome de Casa da Suplicação do Brasil em 1808, o Supremo Tribunal Federal já enfrentou momentos duros em seus dois séculos de história. Já foi vítima de dramáticas deformações, como aconteceu nas décadas de 1930 e 1940, quando Getúlio Vargas nomeava ministros sem consultar ninguém, e já esteve emparedado pela ditadura militar iniciada em 1964, que chegou a expulsar três ministros da corte. Agora, é a primeira vez que, sob um regime democrático, os integrantes do Supremo Tribunal Federal se insurgem contra suspeitas de práticas típicas de regimes autoritários: as escutas telefônicas clandestinas. Sim, beira o inacreditável, mas os integrantes da mais alta corte judiciária do país suspeitam que seus telefones sejam monitorados ilegalmente. Nas últimas semanas, VEJA ouviu sete dos onze ministros do Supremo – e cinco deles admitem publicamente a suspeita de que suas conversas são bisbilhotadas por terceiros. Pior: entre eles, três ministros não vacilam em declarar que o suspeito número 1 da bruxaria é a banda podre da Polícia Federal. "A Polícia Federal se transformou num braço de coação e tornou-se um poder político que passou a afrontar os outros poderes", afirma o ministro Gilmar Mendes, numa acusação dura e inequívoca.
As suspeitas de grampos telefônicos estão intoxicando a atmosfera do tribunal. Na quinta-feira passada, o ministro Sepúlveda Pertence pediu aposentadoria antecipada e encerrou seus dezoito anos de tribunal. Poderia ter ficado até novembro, quando completa 70 anos e teria de se aposentar compulsoriamente. Muito se especulou sobre as razões de sua aposentadoria precoce. Seus adversários insinuam que a antecipação foi uma forma de fugir das sessões sobre o escândalo do mensalão, que começam nesta semana, nas quais se discutirá o destino dos quadrilheiros – entre eles o ex-ministro José Dirceu, amigo de Pertence. A mulher do ministro, Suely, em entrevista ao blog do jornalista Ricardo Noblat, disse que a saída de seu marido deve-se a problemas de saúde. O ministro, no entanto, diz que as suspeitas de que a polícia manipula gravações telefônicas aceleraram sua disposição em se aposentar. "Divulgaram uma gravação para me constranger no momento em que fui sondado para chefiar o Ministério da Justiça, órgão ao qual a Polícia Federal está subordinada. Pode até ter sido coincidência, embora eu não acredite", afirma.
| Fotos Ana Araujo | "É intolerável essa atmosfera que vivemos, com a conduta abusiva de agentes ou órgãos entranhados no aparelho de estado. A interceptação telefônica generalizada é indício e ensaio de uma política autoritária." CELSO DE MELLO, ministro do STF |
Os temores de grampo telefônico com patrocínio da banda podre da PF começaram a tomar forma em setembro de 2006, em plena campanha eleitoral. Na época, o ministro Cezar Peluso queixou-se de barulhos estranhos nas suas ligações e uma empresa especializada foi chamada para uma varredura. Ela detectou indícios de monitoramento ilegal nos telefones de Peluso e do ministro Marco Aurélio Mello e na linha de fax do ministro Marcelo Ribeiro, do Tribunal Superior Eleitoral. Com a divulgação do caso, a PF entrou em cena. Em apenas nove dias, com agilidade incomum, os agentes concluíram que não havia grampo e indiciaram o dono da empresa por falsa comunicação de crime. "Fui interrogado durante três dias pela PF", diz o empresário Enio Fontenelle, que reafirma a existência de indícios de grampos. Havia interesse de um candidato ou partido por causa da eleição, tema de que tratavam os ministros Marcelo Ribeiro e Marco Aurélio? Alguém na Polícia Federal queria monitorar o ministro Peluso, que na época cuidava de uma das ações da Polícia Federal, a Operação Furacão?
Recentemente, as suspeitas se robusteceram. O ministro Marco Aurélio Mello recebeu uma mensagem eletrônica de um remetente anônimo. O missivista informava que os telefones do ministro estavam grampeados e que policiais ofereciam as gravações em Campo Grande. O mesmo estaria acontecendo com conversas telefônicas do ministro Celso de Mello. Em outros tempos, uma denúncia anônima e tão pouco circunstanciada não receberia atenção. No clima atual, Marco Aurélio pediu uma investigação. O caso foi investigado, mas a Polícia Federal – ela, de novo – concluiu que a mensagem era obra de estelionatários fazendo uma denúncia falsa. Há três meses, quando trabalhava com a Operação Navalha, o ministro Gilmar Mendes adquiriu a convicção pessoal de que seus telefonemas são monitorados. "O procurador Antonio Fernando me ligou avisando que a operação era complexa e precisava manter algumas prisões", lembra o ministro. Ele respondeu que não podia manter certas prisões por inadequação técnica. "Pouco depois, uma jornalista me telefonou perguntando se eu ia mesmo soltar todos os presos." Surpreso, o ministro ligou para o procurador, que lhe garantiu não ter comentado o assunto com ninguém. Conclui Mendes: "Estavam me acompanhando pelo telefone".
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| "A Polícia Federal se transformou num braço de coação e tornou-se um poder político que passou a afrontar os outros poderes. Basta ver o caso Vavá. Constrangeram até o presidente. Hoje, falo ao telefone sabendo que a conversa é coletiva." GILMAR MENDES, ministro do STF |
Com a libertação de alguns detidos na Operação Navalha, o ministro Gilmar Mendes julga ter conquistado em definitivo a antipatia da banda podre da Polícia Federal – e suspeita que, a partir daí, começou a ser perseguido. "Apareceram notas em jornais e sites de notícias dizendo que eu estava soltando alguns dos presos porque um dos envolvidos era meu amigo. Plantaram que havia conversas gravadas que provavam isso", rememora. Publicou-se inclusive que o nome do ministro estava na lista das autoridades que receberam mimos da empreiteira Gautama, que coordenava a ladroagem investigada pela Operação Navalha. "Recebi telefonemas de jornalistas garantindo que a Polícia Federal tinha confirmado que meu nome estava na lista", diz. Na tal lista, constava o nome de Gilmar Melo Mendes, um engenheiro que não tinha nada a ver com o ministro do STF, exceto pela homonímia. "Isso foi uma canalhice da polícia para tentar me intimidar", acusa o ministro. Ele levou o caso ao ministro da Justiça, Tarso Genro, e pediu providências à presidente do STF, Ellen Gracie. Diz o ministro: "Quando a Justiça começa a ter medo de conceder um habeas corpus, o problema é da sociedade. Esse medo hoje já é perceptível".
É farta a crônica de grampos clandestinos no Brasil, inclusive nas mais altas esferas do poder. Já se encontrou grampo dentro do próprio gabinete presidencial no Palácio do Planalto (João Figueiredo, 1983). Já se soube de presidente da República cuja residência estava inteiramente monitorada (Fernando Collor, 1992, Casa da Dinda). Já se ouviu a voz grampeada de um vice-presidente da República a cantarolar palavras melosas para uma jornalista casada (Itamar Franco, 1992). Já houve presidente da República grampeado autorizando o uso de seu nome nos bastidores do leilão das teles (Fernando Henrique Cardoso, 1998). A fartura de casos pode levar à idéia de que a grampolândia é simplesmente um dado inevitável da vida nacional. Na verdade, esse pensamento tolerante contribui para minimizar o problema e, com isso, perpetuá-lo. Os sinais de que uma banda podre da Polícia Federal está querendo intimidar os ministros da mais alta corte do Poder Judiciário brasileiro são gravíssimos – e sugerem que o país pode estar sendo presa das garras invisíveis de um embrionário estado policial.
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| O perito Ricardo Molina, que já encontrou indícios de fraude em gravações feitas pela PF |
"O estado policial é a negação das liberdades, indiferente de posição social ou hierarquia. É uma antítese do sistema democrático", diz o ministro Celso de Mello, cuja preocupação pessoal com grampos telefônicos é quase nula. O ministro fala pouco ao telefone fixo, não usa celular, mas se revolta com o clima de intimidação no Supremo. "É intolerável essa atmosfera que vivemos, com a conduta abusiva de agentes ou órgãos entranhados no aparelho de estado. A interceptação telefônica generalizada é indício e ensaio de uma política autoritária", diz o ministro. "O Judiciário não pode ficar refém de ações policiais, sob pena de, acusado, acabar autorizando atos arbitrários", afirma Cezar Britto, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e um dos primeiros a denunciar vestígios de um estado policial no país. "Se o magistrado decide a favor dos estados e da União, ele está certo. Se decide a favor do cidadão, é acusado de receber propina. A lógica perversa segundo a qual o estado sempre tem razão, e os cidadãos nunca, é um símbolo maior desse estado policial", diz o advogado.
Os abusos no comportamento da PF, no entanto, não se esgotam nas suspeitas de grampo ilegal. Também há suspeitas de manipulação do conteúdo de gravações feitas legalmente. Pela lei, os policiais precisam transcrever todo o diálogo telefônico monitorado, e não apenas um resumo. "Hoje, pinça-se o que a polícia quer e o que acha que deve ser informado. Os juízes decidem com base em extratos. Isso é muito arriscado", diz o ministro Marco Aurélio. Num caso em exame no Supremo, a PF informou o resumo de uma conversa telefônica, legalmente monitorada, entre um ministro do STJ e sua amante. Confrontando-se o extrato com a íntegra das gravações, descobriu-se que o motorista do ministro é quem estava falando com a amante. Em outro caso temerário, o perito Ricardo Molina, especialista em fonética forense, encontrou indícios de que a PF pode ter fraudado, possivelmente por meio de uma montagem, um diálogo que serviu de prova contra um juiz, acusado de negociar sentenças judiciais. "Não há segurança sobre a autenticidade das gravações", afirma Ricardo Molina.
| Fotos Ana Araujo |
| "Hoje você não sabe mais quem está ouvindo suas conversas. Um dia minha irmã ligou para falar do espólio de meu pai. Repeti várias vezes que os valores se referiam ao espólio. Era para quem estava ouvindo entender." MARCO AURÉLIO MELLO, ministro do STF |
Com sua experiência no ramo, o perito conta que já encontrou gravações da PF com duração inferior à registrada na conta telefônica. Só há duas hipóteses para explicar esse descompasso: ou a companhia telefônica registrou que o telefonema teve uma duração maior do que a real ou a Polícia Federal eliminou um trecho do telefonema. Em outro caso, um doleiro denunciou que fora extorquido pela polícia e, como indício probatório, disse que, pelo telefone, narrara o caso a sua mulher. Como o doleiro estava grampeado, bastava à Justiça requerer a gravação. Em contato com a companhia telefônica, a Justiça soube que, de fato, o doleiro falara com sua mulher no dia e hora informados por ele, mas a polícia, por "problemas técnicos", eliminara a gravação dos arquivos... Os ministros do Supremo também reclamam de que agentes federais vazam para a imprensa conversas telefônicas – legais, nesse caso – para constrangê-los. Houve o caso que tanto abateu Pertence. Em janeiro passado, veio a público um diálogo entre um advogado e um lobista, ambos sob investigação da PF, no qual se sugeria que Pertence receberia 600.000 reais para tomar determinada decisão. Era mentira, mas a suspeita demorou a se dissipar. "Eu virei uma noite lendo comentários na internet. Chamaram-me de tudo que é nome. É muito dolorido", diz ele. "O que mais me preocupa é que setores do Ministério Público e da polícia usam a imprensa como instrumento de desmoralização. O efeito é criar um fato consumado."
Dos sete ministros ouvidos por VEJA, apenas Eros Grau e Cármen Lúcia Antunes Rocha não suspeitam de grampos em seus telefones. "Há uma suspeita generalizada de que nossos telefones são grampeados. De minha parte não há o que esconder, mas temos de medir as palavras com fita métrica", diz o ministro Carlos Ayres Britto. "Hoje, você não sabe mais quem está ouvindo suas conversas", conta o ministro Marco Aurélio. "Um dia minha irmã ligou para falar do espólio de meu pai. Repeti várias vezes que os valores se referiam ao espólio. Era para quem estivesse ouvindo entender. Se um ministro do STF tem de tomar essas cautelas, o que não sofre um juiz de primeira instância?" Nem é preciso descer aos níveis inferiores da Justiça. No Superior Tribunal de Justiça, que também fica em Brasília, o ministro Felix Fischer não autorizou a prisão de alguns investigados. Em seguida, começaram a aparecer notas na imprensa de que seu filho, um advogado, estaria sendo investigado sob suspeita de venda de sentenças. Felix Fischer chamou o delegado do caso, acusou a PF de tentar intimidá-lo e só não lhe deu uns sopapos porque foi contido pelos presentes.
| | "Divulgaram uma gravação para me constranger no momento em que fui sondado para chefiar o Ministério da Justiça, órgão ao qual a Polícia Federal está subordinada. Pode até ter sido coincidência, embora eu não acredite." SEPÚLVEDA PERTENCE, ministro do STF |
As suspeitas de comportamento criminoso da banda podre da Polícia Federal não podem servir para desacreditar as ações policiais dos últimos tempos. No atual governo, a Polícia Federal já fez centenas de operações e tem mostrado um vigor digno de aplauso. As falhas que acontecem aqui e ali têm sido usadas para que alvos legítimos das investigações deflagrem a velha campanha de desmoralizar a polícia, apenas como meio de se livrarem eles próprios de investigações. "A força que a Polícia Federal vem adquirindo institucionalmente está sendo conquistada porque em regra tem cumprido a lei", afirma o ministro da Justiça, Tarso Genro. "Os eventuais erros ou injustiças que a PF tenha cometido foram originários dela não como instituição policial, mas de pessoas que ainda não se integraram plenamente na ética pública de um estado democrático de direito", completa o ministro. O ideal é que as "pessoas desintegradas" sejam identificadas e devidamente punidas. Só assim se pode impedir que a sombra de um estado policial se projete sobre o estado democrático tão duramente conquistado.
Ed Ferreira/AE![]() |
| Operação Navalha: certeza de Gilmar Mendes sobre grampos clandestinos |
| "Há uma suspeita generalizada de que nossos telefones são grampeados. De minha parte não há o que esconder, mas temos de medir as palavras com fita métrica." CARLOS AYRES BRITTO, | ![]() |
| Sergio Zacchi/Folha Imagem | "Eu vejo muita preocupação na corte. A imagem dominante é que a polícia prende e a Justiça solta. A lei não vale mais nada. A sociedade está abrindo mão de suas conquistas." EROS GRAU, ministro do STF |
16.8.07
Há mais provas do mensalão, diz procurador
"A denúncia se sustenta em fatos" , diz procurador-geral, que contestou afirmação de Dirceu sobre inconsistência da sua apuração no caso
O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, disse ontem que as provas existentes no inquérito do mensalão contra os 40 denunciados são suficientes para o STF (Supremo Tribunal Federal) abrir a ação penal e anunciou que, após essa decisão dos ministros do STF, apresentará novos documentos.
"A denúncia se sustenta em fatos. As provas que estão ali serão corroboradas por outras tantas. Algumas foram colhidas após o oferecimento da denúncia [em março de 2006]", afirmou, a uma semana do início do julgamento em que o STF decidirá se transforma o inquérito em processo criminal.
Autor da denúncia criminal, Antonio Fernando mostrou-se confiante em relação à abertura da ação penal e à inclusão posterior de novas provas, citando particularmente perícias que já foram concluídas e depoimentos. "Havia muitas perícias em andamento."
Ele explicou que não podia incluir novos documentos na fase entre o oferecimento da denúncia e a abertura da ação penal. Logo após a eventual instauração do processo, no entanto, ele tomará essa iniciativa. "Se o STF aceitar a denúncia, abre-se espaço para o campo probatório", afirmou.
Entre os denunciados, estão o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino e o publicitário Marcos Valério Fernandes. Se o processo for aberto, eles passarão à condição de réus. O STF reservou três sessões para o julgamento, entre os dias 22 e 24, mas poderá estendê-lo para o dia 27.
O procurador-geral contestou afirmação de Dirceu sobre a inconsistência da denúncia. Na semana passada, o petista disse que a acusação está baseada em depoimentos do ex-deputado Roberto Jefferson e notícias de jornal. "Não discuto com ninguém. É só ler a denúncia e ver em que ela está fundamentada", disse Antonio Fernando.
Ele lembrou que a decisão sobre a abertura da ação penal não exige provas cabais, ao contrário da condenação. "Nessa fase, não se cogita de culpabilidade." Sobre a possibilidade da decisão do STF implicar um julgamento político do governo Lula, o procurador-geral disse: "Pode-se extrair do julgamento essa conseqüência, mas ele vai ser inteiramente baseado no processo. É isso que eu espero."
Na denúncia, ele apontou a existência de uma "organização criminosa" que pagava mesada a deputados da base aliada em troca de apoio político ao governo e indicou que crimes cada um dos 40 denunciados teria cometido. Ele atribuiu a Dirceu, por exemplo, a prática de formação de quadrilha, peculato e corrupção ativa.
Genoino
Terminou em empate o julgamento de um habeas corpus em que José Genoino tenta anular um processo contra ele, aberto pela Justiça Federal em Minas Gerais e, em seguida, remetido ao STF por causa do foro privilegiado. A presidente do STF, ministra Ellen Gracie Northfleet, pediu vista do caso para dar posteriormente o voto de desempate.
Trata-se de processo também sobre o mensalão, especificamente de empréstimos do banco BMG ao PT e a empresas do publicitário Marcos Valério. Genoino, Valério, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e outras oito pessoas são acusados de falsidade ideológica e gestão fraudulenta de instituição financeira.
O advogado de Genoino contesta a abertura da ação pela primeira instância judicial horas antes de ele ser diplomado na Justiça Eleitoral, ganhando o foro privilegiado no STF. Ele disse que a decisão foi "abrupta" e que usurpou competência do tribunal.
Folha
As visões de Heráclito e o "Santo Suplicy"
Desconfiado, Heráclito subiu à tribuna para acusar o governo de estar, mais uma vez, usando o banco público para fazer propaganda subliminar em favor de um terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A insinuação, a princípio engraçada, levou Suplicy a confirmar que, intramuros, o PT defendia mais quatro anos para Lula - embora o presidente já tenha feito declarações contrárias à idéia de um terceiro mandato. A crença de Suplicy no fastio presidencial por mais poder foi motivo de ironia.
Heráclito passou a chamar, durante toda a sessão, o senador paulista de Santo Expedito Suplicy. "Eu quero que o senhor me respeite. Eu sempre tratei vossa excelência com respeito", exigiu Suplicy. "Mas eu estou te chamando do nome de um santo", insistiu Heráclito. "Mas eu prefiro Santo Eduardo", rebateu o petista.
Exibindo a camisa com o número 3 e ressaltando que ela nem sequer continha a logomarca do BB, Heráclito advertiu que não é possível saber a quê e a quem se referem a campanha da instituição. "O Banco do Brasil, numa campanha de R$ 10 milhões, estampa nas revistas e na televisão brasileira, incluindo jornais, sem objetividade e nenhuma clareza: ‘Decida pelo 3 e conte com o banco que é todo seu’", discursou Heráclito. "A mediocridade da campanha, se realmente não tem objetivo duplo, é de envergonhar qualquer um."
Suplicy, no esforço de defender o governo, revelou uma conversa que teria tido com presidente sobre o terceiro mandato. Contou que Lula, uma vez indagado, reagiu dizendo que quem defende o terceiro mandato não sabe o quão é dura a vida de um presidente. Segundo relato de Suplicy, Lula teria rechaçado essa possibilidade.
"Santo Expedito Suplicy. Vossa excelência acredita realmente nas causas impossíveis", reagiu o senador do DEM, provocando risos no plenário.
O mais engraçado veio depois. Para justificar a tese de que não se tratava de propaganda subliminar pelo terceiro mandato, Suplicy leu o folder da campanha do Banco do Brasil. Nesse momento, embaralhou-se e caiu no riso com o texto que lia. "O 3 significa dois mais um", disse rindo. Os senadores e a platéia presente nas galerias caíram na gargalhada.
Em uma tentativa desesperada de derrubar a teoria da oposição, Suplicy lembrou que a camisa com o número 3 era azul e amarela, cores oficiais do PSDB. "Será que não é uma campanha para o terceiro mandato do presidente Fernando Henrique?", argumentou Suplicy. Heráclito riu e rebateu de pronto: "Santo Expedito Suplicy. Vossa excelência vai me permitir acender velas nos seus pés. Me curvo diante de sua volúpia em defender um governo que não lhe dá nenhuma bola", afirmou, o senador do DEM.
O diretor de Marketing e Comunicação do Banco do Brasil (BB), Rogério Caffarelli, afirmou que as suspeitas de Heráclito são "desprovidas de racionalidade". Ele disse que não pretende mudar a campanha por causa das críticas do parlamentar. Segundo ele, o uso do número 3 foi inspirado pela Agenda 21 (2 + 1 = 3) e pela intenção do banco em incentivar as pessoas a tomar, por dia, pelo menos três atitudes em defesa da sustentabilidade do meio ambiente. "É algo que as pessoas podem fazer para ajudar a salvar o planeta."
Estadão













