18.10.06
Entrevista com Espinoza!
Encarregado no comitê da campanha à reeleição de Lula em São Paulo de organizar a agenda do candidato, José Carlos Espinoza, 52, disse ontem que Paulo Ferreira, tesoureiro nacional do PT, "tranqüilizou" Freud Godoy, ex-assessor da Presidência, implicado por integrante do comitê de Lula no escândalo do dossiê. Leia os principais trechos da entrevista.
FOLHA - O sr. participou de uma reunião com Freud Godoy e Gedimar Passos na sede da PF?
JOSÉ CARLOS ESPINOZA - Não participei de nenhuma reunião e não teria porque participar. Por que eu estaria numa reunião dessas?
FOLHA - Como foi a reunião na sua casa com Freud e o tesoureiro Paulo Ferreira?
ESPINOZA - Nós tivemos uma primeira reunião com o doutor Augusto [Botelho], advogado do Freud, onde a gente foi conversar um pouco do que estava acontecendo e da possível prisão preventiva dele que havia sido pedida. O doutor Augusto foi embora, veio o Paulo Ferreira e nós fomos conversar mais a situação do Freud, interna. Como é que ficava a situação dele? Ele estava se exonerando da Presidência, como é que ficava a situação dele dentro do partido, o que seria exigido dele, ou ser pedido. O Paulo Ferreira nos tranqüilizou. Ele falou: "Olha, por enquanto não muda absolutamente nada. Não muda absolutamente nada. Vamos esperar os fatos irem se desenrolando e a gente vê o que é necessário". Agora, nada mais além disso, nada mais.
FOLHA - Freud solicitou alguma ajuda financeira?
ESPINOZA - Nenhuma.
FOLHA - Foi oferecida a ele alguma coisa?
ESPINOZA - Olha, eu diria, nesse caso, não foi. Mas acho que, dependendo das condições, acho que até isso é possível. Mas não foi, pelo menos naquele momento, não foi conversado nem cogitado nada disso.
FOLHA - Por que foi procurado o tesoureiro e não alguém da presidência ou da secretaria-geral do partido?
ESPINOZA - Olha, porque o tesoureiro também é um membro do partido. Poderia ter sido outro, mas o Ferreira é que tinha participado da reunião em Brasília e ele então é que tinha o resultado das conversas em Brasília. Foi por esse motivo.
FOLHA - Que reunião em Brasília?
ESPINOZA - Eles tiveram uma reunião em Brasília para discutir o episódio, a compra do dossiê, como é que ia encaminhar, como é que estava, sobre o Gedimar, o Valdebran. Porque até então essas pessoas estão sendo ditas como [integrantes] do PT. Então tem toda uma preocupação, uma movimentação. E o Paulo Ferreira foi a pessoa que acompanhou essa reunião lá. Foi ele que veio trazer o relato dessa reunião para nós e tranqüilizar a gente, dizer: "Olha, tranqüilo, vamos ver, vamos investigar, vai dar problema. "Nêgo" vai virar sua vida de cabeça pra baixo, mas por enquanto está tudo tranqüilo". Paulo Ferreira não foi (...). Você que falou agora nessa questão de tesoureiro. Eu nem (...). É um membro do partido, está na coordenação da campanha também e é o cara que participou da reunião lá em Brasília. (...) O que ele falou pra mim foi o seguinte, o que foi conversado com ele foi o seguinte: "Olha, nós fizemos uma reunião lá e tomamos essas decisões, nós vamos fazer essas coisas".
17.10.06
Pingos nos is: as contradições de Lula no Roda Viva
| 1. Desvio para o superávit | ||
| O que diz Lula... Que seu governo está em dívida com o País por ter desviado o dinheiro dos fundos setoriais de telecomunicações (Fust e Funtef) para fazer superávit primário, em vez de usá-lo nos programas de inclusão digital | ... e a realidade O presidente dá a entender que o desvio ou contingenciamento do dinheiro dos fundos setoriais das telecomunicações é um caso isolado na execução do Orçamento Geral da União. Não é. Também foi desviado ou contingenciado o dinheiro dos fundos de Segurança Pública e Penitenciário, dos fundos de Ciência e Tecnologia e até do orçamento vinculado à Saúde. O Fundo Penitenciário, por exemplo, sofreu um corte de R$ 56 milhões de 2004 para 2005 (de R$ 147 milhões para R$ 91 milhões) | |
| 2. Privatizações | ||
| O que diz Lula... Que não teria privatizado as empresas de telefonia. Critica a venda da Vale do Rio Doce e outras estatais “a preço de banana” e diz que o dinheiro da venda das empresas públicas não pode ser usado para equilibrar as contas do Tesouro. Admite que o serviço telefônico melhorou depois da privatização | ... e a realidade A opinião do governo Lula e do PT sobre as privatizações é, no mínimo, inconsistente e ziguezagueante. Em 2002, quando o candidato Lula lançou a Carta ao Povo Brasileiro, o PT parou de criticar as privatizações, arquivou a idéia de fazer auditoria nos leilões e desautorizou a proposta de reestatizar as empresas. Nos dois mandatos como prefeito de Ribeirão Preto (1993-1996 / 2000-2002), o petista Antonio Palocci privatizou a telefônica municipal (Ceterp) e parte do serviço de saneamento. O governo Lula privatizou o Banco do Estado do Ceará (Bec) e só não vendeu o Ibri (Instituto de resseguros do Brasil) porque o escândalo do mensalão atrapalhou os planos do Ministério da Fazenda | |
| 3. Carga tributária | ||
| O que diz Lula... Que não aumentou impostos. Pelo contrário: aplicou à economia uma política de desoneração tributária setorizada | ... e a realidade Segundo a Receita Federal, entre 2003, primeiro ano do governo Lula, e o final de agosto passado, a soma de todas as desonerações (R$ 22,8 bilhões) e dos impostos reajustados e coletados (R$ 26,4 bilhões) dá um saldo de R$ R$ 3,6 bilhões desfavorável aos contribuintes. O Orçamento para 2007, que está no Congresso, prevê um aumento de carga tributária federal de 17,24% para 17,41% do PIB | |
| 4. Déficit da Previdência | ||
| O que diz Lula... Que a cada 10 ou 15 anos, a Previdência precisa ser repensada, não só no Brasil, mas no mundo todo | ... e a realidade Este padrão de resposta vem sendo usado tanto por Lula como por Alckmin para os candidatos não se comprometerem com a necessária reforma da Previdência. Mas o governo Lula agrava o déficit porque na reforma de 2003 aprovou os fundos de previdência complementar para os novos servidores públicos, mas nunca regulamentou a medida. Resultado: cerca de 30 mil novos funcionários públicos civis foram admitidos e incorporados ao sistema de aposentadoria pré-reforma | |
| 5. Berzoini e o dossiê | ||
| O que diz Lula... Que o presidente do PT e coordenador da campanha presidencial à reeleição, o deputado federal Ricardo Berzoini, deixou os dois cargos porque não “sabia de nada” sobre “quem “fez a burrice” do dossiê Vedoin, uma “sandice inominável” | ... e a realidade Lula trata o dossiê como uma “sandice” ou “burrice” para desidratar a gravidade política do assunto. E o presidente só autorizou a saída de Berzoini das duas funções (coordenador da campanha e presidente do PT) depois que a imprensa (revista Época) revelou o envolvimento do deputado na operação de compra e divulgação do dossiê Vedoin. Em entrevista ao jornal O Globo, Lula disse o contrário do que afirmou ao Roda Viva, que não perguntou e nem pretende perguntar a Berzoini quem foram os autores da “sandice burra” | |
| 6. Demissão de ministros | ||
| O que diz Lula... Que os ex-ministros Antonio Palocci (Fazenda) e José Dirceu (Casa Civil) “foram afastados” do governo, “na medida em que a opinião pública julgou que eles não podiam ficar nos cargos”. Segundo Lula, “eles viraram alvos de críticas, de especulações, de denúncias, e eu não poderia mantê-los no governo” | ... e a realidade Outra afirmação ziguezagueante, o que prova que Lula só afastou os ministros por conta da pressão da opinião pública. Mas o presidente também já disse, em entrevista à TV Globo, que foi ele quem demitiu os ministros. Havia dito, antes, depois de chamá-los de “amigos” e “companheiros”, que eles se demitiram | |
| 7. Cortar gastos | ||
| O que diz Lula... Que não tem onde cortar gastos públicos, que a oposição fala em cortes para reduzir o salário dos funcionários públicos e demitir | ... e a realidade A questão mais importante não é cortar gastos, mas gastar bem. O governo Lula aumentou o custeio em detrimento dos investimentos públicos. Exemplo: nos três primeiros anos do governo Lula (2003-2005), o investimento médio na saúde, segundo dados do próprio Tesouro Nacional, foi menor do que o investimento médio nos três últimos anos do governo FHC (2000-2002): 1,83% do PIB contra 1,90% | |
| 8. Lulinha e a Telemar | ||
| O que diz Lula... 8. Que (os negócios do filho, Fábio Luiz Lula da Silva, com a Telemar) “foram muito investigados (pela CPI dos Correios) e não se chegou a nenhuma conclusão sobre irregularidades | ... e a realidade A imprensa investigou os negócios de Lulinha com a Telemar. A CPI dos Correios, por causa de um acordo político envolvendo o próprio PSDB, não investigou nada. Na Polícia Federal, o inquérito está parado | |
| 9. Polícia Federal | ||
| O que diz Lula... Que deu ordem à PF para, em todas as investigações, “não deixar pedra sobre pedra” | ... e a realidade A realidade é outra: todas as investigações de denúncias envolvendo diretamente o governo federal ou estão paradas ou caminham muito lentamente, sem a menor prioridadade. Até hoje, a PF não chegou a nenhuma conclusão, por exemplo, sobre o caso Waldomiro Diniz, que estourou em fevereiro de 2004 | |
Estadão
Será possível que ninguém se toca?
O que vai acontecer com esse populismo-voluntarista-estatizante é obvio, previsível, é 'be-a-bá' em ciência política. 'Sempre foi assim...' - se consolam.
Mas, não. 'Nunca antes', um partido montou um esquema secreto de 'desapropriação' do Estado, para fundar um 'outro Estado'. O ladrão tradicional roubava em causa própria e se escondia pelos cantos. Os ladrões desse governo roubam de testa erguida, como em uma 'ação revolucionária'. Fingem de democratas para apodrecer a democracia por dentro.
Lula topa tudo para ser reeleito. Ele usa os bons resultados da economia do governo FHC para fingir que governou. Com cínico descaro, ousa dizer que 'estabilizou' a economia, quando o PT tudo fez para acabar com o Real, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra tudo que agora apregoa como atos seus.
Se eleito, as chamadas 'forças populares', que ocupam os 30 mil postos no Estado aparelhado, vão permanecer nas 'boquinhas', através de providências burocráticas de legitimação.
As Agências Reguladoras serão assassinadas. Os sinais estão claros, com várias delas abandonadas e com notícias de que o PMDB já quer diretorias.
O Banco Central perderá qualquer possibilidade de autonomia, como já rosnam os membros do 'Comitê Central' do lulismo. A era Meirelles-Palocci será queimada, velho desejo de Dirceu e camaradas.
Qualquer privatização essencial, como a do IRB por exemplo, será esquecida.
A reforma da Previdência 'não é necessária' - dizem eles -, pois os 'neoliberais exageram muito sobre sua crise', não havendo nenhum 'rombo' no orçamento.
A Lei de Responsabilidade Fiscal será aos poucos desmoralizada por medidas atenuantes.
Os gastos públicos aumentarão pois, como afirmam, 'as despesas de custeio não diminuirão para não prejudicar o funcionamento da máquina pública'. Nossa maior doença - o Estado canceroso - será ignorada.
Voltará a obsessão do 'Controle' sobre a mídia e a cultura, como aconteceu no início do primeiro tempo. Haverá, claro, a obstinada tentativa de desmanchar os escândalos do chamado 'mensalão', desde os dólares na cueca até a morte de Celso Daniel e Toninho do PT, como já insinuam, dizendo que são 'meias-verdades e mentiras, sobre supostos crimes sem comprovação...'.
Leis 'chatas' serão ignoradas, como Lula já faz com a lei que proíbe reforma agrária em terras invadidas ilegalmente, 'esquecendo-a' de propósito. Quanto ao MST, o governo quer mantê-los unidos e fiéis, como uma espécie de 'guarda pretoriana', a vanguarda revolucionária dos 'aiatolás petistas', caso a crise política se agrave. Não duvidem, eles serão os peões de Lula.
Outro dia, no debate, quando o Alckmin contestou Lula ao vivo, ouviu-se um 'ohhhh!....' escandalizado entre eleitores, como se o Alckmin tivesse cometido um sacrilégio. Alckmin apenas atacou a intocabilidade do operário 'puro' e tratou-o como um cidadão como nós, ignorando a aura de 'ungido de Deus' de Lula, que os fanáticos intelectuais lhe pespegaram. Reagiram como diante de uma heresia, como se Alckmin tivesse negado a virgindade de Nossa Senhora ao lhe perguntar: 'De onde veio o dinheiro?'
Agora, sem argumentos diante dos escândalos inegáveis, os lulistas só agem pela Fé. Lula sempre se disse 'igual' a nós ou ao 'povo', mas sempre do alto de uma 'superioridade' , como se ele estivesse 'fora da política', como se a origem pobre e a ignorância lhe concedessem uma sabedoria maior. Agressão é o silêncio cínico que ele mantém, desmoralizando as instituições pela defesa obstinada da mentira. Mas, os militantes imaginários que se acham 'amantes do povo' pensam que Lula não precisa dizer a verdade; basta parecer. Alguns até reconhecem os crimes, mas 'mesmo assim', votarão nele. Muitos têm medo de serem chamados de reacionários ou caretas. Há também os 'latifundiários intelectuais': acadêmicos e pensadores se agarram em seus feudos e não ousam mudá-lo. Uns são benjaminianos, outros marxistas, outros hegelianos, gurus que justificam seus salários e status acadêmico e, por isso, não podem 'esquecer um pouco o que escreveram' para agir. Mudar é trair, para ortodoxos. Ninguém tem peito de admitir a evidência inevitável de que só um 'choque de capitalismo' destruiria nossa paralisia estatal, burocrática e patrimonialista, pois o mito da 'revolução sagrada' é muito forte entre nós. Se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia (Bobbio).
Os intelectuais dissimulados votarão em Lula de novo e dizem que 'sempre foi assim' porque, no duro, eles acham que o lulo-dirceuzismo estava certo sim, e que o PT e sua quadrilha fizeram bem em assaltar o Estado para um 'fim revolucionário'.
Vou guardar este artigo como um registro em cartório. Não é uma profecia; é o óbvio, banal, previsível. Um dia, tirá-lo-ei do bolso e sofrerei a torta vingança de declarar: 'Agora não adianta chorar sobre o chopinho derramado... Eu não disse?...'
Arnaldo Jabor
Lula se enrosca na língua
"Chamei o presidente do partido lá em casa e falei: eu quero saber quem fez essa burrice para não usar a palavra que estou pensando agora. Você, como presidente do partido, tem obrigação de dar uma resposta à sociedade. Ele não deu [a resposta], eu o afastei da coordenação da campanha".
Quer dizer então que o presidente de um partido tem obrigação de saber quem fez "essa burrice" (mais que "burrice", tem toda a pinta de ser crime eleitoral) e o presidente da República (também presidente de honra do partido) não tem a obrigação de saber de nada?
Lula usou à exaustão o argumento de que nem em família o pai, se está na sala, pode saber o que se passa na cozinha (ou qualquer outra dependência). Aí, de duas uma: ou o argumento vale também para Berzoini ou, se não vale, não serve para proteger Lula.
É óbvio, mas se torna obrigatório dizer: o presidente da República tem à mão instrumentos muito mais potentes do que o presidente de um partido (qualquer partido) para averiguar quem fez "essa burrice" (e os demais crimes de que o PT é acusado, a ponto de sua cúpula ter sido chamada de "organização criminosa" pelo procurador-geral da República).
No entanto, o presidente sistematicamente nega à sociedade as informações que acha que Berzoini tinha obrigação de dar. Diz que foi traído (no episódio do mensalão), mas não diz por quem.
Joga a culpa por todo o escândalo do dossiê em cima de Berzoini e dos "aloprados", como se ele próprio fosse inimputável. Lula nem precisa de opositores para se enroscar na língua.
CLÓVIS ROSSI
15.10.06
Estelionato à vista!
A JULGAR pelos primeiros programas do horário eleitoral, nenhum ganho substantivo de qualidade no debate entre os candidatos à Presidência se mostra digno de registro. Estaríamos, numa apreciação preliminar, apenas diante da habitual sucessão de marchinhas e sorrisos, de candidatos caminhando em câmara lenta no rumo de um horizonte vago, encontrando ao longo do percurso uma amostra cientificamente ponderada de eleitores segundo diferentes faixas de idade e origens étnicas.
Curiosamente, contudo, uma questão "ideológica" ganha espaço no confronto entre Lula e Alckmin. Num movimento extemporâneo e escamoteador, tudo se passa como se, no próximo mandato presidencial, estivesse em pauta o antigo debate entre privatismo e estatismo.
Várias camadas de inadequação e disparate se superpõem nessa tentativa de polarização doutrinária entre os candidatos. Em quatro anos de governo, Lula não deu nenhum passo sequer no sentido de reverter as privatizações realizadas pelo seu antecessor; tampouco se dispôs a investigar as irregularidades que, não se cansa de dizer, teriam sido cometidas no processo.
A crítica lulista às privatizações não só é refutada na prática administrativa de seu governo como se torna mais deslocada e irrealista do que nunca. Na área de telefonia, por exemplo, o abandono do modelo estatista resultou em patente sucesso, tanto em termos de elevação dos investimentos quanto nos benefícios que acarretou para a grande maioria da população.
Quanto à candidatura Alckmin, pode enfatizar sem desconforto que não mudará o modelo de gestão vigente na Petrobras ou no Banco do Brasil; a refutação indignada de tais acusações lhe serve, no fundo, como cortina de fumaça a esconder sua própria ausência de projetos, ou seu desinteresse político em explicitá-los ao eleitor.
O falso tema da privatização presta aos dois candidatos o serviço de eximi-los de discutir o que realmente está em jogo na política econômica durante os próximos quatro anos. Trata-se do ajuste fiscal, passo imprescindível para a redução continuada dos juros e para a aceleração do crescimento econômico.
Quando o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, trata no Congresso da desvinculação das receitas orçamentárias -o que significa dar ao governo mais flexibilidade para cortar gastos em saúde e educação-, é este o tema em foco. Quando o economista Yoshiaki Nakano enuncia seus planos de superávit fiscal, para pânico e desconcerto dos estrategistas de Alckmin, é também disso que se trata.
Cortar onde, como e em que medida? Quais os setores a serem sacrificados nesse ajuste? De que modo obter repartição mais justa da carga tributária e como recalibrá-la sem comprometer o atendimento às necessidades básicas da população?
Um estelionato eleitoral se prepara de ambos os lados, enquanto a campanha investe na desinformação e no marketing, condimentados agora por uma polarização doutrinária artificial e fora de época. E o eleitor, reduzido a um simulacro sorridente nas imagens da propaganda eleitoral, vê-se tratado como sempre: uma massa de manobra infantilizada, cujas opiniões reais, sobre problemas reais, nenhum candidato tem coragem ou interesse em consultar.
Folha
Quando privatizar estatais!!!
Dois casos fogem desse padrão: os correios - estatais em quase todos os países, exceto agora no Japão - e o Banco da Inglaterra, criado em 1694 com acionistas privados para desempenhar funções dos modernos bancos centrais e estatizado apenas em 1946.
Nos anos 1930, estatais foram criadas nos EUA para enfrentar a depressão e para desenvolver certas regiões, como a Tennessee Valley Authority, a qual, como a Amtrak (transporte ferroviário) continua sob controle do Estado.
Por razões 'estratégicas' ou ideológicas, estatais surgiram em todo o mundo, inclusive mediante a estatização de empresas privadas. Empresas aéreas viraram estatais em países como o Canadá e o Reino Unido, que fez o mesmo com o transporte urbano e o carvão. No pós-guerra, os trabalhistas britânicos estatizaram petróleo, gás, aço e ferrovias. As empresas petrolíferas são quase todas estatais. Estas possuem 90% das reservas mundiais de óleo e gás.
Nos anos 1970, as estatais foram questionadas, particularmente nos países ricos. Tornou-se clara sua ineficiência. As empresas privadas podem fazer melhor, pois funcionam sob o regime de concorrência, o que reduz preços, cria incentivos à inovação e melhora a qualidade dos respectivos bens e serviços.
Na América Latina, além disso, muitas estatais se tornaram cabides de emprego ou foram usadas indevidamente pelo governo. No Brasil, se endividaram para atrair capitais na crise da dívida externa e tiveram seus preços fixados abaixo dos custos para ajudar no controle da inflação. A ineficiência e os prejuízos aumentaram.
Nos países ricos, esses problemas foram evitados graças à governança corporativa de suas estatais. No Reino Unido, diretores eram escolhidos pelo critério de mérito e sem restrições à nacionalidade. A British Steel teve um presidente canadense.
Nesses países, percebeu-se que as estatais eram produto de uma época. O termo 'privatização', cunhado nos anos 1930 pela The Economist, passou a ser utilizado no processo de venda dessas empresas no Reino Unido. Depois, a palavra foi consagrada em todo o mundo.
Em comparação com os anos 1980, restam poucas estatais na Europa, como é o caso do metrô de Londres e da BBC. Os bancos estatais praticamente sumiram. Uma exceção são os bancos estaduais alemães, que deixaram de ser instrumento de governo e agora servem mais à geração de dividendos para o Tesouro. Um deles, o WestLB, virou um banco de investimento global e competitivo.
A extensão da privatização européia não se repetiu nos países em desenvolvimento. Na América Latina, o processo é lento, dada a resistência da cultura estatista. O bem-sucedido caso da Vale do Rio Doce não foi até hoje absorvido. Apesar do claro benefício para o governo, o País e os empregados, o próprio presidente da República condenou sua privatização em debate recente na TV.
Muitos dos que são contra a privatização dificilmente acreditam que as estatais são eficientes, mas entendem que as questões estratégicas compensam as ineficiências. Com raríssimas exceções, é o caso das estatais petrolíferas.
Há o mito de que empresas estatais se preocupam com o desenvolvimento, enquanto as privadas seriam predadoras que olham apenas o lucro. Exemplos de países ricos que independem delas não são considerados. O Brasil depende mais das empresas privadas do que das estatais para crescer, mas poucos se dão conta disso.
A China caminha para ser uma exceção. Além da ampla privatização ou extinção de estatais, vendeu parte do controle de seus bancos estatais a estrangeiros. A SAIC, estatal de automóveis, contratou um americano para dirigir sua área internacional. Isso seria impensável no Brasil.
Estatais devem ser privatizadas quando puderem ser substituídas com vantagens pelo setor privado. Um estudo sério dirá que essa é a situação de praticamente todas as nossas.
Não basta, todavia, provar a tese. O BB, a Petrobrás e a CEF continuarão estatais por décadas. A sociedade ainda não está preparada para aceitar a sua venda nem elas estão prontas para tanto. Daí porque Lula e o PT usam o argumento desonesto e terrorista de que Alckmin as privatizaria se fosse eleito.
Mailson da Nóbrega - e-mail: mnobrega@tendencias.com.br
12.10.06
Lula censurou!
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General da reserva fala!!!
A intimidação, segundo artigo do general da reserva, estaria na "ameaça do emprego dos movimentos sociais" caso o TSE decida impugnar a candidatura do PT
O presidente do Clube Militar, general de Exército da reserva Gilberto Barbosa de Figueiredo, acusou em artigo publicado os aliados do presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo ele, esses aliados quererem "intimidar" o País com "a ameaça do emprego dos movimentos sociais e da violência anárquica" caso o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decida impugnar a candidatura petista por descumprir a legislação eleitoral ao divulgar o dossiê Vedoin.
Para o general, que cobra explicações de onde surgiram os R$ 1,7 milhão que seriam destinados ao pagamento do dossiê, "golpistas são os que, mesmo antes de conhecer a decisão de um Tribunal, se preparam para pregar o descumprimento de sua sentença, desde que não seja do agrado de sua corrente política".
Este é o segundo artigo em que militares da reserva, únicos que podem se manifestar em relação a temas políticos, já que os da ativa são impedidos pelo regulamento disciplinar, criticam "maracutaias" e atitudes do governo petista.
Neste texto, o ex-comandante Militar da Amazônia insiste que, "se houve ou não crime eleitoral, cabe ao TSE e somente ao TSE decidir". E acrescenta: "acusar de golpista a quem advoga o cumprimento da lei passa dos limites".
Entendimento canhestro do golpismo
No artigo, intitulado "um entendimento canhestro de golpismo", o general Gilberto Figueiredo lista todas as denúncias de corrupção contra o governo Lula, iniciando no caso Waldomiro Diniz, segue citando o Mensalão, a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa.
"Todos esses fatos ocorreram com pessoas que compunham o círculo de auxiliares próximos e amigos do Presidente. As maracutaias, para usar expressão muito de seu agrado, foram urdidas dentro do Palácio. E o que é absolutamente espantoso: o Presidente alegava, candidamente, que nada sabia", afirma o general.
Cartilhas do PT
Ele prossegue falando do caso da distribuição das cartilhas do PT pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República, "da negociação fraudulenta de um suposto dossiê" e que até aplausos foram roubados de Kofi Annan na sessão de abertura da assembléia da ONU.
Lembrando que neste episódio do dossiê foi constatada a participação de "figuras" próximas a Lula, que, "o presidente, novamente, não sabia", o general comenta que, mais uma vez o petista "nega sua participação na tramóia", mas "ainda não foi capaz de esclarecer de onde surgiu todo esse dinheiro - o equivalente a R$ 1,7 milhão de reais".
Segundo o general, "na presença de fatos de tal gravidade, políticos da oposição argüiram a impugnação moral e jurídica do presidente-candidato", por considerá-los crime eleitoral.
"A lei parece bem clara, tanto que o TSE resolveu examinar o escândalo do dossiê, onde (sic) está sob suspeita a própria candidatura Lula", diz o presidente do Clube Militar, explicando que "simpatizantes do atual governo, em face da embrulhada jurídica em que se meteu seu candidato, começaram a tachar de golpistas a todos quanto o acusam de haver transgredido a lei e, principalmente, àqueles que alegam haver razões jurídicas para a impugnação".
Decisão do TSE
De acordo com o general "se houve ou não crime eleitoral, cabe ao TSE e somente ao TSE decidir". E acrescenta: "agora, acusar de golpista a quem advoga o cumprimento da lei também já passa dos limites".
O presidente do Clube Militar conclui seu artigo dizendo que "o entendimento universal de golpismo orienta-se justamente em sentido oposto". E completa: "golpistas são, pois, os que, mesmo antes de conhecer a decisão de um Tribunal, se preparam para pregar o descumprimento de sua sentença, desde que não seja do agrado de sua corrente política.
Golpistas, com certeza, são aqueles que pretendem intimidar toda uma nação com a ameaça do emprego dos "movimentos sociais" e da violência anárquica que habitualmente acompanha suas ações, para fazer valer, a qualquer custo, suas anacrônicas idéias".
Estadão
11.10.06
Freud recebeu dinheiro de Nahas
Ex-assessor de Lula teria recebido dinheiro de Naji Nahas, por meio de corretora, 10 dias antes da prisão de petistas
A CPI dos Sanguessugas vai investigar um depósito de R$ 396 mil feito na conta de Freud Godoy, ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Freud teria recebido o dinheiro do megainvestidor Naji Nahas, por meio da corretora do Banco Alpha, no dia 5 de setembro, dez dias antes da prisão de Gedimar Passos e Valdebran Padilha em um hotel em São Paulo com R$ 1,75 milhão que seria usado para comprar um dossiê contra políticos tucanos.
'Vamos investigar essa pista, mas isso não significa que Freud é culpado', disse o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), sub-relator da CPI dos Sanguessugas. 'É um indício importante e tem de ser investigado.'
A operação bancária teria envolvido uma transação com ações da Telemig. Nahas seria, supostamente, o 'cedente', ou seja, o dono do lote de ações que acabou vendido e repassado para Freud Godoy. As ações da Telemig foram transformadas em reais, e o dinheiro depositado em uma agência do Banco do Brasil em Brasília. O dinheiro foi depois transferido para a conta da Caso Sistema de Segurança Ltda., empresa de segurança da mulher de Freud, Simone Messeguer Pereira Godoy.
O detalhe dessa operação bancária que a CPI vai investigar é que, segundo um especialista do mercado, Naji Nahas está impedido de operar na Bolsa e pode ter utilizado um intermediário para realizar a transação. 'Ainda assim, caso a venda das ações tenha realmente ocorrido, haverá uma pista a investigar porque a Bolsa fica com um registro de todas as operações', afirmou ao Estado o operador do mercado.
Gabeira pretende requerer à Comissão de Valores Mobiliários uma cópia do boleto com a transação. Pedirá ainda à Bolsa de Valores e à corretora do Banco Alpha os detalhes sobre as vendas de ações da Telemig. Existindo a transação bancária, o deputado quer saber se o dinheiro das ações repassado a Freud tem alguma ligação com a tentativa de compra do dossiê contra os tucanos.
O advogado de Freud, Augusto Arruda Botelho, não quis comentar o assunto ontem. Ele alegou desconhecer o fato e disse só falará depois de se informar com seu cliente. Até o momento, as investigações da PF para rastrear o R$ 1,75 milhão usado para comprar o dossiê Vedoin não apontaram nenhum indício de participação de Freud.
Estadão
Freud acusa Gabeira de quebra de sigilo ilegal
"Pelo que se denota da matéria, houve quebra ilegal de sigilo bancário. Não há qualquer decisão judicial autorizando a divulgação ou acesso aos dados bancários seja de Freud, seja da empresa Caso (pertencente à mulher dele). Cabe ao deputado, fonte da matéria, explicar onde obteve essa falsa informação", diz a nota, na qual Freud informa que vai enviar ofício à CPI com os extratos de suas contas correntes.
Gabeira negou que tenha acusado Freud de receber dinheiro de Nahas. Segundo ele, a informação sobre o suposto depósito foi apresentada pelo jornal.
- O que eu disse é que existe uma pista que deve ser investigada. Isso não significa que ele seja culpado. Agora, se quiser interpelar, que interpele - afirmou o deputado.
Gabeira informou que vai pedir à CPI a quebra dos sigilos de três contas bancárias pertencentes à Caso.
- Esta é a questão mais importante agora. O Banco Alpha (que teria feito o depósito) é ligado ao Nahas e também tem ligações com a Telecom Itália. Temos que ver isso - disse o deputado.
O Globo