8.12.07

Os imperdoáveis

Renan Calheiros renuncia à presidência
do Congresso, mas os senadores decidem
salvar seu mandato


Otávio Cabral

Fotos Joedson Alves
Renan Calheiros durante o julgamento: encenação, deboche e certeza da impunidade


As razões que levaram à salvação do mandato do senador alagoano Renan Calheiros na semana passada são compreensíveis. No entanto, são imperdoáveis. Foi um espetáculo triste, constrangedor e vergonhoso. Renan Calheiros renunciou à presidência do Congresso, abatido por acusações que o Código Penal classifica como crimes de corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, exploração de prestígio e sonegação fiscal. Horas depois da renúncia, o senador foi absolvido pelos colegas no processo que pedia a cassação de seu mandato por quebra do decoro parlamentar. Formalmente, 48 dos 81 senadores aceitaram a tese de que Renan é inocente.

Um estranho e contraditório veredicto. Primeiro, Renan, o acusado, reconheceu que não tinha mais condições de liderar o Senado. Depois, seus colegas, os juízes, consideram-no inocente, apesar das claras evidências de que ele usou dinheiro de origem desconhecida para comprar emissoras de rádio. Parece um contra-senso? Só parece. Foi, isso sim, o desfecho de um plano rigorosamente planejado e combinado em todos os detalhes. Renan sabia que seria absolvido, tinha uma lista certeira dos senadores que votariam a seu favor e, em troca, comprometeu-se a renunciar antes do julgamento. Anunciado o resultado, Renan riu e debochou dos colegas. Sem cerimônia, comemorou com os amigos o sucesso de sua mais recente e bem-sucedida empreitada: o aniquilamento da ética no Parlamento.

Pedro Simon: "Já está tudo acertado"

As negociações para poupar o senador Renan Calheiros da cassação começaram há um mês, mas o martelo de sua salvação só foi batido na véspera do julgamento. Havia muitos interesses em jogo – nenhum, é bom que se diga, relacionado à ética ou ao interesse público. Os senadores conhecem todos os "pecados" – um eufemismo criado pelos parlamentares – de Renan. Sabem que ele pagava despesas familiares por meio de um lobista de empreiteira, sabem que ele comprou rádios em nome de laranjas, sabem que ele fazia lobby em ministérios e sabem que ele manipulava o Orçamento em favor de amigos. Há um grupo considerável de senadores que se solidarizaram com Renan simplesmente por não ter as mãos mais limpas que as do acusado. Apenas esse grupo, integrado por governistas e oposicionistas, já lhe garantiria um bom número de votos. Na véspera do julgamento, porém, o governo também estendeu a mão a Renan. Em uma reunião no Palácio do Planalto, o presidente Lula determinou a seus ministros que a base aliada deveria ser orientada a votar a favor do senador. O presidente gosta de Renan Calheiros, é grato a ele por serviços prestados à época da CPI dos Correios, mas tem um problema que quer resolver a qualquer custo: a aprovação da CPMF. Os aliados de Renan ameaçavam votar contra a prorrogação do imposto se não recebessem ajuda política. A situação política do imposto, que já não é boa, poderia piorar. Ficou acertado na reunião que os senadores ligados ao governo seriam orientados a votar pela absolvição de Renan. Compreensível? Sim. Perdoável? Não.

Dida Sampaio/AE
Sarney, o anfitrião: é candidato?

Para pacificar a consciência daqueles mais preocupados com essa dimensão esquecida da vida política nacional, a ética, Renan renunciaria antes do julgamento, o que sinalizaria que ele foi devidamente punido pelos desvios de conduta. O próprio presidente ligou para Renan Calheiros para selar o acordo. Chegou a comentar com aliados que a renúncia à presidência do Congresso era uma pena extremamente grave. Avalizaram o acordo para salvar Renan os senadores Romero Jucá (conhecido por também usar laranjas para ocultar suas emissoras de rádio e TV) e Roseana Sarney (célebre por ser flagrada com 1,3 milhão de reais guardados num cofre) e o deputado Jader Barbalho, famoso que dispensa apresentações. A encenação ficou evidente durante o julgamento. Com raríssimas exceções, como o senador Demóstenes Torres, que cobrou coerência dos colegas, o clima era de conformismo até entre os parlamentares tradicionalmente mais aguerridos. "Neste país, só vai para a cadeia ladrão de galinha. Não tem ministro, parlamentar ou empresário que vá para a cadeia. Eu, pessoalmente, não gostaria de votar pela suspensão dos direitos políticos do senador Renan, mas já está tudo acertado. O governo absolve Renan, o Senado aprova a CPMF. Essa é a verdade, que deixa o Senado muito mal", disse o senador Pedro Simon. São artimanhas assim que ajudam a destruir cada dia mais a imagem dos políticos e do Congresso. Uma pesquisa feita pelo instituto Datafolha, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo, mostrou que 45% dos entrevistados consideram o Senado ruim ou péssimo. Em março, o índice era de 30%. No mesmo período, a avaliação regular caiu de 46% para 37%. E o índice dos que acham o Congresso ótimo ou bom diminuiu de 16% para 13%. "A crise envolvendo Renan Calheiros mostrou que dois terços do Senado agem sem nenhuma preocupação com a ética", diz o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília. "A absolvição de Renan Calheiros foi o ato final de um ano melancólico, provavelmente o pior da história do Senado."

Depois da sessão que absolveu Renan, os parlamentares voltaram a se reunir, dessa vez na casa do senador José Sarney. Oficialmente, a festa era para comemorar o aniversário de sua esposa, dona Marly, mas, com a chegada de Renan Calheiros, o assunto foi o resultado do julgamento. Renan estava à vontade, relaxado. Sem se separar de um copo de uísque, gargalhou até a madrugada, acompanhado dos convivas. Teceu comentários desairosos sobre o senador Jef-ferson Péres, que relatou o caso das emissoras de rádio, discutiu a própria sucessão, que tem o anfitrião Sarney como candidato preferido do grupo que o absolveu, e, para mostrar que continua no controle da situação, anunciou premonitoriamente que os dois processos ainda abertos contra ele no Conselho de Ética seriam arquivados. De fato, no dia seguinte, o presidente do conselho, Leomar Quintanilha (famoso pela acusação de embolsar dinheiro de uma empreiteira em troca da elaboração de emendas ao orçamento), anunciou o arquivamento. O senador Renan Calheiros deixa a presidência do Congresso em direção ao limbo – uma grande vitória para ele. O Senado, que passou os últimos sete meses discutindo ética e decoro, conseguiu a façanha de soterrar as duas coisas ao mesmo tempo – uma grande derrota para a sociedade. Imperdoável.

Sobrou até para os pensadores

Fotos Hulton Archive/Getty Images
John Donne e Descartes: parlamentares manipulam até idéias de grandes pensadores

Não foi só a ética o alvo das agressões no julgamento de Renan Calheiros. Grandes pensadores também foram trazidos à cena sem muito rigor. Em sua defesa, Renan Calheiros invocou o filósofo francês René Descartes (1596-1650): "Sobre a verdade, René Descartes lembrava que, para examiná-la, seria necessário, uma vez na vida, colocar todas as coisas em dúvida o máximo possível". Renan apelou ao francês na tentativa de classificar como mentira os fatos levantados contra ele. O senador Paulo Duque, do PMDB do Rio de Janeiro, citou o jurista italiano Nicola Framarino de Malatesta (1850-1912): "A opinião de identidade entre presunção e indício não se funda em nenhuma convicção lógica e deve, por isso, ser rejeitada". O parlamentar valeu-se do jurista italiano para tentar rebater o relatório do senador Jefferson Péres, que pediu a cassação do mandato de Renan Calheiros com base nos indícios de que ele usou laranjas e dinheiro sujo para comprar emissoras de rádio. O senador Marco Maciel citou o filósofo italiano Norberto Bobbio: "A realidade tem muitas faces". Disse isso para justificar sua mudança de posição. Ele chegou a acreditar na inocência de Renan, mas mudou de opinião. Rendeu-se aos fatos. Jefferson Péres, em sua acusação, citou adequadamente o poeta inglês John Donne (1572-1631): "Não pergunte por quem os sinos dobram, pois eles dobram por ti". Acertou, mas no plenário ninguém ouviu e, se ouviu, não entendeu. "No geral essas citações são um abuso", diz o filósofo Roberto Romano, professor de ética da Universidade Estadual de Campinas. "Os senadores estão fazendo com os clássicos, com os pensadores, o mesmo que fazem com a coisa pública." Romano diz que as citações lembram a definição de idiota feita pelo filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804). Um idiota, para Kant, é aquele que só decora fórmulas, mas não sabe aplicá-las: "São como nossos políticos, que decoram frases e as repetem sem nenhuma relação com o fato em discussão. São palavras loucas, sem sentido".

Ortodoxia de esquerda

O ministro da Fazenda diz que, se a CPMF
for aprovada, o governo vai anunciar a redução
de tributos "no dia seguinte"


Marcio Aith

Lailson Santos

"Ninguém mais quer saber de déficit público e inflação. Se no futuro for eleito um presidente irresponsável, ele terá de se submeter às regras do jogo ou será ‘impichado’ "

Guido Mantega era, até pouco tempo atrás e para quem desconhecia suas ligações antigas com o presidente Lula, o patinho feio entre os economistas petistas. Não tinha a verve do senador Aloizio Mercadante nem a simpatia professoral do acadêmico Paul Singer. Quando assumiu o posto de principal assessor econômico na campanha petista, em 2002, imaginava-se que seria o ministro da Fazenda. Foi preterido em favor do médico sanitarista Antonio Palocci. Restou-lhe o Ministério do Planejamento, depois a presidência do BNDES. O comando da economia caiu em seu colo em 2006, depois dos escândalos que vitimaram Palocci. Desde então, Mantega imprimiu à economia (e aos gastos sociais) um ritmo mais veloz – segundo ele, típico do "social-desenvolvimentismo", modelo que caracterizaria a segunda fase do programa econômico de Lula e, na visão dele, o fator principal do momento virtuoso da economia. Nos últimos meses, ele tem se empenhado em convencer senadores da oposição da necessidade de prorrogação, para até 2011, da cobrança da CPMF, o "imposto do cheque". Na entrevista a seguir, elogiou o legado do governo tucano e disse que, se a CPMF for aprovada, anunciará "no dia seguinte" um corte na contribuição previdenciá-ria sobre a folha de salários. Formado em economia e administração pela Universidade de São Paulo, Mantega nasceu em Gênova, na Itália, em 1949 e é brasileiro naturalizado.

Veja – A que o senhor credita a atual fase virtuosa da economia brasileira?
Mantega – No passado, crescíamos por espasmo, com profundos desequilíbrios. Hoje, não mais. A economia brasileira está arrumada. O Brasil finalmente está prestes a entrar no seleto grupo de países com taxas de expansão iguais ou superiores a 5%. O consumo cresce a taxas de 10%. Nunca se produziram ou se venderam tantos carros. Mesmo setores tradicionais da indústria, como o têxtil, o moveleiro e o de calçados, que sofrem com a inevitável e necessária concorrência internacional, estão integrados, pois fornecem para um mercado interno aquecido. Há uma nova classe média se formando, com dezenas de milhões de consumidores. Se não tivesse havido avanços institucionais e uma política agressiva no comércio exterior, que abriu novos mercados e diversificou parceiros, certamente não teríamos surfado nessa onda de expansão do comércio internacional. O Brasil não aproveitava essa onda porque, com um câmbio artificial, fixo, estávamos na contramão do comércio internacional. Nos anos 90 éramos importadores. Hoje somos exportadores.

Veja – Quem arrumou a economia brasileira?
Mantega – Sob uma perspectiva histórica, foi a própria sociedade, a partir das crises da década de 80. Até então, éramos uma das economias mais dinâmicas do mundo. Tínhamos as taxas de crescimento mais elevadas, mas acumulávamos uma série de problemas. Vieram as crises: a inflacionária, a da dívida externa, a de confiança, a crise de crescimento. Foi nesse cenário de dificuldades que se criaram as forças e o consenso para a transformação da sociedade brasileira que está sendo coroada hoje. Naquele período começamos a amadurecer as instituições. Foi um trabalho longo e coletivo. Separamos as contas do Banco do Brasil e do Banco Central, criamos a secretaria do Tesouro Nacional, estruturamos o sistema financeiro, aperfeiçoamos o mercado de capitais.

Veja – E o Plano Real, dos tucanos?
Mantega – Ele foi importantíssimo, por ter abandonado a filosofia do congelamento que norteou os planos antiinflacionários que vieram antes. Seu grande mérito foi conseguir um controle da inflação dentro de padrões de mercado. Havia uma leniência generalizada com a inflação e com o descontrole fiscal. Os bancos, a classe média, os empresários e o próprio governo tiravam proveito da inflação. Antigamente, sem saber se a economia continuaria crescendo, o empresário brasileiro não aumentava a produção, mas o preço. Essa mentalidade não existe mais. Hoje o empresário brasileiro compete por fatia de mercado, não mais por margem de lucro. A sociedade incorporou o combate à inflação como dever básico do governo. Assim como a responsabilidade fiscal. A cultura do desperdício foi substituída pela filosofia da responsabilidade. Hoje, independentemente das ideologias que norteiam os governos, o princípio da responsabilidade fiscal foi consolidado. Foi uma grande contribuição do governo anterior, dos tucanos.

Veja – Os analistas observam que a política econômica do segundo mandato de Lula já não é a mesma do primeiro, pois o governo tem poupado menos e gastado mais...
Mantega – Isso é procurar pêlo em ovo. Temos uma agenda de crescimento mais explícita, é verdade, mas mantivemos os fundamentos do primeiro mandato. Mudamos apenas de fase na política econômica. Em um primeiro momento tivemos de reequilibrar as contas, fazer cortes, elevar o superávit primário. É verdade que reduzimos em 2006 a meta de superávit primário em 0,5 ponto porcentual, para dar espaço a mais investimentos. A rigor, no entanto, apenas recolocamos essa meta no patamar em que estava no começo do governo Lula, em janeiro de 2003. E, mesmo com um objetivo mais flexível, nossa economia tem ficado acima da meta. Não houve, portanto, conseqüência negativa alguma.

Veja – Outra crítica que se faz é que o Ministério da Fazenda se tornou tolerante à inflação ao defender, neste ano, a meta de 4,5% para 2008 e 2009, um índice superior à inflação que já existia.
Mantega – Podemos ser acusados de várias coisas, menos de defender a inflação. Naquele momento quis uma meta de inflação um pouco mais folgada por causa das oscilações da economia mundial. Foi uma medida de precaução, para acomodar eventuais choques externos. A crise provocada pelo mercado de hipotecas nos Estados Unidos provou que eu tinha razão. Como podem dizer que defendo a inflação se ela hoje é inferior à da era Palocci? O controle da inflação independe de grupos políticos. Se no futuro for eleito um presidente irresponsável, ele terá de se submeter a regras consolidadas ou será "impichado". Ninguém quer mais saber de déficit público ou de inflação.

Veja – Curiosamente, todos os economistas que chegaram à Fazenda com o senhor são críticos ferrenhos à política monetária do Banco Central. Existe um cerco desenvolvimentista ao Banco Central?
Mantega – Essa idéia de cerco ao Banco Central é uma balela. Ocorre o contrário. Só agora a Fazenda voltou a trabalhar em sintonia com o BC. Antes, havia uma disputa entre o Afonso Bevilaqua e o Joaquim Levy. Os dois não se sentavam à mesma mesa. A harmonia agora foi retomada. As reuniões semanais de trabalho entre o ministério da Fazenda e o BC, que haviam sido suspensas, foram retomadas.

Veja – A saída de quatro pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) não alinhados com o governo não é sinal de subordinação da política econômica a interesses ideológicos?
Mantega – Houve um exagero brutal nesse episódio. Atribuiu-se ao órgão um alcance que ele não tem. O Ipea exerce uma função muito relevante no campo das análises setoriais, é verdade, mas não define política econômica. Quem exerce a política econômica são os ministérios da Fazenda e do Planejamento, o Banco Central e a casa Civil. Como ministro da área econômica, não me limito a ler documentos e análises produzidos pelo Ipea. Acompanho análises econômicas de bancos e de empresas – por sinal, cada vez mais precisas.

Veja – A Fiesp alega que, entre 2004 e 2007, os gastos cresceram mais do que o PIB e até mais do que a receita. Está havendo gastança?
Mantega – Os gastos públicos de fato aumentaram, mas subiram menos que a arrecadação. O que houve foi um crescimento real da transferência de renda. O Bolsa Família era de 2 bilhões de reais. Hoje é de 10 bilhões de reais. Isso foi uma opção política do governo, uma estratégia para formar um mercado consumidor de massa. Mas os gastos de custeio da máquina estão controlados. Eu já fui ministro do Planejamento. Sei como cortar. Faço isso permanentemente. Por maior que seja o esforço do senhor Skaf (Paulo Skaf, presidente da Fiesp), ele não vai conseguir provar que os gastos cresceram mais que a arrecadação tributária. Porque não aumentaram. Prova disso é que sobra mais dinheiro, estamos com um superávit primário maior. Quanto aos gastos subirem mais que o PIB, é uma comparação inadequada, considerando o aumento da arrecadação e a necessidade de inclusão social.

Veja – Em vez de transferir tanta renda e elevar tanto o salário mínimo, não teria sido melhor usar os recursos para investir na combalida infra-estrutura?
Mantega – Na verdade, a opção foi nas duas direções: melhorar a condição dos miseráveis e, ao mesmo tempo, elevar os investimentos. Mas, num primeiro momento, só pudemos transferir renda. Isso porque, depois de vinte anos parada, a máquina pública não conseguia mover-se. O investimento do setor público passa por etapas burocráticas obrigatórias: licitação, audiência pública, licença ambiental. Uma licitação leva seis meses para ser montada. A da concessão das estradas, conduzida pela ministra Dilma e que mudou o paradigma das privatizações no Brasil, demorou mais de cinco anos para ser feita. Para se ter uma idéia, não conseguiremos gastar todo o recurso de investimento disponível para 2007. Faremos metade daquilo que está colocado. Mas em 2008 ganharemos velocidade de cruzeiro nos projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Veja – Até pouco tempo atrás o senhor se alinhava entre os que viam o câmbio valorizado como uma ameaça às exportações. O que o fez mudar de opinião?
Mantega – Minha geração de economistas foi formada no pensamento cepalino (tendência desenvolvimentista latino-americana que teve seu auge nos anos 50 e 60). Isso foi válido para determinado período, mas a globalização revolucionou todos os princípios econômicos. Aquela história de reserva de mercado, de protecionismo, que eu mesmo defendi, hoje não vale nada. O Brasil pode ser um protagonista importante com uma economia mais aberta, mais competitiva. Isso implica certa valorização do real e governo e empresários mais competitivos. Quando o dólar estava a 2,80 reais, dizíamos que a economia ficaria inviável. Quando se aproximava de 2,50 reais, dizíamos que as exportações iriam travar. Quando caiu para 2,30 reais, então, afirmávamos que o setor manufatureiro seria eliminado. Nada disso aconteceu. Com o câmbio valorizado, os empresários brasileiros des-cobriram que podem importar máquinas e insumos mais baratos. Em geral, nós, economistas, tendemos a ter padrões de pensamento voltados para o passado, como se a economia fosse a mesma de dez, quinze ou vinte anos atrás. Mas não é. A economia é outra.

Veja – Em 2002, 25% das exportações brasileiras iam para os Estados Unidos. Agora são 15%. Estamos negligenciando os mercados consumidores mais ricos?
Mantega – O comércio com os Estados Unidos aumentou menos, mas também aumentou. O que diminuiu foi sua proporção com relação ao destino total de nossas vendas externas. Essa redução não é produto de opção ideológica ou política. É o resultado natural da desvalorização do dólar, que encarece nossas exportações para os Estados Unidos, e da diversificação do comércio exterior brasileiro. Eu adoraria exportar mais para os Estados Unidos. Tenho um ótimo relacionamento com o Paulson (Henry Paulson, secretário do Tesouro americano). Os presidentes Lula e Bush levaram as relações bilaterais a um momento maravilhoso. Nada temos contra os mercados ricos. Nos últimos doze meses, aumentamos em 25% nossas exportações para a União Européia.

Veja – Por que a Venezuela deveria ingressar no Mercosul?
Mantega – Porque é um parceiro comercial importante, com o qual temos um superávit comercial de 3 bilhões de dólares ao ano. E porque, se a Venezuela for aceita, ela se submeterá às regras que serão estabelecidas pelo Mercosul. Além disso, o ingresso da Venezuela no Mercosul reforça a participação das grandes empresas brasileiras que têm obras de vulto ali.

Veja – Essas companhias também se internacionalizam para fugir da carga tributária e da burocracia brasileiras.
Mantega – É claro que temos problemas a resolver. Mas já alcançamos um outro patamar na história. Estamos constituindo um admirável mercado de consumo de massa. Uma nova classe média. Temos, é verdade, uma carga tributária elevada, custos financeiros ainda altíssimos e uma infra-estrutura combalida. O Brasil está longe de ser um país acabado. O governo tem de reduzir custos, oferecer portos, aeroportos, energia elétrica, precisa garantir que haja energia.

Veja – Extinguir a CPMF não seria um bom começo?
Mantega – A CPMF é um tributo que onera pouco as operações e do qual dependem muito as políticas sociais. Por que não fazer melhor? Se quisermos que as empresas brasileiras possam competir em pé de igualdade com as estrangeiras, precisamos reduzir o custo da folha de pagamentos. Já temos uma proposta nesse sentido. Se a CPMF for aprovada, o governo anunciará, no dia seguinte, uma redução em etapas, para até 15%, da contribuição previdenciária sobre a folha de pagamentos, hoje em 20%. Essa redução faz parte da proposta de reforma tributária que não foi enviada ao Congresso para não tumultuar o ambiente da CPMF.

Veja – Não é curioso o fato de o presidente Lula não ter um candidato para suceder-lhe num momento em que a economia está indo de vento em popa?
Mantega – É cedo demais para falar em candidato. Ao longo do segundo mandato do presidente, poderá surgir um governador ou um ministro que sobressaia.

Veja – O senhor não pode ser candidato à Presidência por não ser brasileiro nato. Mas teria essa ambição?
Mantega – Eu, não. Nunca me candidatei a nada. Sempre fui um professor de economia preocupado com o desenvolvimento do país. Sou um estrategista econômico. Por não ter ambições próprias, não preciso fazer sombra ao presidente. Antes de ser ministro, o Palocci era político. Tinha uma carreira política pela frente. O presidente Lula precisa de colaboradores totalmente dedicados à causa do governo, e não a interesses próprios.

As sombras do passado

Brigas, traições, inveja, dinheiro e macumba... A ex-primeira-dama Rosane Collor conta pela primeira vez os bastidores
de uma das mais corruptas presidências da história


Alexandre Oltramari

Anderson Schneider
Orlando Brito
EM DOIS TEMPOS
Rosane Collor agora (à esq.) e no auge do poder: testemunha ocular e auricular da história

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Especial: Collor, quinze anos do impeachment

Ninguém assistiu à ascensão e queda do ex-presidente Fernando Collor de uma posição mais privilegiada que a de Rosane Malta Collor. Nascida em Canapi, no sertão alagoano, Rosane casou-se com Collor aos 19 anos de idade, quando ele ainda era um inexpressivo deputado federal por Alagoas. Collor, como se sabe, elegeu-se governador do estado e, três anos depois, atingiu o ápice da carreira de qualquer político – a Presidência da República. Rosane estava ao lado de Collor quando ele subiu a rampa do Palácio do Planalto e, quase três anos depois, também o acompanhava, de mãos dadas, quando ele deixou o governo e entrou para a história como o primeiro presidente a sofrer um processo de impeachment. Rosane Collor nunca contou publicamente o que testemunhou então. Na semana passada, quinze anos depois, ela rompeu o silêncio. Separada de Collor há três anos, não se sente mais obrigada a ocultar segredos dos tempos de primeira-dama. Em entrevista a VEJA, ela conta detalhes dos momentos mais tensos do governo do marido na ótica de uma ex-esposa. Rosane fala da relação do ex-presidente com o tesoureiro entesourador Paulo César Farias, o PC, conta como ele reagiu às denúncias do irmão, diz que teve medo de Collor tentar o suicídio e detalha as incursões do primeiro-casal no terreno da magia negra. O depoimento de Rosane revela ainda um lado desconhecido da personalidade do ex-presidente: ciumento, ele mantinha a esposa sob permanente vigilância e, certa vez, chegou a acusá-la de manter um caso extraconjugal. Não eram raras as situações em que, contrariado, tinha explosões de fúria que levaram a mulher a suspeitar de que alguma coisa pudesse estar interferindo em seu comportamento. O casal ficou três meses separado durante a Presidência. Rosane Collor só se nega a falar, por enquanto, de um assunto: o destino dos milhões de dólares que a parceria entre o hoje senador Fernando Collor e PC Farias teria produzido.

Veja – A saída do presidente Collor e da senhora do Palácio do Planalto, há quinze anos, foi o maior desafio institucional enfrentado pelo país desde a volta à democracia. Como foram os minutos que antecederam aquele momento?
Rosane – Quando a Câmara dos Deputados votou o impeachment, eu estava na Casa da Dinda. Fernando pediu para ficar sozinho no gabinete presidencial. Não queria ninguém na sala dele. Ele me ligava a cada minuto, a cada voto. Dizia: "Quinha, esse cara jantou aí em casa, falou que votaria contra e acaba de votar a favor". No último voto, quando viu que não havia mais jeito, ele me disse: "Está perdido". Pedi para ele ter calma e não fazer nenhuma besteira. Em seguida, determinei a um assessor que não o deixassem só e que o trouxessem para casa.


Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
IMPEACHMENT
Afastado da presidência, o casal deixa pela última vez o Palácio do Planalto: paranóia, crises de raiva e cabeçadas na parede

Veja – O que ele lhe disse quando chegou em casa?
Rosane – Fernando desceu do helicóptero, beijou meu rosto e começou a chorar. Passamos uma noite terrível. Dormimos apenas uma hora. Ele estava destruído. Dois dias depois, voamos até o Palácio do Planalto para a cerimônia oficial da saída da Presidência. Havia manifestantes vaiando e gritando palavrões horríveis. O cerimonial ficou com medo de que arremessassem ovos e tomates. Queriam que saíssemos pelos fundos. Queriam humilhá-lo mais ainda.

Veja – O presidente e a senhora embarcaram em um helicóptero e foram para a Casa da Dinda. O que conversaram nesse trajeto?
Rosane – Fernando me disse que tinha um último desejo. Queria ver uma escola que estava sendo construída nas proximidades da Casa da Dinda. Estávamos sentados no banco de trás do helicóptero. Fernando fez esse pedido. Sem nem consultar o piloto, o ajudante pediu desculpas e informou que não havia gasolina. Fernando chorou. Foi o momento em que ele teve consciência de que não era mais presidente da República.

Veja – Entre a saída do Planalto, em setembro de 1992, e a renúncia ao mandato, em dezembro do mesmo ano, passaram-se três meses. Como foi esse período?
Rosane – Trocamos a noite pelo dia. Dormíamos às 6 horas da manhã e acordávamos à 1 da tarde. Fernando passou esse tempo todo trabalhando em sua defesa. Não saíamos de casa. Passamos a tomar remédios para dormir. Ele perdeu 14 quilos e eu, 10. Também comecei a temer pela vida dele.

Veja – Como assim? O presidente pensou em se suicidar?
Rosane – Fiquei com muito medo de que isso pudesse acontecer. Fernando era muito forte, mas ficou arrasado. Quando ele se levantava para ir ao banheiro, eu ia atrás. Tinha medo de que ele fizesse uma besteira. Havia duas ou três armas em casa. Mandei esconder tudo.

Veja – Qual foi o momento mais difícil?
Rosane – Foi quando o Pedro Collor fez as denúncias contra a gente. Além do caráter político, havia uma questão familiar muito importante em jogo. A mãe do Fernando, dona Leda Collor, morreu por causa disso. Dona Leda tinha pressão alta e tomava remédios controlados.

Veja – Pedro Collor desconfiava que o presidente assediava sua mulher, Thereza. A senhora acha que foi essa a razão que o levou a denunciar o irmão?
Rosane – Não acredito nisso. Eles se desentendiam desde que nasceram. Pedro, assim como Fernando, tinha um temperamento muito forte. Eles simplesmente não conseguiam conviver. Não lembro de um Natal que Fernando tenha passado com a família dele em 21 anos de casamento. Além disso, o Paulo César Farias montou um jornal em Maceió para concorrer com o jornal que pertencia à família do Fernando e era dirigido pelo irmão. Isso deixou o Pedro irado. Ele achava que o Fernando estava por trás do jornal do Paulo César.

Bia Parreiras
INTRIGA
Pedro Collor, o irmão que provocou a queda do presidente: Rosane diz que ele contou tudo a VEJA por inveja


Veja –
E não estava?
Rosane – Estava. Algumas vezes o Fernando queria colocar uma matéria no jornal e o Pedro não permitia. Ele tinha inveja do irmão.

Veja – A senhora e o presidente passaram um período rompidos durante o governo. Collor inclusive fez questão de aparecer em público sem aliança. O que ocorreu?
Rosane – Aconteceram duas coisas ao mesmo tempo. Fernando passou a reclamar do meu trabalho na Legião Brasileira de Assistência (LBA). Aos 25 anos, comecei a chamar a atenção da mídia. Os artistas gostavam de mim, e dele, não. Ele começou a ter muito ciúme. Ficou maluco quando publicaram uma foto minha de biquíni. Ele era tão ciumento que me ensinou a cumprimentar as pessoas com o braço firme e esticado, para evitar que alguém tentasse beijar o meu rosto.

Veja – O presidente, então, nunca desconfiou que a senhora mantinha um relacionamento extraconjugal?
Rosane – Num certo dia, ele chegou em casa à noite e me disse que havia uma fita na qual eu aparecia falando com um rapaz. Lidei com esse problema com a verdade. A tal fita nunca apareceu. Não havia condições práticas de eu manter um caso extraconjugal. Eu era vigiada 24 horas. Talvez por um minuto isso tenha passado na cabeça dele. Não mais que isso. Mas não foi por esse motivo que ele tirou a aliança. A razão principal foi mesmo o meu trabalho na LBA. Ele queria que eu cuidasse mais da casa. Por isso, passamos três meses separados.

Veja – Logo depois da separação, a senhora teve de deixar a presidência da LBA sob denúncias de corrupção. Foi coincidência?
Rosane – Um dia, ao chegar para trabalhar, encontrei a minha sala de trabalho arrombada. Reviraram todo o gabinete. Até hoje não sei se alguém entrou lá cumprindo ordens do presidente da República. Fui absolvida de todas aquelas acusações.

Veja – A senhora disse que o presidente era muito ciumento. Ele a agrediu fisicamente alguma vez?
Rosane – Não, mas já quebrou uma mesa de madeira após uma discussão. Às vezes nem era só por ciúme. Ele tinha muita raiva do que saía na imprensa. Quando soube que VEJA publicaria a matéria com as denúncias do Pedro Collor, ele deu murros na parede e derrubou tudo o que havia sobre a sua mesa de trabalho. Disse todos os palavrões possíveis. Falou que iria se vingar e que o Pedro pagaria por aquilo.

Veja – Collor sempre se declarou um católico praticante. Mas eram fortes os rumores de que ele freqüentava terreiros de macumba. Isso chegou a acontecer?
Rosane – Aconteceu. Eu e Fernando de fato participamos de trabalhos espirituais. Alguns chegaram a ocorrer na Casa da Dinda, mas eu não gostava muito. Pedi para acabar com isso lá em casa. Aí os trabalhos começaram a ser feitos numa casa vizinha, cedida por um amigo.

Veja – Com que freqüência isso ocorria?
Rosane – Não lembro. Mas recordo que isso se intensificou no último ano de governo, quando começamos a ter mais dificuldades em Brasília.

Veja – Havia sacrifício de animais?
Rosane – Sim.

Veja – O presidente participava?
Rosane – Sim. Mas era uma coisa horrível. Nem gosto de lembrar.

Veja – A senhora chegou a freqüentar essa casa?
Rosane – Fui lá algumas vezes. Eu não gostava de assistir ao sacrifício de animais. Passava mal sempre que via sangue.


Angel Mora
Antonio Milena
RIQUEZA
Após o impeachment, o casal mudou-se para Miami e manteve uma vida de ostentação semelhante à dos bons tempos em que o tesoureiro Paulo César Farias bancava as despesas da família com dinheiro arrecadado criminosamente junto a empresários que prestavam serviços ao governo

Veja – Como vocês faziam para freqüentar esses cultos sem chamar atenção?
Rosane – Era sempre de madrugada.

Veja – Qual era o objetivo desses rituais?
Rosane – Fernando pedia proteção. Pedia que todo mal que alguém lhe desejasse voltasse para a pessoa que o estava amaldiçoando.

Veja – O presidente tinha mania de perseguição?
Rosane – Ele achava que sempre havia alguém querendo prejudicá-lo. Tinha muita raiva da imprensa.

Veja – É verdade que o presidente era usuário de drogas?
Rosane – Ele nunca fez nada na minha frente. Mas houve uma época em que todo mundo só falava disso. Até as minhas amigas começaram a me perguntar. Fernando apresentava alterações de humor muito bruscas. Às vezes, quando ficava bravo, ele dava socos e batia com a cabeça na parede. Uma vez ele quebrou a porta da casa da mãe por causa de um acesso de raiva. Passei a ficar desconfiada. Perguntei-lhe algumas vezes se usava drogas. Ele sempre me disse que não. Como ele gostava muito de beber, achei que poderia ser efeito da bebida.

Veja – Como era sua rotina como primeira-dama?
Rosane – Havia um lado glamouroso que era maravilhoso. Conheci príncipes e princesas, reis e rainhas, viajei pelo mundo e convivi com gente que jamais imaginaria, como a princesa Diana e a Barbara Bush. Mas também havia um lado muito difícil.

Veja – Qual é o sabor do poder?
Rosane – Ter dinheiro não é a mesma coisa que ter poder. Todo o dinheiro do mundo não poderia comprar um jantar com a princesa Diana. Eu já fui recebida em jantar por ela. Na Espanha, fomos hóspedes do rei Juan Carlos, esse que acabou de mandar Hugo Chávez calar a boca. Nos Estados Unidos, fomos hóspedes do George e da Barbara Bush. Ela sempre me mandava cartas e chegou a me enviar um livro que fez para o seu cachorrinho. Ela tinha um carinho especial por mim.

Veja – Foi muito difícil voltar a levar uma vida normal depois do impeachment?
Rosane – Conseguimos dar a volta por cima. Em Miami, pudemos levar uma vida normal. Eu e Fernando dirigíamos o próprio carro. Jogávamos tênis, estudávamos inglês, almoçávamos juntos e viajávamos bastante. Ele montou um escritório num prédio luxuoso, onde costumava passar as tardes.

Veja – Qual era, afinal, a relação entre Collor e Paulo César Farias, o PC Farias?
Rosane – Paulo César era homem de confiança do Fernando. Era ele quem cuidava de todas as questões financeiras. Ninguém entrega a tarefa de arrecadar dinheiro para sua campanha a alguém em quem não confia. Mas isso não significa que ele vivia na minha casa. Não convivíamos. Era uma relação profissional.

Veja – Collor sempre garantiu que nunca mais voltou a ver o tesoureiro PC Farias depois de tomar posse como presidente. Isso é verdade?
Rosane – Ele e Paulo César tomaram café-da-manhã juntos algumas vezes na Casa da Dinda depois da posse. Também se encontraram várias vezes fora dali.

Veja – Durante o governo Collor, uma frase de PC Farias que ficou famosa dizia o seguinte: "Madame está gastando demais". Quando a senhora descobriu que PC Farias pagava despesas pessoais da senhora e de sua família?
Rosane – Fiquei sabendo disso pelo noticiário. Eu não sabia nem o que era fantasma. É muito difícil saber que até o seu dentista é pago por outra pessoa. Fernando me dizia que nada do que estavam falando era verdade. Tudo o que eu queria o meu marido me dava. Para mim, até então, o dinheiro era dele. Ele era muito fechado sobre a relação que mantinha com o Paulo César.

Veja – Como o presidente reagiu à notícia da morte de PC Farias?
Rosane – Estávamos no Taiti. Primeiro, ele ficou chocado. Depois, ficou com muito medo de ser acusado de ter mandado assassinar o Paulo César.

Veja – Por que vocês não foram ao enterro dele?
Rosane – Nessa época, eles já tinham pouco contato. Lembro apenas de ele ter ligado para um dos irmãos se solidarizando.

Veja – A prisão de PC Farias na Tailândia deixou o presidente preocupado?
Rosane – Ficou apreensivo.

Veja – A senhora acha que Collor errou ao receber dinheiro de PC Farias?
Rosane – Eu nunca soube exatamente que tipo de acordo regulava as relações financeiras entre Fernando e Paulo César.

Veja – A senhora, então, achava que o presidente era um homem muito rico?
Rosane – Sempre achei que o Fernando fosse rico. Quando moramos em Miami, ele me deu um Porsche de presente. Tínhamos uns dez cartões de crédito. Também guardávamos dinheiro em um cofre da casa. Quando voltamos ao Brasil, continuamos vivendo maravilhosamente bem. A minha mesada era de 40 000 reais. Passávamos o réveillon em Angra dos Reis com ilha alugada, com segurança, mordomo e até helicóptero. Também costumávamos esquiar em Aspen. Com a nossa separação, em 2005, descobri que Fernando tem uma renda mensal declarada de 25 800 reais.

Veja – Entre o impeachment, em 1992, e a sua eleição para o Senado, no ano passado, o ex-presidente praticamente não trabalhou. Como ele bancava seus gastos pessoais com uma renda de 25 800 reais?
Rosane – Não posso falar sobre isso.

Veja – Estima-se que a parceria entre PC Farias e o ex-presidente tenha deixado um saldo de 60 milhões de dólares em contas secretas no exterior. A senhora tem alguma idéia de onde foi parar esse dinheiro?
Rosane – Não posso falar sobre isso.

Veja – A senhora acredita que o presidente tenha contas secretas no exterior?
Rosane – Não posso falar sobre isso.

Veja – A senhora não pode responder porque não sabe ou porque tem medo de sofrer alguma retaliação?
Rosane – Não posso falar sobre isso.

Estranha estréia

O início das transmissões da TV digital
em São Paulo prometia um espetáculo.
Para muita gente, foi um fiasco


Rafael Corrêa e Roberta de Abreu Lima

Alguns viram isso…

…e outros viram isso…
…mas ainda vai funcionar

A estréia oficial das transmissões da televisão digital brasileira começou por São Paulo na semana passada e foi frustrante. O presidente Lula usou uma rede nacional de emissoras para anunciar, como não poderia deixar de ser, "a melhor televisão digital do mundo". Ela começaria exatamente às 8 e meia da noite de domingo, dia 2 de dezembro. Fez-se, então, uma contagem regressiva: cinco, quatro, três, dois, um e..........! Nada... Os milhões de telespectadores de São Paulo que sintonizavam a cerimônia foram entregues à programação normal das redes – sem que se processasse nenhuma mudança transcendental na imagem. Nada parecido com o que se viu em 1972 com a entrada da TV em cores. Um dia a imagem era formada por cinza e preto. No outro, as cenas eram mostradas com suas cores naturais nos televisores preparados para isso. Por que a frustração com a TV digital de alta definição até agora?

As razões são óbvias, mas ficaram soterradas sob toneladas de ufanismo da propaganda oficial. As transmissões de alta definição realmente começaram como o previsto. A programação foi a mesma que trafegou pelo cabo e pela freqüência analógica tradicional, a VHF. As imagens de alta definição passaram a ser transmitidas, em freqüência UHF, exatamente no modo e na hora prometidos. Mas quem assistiu à TV digital em São Paulo? Pouquíssima gente. Apenas alguns vanguardeiros, que haviam comprado conversores, a antena correta e moram em bairros com "cobertura de UHF." Quem não preencheu todas as condições acima viu apenas mensagens como "Sem sinal" ou "Sinal fraco". Na melhor das hipóteses, viu imagens instáveis, como se sintonizasse uma emissora do planeta Marte.

O paulistano Marcio Leite foi um dos que compraram o conversor e ficaram a ver navios. "O aparelho veio com uma antena interna, que não funcionou", ele relata. "Fiquei andando pelo apartamento, segurando a anteninha em várias posições, mas o sinal não pegava de jeito nenhum." Às vezes, o sinal até pega, mas a imagem não fica boa. Marcelo Zuffo, coordenador do laboratório de sistemas integráveis da Universidade de São Paulo, informa que o problema está na transmissão. "Falhas na imagem ocorrem quando o sinal é enviado com potência baixa", ele diz. Algumas emissoras, como a Bandeirantes, explicam que seu sinal ainda está em fase de ajustes. Isso significa que, durante um tempo, não há garantia de que todos os canais que transmitem em sistema digital sejam captados pelos vanguardeiros tecnológicos.

Fabiano Accorsi
Leite: "Fiquei andando com a antena pela sala, tentando captar o sinal. Não deu certo"


A antena UHF é essencial para captar a TV digital – mas como escolher a antena adequada? Depende. Em muitos bairros paulistanos, a antena interna não é suficiente para captar o sinal digital. Segundo levantamento da Universidade Mackenzie, 52% dos domicílios que recebem o sinal analógico convencional da TV aberta em São Paulo utilizam uma antena externa, instalada no telhado das casas ou no topo dos prédios. O problema é que a maior parte dessas antenas foi projetada para captar apenas a freqüência VHF, que carrega o sinal analógico. Trocar a antena coletiva de um edifício para receber o sinal em UHF é uma solução que parece simples. Parece. Se o prédio for antigo e tiver abandonado a manutenção da antena porque os condôminos aderiram todos à TV a cabo, será necessário substituir os amplificadores, as caixas distribuidoras e todo o sistema de cabos para direcionar o novo sinal. Ainda assim, a TV pode não funcionar. Isso porque alguns pontos da cidade, localizados em regiões baixas e cercadas de prédios ou morros, fazem parte das chamadas "zonas de sombra", onde os sinais de UHF não pegam.

Como saber se a casa está em uma dessas zonas mortas? Só testando. Um bom indicador é que, em muitas dessas zonas, nem o sinal VHF das transmissões convencionais consegue chegar. Os assinantes de TV a cabo em breve receberão das operadoras a opção de alta definição por um custo de adesão em torno de 800 reais. Por esse preço, os canais a cabo cuidarão de todos os detalhes técnicos. No entanto, levará algum tempo até que a captação do sinal aberto gratuito de alta definição seja dominada pelos milhões de brasileiros não assinantes do cabo. São Paulo está sendo um laboratório dessa experiência. Ela deve ser menos penosa quando começar a se espalhar pelo resto do país, a partir de janeiro.

7.12.07

Lula: Chávez foi primeiro progressista


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que não haverá integração entre os países do Mercosul se os mais fortes economicamente, como Brasil e Argentina, não fizerem concessões para os menores. Ele defendeu o avanço das esquerdas na América do Sul e Central e elogiou publicamente os colegas Hugo Chávez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, que se envolveram em recentes conflitos diplomáticos com o Brasil.

"Ficam de um lado uns países achando que a Argentina é um país imperialista. De outro lado os companheiros da Bolívia e do Paraguai tratando o Brasil como imperialista. Obviamente que tem de ser assim, porque nós não fazemos aquilo que tem de ser feito em política internacional. Nós temos de ceder para esses países menores poderem crescer."

Num discurso descontraído, mas repleto de citações históricas, que durou 45 minutos no evento de encerramento do Encontro de Governadores da Frente Norte do Mercosul, Lula surpreendeu a todos. Iniciou seu discurso lembrando o Fórum de São Paulo, primeiro encontro promovido na América Latina entre as esquerdas. "Lembro como se fosse hoje, só da Argentina tinha 13 organizações políticas de esquerda que não se conversavam. A única coisa que os unia era o Maradona."

Segundo ele, a partir dali começou uma revolução das esquerdas na América do Sul que agora caminha para a América Central. "O que aconteceu na América do Sul é um fenômeno político que possivelmente os sociólogos levarão um tempo para compreender, porque foi tão rápida a mudança", afirmou.

Lula citou conquistas da esquerda na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, no Equador como um processo de crescimento. "Nessa época, o Chávez era o único presidente com cara progressista, com compromissos efetivos com o povo mais pobre", afirmou.

"E hoje vemos que o que aconteceu na América do Sul está se espraiando pela América Central e para a América Latina", disse, sob aplausos - citando as eleições na Guatemala, no Panamá e as possibilidades da esquerda em El Salvador. "E assim estamos avançando. Há um mapa exatamente antagônico ao mapa que existiu de 1980 a 1990 ou ao ano 2000." Segundo ele, quando o povo teve oportunidade na América do Sul "fez uma guinada completa, trocou o neoliberalismo pelo que tinha de mais avançado em políticas sociais".

INTEGRAÇÃO

Lula assumiu o discurso de que o Brasil, como maior País da América do Sul, tome a frente nas políticas de integração comercial do Mercosul e faça concessões aos países menores. Segundo ele, é natural que recaia nas costas do Brasil a responsabilidade de levar em conta as assimetrias existentes nas relações comerciais do continente. "Temos de trabalhar para industrializar países como o Paraguai, a Bolívia."

O presidente defendeu Chávez e Morales. Lembrou o episódio da nacionalização do gás na Bolívia como exemplo de concessão a ser feita nas relações entre países. "Estava em época de eleição quando o Evo Morales quis nacionalizar o gás dele e eu disse: ‘o gás é do Evo e ele está correto em nacionalizar, o gás é uma matéria prima e a única coisa que a Bolívia tem’."
Estadão

6.12.07

Pobre paga mais CPMF, diz economista


A CPMF, cuja prorrogação pode ser votada hoje no Senado, não é um imposto cobrado apenas sobre o rico, como tem defendido o governo. E tampouco pune o sonegador de impostos no país.
A avaliação é do economista tucano José Roberto Afonso, que é especialista em finanças públicas e assessor técnico da subcomissão tributária do Senado. "O pobre paga a CPMF de forma indireta, nos produtos que consome", diz ele. "O pobre paga mais CPMF do que os ricos, até porque consome tudo o que ganha."
Quando o governo argumenta que a CPMF só incide sobre os ricos, esquece de dizer que o pobre também paga a contribuição de forma indireta sobre os produtos que consome. O produtor do leite, do pão e da carne repassa a CPMF sobre o produtos.
De acordo com José Roberto Afonso, a maior parcela da arrecadação da CPMF vem das empresas, dessa cobrança indireta do imposto, e não das pessoas físicas. Do total da CPMF, apenas 9,5% da arrecadação provém das pessoas físicas. "A CPMF é muito mais um imposto indireto do que direto", diz.
O outro argumento comum utilizado pelo governo para defender a arrecadação da CPMF é que o imposto pune os sonegadores. Afonso contesta. O que o governo deveria fazer é usar a CPMF para combater a sonegação, mas, para isso, não precisa de uma alíquota de 0,38%. Bastaria 0,08%.
A CPMF seria importante, como uma alíquota desprezível, para fazer o sonegador pagar os impostos que os bons contribuintes pagam normalmente. "A CPMF é cara para os bons contribuintes e barata para o sonegador que paga apenas esse imposto", diz.
Ao mesmo tempo, Afonso diz que a CPMF é ruim para a desintermediação financeira, tanto que o tributo só existe em cinco países da América Latina. No Brasil, a CPMF só existe porque o país é vice-campeão mundial dos juros. Folha

3.12.07

O 12º partido da coalizão de Lula


No dia 1º de janeiro deste ano, o então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Gustavo Petta, voou num jatinho da FAB de São Paulo para Brasília, com um ministro do governo. Petta teve lugar de honra na cerimônia de posse do segundo mandato do presidente Lula. A carona de luxo foi um caso sem precedente na UNE e um recado da legião de estudantes para o Planalto de como se comportaria a partir deste ano. Petta, hoje, é membro do Conselho Nacional da Juventude, ligado ao gabinete do presidente da República. A nova dirigente, a bela gaúcha Lúcia Stumpf, tomou posse na linha do antecessor. Aberta ao diálogo, priorizou a visita a gabinetes do Senado em sua agenda política.

O governo tem 11 partidos na coalizão. Perto das benesses do poder, a UNE não é mais a mesma. Parece uma 12ª sigla a esticar o alcance político-popular do Palácio. Quem percebe são parlamentares da oposição e até governistas. O senador Pedro Simon (PMDB-RS), em entrevista ao JB, perguntou onde estavam os jovens que lotavam as ruas para protestar contra denúncias de corrupção. Em anos anteriores, a UNE levou dezenas de milhares às ruas nas campanhas Fora Collor (inclusive Lúcia Stumpf, aos 11 anos), Fora FMI e Fora FH. Todas em legítima defesa da transparência. Mas não promoveu um Fora Lula no caso do famigerado mensalão, envolvendo ministros bem próximos a ele. E sumiu da Esplanada quando a sociedade clamou por explicações no caso Renan.

Agora, numa campanha também legítima, a UNE mobiliza políticos para construir a sede da entidade no Rio, orçada em R$ 30 milhões. Conseguiu reunir ministros, deputados e senadores num luxuoso restaurante de Brasília. O governo está prestes a ajudar. E esse sinal, associado ao partidarismo evidente da entidade, deixa a certeza de que, a cada dia, a UNE troca os carros de som pelos jatinhos, os discursos efusivos pelas singelas notas oficiais, os diretórios acadêmicos pelos gabinetes do Congresso, os restaurantes universitários pelas pomposas churrascarias, e a cobrança da ética pela complacência com os desmandos do poder.

Em Goiânia, na quarta-feira, a UNE realiza o 37º Congresso da UBES. Em meio ao cerrado, o encontro pode dar à entidade a chance de não se afundar no pântano do poder e resgatar, a tempo, seu maior tesouro: a independência.
Leandro Mazzini - JB

2.12.07

Mania de mudança


Editorial Folha

"PRIMEIRO o povo vai dizer se quer ou não a Constituinte. Se quiser, a Constituinte é que vai dizer o que ela vai votar." Com didatismo rudimentar, o deputado petista Mauricio Rands (PE) quis tranqüilizar o público sobre as intenções de seu partido, que agora defende uma assembléia exclusiva para modificar todo o sistema político-eleitoral a partir de um cheque em branco assinado pelos eleitores.
O PT encontrou um modo matreiro de manter viva a centelha do terceiro mandato para Luiz Inácio Lula da Silva. A tática é tão eficaz que permite aos dirigentes petistas negar, e com ênfase "indignada", que persigam o objetivo continuísta. Mas, "se o povo quiser" e a Constituinte decidir votar o assunto...
Por esse e outros experimentalismos de petistas e pelos temores exaltados da oposição, o assunto da extensão do mandato acabou entrando de soslaio na pauta das discussões políticas e assim permaneceu. O Datafolha resolveu quebrar esse diálogo cifrado e perguntar diretamente ao eleitor a sua opinião sobre o terceiro mandato. A resposta, eloqüente, deveria bastar para enterrar de vez o assunto.
De cada 100 eleitores, 65 se declaram contrários à segunda reeleição para o presidente Lula. Numa demonstração de maturidade, a grande maioria coloca em universos distintos de valor o desempenho do governo -o de Lula apresenta popularidade elevada- e a necessidade de preservar um pilar da democracia, que é a alternância no poder.
Contra o mudancismo casuísta que ainda ronda a política nacional, uma brisa no vendaval de manipulações constitucionais na América do Sul, a maioria dos brasileiros antepõe um saudável respeito às normas. Constituintes exclusivas, manobras plebiscitárias, extensão de mandatos, alteração de ciclos eleitorais, fim da reeleição. Há de tudo no mercado persa das "refundações" das regras do jogo propostas pelas mais diversas forças representadas no Congresso.
Poucos, no entanto, se dispõem a defender a permanência do "statu quo" na disputa pelo poder. Por paradoxal que possa parecer, essa agitação é um índice de adolescência democrática dos partidos brasileiros. O regime se fortalece e se enraíza na medida em que tais discussões fundamentalistas desaparecem da agenda das forças políticas majoritárias. Quando isso ocorre, o jogo ganha previsibilidade e o sistema se torna robusto o bastante para rechaçar aventuras populistas e autoritárias.
É hora de dar por encerrado o capítulo das grandes reformas que envolvem ciclos eleitorais. O apaziguamento dos partidos a esse respeito é passo crucial para que instituições mais específicas da política, como a fidelidade partidária e o sistema de voto, possam ser aperfeiçoadas.

1.12.07

Cháves diz que vai vencer


Se dizendo certo da vitória do "sim" no referendo da reforma constitucional venezuelana, neste domingo (2), o presidente Hugo Chávez voltou a ameaçar os suprimentos de petróleo fornecidos para os Estados Unidos, caso os norte-americanos interfiram no resultado da votação.

“Os Estados Unidos e o mundo têm que aceitar a vontade democrática do povo venezuelano”, disse Chávez em entrevista coletiva a 35 veículos de comunicação internacionais.

“Sei que os Estados Unidos apóiam planos para desestabilizar o país. Se isso acontecer, fechamos a chave do envio de petróleo. Podemos perder um pouco com isso, mas eles perdem mais.”

Chávez falou ainda da celeuma entre ele e o rei da Espanha, Juan Carlos. Disse que está analisando os contratos dos bancos espanhóis no país e que continua esperando um pedido de desculpas. O presidente venezuelano disse que o rei Juan Carlos havia lhe "enviado uma mensagem" e que espera que a suposta reflexão do soberano se torne pública.

Segundo Chávez, pode haver um contato entre as partes nos “próximos dias”, relacionado ao fato de o rei espanhol ter mandado que ele se calasse durante uma reunião da Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile.



A relação com a Colômbia também foi abordada. O presidente venezuelano disse que falta vontade política de Álvaro Uribe para fazer a paz com as Farc.



Os venezuelanos irão às urnas neste domingo (2) para votar no referendo que decidirá as mudanças na nova Constituição do país. O assunto é polêmico e vem provocando enfrentamentos entre estudantes e policiais há vários dias. Clique aqui para entender como funciona a reforma constitucional.

Na sexta-feira (30), milhares de partidários do presidente Hugo Chávez celebraram o fim da campanha pela aprovação da proposta do governo.

Depois de a oposição surpreender, lotando nesta quinta-feira (29) a avenida Bolívar no encerramento da campanha pelo "Não" à reforma constitucional, os chavistas responderam hoje pintando grande parte da cidade de vermelho e reunindo grupos muito maiores, tanto na mesma avenida, que corta o centro da cidade, quanto nas ruas e bairros próximos.

É difícil fazer uma comparação exata sobre a presença de apoiadores nos dois dias porque não foram divulgados, até agora, números oficiais sobre o público participante nos eventos.

Mas mesmo a cinco estações de metrô de distância, na zona leste da Caracas, centenas de pessoas andavam pelas ruas com camisetas e cartazes pelo "Sim", fazendo festas paralelas à reunião organizada para a avenida Bolívar.
A mamata continua

O Senado se rende ao lobby da República Sindical e mantém o imposto obrigatório


Karin Hueck

Alan Marques/Folha Imagem
Paulinho, da Força, festeja com sua corte: acordão e votação sumária

Senado decidiu manter os privilégios da República Sindical. Em regime de urgência, os parlamentares aprovaram a continuidade do imposto obrigatório recolhido em favor de sindicatos, federações e confederações. Com isso, os trabalhadores brasileiros permanecerão arcando com a boa vida dos chefões sindicalistas, por meio do desconto, todo ano, de um dia de seu salário. Os parlamentares também acataram o projeto do governo federal que estende o benefício às centrais sindicais. Elas ganharam reconhecimento formal e passarão a ter direito a 10% de tudo o que for arrecadado. Foi a vitória de um lobby vergonhoso. Nas últimas semanas, os manda-chuvas de organizações como CUT e Força Sindical fizeram marcação cerrada sobre os senadores. Tudo porque, antes de chegar ao Senado, o projeto havia passado pela Câmara e sofrido duas emendas importantes. A primeira previa o fim da obrigatoriedade do imposto. Caberia ao trabalhador decidir se queria ou não contribuir para o sindicato. A segunda determinava a fiscalização desses recursos – 1 bilhão de reais por ano – pelo Tribunal de Contas da União. Os marajás do sindicalismo queriam o veto às duas alterações. No fim, foi mantida a emenda de fiscalização pelo TCU. O projeto ainda voltará à Câmara para uma última apreciação, mas são mínimas as chances de mudança.

Antonio Milena
Prédio da Força Sindical em São Paulo: monumento ao corporativismo

Os bastidores para a aprovação da proposta mostram a rendição do Senado aos interesses dos sindicalistas. Um acordão envolvendo os três relatores do projeto – Paulo Paim (PT-RS), Francisco Dornelles (PP-RJ) e Lúcia Vânia (PSDB-GO) – e até o presidente da Casa, Tião Viana (PT-AC), impediu qualquer discussão sobre o fim do imposto. O projeto nem sequer tramitou nas comissões do Senado, em que deveria ser analisado. Na tarde de quinta-feira, foi aprovado em rito sumaríssimo. Entre a leitura da proposta e a votação, apenas simbólica, decorreram 53 segundos. Como desculpa para a aprovação-relâmpago, foi apresentada a promessa do governo de que, em noventa dias, será anunciado um novo modelo de financiamento dos sindicatos, com a extinção do imposto obrigatório. Ninguém acredita que ela será cumprida. "Depois de conseguirem a garantia de que continuarão a receber esse dinheiro, os sindicalistas não vão abrir mão dele", diz Almir Pazzianotto, ex-ministro do Trabalho. O presidente da Força Sindical e deputado federal do PDT, Paulo Pereira da Silva, já anunciou até como pretende gastar parte da bolada. "Agora, poderemos ter a sede geral das centrais sindicais." Sim, o sonho de Paulinho é construir mais um monumento ao corporativismo, como o que a Força Sindical já erigiu em São Paulo, com o sugestivo nome de Palácio do Trabalhador.