9.10.06

Os militantes no debate

PT reúne 300 militantes uniformizados em frente a emissora, e tucanos, 30

O PT reuniu ontem cerca de 300 pessoas, segundo a Polícia Militar, na entrada da TV Bandeirantes. Com bandeiras e camisas vermelhas, eram orientadas por carro de som que tocava jingles da campanha. Assistiam com torcida, por um telão, a movimentação dos candidatos.
Do outro lado, ficaram cerca de 30 militantes tucanos, segundo seguranças da TV. Também traziam bandeiras e carro de som que tocou jingles de Alckmin. Foram embora, alguns de táxi, antes do início do debate.
Entre os petistas, falavam pelo sistema de som o presidente estadual da CUT, Edson de Paula, e o presidente do diretório municipal do PT, Paulo Fiorillo. Uma militante cobravam que falassem de outros partidos da coligação de Lula.
Paula berrava que Alckmin irá privatizar estatais. Do alto do carro de som, os dois apoiadores de Lula também pediam vaias quando o tucano aparecia no telão antes do debate.
Responsável pelo setor de mobilização da campanha Lula, João Felício disse que militantes chegaram ao Morumbi, bairro nobre da zona sul de São Paulo, "de todas as formas". Maria da Silva, 36, do movimento de favelas, disse ter vindo em ônibus cedido pelo diretório do PT de Pirituba, bairro da zona leste da capital.
Dona de um trailer de lanches ao lado da TV, Luciana de Almeida, 30, estava feliz com a presença dos centenas de petistas. "O que mais saiu foi cerveja", afirmou, para dizer em seguida, baixinho, que votará em Alckmin.
Folha

8.10.06

Mais do Hamilton

Amigo de petistas influentes e do jogo político

Companheiro de Palocci, aliado de Dirceu, parceiro de Mercadante, Lacerda se acha 'extraordinário'

Tratado como o homem da mala por causa da fita de vídeo do Hotel Ibis onde a quadrilha tabajara recebeu o dinheiro, a estatura política de Hamilton Lacerda é bem mais graduada. Foi amigo de militância estudantil de Antonio Palocci, o ex-ministro da Fazenda. Num mandato de vereador, contou com os serviços de Juscelino Dourado - mais tarde chefe de gabinete de Palocci - como assessor parlamentar, numa amizade que se mantém até hoje.

Bom orador, foi cooptado por José Dirceu para comandar uma corrente política sob controle do PT, uma espécie de Articulação estudantil. Só não tornou-se presidente da UNE por acaso. A caminho do congresso onde seu nome seria aclamado em função de um acordo de bastidor, sofreu um desastre de automóvel e perdeu uma vista. Hamilton e Aloizio Mercadante se conhecem desde o final dos anos 80. Pedagogas, suas mulheres desenvolveram trabalhos em comum no passado.

A auto-estima de Hamilton nunca foi pequena, recorda um conhecido. 'Certa vez, durante uma discussão, eu disse que, apesar das nossas diferenças, ele era uma boa pessoa. Hamilton corrigiu: 'Sou extraordinário.''

Filho de um operário aposentado da Volks, Hamilton Lacerda prestou vestibular e tirou diploma de engenharia na Unicamp, uma das melhores universidades do País. Formado, fez um trabalho de pós-graduação sobre coleta de resíduos sólidos. No ABC, integrou-se num grupo de discípulos de Celso Daniel, o prefeito de Santo André que tornou-se uma espécie de tutor de quadros petistas da região - até que, muitos anos e denúncias depois, foi seqüestrado e morto.

Com três mandatos de vereador em São Caetano, em 2000 Hamilton foi o mais votado na história da cidade. Antes de se desfiliar do partido em função do escândalo, era coordenador da Macrorregião do ABC, cargo que é bem mais do que uma honraria, pois dá autoridade para atuar na área que é o berço político do PT e da CUT, uma espécie de ninho permanente para militantes petistas, que ali transitam entre prefeituras, assessorias parlamentares, empregos públicos e ONGs de natureza diversa, num ambiente de confraria e conspiração permanente.

Em São Caetano, a atividade de Hamilton Lacerda sempre deixou diversos rastros eticamente questionáveis. Fraudes são uma acusação freqüente. Além de falsificar uma edição de jornal em 2006, pela qual responde a inquérito por falsidade ideológica, dois anos antes, quando concorria à prefeitura, ele já produzira uma edição fraudada do Diário do Grande ABC para dizer, às vésperas da votação, que as pesquisas tinham virado. 'Era uma vergonha: você andava pelos centros de votação e os militantes do PT estavam animados, certos de que ele seria eleito', relata um vereador.

Em 2004, Horácio Neto, hoje vereador pelo PSOL, adversário de Hamilton na luta interna do PT, registrou Boletim de Ocorrência onde diz que, para tentar expulsá-lo do partido, o homem da mala montou um flagrante forjado de compra de uma gravação telefônica. 'Ele é adepto da teoria de que em política vale tudo. Só não vale perder', diz Horácio. (Procurado pelo Estado, Lacerda recusou seguidos pedidos de entrevista).

Capaz de atravessar com frieza a fronteira que separa o certo do errado, Lacerda integra uma segunda geração de militantes do PT, formados em aparelhos políticos com poder e agressividade. Participou do movimento estudantil quando a luta contra a ditadura já começava a ser substituída pelo dinheiro cartorizado das carteirinhas estudantis, cobradas até de crianças do curso fundamental. Fez campanhas eleitorais com auxílio de um partido que já cultivava ligações perigosas com os cofres municipais.

Foi um dos primeiros a substituir o braço militante por cabos eleitorais profissionais, profissionalizando ativistas de lutas populares para pedir voto em troca de salário. Em 2004, candidato a prefeito, passeava pelas ruas acompanhado por meia dúzia de seguranças de terno preto e automóveis escuros. Em 2006, seu prestígio na cidade fazia dele o candidato natural do PT a deputado estadual. Quando anunciou que iria desistir da candidatura, a incredulidade dos militantes foi imensa. O mau humor só cresceu depois que, por vários gabinete da Câmara Municipal, circularam rumores de que teria recebido uma polpuda recompensa em dinheiro para sair da disputa, liberando o eleitorado para um candidato ligado ao tradicional esquema político da cidade. Numa reunião tensa, aliados e adversários de Hamilton Lacerda expressaram seu desagrado trocando empurrões e pontapés. Aloizio Mercadante chegou a comparecer a uma plenária para pedir aos militantes que o liberassem para participar da coordenação de sua campanha.

Responsável pela área de comunicação, a participação de Hamilton na campanha esteve longe de ser marcante. O próprio Mercadante resolvia o conteúdo dos programas de TV em companhia de Dante Matiussi, o marqueteiro. Hamilton telefonava de vez em quando para se informar sobre o que ocorria. Raras vezes foi chamado para ver o programa antes de ir ao ar.

Nesses dias que correm, os amigos de Hamilton Lacerda se perguntam se não teria sido muito melhor se ele não tivesse ficado em São Caetano para disputar uma cadeira de deputado estadual.
Estadão

O homem que tem a caixa-preta

O homem que tem a caixa-preta da 'missão tabajara'

Citado como portador da mala de dinheiro para comprar dossiê Vedoin, Hamilton Lacerda tenta submergir

No universo tabajara que mudou a sucessão presidencial, o engenheiro Hamilton Lacerda enfrenta uma rotina dramática. Reconhecido pelos poucos eleitores que esperavam o fechamento das urnas no Colégio 28 de julho, em São Caetano, aonde compareceu no último domingo para depositar seu voto naquele pleito que planejava tumultuar com o dossiê comprado, Lacerda chegou ao local quando faltavam 5 minutos para as 17 horas - e foi vaiado pelos presentes.

Lacerda tornou-se um fugitivo desde que foi apanhado com a mão na mala. Não aparece em casa, uma confortável residência em São Caetano do Sul. Sumiu dos locais habituais da cidade, evita toda e qualquer aparição pública e fala pouco ao telefone. 'Você pode imaginar como estou me sentindo', disse a um colega de partido com quem conversou na quarta-feira passada.

Na sexta-feira, depois que o PT decidiu expulsar os tabajaras, Lacerda sentiu-se fragilizado, embora antes da reunião já tivesse decidido desfiliar-se do partido. 'Ele teve consciência de que o tratamento será mesmo rígido', revela um amigo, ouvido sob a condição de ser mantido no anonimato.

A inteligência emocional de Lacerda é um dos elementos-chave da conjuntura política. Ele poderá definir o segundo turno, depois de enterrar as chances de Lula vencer no primeiro, caso decida contar o que sabe sobre a origem do dinheiro e o primeiro elo de comando da operação.

Seria Hamilton Broglia Feitosa de Lacerda aquele tipo de pessoa capaz de baixar a guarda e contar mais do que é conveniente ao partido? 'Não acredito', afirma o delegado Moisés Maximiano Barretos. 'Ele me parece uma pessoa firme e convicta.' Na terça-feira, ele interrogou Lacerda num inquérito anterior à ação tabajara, que revela um mesmo estilo de trabalho na sombra.

Em março, Lacerda distribuiu um tablóide com o logotipo do Diário do Grande ABC, principal jornal da região, contendo denúncias contra o prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior (PTB). Embora reunisse reportagens verdadeiras, também continha textos e imagens forjados. Num simulacro de jornalismo, uma das frases criadas por Lacerda dizia simplesmente: 'O governo Lula está sendo bom para o ABC.'

DEPOIMENTO

Na terça-feira, longe dos repórteres, Lacerda deu um depoimento com voz serena e olhar firme, sem demonstrar o mais leve remorso. 'Fiquei impressionado com a segurança dele', diz o delegado. 'Insistia em dizer que não cometera crime algum.' Barretos acrescenta: 'Ele poderia estar apenas cumprindo orientação de advogados. Mas não. Acha que não havia nenhum mal nisso.'

Estadão

Prezado Lula, ou recordar é viver

Prezado Lula foi o título de carta pública que dirigi ao então candidato em abril de 2002 e reproduzida a seguir (não na íntegra, por razão de espaço), dadas as tentativas de esquecer o passado recente e distorcer o passado já mais distante.

'Lamento incomodá-lo. É bem provável que você considere o que me leva a escrever como um assunto menor na ordem maior das coisas ou das suas legítimas preocupações com seu futuro político. O problema é que o assunto não é menor para mim. Porque tem a ver com minha honra, com meu nome, legado maior que deixarei a meus filhos. Algo que vou defender até o fim de meus dias. Espero que você entenda por quê...

Em longa entrevista publicada pelo Correio Braziliense em agosto de 2001, você se referiu à minha pessoa nos seguintes termos: '... o ministro Pedro Malan... parece que tem uma chave sagrada dos cofres públicos, guarda o dinheiro só para ele... e em época de eleição libera dinheiro para obras de amigos...'

Bem sei que no mundo da política as pessoas, por vezes, se deixam levar pela emoção e pela paixão e que nem sempre medem com cuidado o uso e o significado de suas palavras, principalmente quando atacam pessoalmente supostos adversários políticos. Com muito boa vontade, talvez a sua entrevista pudesse ser lida, como sugeriu uma grande admiradora sua, como uma simples metáfora, destituída de maior significado, própria do calor da hora. Infelizmente, como fui acusado diretamente, não foi assim que a interpretei.

A entrevista ocupou duas páginas inteiras do jornal. É uma entrevista importante e merece ser lida por petistas e não-petistas, pelo que revela sobre você e suas idéias. O jornal a apresentou como a primeira grande entrevista em que você assumiu, publicamente, a sua quarta candidatura à Presidência...

... em meados de novembro de 2001, antes de se encerrar o prazo-limite legal de 90 dias após a publicação da acusação, ajuizei contra você uma interpelação judicial, na 16ª Vara Federal do Distrito Federal, sem fazer divulgação dessa iniciativa. Na interpelação, reproduzi as suas próprias palavras, extraídas da entrevista, e pedi que, em juízo, você as confirmasse, desmentisse, desse as explicações que lhe parecessem necessárias, ou apresentasse as provas que justificassem as suas declarações a meu respeito.

A carta precatória enviada em dezembro pelo juiz de Brasília à 2ª Vara Federal de São Bernardo do Campo (SP) foi devolvida com a sua resposta apenas no fim de fevereiro, pois somente na oitava tentativa o oficial de Justiça conseguiu citá-lo, e assim mesmo depois de o juiz determinar que o fizesse com dia e hora marcados...

Lamento, mas a curta resposta à interpelação judicial, assinada por você e por um advogado pelo qual tenho grande respeito, Márcio Thomaz Bastos, é absolutamente insatisfatória para mim, e me leva não só a tornar pública agora a minha indignação, como a considerar a possibilidade de medidas judiciais cabíveis. A sua resposta apenas defende algo que eu jamais imaginaria questionar: o direito à crítica como inerente ao debate público. Para mim, é absolutamente trivial a observação de que homens públicos estão sujeitos, gostem ou não, a intenso escrutínio e dele não podem reclamar. É dispensável, portanto, para quem é ministro da Fazenda há sete anos e três meses, período de plena vigência das liberdades democráticas, a lembrança de que a crítica é direito assegurado a qualquer cidadão brasileiro, e também a referência óbvia de que o debate franco e aberto sobre qualquer tema é condição essencial para o desenvolvimento do processo democrático.

Vamos ser claros, Lula. O que você fez não foi uma crítica política. Apesar de na última linha de sua resposta à minha interpelação afirmar que 'em nenhum momento pretendeu atacar a honra do interpelante', o fato é que você o fez. Você me acusou de um crime. Porque guardar dinheiro público para si, e o liberar pessoalmente para 'obras de amigos', é crime, Lula. É crime grave. O acusador tem que ter provas, evidências, e você não as tem, não as tinha e nunca as terá, porque nunca fiz, não faço e nunca farei tal coisa. E você sabe ou deveria saber disto.

Não tenho absolutamente nada contra críticas. Ao contrário. Eu próprio as faço e farei, inclusive quanto ao que considero insustentáveis ambigüidades de seu discurso e de seu partido. Sou servidor público há mais de 35 anos. Nos últimos 15 anos ocupando posições de responsabilidade: representante do governo brasileiro nas diretorias executivas do Banco Mundial (Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), negociador-chefe da dívida externa brasileira, presidente do Banco Central e ministro da Fazenda... E sempre, volto a repetir, sem qualquer projeto político pessoal. Nunca, em momento algum ao longo de minha carreira, qualquer pessoa acusou-me de crime ou fez qualquer ofensa à minha honra. Você foi o primeiro - e único. E gostaria que fosse o último a me acusar de crime grave - sem qualquer evidência.

Posso estar equivocado, mas acredito que a opinião pública está se cansando desse cipoal de baixarias, agressões pessoais e acusações sem provas. Creio que a população espera - e merece - um debate público sobre idéias, projetos e programas viáveis, que possam consolidar os ganhos já alcançados pelo País e avançar mais no sentido de melhorar as condições de vida da população brasileira. É com esse espírito que sempre trabalhei, aceitando quaisquer críticas como normais. É com esse espírito que sempre procurei participar do debate público...'

Peço perdão ao leitor que até aqui chegou pela longa reprodução de texto antigo (O Globo, 14/4/2002). Mas tive o privilégio de servir a um governo honrado, com muitos colegas de integridade e caráter, em nome dos quais creio que me expresso. E para os quais, definitivamente, não era 'a mesma coisa' de agora, como pretendem alguns.

*Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda
E-mail: malan@estadao.com.br

7.10.06

Verbas reduzidas

Vôo 1907
Verbas reduzidas

Programa de proteção ao vôo teve orçamento contingenciado.
Foram aplicados 28,4% de R$ 531,6 milhões
Restrições orçamentárias: pelo menos quatro programas ligados ao controle de tráfego aéreo sofreram retenção de fundos este ano, de acordo com a ONG Contas Abertas
As letras miúdas do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi), que mostra os gastos do governo federal, expõem números que podem salvar vidas de passageiros de aeronaves.
A depender dos resultados das investigações do acidente com o vôo 1907,
a falta de investimentos da Aeronáutica na modernização e na manutenção do sistema de controle aéreo pode ter sido determinante para a colisão entre o Boeing 737-800 e o Legacy.
No acidente, 154 pessoas morreram.
De acordo com a organização não-governamental Contas Abertas — www.contasabertas.com.br —, especializada em acompanhar os gastos públicos do governo federal, até setembro, o governo gastou apenas 28,4% de um total de R$ 531,6 milhões destinados para o programa de Proteção ao Vôo e Segurança do Espaço Aéreo, do Comando da Aeronáutica.

Problemas na comunicação entre os controladores de vôo com a aeronave estrangeira são uma das hipóteses para explicar o choque entre as aeronaves.
Outro questionamento entre comandantes de aeronaves é por que o sistema em terra não avisou ao avião da Gol de que havia outro avião na mesma rota.
A outra dúvida é como os controladores atuariam no caso de um avião que estivesse transportando carga ilegal na região.
Esse tipo de aeronave costuma fugir, propositadamente, da “tela” dos radares.

A maior parte do dinheiro — R$ 510 milhões — que financia esse programa vem do Fundo Aeronáutico. Os recursos são recolhidos das empresas aéreas, nas taxas para uso de comunicações nos aeroportos e de auxílio à navegação aérea. De acordo com a Lei 11.182, que criou a Anac, essas taxas são destinadas à Aeronáutica. Com um orçamento robusto, o fundo tem hoje R$ 1,8 bilhão. É o maior volume de dinheiro nos últimos dois anos. Em 2004, o fundo acumulou um total de R$ 1,3 bilhão e, no ano seguinte, R$ 1,53 bilhão.

Riscos
Ao detalhar os gastos do programa com desenvolvimento e modernização do sistema de controle do espaço aéreo, o governo foi ainda mais econômico.
Gastou apenas 15,9% do orçamento destinado para o ano, um total de R$ 163,2 milhões.
“O sistema está operando na sua capacidade máxima. O que existe hoje é um sucateamento dos radares”, acusa o vice-presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação (Snea), Anchieta Hélcias.
A ampliação do uso de radares primários, por exemplo, poderia ter evitado a colisão entre o Boeing da Gol e o Legacy.

O equipamento permite rastrear qualquer aeronave mesmo que o transporder esteja desligado.
Ao contrário do sistema de radar implantado em todo território, esses equipamentos emitem ondas e captam qualquer aeronave.
Por ter custo elevado, esse tipo de radar só está instalado na fronteira, por questões de segurança nacional, e em alguns lugares do interior do país.
Na área do acidente, não existem tais equipamentos.

De acordo com o Siafi, o governo federal destinou R$ 200 mil para investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos.
Desse orçamento, só R$ 31,4 mil foram gastos até o final de setembro.
No mesmo período, o governo havia empenhado mais R$ 65,8 milhões.

O sindicato já pediu ao Congresso Nacional que acompanhe as investigações sobre as causas do acidente. Quer ainda uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre todo o sistema de segurança aeronáutica.
“O acidente coloca todo o sistema em xeque.
O sindicato quer apurar tudo e vai processar os responsáveis por essa tragédia”,
afirma Hélcias.

A maior parte dos recursos do Fundo Aeronáutico foi destinada para operação e manutenção
de equipamentos do sistema de controle do espaço aéreo: R$ 366,9 milhões.
Do total, 33% — R$ 124 milhões — foram utilizados.
Outros R$ 212 milhões foram empenhados até 30 de setembro.

Editora: Ana Paula Macedo// ana.paula@correioweb.com.br
Subeditor: Olimpio Cruz
e-mail :olimpio.cruz@correioweb.com.br
Tels. 3214-1172

Notícias da Itália - Diogo Mainard

Notícias da Itália

"O caso estourou duas semanas atrás. Os
promotores
públicos milaneses descobriram
que a Telecom Italia tinha um esquema de
pagamentos ilegais a autoridades brasileiras.
O lulismo realmente ganhou o mundo. Em sua
forma mais autêntica: o dinheiro sujo"

O lulismo está indo para a cadeia. Na Itália.

O caso estourou duas semanas atrás. Os promotores públicos milaneses descobriram que a Telecom Italia tinha um esquema de pagamentos ilegais a autoridades brasileiras. O esquema era simples. A Telecom Italia do Brasil remetia dinheiro a empresas de fachada sediadas nos Estados Unidos e na Inglaterra. A dos Estados Unidos era a Global Security Services. A da Inglaterra era a Business Security Agency. O dinheiro depositado nas contas dessas duas empresas era imediatamente repassado a intermediários brasileiros, que o distribuíam a terceiros.

A Business Security Agency era administrada por Marco Bernardini, consultor da Pirelli e da Telecom Italia. Ele entregou todos os seus documentos bancários à magistratura italiana. Há uma série de pagamentos em favor do advogado Marcelo Ellias: 50.000 dólares em 13 de julho de 2005, 200.000 em 5 de janeiro de 2006, 50.000 em 2 de fevereiro de 2006. De acordo com Angelo Jannone, outro funcionário da Telecom Italia, Marcelo Ellias era o canal usado pela empresa para pagar Luiz Roberto Demarco, aliado da Telecom Italia na batalha contra Daniel Dantas, e parceiro dos petistas que controlavam os fundos de pensão estatais.

Entre 11 de julho de 2005 e 6 de janeiro de 2006, Marco Bernardini deu dinheiro também à J.R. Assessoria e Análise. Em seu depoimento aos promotores públicos, Marco Bernardini disse que esses pagamentos eram redirecionados à cúpula da Polícia Federal. Paulo Lacerda e Zulmar Pimentel, números 1 e 2 da Polícia Federal, devem estar muito atarefados no momento, investigando a origem do dinheiro usado para comprar os Vedoin. Mas quando sobrar um tempinho na agenda eles podem procurar seus colegas italianos.

Outro nome que está sendo investigado pela Justiça milanesa é Alexandre Paes dos Santos. Conhecido como APS, ele é um dos maiores lobistas de Brasília. Foi contratado pela Telecom Italia para prestar assessoria política. Segundo uma fonte citada pela revista Panorama, APS tinha de ser pago clandestinamente porque é cunhado de Eunício Oliveira. Na época dos pagamentos, Eunício Oliveira era o ministro das Comunicações de Lula, responsável direto pela área de interesse da Telecom Italia. Eunício Oliveira acaba de ser eleito deputado federal com mais de 200.000 votos. Lula já espalhou que, em caso de segundo mandato, ele é um forte candidato para presidir a Câmara. É bom saber o que nos espera.

A revista Panorama reconstruiu também um caso denunciado por VEJA: aqueles 3,2 milhões de reais em dinheiro vivo retirados da Telecom Italia em nome de Naji Nahas. Um dos encarregados pelo pagamento conta agora que o dinheiro foi entregue a deputados da base do governo, do PL, membros da Comissão de Ciência e Tecnologia.

Lula se orgulha de seu prestígio internacional. Orgulha-se a ponto de roubar aplausos dirigidos ao secretário-geral da ONU. O caso da Telecom Italia permite dizer que o lulismo realmente ganhou o mundo. Em sua forma mais autêntica: o dinheiro sujo.
Diogo Mainardi

5.10.06

Pistas que a PF ainda não viu ou ignorou

Investigações sobre empresa da família Godoy e contatos petistas no Rio não foram aprofundados pela polícia

Ao descartar a participação de Freud Godoy, segurança de muitos anos e ex-assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na compra do dossiê contra o PSDB, a Polícia Federal dá sinal de que pretende focar as investigações em Hamilton Lacerda, ex-assessor e ex-coordenador de campanha do senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Tal solução agrada ao Palácio do Planalto, mas fará com que a PF ignore pistas importantes que poderiam ajudá-la a desvendar de fato o mistério sobre de onde veio o dinheiro dos petistas “aloprados”, até agora sem origem identificada.

Documentos obtidos pelo Correio mostram que a PF tem mais a descobrir vasculhando as movimentações financeiras da mulher de Freud, Simone Messenger, do que as dele próprio. E também de duas empresas ligadas ao casal: a Caso Sistema de Segurança Ltda, em que ela é sócia majoritária, e a Caso Comércio e Serviço Ltda, cujo 95% do capital pertence ao ex-assessor do presidente — fato não mencionado em nenhum momento durante a investigação.

A PF descartou Freud Godoy como suspeito anteontem. Fez isso depois de uma investigação superficial. Após uma varredura nas contas telefônicas dos personagens cujo sigilo já foram quebrados até aqui, os policiais não encontraram sinal dos números usados pelo ex-assessor presidencial. Em tese, ele não teria falado ao telefone com nenhum dos envolvidos nos momentos críticos da negociação.

Depois disso, o nome de Freud foi submetido ao Radar, programa de computador que cruza informações nos diversos bancos de dados da PF. Mais uma vez, o sistema não “cuspiu” menções a ele. Significa que nenhum personagem citou-o em qualquer dos depoimentos — à exceção, é claro, de Gedimar Passos na noite em que foi preso (veja quadro ao lado). Diante dessas duas investidas negativas nos autos, os policiais trataram de vazar a notícia de que ele fora oficialmente retirado do rol de investigados.

Factoring
Outros parâmetros, no entanto, ficaram de fora do levantamento. Por exemplo, ao justificar a ascensão patrimonial do casal, Simone costuma dizer que os bens são fruto de seu trabalho como empresária. Mas foi somente em 2004 que ela passou a administrar a Caso Sistema de Segurança, uma prestadora de serviços que ganha a vida alugando seus atributos ao PT. Seis anos antes, em 1998, já existia a Caso Comércio e Serviço, formalmente atrelada a Freud. Enquanto a empresa de segurança, da mulher, é encarregada de dar visibilidade a parte operacional, a firma de comércio e serviços, do marido, centraliza as principais operações financeiras e empresariais.

No dia 18 de setembro, quando a foto de Freud foi estampada nos jornais depois de o petista Gedimar Passos identificá-lo como mandante da transação com os sanguessugas, a Caso Segurança fechou uma operação financeira com a Deccastro Consultoria e Fomento Mercantil Ltda, empresa de factoring de São Paulo. Coincidentemente, cheques da Caso Comércio também foram descontados lá, no mesmo dia.

Sem rumo
A PF também não mexeu uma palha para identificar dois personagens misteriosos, cujos nomes estavam estampados em pequenos papéis saídos de bobina de calculadora manual, apreendidos junto com os R$ 1,7 milhão carregados pelos petistas no hotel Íbis, onde foram presos. São André Márcio Silva e Seleste Souza. A reportagem do Correio descobriu-os na cidade fluminense de Nova Iguaçu e no bairro carioca de Campo Grande, respectivamente. Não há maiores informações sobre a dupla, exceto que manuseou os reais guardados por Valdebran e Gedimar. O Correio chegou a fazer contato telefônico com a mulher. Assustada, ela perguntou onde haviam achado seu número. Desligou abruptamente e não atendeu mais.

O delegado responsável por desvendar a origem do dinheiro, Luiz Flávio Zampronha, tampouco pôs a lupa sobre a Action Corretora, dirigida por outro personagem controverso, o operador Alcindo Ferreira. A Action adquiriu dólares do banco Sofisa. Rastreados pelo número de série, pelo menos parte desses dólares estava entre os US$ 248,8 mil apreendidos com os petistas. Ferreira entrou na corretora pouco mais de um mês antes de o caso explodir, quando as negociações dos “aloprados” com os sanguessugas já estava a todo vapor.



O número
O dinheiro
R$ 1,7 milhão foram apreendidos com petistas pela Polícia Federal para a compra de documentos e fotos contra tucanos

Os personagens do dossiê
Monalisa Lins/AE - 18/9/06
Freud Godoy

Credito: Cadu Gomes/CB
Jorge Lorenzetti

Paulo de Araujo/CB - 3/1/03
Osvaldo Bargas

Ronaldo de Oliveira/CB - 22/9/06
Expedito Afonso Veloso

Berg Silva/Agencia O Globo - 28/8/03
André Ceciliano


Gedimar Passos
Preso no hotel Íbis, em São Paulo, no dia 15 de setembro. Trabalhava no comitê de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Portava R$ 1,1 milhão e US$ 248,8 mil em dinheiro vivo. À Polícia Federal, contou ter recebido ordem de “Freud” para comprar o dossiê contra o PSDB do chefe da máfia dos sanguessugas, Luiz Antônio Vedoin.

Valdebran Padilha
Preso junto com Gedimar. É filiado ao PT do Mato Grosso, onde atuou como arrecadador de campanha do ex-candidato a prefeito de Cuiabá Alexandre César. Servia de ponte entre Vedoin e os petistas mais graúdos.

Freud Godoy
Apresentou-se espontaneamente à polícia, após ser citado como mandante da operação. Antigo segurança de Lula, tinha ganho um cargo de assessor especial no gabinete pessoal do presidente. Negou qualquer envolvimento.

Hamilton Lacerda
Pego no circuito interno de TV do hotel Íbis, é suspeito de ter entregue a mala preta onde supostamente estava o dinheiro sem origem conhecida apreendido com Valdebran e Gedimar. Coordenava a campanha do então candidato petista ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante.

Jorge Lorenzetti
Citado por Valdebran como contato dos sanguessugas na negociação do dossiê. Era chefe de Gedimar no setor de inteligência do comitê de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Havia ganho o cargo de diretor administrativo do Banco do Estado de Santa Catarina, de onde foi exonerado há uma semana.

Osvaldo Bargas
Descoberto como um dos petistas que foi pessoalmente a Cuiabá negociar o dossiê com os sanguessugas. É amigo de longa data do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por ele indicado para a Secretaria de Trabalho do Ministério do Trabalho. Coordenou a confecção de parte do programa de governo da campanha do chefe neste ano. Está afastado do ministério e do comitê eleitoral.

Expedito Afonso Veloso
Descoberto, a exemplo de Bargas, como um dos petistas que foi pessoalmente tratar do dossiê em Cuiabá. A Polícia Federal suspeita que ele bisbilhotou contas bancárias do empreiteiro paulista Abel Pereira e de empresas do grupo Planam e alertou o comando da campanha sobre provas da ligação dos sanguessugas com o PSDB. Era diretor de gestão de risco do Banco do Brasil.

Simone Messenger Godoy
Suspeita de servir de intermediária no repasse do dinheiro que acabou nas mãos de Valdebran e Gedimar. É mulher de Freud Godoy e dona da empresa Caso Serviços de Segurança Ltda, que presta serviços ao PT.

Caso Serviços de Segurança Ltda
Empresa aberta em nome de Simone, responsável pelo serviço de segurança do comitê eleitoral do presidente Lula. Foi lá que Freud conheceu Gedimar, ao fazer uma varredura nas linhas telefônicas, a serviço da Caso.

Banco Sofisa
Responsável pela internação dos dólares apreendidos com Valdebran e Gedimar. Revendeu-os a uma série de pessoas físicas, corretoras de valores, bancos e casas de câmbio. Todas as operações foram registradas no Banco Central e são legais.

EBS Corretora
Suspeita de repassar dólares aos petistas. É uma das empresas que adquiriu os dólares do Sofisa.

Action Corretora
Suspeita de repassar dólares aos petistas. É outra cliente do Sofisa. Há uma trilha que a liga ao ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.

Alcindo Ferreira
Nomeado diretor da Action Corretora em agosto, é dono de uma empresa chamada São Lucas Ribeirão Preto Empreendimentos, Participações e Serviços Ltda. Esta empresa detém, desde 2004, 50,2% do capital do Hospital e Maternidade São Lucas, de Ribeirão Preto. Este hospital é presidido, desde então, pelo médico Pedro Palocci, irmão caçula do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.

Diskline Câmbio e Turismo
Suspeita de ser intermediária na transação dos dólares. Adquiriu US$ 110 mil da EBS Corretora e os repassou a várias pessoas físicas.

Marco Antônio Cursini
Suspeito de operacionalizar a entrada de pelo menos parte dos dólares no país e seu posterior encaminhamento aos petistas. Doleiro conhecido na praça paulista, é apontado como dono da Diskline. Chegou a ser apontado pelo doleiro Toninho da Barcelona como homem do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, no mercado paralelo de câmbio.

André Ceciliano
Suspeito de ter ajudado a levantar parte dos dólares, é investigado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) a pedido da Polícia Federal. Petista, prefeito de Paracambi (RJ), é amigo pessoal do ex-assessor especial da Casa Civil Marcelo Sereno, homem forte das finanças do PT fluminense. Já teve uma casa de câmbio no Centro do Rio e também explorou o mercado paralelo por alguns anos.

Seleste Souza e André Márcio
Suspeitos de terem levantado parte dos reais apreendidos em São Paulo com Valdebran e Gedimar. Ela mora no bairro carioca do Campo Grande, ele é de Nova Iguaçu. Seus nomes aparecem em papéis de bobina de calculadora apreendidos junto com o dinheiro dos petistas.

Paulo Frateschi
Afastado da coordenação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em São Paulo, é suspeito de ter participado das tratativas do dossiê. É presidente do diretório regional do PT no estado de São Paulo.

Correio Brasiliense

3.10.06

PF vê contradição, e Valdebran depõe de novo

A Polícia Federal identificou aparentes contradições nos depoimentos prestados pelo petista Valdebran Padilha e o ex-coordenador da campanha de Aloizio Mercadante (PT) ao governo do Estado de São Paulo, Hamilton Lacerda, sobre a negociação do dossiê contra o PSDB.
Valdebran e Gedimar Passos, ex-policial contratado pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram presos na madrugada do dia 15 do mês passado, no hotel Ibis, em São Paulo, com R$ 1,7 milhão que seria usado para a compra do dossiê. Hamilton foi identificado pela Polícia Federal, a partir de imagens do sistema interno de TV do hotel, como a pessoa que repassou o dinheiro a Gedimar.
Nos depoimentos que prestaram à Polícia Federal, Valdebran e Hamilton afirmaram que não se conheciam e que não chegaram a se encontrar. As imagens analisadas pela polícia demonstram, no entanto, que eles saíram do hotel praticamente juntos naquele dia.
Por conta das contradições, a PF marcou para hoje novo depoimento de Valdebran, em Cuiabá.
Pelas imagens que já haviam sido analisadas, a PF identificara que Hamilton e Gedimar entraram juntos no hotel, mas era o então coordenador da campanha de Mercadante quem segurava a mala que conteria o dinheiro (todo ou em parte). Isso ocorreu na manhã do dia 14, quando a compra do dossiê foi fechada.

Quarto
Os dois pegaram o elevador juntos e foram para o quarto onde Gedimar estava hospedado. Minutos depois, Hamilton desceu sozinho, sem a mala.
Por volta do meio-dia, Gedimar foi sozinho para o saguão do hotel, carregando a mesma mala levada por Hamilton. A Polícia Federal deduziu que Gedimar ficou com medo de deixar a mala no quarto, carregando-a consigo para almoçar.
Valdebran, empresário em Mato Grosso, era o emissário de Luiz Antonio Vedoin, chefe da máfia dos sanguessugas e autor do dossiê, na negociação. Gedimar representava o PT. Seria o responsável por fazer o pagamento.

Corretoras
Do R$ 1,75 milhão apreendido com Gedimar e Valdebran, havia US$ 248 mil. A Polícia Federal já identificou que o dinheiro em moeda estrangeira foi parar em corretoras de câmbio de São Paulo, após ter entrado no país por intermédio do banco Sofisa. Mas a PF ainda não sabe nas mãos de que pessoa física foi parar antes de chegar a Gedimar.
Folha

Doleiro diz que BC tem nome de comprador

Dono de operadora supostamente envolvida no caso do dossiê afirma que órgão mantém registros de quem adquiriu moeda

Empresário não descarta possibilidade de compras terem ocorrido em valores pequenos para dificultar um futuro rastreamento


O doleiro Clóvis Alves da Costa informou ontem que o Banco Central mantém em seu sistema os nomes de todas as pessoas e empresas que adquiriram dólares de sua operadora, a Diskline Câmbio e Turismo, nos meses de agosto e setembro últimos.
A Polícia Federal tem indícios, conforme a Folha revelou no último sábado, de que a Diskline foi a ponta de uma transação de compra e venda de parte dos US$ 248 mil usados para a aquisição, por integrantes do PT, de um dossiê da família Vedoin, em Mato Grosso, contra o candidato José Serra (PSDB), eleito anteontem governador de São Paulo.
A assessoria de imprensa do Banco Central confirmou a informação, mas disse que a Justiça Federal de Cuiabá (MT) ordenou a quebra do sigilo apenas das operações superiores a US$ 10 mil (leia texto ao lado).
Ao saber quem comprou os dólares da Diskline, a PF poderia, em tese, chegar às pessoas que entregaram as malas de dinheiro ao assessor do senador Aloizio Mercadante (PT), Hamilton Lacerda, que, por sua vez, entregou o dinheiro no hotel Íbis, de São Paulo, onde foi apreendido no último dia 15.
Segundo a investigação da PF, o passeio dos dólares começou num banco de Miami (EUA), continuou pelo banco Sofisa, no Brasil, e acabou na corretora EBS, entre outras. Uma parte desse dinheiro, cerca de US$ 110 mil, teria chegado à operadora de câmbio e turismo Diskline, quem, enfim, vendeu os dólares a pessoas físicas e jurídicas em São Paulo.
Clóvis Costa confirmou que sua empresa costuma adquirir dólares da corretora EBS. Em agosto último, o volume total foi de US$ 1,06 milhão. Em setembro, US$ 250 mil.
Costa disse que nunca vendeu US$ 110 mil para uma única pessoa ou empresa e que 95% dos seus clientes são pessoas físicas que compram "US$ 2.000, US$ 3.000, principalmente para gastos pessoais em viagens de férias". A pedido da Folha, Costa consultou o relatório de operações na semana da apreensão do dossiê, de 10 a 15 de setembro, e concluiu que também nesse período não houve operações "de valor significativo", oscilando de US$ 2.000 a US$ 4.000.
Indagado se, sem o conhecimento da agência, podem ter ocorrido várias aquisições pequenas por uma mesma pessoa, em nome de outras pessoas, para dificultar um futuro rastreamento, o empresário concordou com a possibilidade. "É possível, sim, que tenha vindo um monte de pessoas físicas e comprado. Isso é indiscutível. Mas todas essas pessoas estão identificadas, elas apresentaram sua documentação, vieram aqui, assinaram boleto, quer dizer, fizeram uma movimentação legal", explicou o doleiro.
Os nomes e endereços dos compradores dos dólares, independentemente do valor da aquisição, são informados pela agência diariamente pela internet ao Sisbacen (Sistema de Informações do BC).

Dificuldade
Há uma dificuldade básica para localizar quem comprou os dólares usados na tentativa de compra do dossiê: não há lei que obrigue os doleiros e o BC a registrar as operações pelo número das cédulas.
Costa disse que não há políticos entre seus clientes. "Eu até estava analisando minha relação de clientes, e não há nenhum nome assim, conhecido, não tem nada de figuras conhecidas, associadas ou não a essa problemática toda."
O doleiro negou que a Diskline pertença ao doleiro Marco Antônio Cursini, investigado pelo Ministério Público Federal do Paraná por supostos crimes contra o sistema financeiro. "Não o conheço nem ele me conhece." Cursini também negou relação com a Diskline.
Folha

1.10.06

Doleiro do MTB girou US$90 mi nos EUA

Dono de agência de turismo, Cursini diz que nunca negociou com políticos

O doleiro Marco Antonio Cursini, 53, que teria comprado parte dos dólares usados para adquirir um dossiê contra candidatos do PSDB, segundo a Folha revelou ontem, movimentou US$ 90 milhões por meio de uma empresa de fachada no MTB Bank dos Estados Unidos entre 98 e 2002.
Localizado ontem por telefone, Cursini negou ser o proprietário da agência de turismo e câmbio Disk Line, em nome da qual a Polícia Federal detectou as operações de compra dos dólares apreendidos no dia 15 de setembro num hotel de São Paulo.
Cursini admitiu "conhecer" a Disk Line, mas não seus donos. "Eu não tenho nada a ver com a Disk Line. Não é empresa minha, não tenho contato direto nem indireto nem nunca tive. Nunca comprei [dólar] no Sofisa, nunca fiz negócio com o Sofisa", disse o empresário, referindo-se à instituição que teria vendido os dólares à Disk Line. Cursini disse que "nunca fez negócio com político".
Após alguns minutos de entrevista, Cursini disse que a partir de terça-feira poderia dar maiores esclarecimentos sobre seus negócios.
As operações do MTB Bank realizadas por doleiros brasileiros em nome de empresas offshore (sediadas em paraísos fiscais, cujos donos são desconhecidos) têm sido consideradas ilegais tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, gerando sucessivas operações policiais e acusações na Justiça por supostos crimes de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e remessa ilegal de divisas.
Os arquivos da CPI do Banestado, criada para investigar remessas ilegais de brasileiros para o exterior, revelam que a empresa Goldrate Corporation pagou e recebeu dólares de outras empresas offshore conhecidas por operar clandestinamente para brasileiros, como a Agata International, responsável por pagamentos não declarados para o marqueteiro Duda Mendonça, que fez a campanha presidencial de Lula em 2002.
No Paraná, durante as investigações promovidas pela Força-Tarefa criada pelo Ministério Público Federal, descobriu-se que a Goldrate Corp na verdade era movimentada por Cursini e dois parentes seus. Em novembro de 2005, os procuradores federais denunciaram Cursini por supostos crimes contra o sistema financeiro nacional e formação de quadrilha. A Justiça determinou o bloqueio de US$ 381 mil da Goldrate.
Cursini é dono de 99% das cotas da Travelcenter Câmbio e Turismo Ltda, empresa fundada em 1994.
A agência de turismo tem matriz no 13º andar de um prédio na rua Joaquim Floriano, em São Paulo, e filiais nos shoppings Metrópole e Penha.
Folha