23.6.07

Somos vítimas da baderna

Desde o desastre aéreo que matou 154 pessoas em setembro do ano passado, o caos nos aeroportos virou uma crise crônica. De lá para cá, cenas de filas intermináveis de passageiros à espera de vôos cancelados ou em atraso já se repetiram uma dezena de vezes. Na semana passada, a baderna voltou a dar o ar de sua graça. Controladores de vôo em Brasília, de onde é monitorada a maior parte do tráfego aéreo do país, fizeram uma operação tartaruga, alegando falhas nos equipamentos. Causaram atrasos de até 24 horas, cancelamento de quase 20% dos vôos em alguns períodos e até o fechamento temporário dos aeroportos no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. A diferença, agora, é que o apagão aéreo se misturou com a quebra cada vez mais ostensiva da hierarquia militar. Em meio à balbúrdia dos controladores, a Aeronáutica anunciou a prisão de um líder do movimento, o sargento Carlos Trifilio, provocando acirramento do confronto entre controladores e oficiais. "Há um clima de guerra entre eles. Não existe mais respeito, não há mais comando", diz o deputado Vic Pires Franco, membro da CPI do Apagão Aéreo, que visitou as instalações do Cindacta 1, onde trabalham os controladores de Brasília.

A Aeronáutica afirma que Carlos Trifilio será preso por dois motivos. Primeiro porque usou, durante oito minutos, uma linha telefônica interna exclusiva do controle de tráfego aéreo para fazer mobilização sindical, o que é proibido pelo Código Militar. O outro motivo é uma entrevista que o sargento deu, sem autorização superior, a uma revista mensal, Universo Masculino, na qual promete fazer novas paralisações, afirma ser espionado pelos militares e critica a formação e o nível profissional dos controladores. "As pessoas são atraídas pela estabilidade no emprego militar. Entra qualquer um. Eu tenho controlador gago, tenho controlador surdo." Contra o sargento tramita ainda um processo na Justiça Militar no qual é acusado de favorecer pousos e decolagens de uma companhia aérea. Em troca, ele teria recebido passagens para uso pessoal e o de seus familiares. Seu advogado, Tadeu Corrêa, disse que vai recorrer da prisão sob a alegação de que seu cliente não teve direito a defesa. Entre os militares, o recurso judicial para reverter decisão superior é considerado um ato de insubordinação.

A deterioração das relações entre subordinados e superiores na Aeronáutica é resultado de equívocos do próprio governo. Em outubro de 2006, quando os controladores fizeram suas primeiras manifestações, os ministros Waldir Pires, da Defesa, e Luiz Marinho, do Trabalho, negociaram diretamente com os líderes do movimento. A cúpula da Aeronáutica não gostou de ver insubordinados recebendo a atenção de ministros. Em março passado, a situação piorou. Controladores pararam o país e se amotinaram. Mesmo assim, os rebelados em Brasília foram brindados com a visita do ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, que não apenas disse que seriam atendidas suas reivindicações – basicamente, desmilitarização do setor e aumento salarial – como chegou a desautorizar a Aeronáutica a puni-los pela insubordinação. Os comandantes das três forças se uniram e emparedaram o presidente Lula, fazendo-o voltar atrás nas promessas, sob pena de criar uma crise militar mais grave. Com isso, a cúpula da Aeronáutica recuperou seu poder, mas saiu desmoralizada diante dos controladores. Hoje, no Cindacta 1, por exemplo, os controladores nem se dão ao trabalho de bater continência para os superiores.

O que se vê nos aeroportos é conseqüência do acirramento e da insubordinação, deixando evidente que os controladores estão usando seu poder para sabotar o tráfego aéreo e, quem sabe, obter as vantagens que desejam. A prisão de Carlos Trifilio é um sinal de que os militares estão dispostos a endurecer. "Essa prisão foi a primeira de uma série. Cansamos de diálogo. Não dá mais para negociar", afirma um oficial da Aeronáutica. De fato, na manhã de sexta-feira, outro controlador teve sua prisão decretada por insubordinação. Moisés Gomes de Almeida vai passar dez dias preso por ter dado entrevista à rádio CBN sem autorização superior. A Aeronáutica planeja ainda afastar do trabalho todos os controladores que vierem a se insubordinar. Catorze deles já foram afastados.

Na mesma manhã, o presidente Lula fez uma reunião com o ministro Waldir Pires, da Defesa, e o comandante da Aeronáutica, o brigadeiro Juniti Saito. Foi um encontro tenso. Pires voltou a defender a desmilitarização do setor. Saito irritou-se com a proposta do ministro, disse que não permitiria novas quebras da hierarquia militar e ameaçou entregar o cargo caso Lula autorizasse negociações entre um ministro civil e os controladores militares. Ao final, Lula arbitrou a disputa em favor do comandante da Aeronáutica, dando carta branca para que a cúpula militar jogue duro com os insubordinados. Um mínimo de respeito e hierarquia é necessário em qualquer ambiente de trabalho, mais ainda se for um ambiente militar. Seria útil se o governo percebesse de uma vez por todas que abrir mão da disciplina entre militares é um precedente perigoso sob qualquer ponto de vista. Não apenas para o funcionamento dos aeroportos.

Otávio Cabral para Veja

Renan enriqueceu na política

Há trinta anos, quando disputou a primeira eleição para deputado, Renan tinha um Fusca. Hoje, o presidente do Congresso é dono de uma fortuna conhecida
de 10 milhões de reais


A suspeita de que um lobista pagava despesas do senador Renan Calheiros
revelou dois aspectos desconhecidos de sua biografia. Um deles é seu
extraordinário desempenho como pecuarista. Para provar que tinha renda
para pagar 12.000 reais de pensão à jornalista Mônica Veloso, mãe de sua
filha, Renan disse que ganhou 1,9 milhão de reais em quatro anos com
venda de gado. Para tanto, suas vacas exibiram taxa de fecundidade maior
que a dos melhores produtores nacionais, e a arroba de seus bois é
vendida em Alagoas, estado assolado pela febre aftosa desde 2001, pelo
maior valor do país. O outro aspecto novo é a notável capacidade do
senador para, mesmo atuando sempre como político profissional, acumular
uma fortuna respeitável. Na semana passada, VEJA visitou suas
propriedades, entrevistou especialistas, cotejou valores e descobriu que
seu patrimônio, declarado em 1,7 milhão de reais, é pelo menos 476%
maior. Bate na casa dos 10 milhões de reais.

Renan Calheiros teve uma infância modesta em Murici, município de 21 600
habitantes a 50 quilômetros de Maceió. Um dos oito filhos de um pequeno
produtor rural e uma dona-de-casa, Renan chegou a vender sandálias
feitas com pneus velhos na década de 70, na época em que deixou a cidade
para estudar direito em Maceió. Quando estreou na política, elegendo-se
deputado estadual em 1978, tinha um Fusca. De lá para cá, ficou sem
mandato durante apenas quatro anos, mas de todo modo, mesmo como
pecuarista diletante, como fazendeiro nas horas vagas, tornou-se um
homem milionário. É dono de três fazendas com 1.742 cabeças de gado. Tem
um apartamento na orla de Maceió, casa à beira-mar na paradisíaca Barra
de São Miguel e cinco caminhonetes de luxo. A pequena herança que
recebeu -- ao morrer, o pai deixou 712 hectares para repartir entre oito
filhos -- nunca foi incorporada ao seu patrimônio. Tudo o que Renan tem
é resultado do seu, digamos assim, trabalho.

Até 2002, Renan vinha aumentando seu patrimônio num ritmo formidável,
mas, aparentemente, compatível com seus rendimentos como político:

• Entre 1979 e 1982, enquanto exerceu um mandato de deputado estadual,
Renan ganhou o equivalente a 6 700 reais por mês. Nesse período, seu
patrimônio cresceu a um ritmo de 2.000 reais por mês. É uma economia
possível para quem é capaz de poupar 30% de sua renda todo mês.

• Entre 1983 e 1990, como deputado federal, ganhou o equivalente a
12.265 reais por mês. Seu patrimônio cresceu a um ritmo de 8.000 reais
por mês. É difícil, mas há quem consiga guardar 65% do salário.

• Entre 1991 e 1994, Renan não teve mandato. Por um ano, presidiu uma
subsidiária da Petrobras por indicação do presidente Itamar Franco. Seu
patrimônio, nesse período, refletindo a distância de um cargo eletivo,
caiu de 880.000 reais para 755.000 reais.

• Entre 1995 e 2002, como senador, Renan recebeu 12.277 reais por mês.
Seu patrimônio cresceu a um ritmo mensal de 8.800 reais. É quase
impossível poupar 72% do salário. Mas os poupadores fenomenais chegam lá.

Até 2002, Renan não declarou ser dono de fazendas, nem de cabeças de
gado. Tinha automóveis, uma casa, um apartamento e um flat -- nada que
pudesse lhe proporcionar rendimentos estratosféricos. Mas, de 2002 em
diante, a evolução de seu patrimônio entrou num ritmo galopante
impossível de ser explicado por qualquer sacrifício no orçamento
familiar. Recebendo 12.277 reais por mês no Senado, sua fortuna cresceu
a um ritmo de 170.800 reais mensais. O senador sempre atribuiu sua
ascensão financeira a rendimentos agropecuários. Mesmo que suas
transações de venda de gado sejam verdadeiras, coisa que ainda carece de
comprovação, é impossível enriquecer em um período tão curto vendendo
bois. Será?

De acordo com o administrador de empresas Mauro Garcia, professor da
Escola de Empreendedores da Universidade de Brasília (UnB), não há
fórmula mágica para enriquecer em tempo recorde. Ainda assim, o
professor destaca três características comuns em trajetórias meteóricas.
A primeira é a dedicação extrema e exclusiva ao negócio. "É preciso
muito suor, principalmente no início", diz. A segunda é atuar em um
mercado inovador, como tecnologia da informação e telecomunicações. "Foi
nessas áreas que se construíram as grandes fortunas nos últimos anos",
afirma. O terceiro fator é uma postura revolucionária e inovadora numa
área tradicional. "Um exemplo são essas empresas de lava-jato que operam
sem usar água. É um negócio tradicional, mas que foi reinventado", diz o
professor Garcia. Nada disso, como se sabe, aparece na empreitada bovina
de Renan.

Em sua declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral em 2002, Renan
não diz possuir fazendas nem gado. Em 2003, porém, ele declara ter
começado o ano com um estoque de 1.278 bois. De onde saíram esses bois?
Com que dinheiro foram comprados? VEJA enviou esses questionamentos ao
senador, por escrito, mas ele não respondeu. A dificuldade para
justificar a origem de seus bens talvez explique o fato de o patrimônio
de Renan estar quase todo subfaturado em suas declarações de renda -- o
que, do ponto de vista tributário, não é irregular. Suas três fazendas,
compradas a partir de 2003, teriam custado 880.000 reais, o que dá uma
média de 605 reais por hectare. O Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra) calcula o preço do hectare na região em 4.500
reais. Dois corretores de imóveis rurais disseram a VEJA que o hectare
na região custa entre 5.000 e 7.000 reais. Alguém vende hectare por 600
reais?

"Tá sonhando? Isso não existe, não", espanta-se o corretor Tônio Campos,
gerente da JC Consultoria Imobiliária, com quinze anos de experiência no
mercado. Assim, as três fazendas que o senador diz ter comprado por
880.000 reais não custam menos de 6,8 milhões de reais. Seu apartamento
em Maceió, declarado por 135.000 reais, é avaliado em 1 milhão de reais.
A casa na Barra de São Miguel, declarada por 450.000 reais, vale mais de
1 milhão de reais. Por que alguém subfatura o valor de seus bens?
Falando em tese, sem conhecer o caso específico, o tributarista Gilberto
Amaral, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário,
responde: "Para adquirir um patrimônio, qualquer que seja ele, é preciso
ter renda. A principal justificativa para o subfaturamento é a falta de
origem lícita para o dinheiro".

Os bens subfaturados do senador, coincidentemente, são sempre comprados
de amigos ou parentes. Uma fazenda foi adquirida de um irmão de criação,
a outra de um primo, uma terceira de outro irmão. Uma de suas
caminhonetes, uma Mitsubishi L200 ano 2006, foi comprada de um assessor
no Senado, Everaldo França Ferro. Nesse caso, não há indício de
subfaturamento. Os indícios são de coisa mais cabeluda. Ferro foi
flagrado em grampo da Polícia Federal em uma conversa esquisita com o
empreiteiro Zuleido Veras, preso pela Operação Navalha. A PF suspeita
que os dois estivessem falando sobre uma propina que seria paga ao
assessor do senador. Ferro não foi localizado por VEJA para comentar a
suspeita.

Será que Renan enriqueceu terceirizando o pagamento de suas despesas?
Quando precisava pagar a Mônica Veloso, acionava o lobista Gontijo. Em
três entrevistas a VEJA, o ex-bicheiro alagoano Plínio Batista, amigo de
infância de Renan e seu aliado até 2004, afirmou que também pagou
despesas do senador. Diz que custeou parte de sua campanha ao Senado em
2002. "Comprei a Kombi para a campanha a pedido do Renan", declara
Plínio Batista, exibindo fotos do veículo, placa MUD 5762, decorado com
material de campanha de Renan e seu irmão Olavo. Ele também afirmou ter
pago uma conta do senador de 30 000 reais, em dinheiro vivo. O dinheiro
foi pago ao empresário Benezildo Moura, dono da gráfica Sian. "Sou amigo
dos Calheiros, não quero entrar nesse assunto", disse o empresário a
VEJA. Diante da insistência da revista, ele confirmou o pagamento. "Eram
santinhos e cartazes do senador. Quem pagou foi o Plínio." Plínio
Batista já comandou o jogo do bicho em Alagoas e foi preso duas vezes
sob acusação de chefiar a contravenção e envolver-se com grupo de
extermínio. Era só o que faltava. Além de ter contas pagas por lobista
de empreiteiro, o senador contou também com recursos de bicheiro...

Alexandre Oltramari para Veja

O primo (também) entregou dinheiro

Bruno Mendes, parente de Cláudio Gontijo, entregou sacolas com 100 000 reais à jornalista Mônica Veloso


Amigo, confidente, fiador, tesoureiro, consultor. O lobista Cláudio
Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, era um pouco de tudo para o
presidente do Congresso, senador Renan Calheiros. Ele pagava despesas do
senador, emprestava sua casa para encontros reservados, prestava socorro
ao mínimo sinal de dificuldades financeiras. Também visitava a casa de
Renan, conversava sobre obras de seu interesse, participava de reuniões
oficiais, indicava pessoas para ocupar cargos no governo e pedia emendas
para beneficiar sua empreiteira. A relação rendia dividendos a ambos: as
despesas mais secretas do senador eram pagas pelo lobista, e o lobista
obtinha sucesso em seus negócios com a ajuda do senador.

Na semana passada, em depoimento no Conselho de Ética do Senado, o
próprio Cláudio Gontijo narrou em detalhes suas relações com Renan
Calheiros. Interrogado pelo senador Demostenes Torres (DEM-GO), o único
membro do Conselho que parece interessado em aprofundar as
investigações, o lobista desnudou, mesmo sem querer, toda a
promiscuidade de suas relações com o senador. E isso em um
questionamento que não passou de dez minutos.

Gontijo confirmou que pagou à jornalista Mônica Veloso em dinheiro vivo,
na sede da empreiteira Mendes Júnior, a pedido do senador.
Paralelamente, disse que conversou com Renan sobre o Porto de Maceió,
cujas obras são tocadas pela Mendes Júnior. No depoimento de Gontijo
apareceu ainda uma novidade: a última bolada de dinheiro vivo que Renan
entregou a Mônica Veloso, de 100 000 reais, foi levada à jornalista por
um parente do lobista. No interrogatório, travou-se o seguinte diálogo
entre o senador Demostenes Torres e o lobista Cláudio Gontijo:

*O senador – */O senhor conhece o advogado Bruno Mendes?/

*O lobista – *Conheço.

*O senador –* /De onde?/

*O lobista –* Ele é... por uma feliz coincidência, nós temos um laço de
parentesco, em que a avó dele é minha madrinha de batismo e o avô dele é
meu padrinho de batismo e irmão de meu pai.

*O senador – */O que ele faz?/

*O lobista –* É advogado.

*O senador –* /Alguma vez ele entregou ou foi portador de algum recurso?/

*O lobista –* Não tenho nenhum conhecimento disso.

O advogado Bruno Mendes, 55 anos, era um personagem desconhecido do
calvário de Renan Calheiros. Primo em segundo grau de Cláudio Gontijo,
ele mora em Maceió, mas, assim como o primo lobista, presta serviços de
entrega de dinheiro para o senador em Brasília. Em maio e junho de 2006,
Renan Calheiros pagou 100 000 reais à jornalista Mônica Veloso. Segundo
o senador, o dinheiro era para formar um fundo de educação para sua
filha. A jornalista afirmou que se tratava de um complemento de pensão
alimentícia. Os 100 000 reais foram pagos em duas parcelas. Os advogados
de Renan produziram recibos como se a despesa fosse para o tal fundo de
educação. Na hora de pagar, o dinheiro apareceu em sacolas. VEJA apurou
que o portador das sacolas era o advogado Bruno Mendes, primo do lobista
Gontijo.

O pagamento das duas parcelas de 50 000 reais aconteceu no escritório do
advogado do senador, Eduardo Ferrão, no Lago Sul, uma área nobre de
Brasília. Na época, ficou combinado que assim que o dinheiro estivesse
disponível o advogado da jornalista, Pedro Calmon Filho, receberia um
telefonema para ir buscá-lo. Por duas vezes, no fim de maio e no fim de
junho, Calmon foi ao escritório de Ferrão. Nas duas ocasiões, foi
recebido por Bruno Mendes, que lhe entregou uma sacola preta de náilon.
A sacola foi colocada em cima de uma mesa de madeira na biblioteca do
escritório. "Ficamos uns bons minutos juntos contando o dinheiro",
rememora Calmon. Havia dentro da sacola, segundo ele, notas de 100, 50,
20 e até 10 reais. "O Bruno Mendes me foi apresentado como mais um
advogado de Renan", lembra Calmon. Procurado, Eduardo Ferrão explicou
que Bruno Mendes não atua no caso, mas, como é amigo e assessor de
Renan, acompanhou alguns desdobramentos da história. "É até possível que
ele estivesse aqui no dia dos pagamentos", admite Ferrão. "Mas o
dinheiro, posso assegurar, veio da casa do senador." O pagamento dos
100.000 reais não consta nas declarações de imposto de renda do senador.
Nada disso prova que a Mendes Júnior tenha, outra vez, algo a ver com
esse pagamento de despesas do senador. Como diria Gontijo, talvez seja
tudo apenas "feliz coincidência".

Celso Junior/AE
O advogado Pedro Calmon Filho: notas de 100, 50, 20 e até de 10 reais

Outra coincidência, também revelada no depoimento de Gontijo, mostra que
o senador se interessou pela obra do Porto de Maceió, que está na conta
da Mendes Júnior. O senador Demostenes Torres perguntou ao lobista e ele
confirmou que falou sobre as obras do Porto com o senador e que este
chegou a visitá-las. Em 2004 e 2005, nos mesmos anos em que Gontijo
assumia os gastos com a jornalista Mônica Veloso, Renan apresentou três
emendas orçamentárias para as obras do Porto, em um total de 13,2
milhões de reais. O senador disse que fez as emendas para ajudar
Alagoas. Pode ser. O depoimento de Gontijo mostra que, além de ajudar
Alagoas, Renan também atendeu a um pedido do amigo lobista. Em nota
divulgada logo depois do escândalo, a Mendes Júnior, que pertence ao
empresário Murilo Mendes, disse que jamais pediu a Renan emenda para
suas obras. Em seu depoimento, o lobista ressaltou que pediu ajuda para
Renan e, também, para toda a bancada de Alagoas.

As respostas de Gontijo mostraram que, em mais de uma ocasião, as
atividades políticas do senador cruzaram com os interesses do lobista da
Mendes Júnior. Em seu depoimento, Gontijo admitiu que conhece Aloisio
Vasconcelos, que presidiu a Eletrobrás até janeiro passado. "Ele é uma
pessoa que eu considero, um dos maiores conhecedores do setor elétrico",
disse Gontijo. "Nós manifestamos várias vezes, inclusive por escrito, o
nosso interesse em participar de todos os projetos de energia que estão
para ser executados." Em 2005, Gontijo chegou a participar como
convidado especial de uma reunião entre deputados e senadores do PMDB em
que se discutia a indicação do presidente da Eletrobrás. O encontro
aconteceu na residência oficial do presidente do Senado. Na reunião,
depois de analisar vários nomes, decidiu-se que Aloisio Vasconcelos
tinha o melhor perfil para ocupar o cargo. Quem sugeriu o nome? O
lobista Cláudio Gontijo.

No depoimento, Gontijo também confirmou que comprou o flat que Renan
tinha no hotel Blue Tree, em Brasília. Disse que o senador não estava
satisfeito com o imóvel, pois o aluguel não cobria as prestações do
financiamento. Gentilmente, o lobista assumiu o imóvel. No mesmo Blue
Tree, Gontijo é dono de um flat, onde mora, que emprestava ao senador
para encontros reservados. É curioso que o local não fosse usado para os
pagamentos à jornalista. Sobre o assunto, o senador Demostenes Torres –
sempre ele – teve o seguinte diálogo com Gontijo:

*O senador –* /Como o senhor recebia o dinheiro do senador Renan
Calheiros? No gabinete, sacava no banco, alguém lhe entregava.../

*O lobista – *Sempre na casa dele e das mãos dele. Como eu afirmei aqui
no início, ele sempre disse: não terá uma terceira pessoa para tratar
desse assunto. Às vezes ele me entregava de uma vez tudo, às vezes me
entregava só uma parte.

*O senador –* /E onde o senhor guardava esses recursos?/

*O lobista –* Na minha casa.

*O senador – */Não era mais fácil e mais discreto entregar o dinheiro no
hotel, já que o senhor se encontrava com a Mônica freqüentemente ali?/

*O lobista –* Normalmente a gente saía para almoçar. Ela passava no
carro dela, eu descia, entrava no carro dela e a gente saía para almoçar.

O senador Almeida Lima, membro da tropa de choque de defesa de Renan,
fez um balanço do depoimento de Gontijo: "Mostra que não houve relação
incestuosa alguma". Será que o senador viu o mesmo depoimento?


Policarpo Junior para Veja

Hora de partir

Sem conseguir provar nada do que afirma, nem mesmo a venda de gado, o senador vira um constrangimento para o Senado – e a superação da crise exige sua renúncia


O senador Renan Calheiros, na sua batalha para provar que o lobista da empreiteira Mendes Júnior não pagou suas despesas pessoais, começou a semana passada disposto a desmoralizar seus acusadores, arquivar as investigações e voltar a presidir o Senado sem atropelos. Terminou a semana errando em todos os alvos. Suas explicações sobre negociações de gado, que justificariam o tamanho de seu patrimônio, acabaram
desmoralizadas por uma perícia da Polícia Federal, as investigações serão estendidas por no mínimo trinta dias – e a cadeira de presidente do Senado ocupada por Renan já começou a ser negociada pelos senadores.
O presidente Lula, como sempre faz nos momentos em que um aliado começa a cair em desgraça, passou a tomar distância técnica de Renan, a quem vinha prestando solidariedade diária. Entre os principais partidos no Senado, todos querem a cadeira, mas é difícil tomá-la sem negociar com os demais. Há quem acredite que Renan só se mantém presidente da Casa porque ainda não houve acordo sobre o sucessor. Percebendo o clima hostil, Renan partiu para um recurso de desespero, que lembra os momentos de agonia de outro político alagoano, Fernando Collor: começou a assoprar ameaças e chantagens contra colegas de Parlamento.

Desde que o escândalo estourou, há um mês, é a primeira vez que o Senado parece perceber que as estripulias do senador estão afundando a própria instituição. É cedo para dizer que o Senado, finalmente, vai reagir, mas começam a aparecer os primeiros sinais nesse sentido. Com tudo o que já veio à tona – sobre suas relações promíscuas com o lobista, sobre as mentiras que contou aos senadores, sobre sua defesa, que requer sempre um complemento – Renan Calheiros perdeu as condições de manter-se na
presidência do Senado. Ou Renan deixa o comando da Casa. Ou a Casa afunda com Renan. Os pedidos para que se afaste começaram com o senador Pedro Simon, do PMDB gaúcho. "Eu acho que este é o momento em que sua excelência, por conta própria, deveria renunciar ao seu mandato de presidente do Senado."
Outros três senadores defenderam o mesmo. Renan não lhes deu ouvidos. Disse que renúncia é uma palavra que não existe no seu dicionário.

Paradoxalmente, o próprio Renan deu o impulso que faltava para que o Senado recuperasse um pouco de lucidez com sua defesa tão inconsistente. O senador entregou um pacote com extratos bancários, declarações de renda, notas fiscais, recibos e guias de transporte animal, as GTAs, que autorizam o trânsito de animais vivos. Sua idéia era provar que, entre 2003 e 2006, teve rendimentos de 1,9 milhão de reais com a venda de gado. Com isso, provaria que tinha recursos para bancar a pensão de
12.000 reais que pagava à jornalista Mônica Veloso, mãe de sua filha, sem recorrer aos favores financeiros do lobista da Mendes Júnior. Deu tudo errado.

Em apenas dois dias úteis de trabalho, a perícia da PF examinou os papéis e descobriu flagrantes inconsistências. Com as notas fiscais, o senador tentou provar a venda de 2.213 cabeças de gado, que supostamente lhe renderam 1,9 milhão de reais. Ocorre que as GTAs registram a venda de 1.702 cabeças de gado – das quais, para piorar, 549 nem pertenciam ao senador, mas a seus parentes. Resultado: o senador reuniu papéis que
informam a venda de 1.153 animais, o que lhe renderia cerca de 1 milhão de reais. De onde vieram os outros 900.000 reais? Quando se confrontam as notas fiscais e GTAs com as declarações de imposto de renda do senador o resultado é dramático. É tal o volume de contradições que é custoso acreditar que Renan tenha apresentado esses papéis como peça de defesa. O conjunto mais parece obra de inimigos dispostos a desmascará-lo, porque nada bate com nada.

Os exemplos aparecem aos borbotões. Em 2005, para ficar só num caso, as notas fiscais informam que o senador vendeu 1.292 cabeças de gado. Mas, segundo as GTAs daquele ano, foram só 1.078. E, pela declaração de renda, foram 536. Uma simples perícia documental trouxe tantas incongruências à tona. Dá para imaginar o que pode aparecer numa perícia contábil para descobrir se os negócios foram efetivamente realizados. O
Conselho de Ética, ao decidir aprofundar um pouco as investigações, pediu à Polícia Federal que fizesse uma perícia contábil. A questão inicial a que o Conselho terá de responder é a seguinte: os negócios de Renan, para que sejam considerados reais, e não meras fantasmagorias contábeis, deverão estar em sintonia com que papéis? Com as notas fiscais? Com as GTAs? Com as declarações de renda?

O primeiro sintoma do desmoronamento da defesa do senador foi a perda do controle que exercia sobre o Conselho de Ética. Até então, em sua maioria, os membros do Conselho protagonizavam um espetáculo lamentável em que simulavam o desejo de investigar, mas manobravam para sepultar as investigações. O senador Romero Jucá, líder do governo, empenhou-se sempre em limitar o alcance das investigações. O presidente do Conselho,
o senador Sibá Machado, marcou e desmarcou sessões segundo a conveniência de Renan. Mais tarde, mostrou-se mais independente ao interpretar que já há processo de cassação instalado contra o senador.
Isso significa que sua eventual renúncia não preserva mais seus direitos políticos. O outro sinal de perda de maioria política do senador apareceu na tática desesperada de espalhar ameaças, chantagens e baixarias.

Na quarta-feira, o senador Efraim Morais, do DEM da Paraíba, chegou ofegante à reunião de cúpula de seu partido e suplicou: "É melhor a gente acabar logo com isso ou a turma deles vai lançar dossiê contra todo mundo". Efraim, parlamentar próximo de Renan, não explicou quais eram as ameaças, mas logo a tropa espalhou dois casos. O primeiro caso informava que um senador devia 50 milhões de reais ao Banco do Nordeste.
O devedor apareceu. Era o senador José Agripino, que explicou serenamente a dívida, de 11 milhões de reais, e frisou que a existência de uma dívida não desabona ninguém. O outro caso dizia que um senador viajara para os Estados Unidos na companhia da amante com verbas do Senado. O suposto chantageado também apareceu. Era o senador Demostenes Torres, que explicou o caso com serenidade. "Lamentavelmente, a
assessora não é minha amante, porque ela é linda", tripudiou Torres. Ele usou verbas do Senado para viajar com a assessora para a Assembléia da ONU em Nova York, o que é permitido pelo regulamento da Casa. Se tudo isso não é suficiente para mostrar que Renan Calheiros perdeu por completo as condições – políticas, morais – de presidir o Senado, o que mais é preciso?

Veja - Otávio Cabral

VEJA TAMBÉM
*Nesta reportagem*
• *Quadro: "Antes de terminar, mentirás seis vezes"
*

22.6.07

Entrevista Silvia Pfeiffer

Reportagem e entrevista de IstoÉ

A empresária paranaense Silvia Pfeiffer, 47 anos, diz que foi expulsa de sua própria empresa, a Aeromídia, assim que levou para lá, como sócio, o então secretário de Desenvolvimento Urbano de Curitiba Carlos Alberto Carvalho, em 2003. Ele tinha relações com o prefeito Cássio Taniguchi (DEM), hoje secretário de Desenvolvimento Urbano do Distrito Federal, e passou a controlar toda a contabilidade da Aeromídia. A partir daí, segundo Silvia, uma “verdadeira máfia” começou a utilizar a empresa como fachada para desviar dinheiro público para fins privados. Entre esses negócios, polpudos contratos com a Infraero, que ultrapassaram os interesses iniciais de Cássio Taniguchi e permaneceram com o governo Lula.

Conhecedora dos caminhos dessas fraudes, Sílvia é hoje uma importante testemunha para quem estiver efetivamente interessado em saber como a estatal que administra os aeroportos brasileiros alimenta milionários dutos de corrupção, alguns deles já detectados pelo Tribunal de Contas da União. Em mais de dez horas de entrevista, Silvia detalha como tal esquema se espalhou e criou tentáculos para promover lavagem de dinheiro, caixa 2 de campanhas políticas e propinas às autoridades. Na quarta-feira 18, depois de ter concedido entrevista a ISTOÉ, Silvia recebeu ameaças de morte e alguns pedidos para que nada mais falasse e para que negasse o que já havia dito.

Boa parte do que ela sabe já foi escrito e entregue à Polícia Federal em outubro de 2005, mas ela jamais foi chamada para um depoimento formal. Ou seja, apesar da gravidade, tudo indica que suas denúncias ficaram engavetadas, embora parte do que ela diz seja comprovada por documentos como depósitos bancários.

ISTOÉ – Por que só agora a sra. Decidiu tornar público tudo o que sabe sobre corrupção na Infraero?

Silvia – Eu não estou fazendo isso agora. Em 2005 entreguei uma notícia-crime à Polícia Federal, mas, depois, ninguém me procurou para falar sobre isso.

ISTOÉ – Como é desviado o dinheiro da Infraero?

Silvia – A chave inicial do esquema é o superfaturamento das obras, que o TCU mesmo já disse que chega a 375% do valor. São números absurdamente altos. Essas obras eram todas negociadas.

ISTOÉ – Por quem?

Silvia – Os empresários que tinham contratos com a Infraero repassavam dinheiro para Carlos Wilson, que era o presidente da empresa, e para diretores, como a Eleuza Therezinha Lopes, o Eurico José Bernardo Loyo e o Fernando Brendaglia. E também para políticos que faziam todo o meio de campo. Ia dinheiro para a campanha do Carlos Wilson e não tenho dúvida que dali também saiu dinheiro para a campanha de reeleição do presidente Lula.

ISTOÉ – Como provar isso?

Silvia – Basta quebrar o sigilo das empreiteiras, dos diretores da Infraero, dos superintendentes. A Aeromídia mesmo fez depósitos para alguns diretores.

ISTOÉ – Alguns nomes de diretores que a sra. Menciona já apareceram em outras denúncias contra a Infraero, como Eleuza Therezinha, mas permanecem em seus cargos.

Silvia – Ela é da equipe do Lula, do Carlos Wilson. Essa aí, acho que vai ser meio complicado. O Mário Ururahy, que recebia mensalão da Aeromídia no Paraná, hoje é assessor da Eleuza.

ISTOÉ – Como era pago esse mensalão?

Silvia – Os valores variavam entre R$ 5 mil e R$ 20 mil. Havia também presentes: carros, festas, jantares.

ISTOÉ – Outros diretores da Infraero também recebiam mesada?

Silvia – Luiz Gustavo Schild, diretor de Logística e Carga. Ele foi superintendente na sede. Conduzia as negociações para as lojas Duty Free. Depois, foi afastado, transferido para superintendente de Cargas, porque estava para explodir todo este bafafá da Brasif.

ISTOÉ – Que bafafá?

Silvia – A Brasif ganhava todas as concorrências para os free shops nos aeroportos.

ISTOÉ – O que há de concreto nessa denúncia que a sra. faz de que o presidente Lula possa ter sido beneficiado nesse esquema?

Silvia – A proposta que me fez certa vez um dos maiores amigos de Lula, o empresário Valter Sâmara.

ISTOÉ – Que proposta?

Silvia – Encontrei Valter Sâmara em um vôo de Curitiba para Brasília, em 2004. Nesse vôo, ele insistiu que eu fosse falar com a secretária de Lula, Mônica, no Palácio do Planalto. Ele me falou que qualquer coisa que eu quisesse na Infraero a Mônica seria capaz de resolver para mim. E que ela, então, receberia 10% de comissão para o partido, o PT.

ISTOÉ – Ele disse que o dinheiro seria para a campanha do Lula?

Silvia – Não ficou claro. Disse que era para o PT.

ISTOÉ – E a sra. Chegou a procurar Mônica?

Silvia – Não. Eu não fui. Apesar da grande insistência dele. Ele me procurou no hotel várias vezes. Em um dia só, ele ligou várias vezes no hotel para que eu fosse lá.

ISTOÉ – Esse foi o único encontro que a sra. teve com Valter Sâmara?

Silvia – Houve uma outra vez, em que ele foi a Brasília almoçar com Lula, dona Marisa e uns chineses que estavam no Brasil, fazendo negociações com o governo federal. O Sâmara está sempre em Brasília. Ele inclusive comprou uma chácara em Goiás para encontros políticos. Se não me engano, tem até pista de pouso.

ISTOÉ – Como é que a sua empresa se envolveu com esse esquema?

Silvia – No início, quando Carlos Alberto Carvalho me procurou pela primeira vez, era para fazer arrecadação de dinheiro para a campanha de reeleição de Cássio Taniguchi para prefeito de Curitiba. Às vezes em dólar. Os políticos do Paraná, ligados a Taniguchi, reuniam-se freqüentemente na Aeromídia para discutir a formação desse caixa 2. O que eu nunca entendi bem era por que, já naquela ocasião, o Padre Roque (deputado do PT do Paraná) aparecia nas reuniões.

ISTOÉ – O que se discutia nessas reuniões?

Silvia – Eles instruíam como as pessoas deveriam se comportar na polícia, se alguma coisa acontecesse. Um dia, chegou a aparecer na empresa uma mala grande de dinheiro. Parte de US$ 7 milhões.

ISTOÉ – Esse esquema continua ativo?

Silvia – Com certeza está vivo. O homem do Cássio hoje na prefeitura é o Beto Richa. Um dos homens dele, o advogado Domingos Caporrino, me ligou hoje me mandando calar a boca.

ISTOÉ – O que a sra. denuncia começou com o Taniguchi e permanece até hoje. Que outros nomes estão envolvidos?

Silvia – Com certeza o Marcos Valério e o José Dirceu.

ISTOÉ – Qual seria o envolvimento de Dirceu?

Silvia – Ele tem contatos com o diretor comercial da Infraero, Fernando Brendaglia. Quando Dirceu esteve em Portugal naquelas negociações com a Portugal Telecom, Brendaglia estava com ele. E Emerson Palmieri, que estava em Portugal com Dirceu, também tem contatos no esquema da Infraero. Ele seria mesmo uma espécie de link entre Brendaglia, Dirceu, Marcos Valério e Cássio Taniguchi. Emerson Palmieri esteve várias vezes nas reuniões na Aeromídia.

ISTOÉ – Em troca do pagamento desse mensalão, o que ganhou a Aeromídia?

Silvia – Contratos nos aeroportos. Muitas vezes irregulares. Um dos contratos envolve o Duda Mendonça. Um contrato que não poderia acontecer. O pessoal do aeroporto de Brasília me respondeu que era impossível eu fazer publicidade naquela área. No entanto, foi feito sem licitação.

ISTOÉ – E qual era o envolvimento de Duda Mendonça?

Silvia – Eu veiculava um anúncio que era feito pela agência dele. A questão do Duda ali é que ele não roubava essas migalhas. O contrato era a desculpa para que a agência dele fosse contratada para fazer o anúncio. O que ele pegava em dinheiro grosso mesmo vinha da Brasil Telecom, a anunciante.

ISTOÉ – E a sua participação, qual era?

Silvia – Eu negociava com a Zilmar Fernandes (sócia de Duda Mendonça). Esse contrato é ilegal com a Infraero. O Fernando Brendaglia é quem autorizou a colocação da publicidade antes de ter o contrato.

ISTOÉ – A Zilmar tinha consciência de que era contrato irregular?

Silvia – Tinha. Quando houve um problema num contrato anterior, que foi fechado, nos fingers de 1 a 7, chegou a haver uma ordem para arrancar todos os adesivos que já estavam colocados. Foi quando a Zilmar entrou. Fizeram alguns acertos e os adesivos continuaram. Um contrato de três anos, sem licitação. Um contrato que ele entrou no aeroporto antes mesmo de sair em Diário Oficial da União, antes de assinar o contrato. Deu um rolo, os concorrentes reclamaram. O Brendaglia chegou a chamar uma dessas empresas que protestavam: “Fique quieta, vou te dar outro espaço, mas deixa esse contrato aqui, nãomexe com isso não.”

ISTOÉ – Além da Aeromídia, que empresas fecham contratos irregulares com a Infraero?

Silvia – Todas. Absolutamente todas. Kallas, Codemp, Via Mais. A SF3, que, na verdade, é do Brendaglia. E do Carlos Wilson. Porque eles são sócios em tudo, até em uma fazenda de frutas em Petrolina. Frutas para exportação. Há um contrato que envolve a empresa de um filho de Reinhold Stephanes.

ISTOÉ – O ministro da Agricultura?

Silvia – Esse. Me tiraram da jogada. Era um contrato enrolado. Um contrato no Rio, para um consórcio, Ductor, do qual participava a Cembra, empresa de Marcelo Stephanes, filho do ministro.

ISTOÉ – O TCU tem encontrado irregularidades também nas obras de ampliação dos aeroportos.

Silvia – É verdade. Tudo é superfaturado. A Odebrecht, por exemplo, no aeroporto de Recife. A Andrade Gutierrez no aeroporto de Curitiba, OAS no aeroporto de Salvador. Uma empresa de São Paulo ganhou a obra de Brasília e furou o esquema. Eles então trataram de tirar a empresa da obra. A corrupção ali é muito grande. A Infraero investiu mais de R$ 3,2 bilhões em obras. Se quebrar o sigilo bancário dos diretores da Infraero, dos superintendentes, na engenharia, que cuida das obras, se encontrará um absurdo.

ISTOÉ – Como a sra. pode dizer isso com tanta convicção?

Silvia – Eu vi tudo isso por dentro. Eu presenciei uma reunião com a construtora DM aqui em Curitiba. Um arquiteto chamado Ricardo Amaral vendeu por R$ 200 mil um projeto para cada empreiteira. Ele entregou antecipado o projeto, para construir o edifício-garagem do aeroporto, cobrou R$ 200 mil e não saiu a obra. A Eleuza sabia disso. A Eleuza esteve dentro do escritório dele, em reunião com os grandes empreiteiros. OAS, Odebrecht, CR Almeida e Andrade Gutierrez.

ISTOÉ – O novo presidente da Infraero, o brigadeiro José Carlos Pereira, há algum envolvimento dele com esses casos de corrupção?

Silvia – Não. Mas ele não consegue demitir os diretores porque o esquema montado no passado permanece rendendo muito.

ISTOÉ – No Paraná, dizem que a sra. possui dois CPFs.

Silvia – Depois de ter feito a denúncia na PF, minha bolsa e meus documentos sumiram misteriosamente. Posteriormente, soube que emitiram CPFs em meu nome. Mesmo que tentem me desqualificar, vou levar minhas denúncias até o fim.

Revista Consultor Jurídico, 20 de abril de 2007

O arsenal suspeito de Sílvia

A empresária curitibana Sílvia Pfeiffer abusou de denúncias e acusações ontem, durante a CPI do Apagão Aéreo do Senado. O arsenal da mulher que diz trabalhar há 20 anos com obras e publicidade nos aeroportos brasileiros atingiu integrantes não apenas da cúpula da Infraero, como também aliados e amigos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Personagens de escândalos do passado recente, como o ex-ministro Zé Dirceu, o publicitário Duda Mendonça e o empresário Marcos Valério foram citados no depoimento de Sílvia aos senadores. Sobrou até para a ex-secretária de Lula Mônica Zerbinato, que este mês deixou o Palácio do Planalto para trabalhar como chefe de gabinete na Agência de Promoção de Exportações e Investimentos.

Até mesmo o relator da CPI, senador da oposição Demóstenes Torres (DEM-GO), preferiu encarar as denúncias da empresária com cautela. “Ela operou, não há dúvida. Mas é preciso checar com o Ministério Público, Tribunal de Contas da União e Polícia Federal”, disse. Decidido a aprofundar as investigações sobre os esquemas relatados por Sílvia Pfeiffer, o senador anunciou que vai pedir a quebra de sigilo bancário e fiscal das pessoas a que a empresária disse ter pago propina.

Na lista dos próximos alvos de Demóstenes está o publicitário Duda Mendonça, que se enrolou na CPI dos Correios em 2005, e o amigo de Lula Valter Samara, dono de cartório no Paraná.

Depósitos
Durante três horas, Sílvia Pfeiifer disparou acusações e denúncias contra dezenas de pessoas. Ela já havia feito o mesmo na sede da Polícia Federal no Paraná. Passou cinco dias depondo. Na documentação apresentada à PF, há depósitos bancários feitos em nome da mulher de Mário Macedo, ex-superintendente da Infraero em Alagoas e Paraná. Hildebrandina Macedo diz que vendeu jóias a Sílvia. “Jóias de R$ 20 mil?”, questiona a empresária que, ontem, apresentou notas com valores mais baixos dizendo ser relativos a colares e pulseiras que comprou para sua empresa presentear funcionários da Infraero e também da agência de Duda Mendonça. “Uma pessoa, em nome dele (Duda) me ligou, e disse que queimaria todos os documentos. Fui coagida”, afirmou Sílvia.

Contra o ex-publicitário de Lula, Sílvia disse que clientes dele exibiam anúncios em lugares irregulares, graças ao esquema da empresa Aeromídia com a Infraero. Sílvia foi sócia da Aeromídia e revelou pagar propina para manter contratos. A Aeromídia chegou a pagar também a faculdade da filha de Mário Macedo, Ana Carolina, e a contratar filhos de superintendentes da estatal para assegurar os negócios. “É procedimento normal na Infraero, tem que pagar para entrar”, disse ontem.

À ex-secretária de Lula Mônica Zerbinato, Sílvia Pfeiffer não pagou, mas garantiu que um amigo de Lula lhe ofereceu facilidades na Infraero em troca de 10% de propina para o PT. Quem intermediaria a negociata, de acordo com o depoimento de Sílvia, seria Mônica Zerbinato. Ela é mulher de Osvaldo Bargas, um dos alvos do escândalo da compra do dossiê contra os tucanos, no ano passado. A saída de Mônica do Planalto foi interpretada como uma tentativa de afastar Lula da CPI do Apagão. Mas nem mesmo a oposição na comissão acredita que essa linha de investigação renderá resultados concretos.

Sílvia Pfeiffer tentou contar na CPI que a rotina de pagamento de propina no Paraná se repete em todo o país. Ela revelou que pagou R$ 20 mil ao superintendente de Logística e Carga da Infraero, Luiz Gustavo da Silva Schild. Declarou que uma rede de livrarias deve à estatal, mas continua abrindo lojas nos aeroportos graças à corrupção. A Infraero avisou que estuda providências jurídicas contra Sílvia. O presidente da estatal, brigadeiro José Carlos Pereira, afirma que uma sindicância interna já foi aberta para apurar as denúncias.

O depoimento foi suspenso porque Sílvia Pfeiffer passou mal. A pressão dela subiu assim que a assessoria parlamentar da Infraero passou a municiar os senadores com perguntas e informações que colocavam em xeque a credibilidade da empresária. Ela volta na próxima terça-feira para concluir o relato. Ontem, explicou que tem dois CPFs porque teve a bolsa roubada e que não atendeu a intimações da PF porque estava doente ou viajando.
Correio Brasiliense

21.6.07

Sobre Welli

Relator-relâmpago doou R$ 1,2 milhão a campanha de ministro das Comunicações

O senador Wellington Salgado (PMDB-MG) assumiu a relatoria do processo contra Renan Calheiros (PMDB-AL) depois que Epitácio Cafeteira (PTB-MA) pediu licença alegando problemas de saúde, mas deixou o posto ontem mesmo.
Suplente do ministro Hélio Costa (Comunicações), o senador Wellington Salgado (MG), 49, é um expoente da "tropa de choque" do PMDB que, por não se incomodar com o desgaste político, era escalado para defender o partido e o governo.
Em sessão recente do Conselho de Ética, solidário a Renan, disse: "Não vou fazer política no Conselho de Ética porque um dia posso ser eu sentado aqui". Nessas horas revela seu potencial folclórico, reforçado pela figura enorme de cabelos compridos e desgrenhados.
Foi o caso de quando propôs no mês passado, durante a CPI do Apagão Aéreo, que fosse feita a reconstituição do acidente da Gol. Virou tema de chacota.
Salgado e sua família são donos da Universo (Universidade Salgado de Oliveira) e da Unitri (Centro Universitário do Triângulo). Sua família doou R$ 1,23 milhão à campanha de Hélio Costa ao Senado -metade de todo o valor. Salgado assumiu o mandato de senador em 11 de julho de 2005, quando Costa se licenciou.
Ao assumir o cargo, Salgado se afastou da presidência da Associação Salgado de Oliveira de Educação e Cultura, mantenedora da Universo e da Unitri, em Araguari e Uberlândia.
Com a Universo, ele cruzou a fronteira do Rio de Janeiro e levou seus negócios a Recife, Salvador, Goiânia, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Brasília e Osasco, já nos anos 90. Nessa mesma época, chegou ao Triângulo Mineiro. Foi a partir daí que firmou sua amizade com Costa -amizade essa de contato diário já que o ministro mora com o senador na casa que Salgado tem em Brasília.
Aliados de Costa dizem que, para a atividade social que tem um ministro, foi conveniente aceitar a oferta de moradia de Salgado, por causa do espaço do imóvel onde ele mora.
Detentor de 50% de participação na Rede Vitoriosa de Comunicações, que é retransmissora do SBT, e sócio da rádio Hit Parade, Salgado é presidente da recém-criada Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado. Para ele não há conflito de interesses. O senador também já foi presidente da Comissão de Educação.
Nascido no Rio, é professor de educação física, graduado em pedagogia pela Universidade Federal Fluminense e doutor em educação à distância pela Universidade Nacional de Madri. Só propôs dois projetos de lei, um deles para que o Senado seja responsável pela aprovação dos indicados para compor o Conselho Nacional de Educação.
Salgado é acusado em uma ação popular de simular em 1996 um contrato de comodato com Renan Calheiros para ocupar um terreno de 5.338 m2 em Goiás. Haveria, no entanto, um documento de gaveta definindo a transação como contrato de compra e venda.
Folha

Grupo de Renan intimida senadores

Grupo de Renan faz ameaças veladas para intimidar senadores

Abandonado pelo Planalto e por parte dos senadores, o presidente do Senado pretende seguir até o final na cadeira da Presidência da Casa, sem se licenciar


Abandonado pelo Palácio do Planalto e por parte dos senadores aliados e oposicionistas com os quais ele mantém boa relação pessoal, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), jogou duro nos bastidores ontem. Ameaçou revelar fatos incômodos para colegas e paralisar a articulação política do governo.
A Folha ouviu de um dos últimos aliados fiéis de Renan que o senador pretende seguir até o final na cadeira de presidente da Casa, sem se licenciar ou renunciar. O alagoano já está, aos poucos, revelando reservadamente fatos desabonadores de colegas do Senado.
Pelo menos dois casos específicos são citados por Renan. Primeiro, o de um senador que teria viajado com a namorada para os Estados Unidos com as diárias do casal pagas pelo Congresso. Outro líder partidário teria uma dívida de R$ 50 milhões com um banco estatal.
A frase-síntese das ameaças de Renan é uma metáfora alusiva a personagens da Revolução Francesa (1789): "O Renan pode falar como o Danton quando caminhava para o cadafalso: atrás de mim virás tu, Robespierre". Essa declaração tem freqüentado o gabinete da presidência do Senado como linha-mestra da estratégia renanzista para tentar se salvar.
Esse clima de terror e ameaça explica em parte porque tantos senadores se sentem constrangidos em condenar o alagoano em público.
George Jacques Danton foi personagem da Revolução Francesa. Defendeu posições moderadas depois da vitória. Acabou decapitado na guilhotina, em 1793. Foi substituído em suas funções por Maximilien de Robespierre, considerado incorruptível, mas um grande incentivador do terror que se seguiu ao período pós-revolucionário.
Antes de morrer, consta que Danton teria dito: "Minha única tristeza é que vou antes de Robespierre". No ano seguinte, em 1794, Robespierre também acabou guilhotinado.
No Senado, acuado e abandonado, Renan dividiu sua estratégia de sobrevivência política em duas faces. A pública é demonstrar cordialidade. Vai se prestar a depor no Conselho de Ética. A reservada é espalhar tacitamente o terror para outros senadores que no passado lhe pediram favores.
O presidente do Senado pediu apoio do governo anteontem e ontem. Por meio do líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), tentou costurar uma acordo com o PT para que votar ainda ontem uma absolvição-relâmpago no Conselho de Ética do Senado.
Auxiliares de Lula disseram que o presidente não se envolveria na questão. Para Renan e seus aliados, o presidente segue o roteiro tradicional já adotado em relação a outros aliados. Apoio público num momento inicial e desembarque quando a situação se complica.

Solidão
Em conversas reservadas, Renan admitia a aliados que estava praticamente sozinho. Senadores antes simpáticos, como Renato Casagrande (PSB-ES) e Eduardo Suplicy (PT-SP), engrossaram o coro a favor de mais tempo de investigação para que o conselho julgasse se houve ou não quebra de decoro.

Folha

19.6.07

Pôr fim ao governo Lula

Roberto Mangabeira Unger, Folha de São Paulo (15/11/05)

Afirmo que o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos.

Afirmo ser obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente. As provas acumuladas de seu envolvimento em crimes de responsabilidade podem ainda não bastar para assegurar sua condenação em juízo. Já são, porém, mais do que suficientes para atender ao critério constitucional do impedimento. Desde o primeiro dia de seu mandato o presidente desrespeitou as instituições republicanas. Imiscuiu-se, e deixou que seus mais próximos se imiscuíssem, em disputas e negócios privados. E comandou, com um olho fechado e outro aberto, um aparato político que trocou dinheiro por poder e poder por dinheiro e que depois tentou comprar, com a liberação de recursos orçamentários, apoio para interromper a investigação de seus abusos.

Afirmo que a aproximação do fim de seu mandato não é motivo para deixar de declarar o impedimento do presidente, dados a gravidade dos crimes de responsabilidade que ele cometeu e o perigo de que a repetição desses crimes contamine a eleição vindoura. Quem diz que só aos eleitores cabe julgar não compreende as premissas do presidencialismo e não leva a Constituição a sério.

Afirmo que descumpririam seu juramento constitucional e demonstrariam deslealdade para com a República os mandatários que, em nome de lealdade ao presidente, deixassem de exigir seu impedimento. No regime republicano a lealdade às leis se sobrepõe à lealdade aos homens.

Afirmo que o governo Lula fraudou a vontade dos brasileiros ao radicalizar o projeto que foi eleito para substituir, ameaçando a democracia com o veneno do cinismo. Ao transformar o Brasil no país continental em desenvolvimento que menos cresce, esse projeto impôs mediocridade aos que querem pujança.

Afirmo que o presidente, avesso ao trabalho e ao estudo, desatento aos negócios do Estado, fugidio de tudo o que lhe traga dificuldade ou dissabor e orgulhoso de sua própria ignorância, mostrou-se inapto para o cargo sagrado que o povo brasileiro lhe confiou.

Afirmo que a oposição praticada pelo PSDB é impostura. Acumpliciados nos mesmos crimes e aderentes ao mesmo projeto, o PT e o PSDB são hoje as duas cabeças do mesmo monstro que sufoca o Brasil. As duas cabeças precisam ser esmagadas juntas.

Afirmo que as bases sociais do governo Lula são os rentistas, a quem se transferem os recursos pilhados do trabalho e da produção, e os desesperados, de quem se aproveitam, cruelmente, a subjugação econômica e a desinformação política. E que seu inimigo principal são as classes médias, de cuja capacidade para esclarecer a massa popular depende, mais do que nunca, o futuro da República.

Afirmo que a repetição perseverante dessas verdades em todo o país acabará por acender, nos corações dos brasileiros, uma chama que reduzirá a cinzas um sistema que hoje se julga intocável e perpétuo.

Afirmo que, nesse 15 de novembro, o dever de todos os cidadãos é negar o direito de presidir as comemorações da proclamação da República aos que corromperam e esvaziaram as instituições republicanas.

Roberto Mangabeira Unger escreve às terças-feiras nesta coluna. www.law.harvard.edu/unger

A ascensão dos bons companheiros

Ao ser preso pela polícia federal sob a acusação de pertencer a um grupo que explorava ilegalmente máquinas caça-níqueis, Dario Morelli Filho, compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi classificado pelos petistas que o conheciam como um “faz-tudo”. Era uma forma de descrever sua atividade como uma espécie de auxiliar de serviços gerais do partido, encarregado de cuidar de tarefas de confiança que iam desde a segurança de Lula nas campanhas eleitorais até o registro do boletim de ocorrência sobre o furto de fios de cobre na chácara do presidente. A remuneração oficial de Morelli vinha de empregos públicos obtidos por conta da influência de amigos petistas. Até ir para a cadeia, duas semanas atrás, ele tinha um cargo de assessor técnico na Companhia de Saneamento da Prefeitura de Diadema, comandada pelo PT, com salário de R$ 4.800.

A Operação Xeque-Mate, da PF, revelou outro Morelli. As investigações mostram como ele aproveitou a chegada do PT ao poder federal para trilhar também uma diversificada carreira empresarial de trajetória ascendente nos últimos quatro anos e meio. Segundo a PF, Morelli é sócio oculto de uma casa de bingos em Ilhabela, no litoral paulista, e liderava um esquema de pagamento de propinas a policiais. Seria também intermediário de negócios com bancos oficiais, aproveitando-se de seu trânsito em Brasília. Gravações em poder da polícia citam seu envolvimento na tentativa de liberar financiamentos de R$ 100 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para empresas do Amazonas. Entre 2002 e 2006, período em que seu compadre Lula se tornou presidente, a movimentação financeira anual de Morelli quase quadruplicou, segundo relatório da PF. Passou de R$ 176 mil para R$ 661 mil. Os rendimentos declarados por Morelli à Receita Federal não são, diz a PF, compatíveis com esse crescimento.

Morelli, segundo o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é um exemplar de uma nova elite que emergiu com a ascensão política do PT. Essa elite é formada pelos burocratas do partido, pelos militantes profissionais e por sindicalistas que transformaram o PT e os governos petistas em trampolim social. “A atividade política gera recursos, e muitas pessoas enxergam nela oportunidades de negócios”, diz Martins Rodrigues. “Isso acontece com todos os partidos. A diferença é que, no PT, os militantes costumam vir das classes mais baixas da sociedade e mudam de classe social.”

A ascensão social por meio da política não é uma invenção do PT. “Muitas pessoas entram em partidos de operários para ascender socialmente. Isso também aconteceu com os partidos na Europa e nos Estados Unidos”, diz o cientista político Aldo Fornazieri, diretor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Alguns militantes melhoram de vida fazendo carreira como funcionários do partido. Outros vivem dos cargos que se abrem com as conquistas de prefeituras, governos estaduais e de empresas públicas.

É o caso do ex-presidente da CUT Jair Meneguelli, no passado um dos líderes sindicais mais aguerridos no enfrentamento contra a força do capital. No começo do governo Lula, Meneguelli trocou um mandato de deputado federal pela presidência do Serviço Social da Indústria (Sesi). Ganhou um amplo gabinete num dos prédios mais valorizados de Brasília, passou a circular pela cidade no banco traseiro de um Ômega australiano e começou a receber salários de mais de R$ 24 mil, quase o dobro do que receberia como parlamentar. Em entrevista a ÉPOCA, no ano passado, Meneguelli explicou a escolha dizendo que no Sesi poderia “fazer mais coisas que na Câmara”.

Finalmente, há o caminho mais rentável: montar empresas para fazer negócios com o partido e com os governos que seus correligionários comandam. Nessa categoria, o roteiro quase sempre segue o mesmo padrão: o militante abre uma empresa e passa a trabalhar para o partido, prefeituras, governos estaduais ou empresas públicas comandadas pela legenda. Morelli afirmou à polícia que seu dinheiro vem de uma empresa que aluga veículos para campanhas do PT.

Nos últimos anos, o PT produziu vários personagens parecidos com Morelli – na trajetória empresarial e nos problemas com a Justiça. Sérgio Gomes da Silva, o Sérgio Sombra, acusado pelo Ministério Público de São Paulo de ser o mandante do assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel, também começou no PT trabalhando como segurança de candidatos do partido. De família humilde, Gomes enriqueceu e virou dono de uma frota de ônibus que atuava como concessionária da Prefeitura de Santo André. Em Ribeirão Preto, durante a gestão do prefeito Antônio Palocci, o advogado Rogério Buratti foi nomeado secretário de Governo da Prefeitura. Suspeito de irregularidades com obras do município, foi exonerado e montou uma consultoria, a Assessorarte. O negócio foi um sucesso. Rapidamente, ele conseguiu contratos com sete prefeituras petistas. Em 2005, Buratti passou alguns dias preso acusado de participar de um esquema de corrupção na Prefeitura de Ribeirão Preto – assim como aconteceu com Gomes e Morelli.

O que as trajetórias de Morelli, Sérgio Sombra e Buratti destacam, segundo os analistas políticos, é a existência de uma relação perigosa entre o PT e os militantes que se organizam para ganhar dinheiro a partir dele. “Contratar empresa de colega de partido facilita a troca de favores”, diz Aldo Fornazieri. “E essa troca de favores é geralmente sinônimo de desvio de dinheiro público e doação de campanha.”

Para Dario Morelli, depois da ascensão social e política veio a fama. Na noite da quarta-feira, apenas quatro horas depois de sair do presídio federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul – onde ficara dez dias –, ele foi comemorar a liberdade. Vestido com uma camiseta da grife francesa Lacoste, Morelli foi à lanchonete de outro militante petista, onde encontrou um grupo de repórteres que está na cidade para acompanhar os desdobramentos da Operação Xeque-Mate. Ao ver os jornalistas, Morelli aproximou-se sorridente para conversar. Elogiou a estrutura do presídio em que estivera e ironicamente disse estar vivendo um momento de celebridade. “Ofusquei até o Alemão do Big Brother”, disse aos jornalistas. “Agora, São Bernardo (município da Grande São Paulo) tem três homens famosos: o Lula, o Alemão e eu.”

Wálter Nunes - Época