6.7.09

China: At Least 140 Dead in Xinjiang Province Clashes

China: At Least 140 Dead in Xinjiang Province Clashes

Desvio de verba ameaça projeto contra Aids

R$ 1,1 mi foi subtraído de programa da UFRJ que pesquisa vacina; agência dos EUA diz que pode cortar financiamento

Cerca de 400 cheques foram encontrados na conta de secretária do coordenador do programa; pesquisador e fundação trocam acusações



Desvios e sumiços de recursos de ao menos R$ 1,1 milhão, destinados à UFRJ, ameaçam paralisar um dos mais importantes projetos brasileiros na área de HIV/Aids: o Praça Onze, que tem o objetivo de descobrir vacinas e drogas para prevenção e tratamentos da doença e é financiado na maior parte pelo governo americano.
Composto por mais de 15 pesquisas, o Praça Onze é coordenado por Mauro Schechter, professor titular de doenças infecciosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, hoje em conflito com a FUJB (Fundação Universitária José Bonifácio), também da universidade, que é responsável por receber os recursos do projeto.
As duas partes se acusam de descontrole a ponto de descobrirem tardiamente que cerca de 400 cheques, totalizando R$ 1,1 milhão, pararam na conta pessoal de uma secretária.
Schechter acusa a fundação de não saber determinar até agora o destino de verbas estimada entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões. Para a FUJB, é o pesquisador quem lhe deve R$ 1,1 milhão.
As suspeitas levaram o NIH (Instituto Nacional de Saúde, dos EUA), principal financiador do programa, a enviar representante ao Brasil, exigir uma auditoria e ameaçar suspender o repasse de verbas.
O instituto já enviou mais de US$ 7 milhões (cerca de R$ 13,6 em valores de hoje) para o programa brasileiro.
O projeto passará agora a ser gerido pela reitoria da universidade federal. Schechter afirma que isso gerará mais burocracia e poderá inviabilizar e engessar as pesquisas científicas.
Em um ponto ambas as partes concordam, embora cada uma coloque a principal responsabilidade na outra: houve falha na fiscalização.
"Não tenho acesso às contas. Caberia à fundação, e não a mim, fazer o controle e identificar que havia saída de dinheiro superior a valores das notas fiscais, o que não fizeram", declara Schechter.
"Se erramos, foi por dar excesso de liberdade para Schechter", afirma o presidente da fundação, Raymundo de Oliveira. Segundo ele, os recursos iam para uma conta em nome do pesquisador e seriam de sua responsabilidade.
A FUJB move ação de prestação de contas contra o professor. Já Schechter pediu investigação nas contas do projeto ao Ministério Público Federal e ao Estadual e ao TCU (Tribunal de Contas da União). A Promotoria estadual determinou auditoria, e o TCU investiga o caso.

Secretária
Rosenilda Sales foi secretária de Schechter entre 1994 e 2004, quando se flagrou a compra de passagens de avião para ela e a família com verba do projeto. Schechter a demitiu. Depois disso, a fundação descobriu que havia desvios de cheques de 1998 a 2004.
A Folha não conseguiu localizar Rosenilda. À polícia, ela alegou que o dinheiro era pagamento "por fora" por outros projetos do pesquisador e para pagar voluntários, o que Schechter nega.
Segundo a Polícia Civil, que a indiciou sob acusação de estelionato, os montantes foram depositados em sua conta, na de irmãos e do namorado.
"Rosenilda foi contratada por indicação de Schechter. Nós é que descobrimos que os cheques foram parar na conta dela", diz Oliveira.
O pesquisador afirma que o controle cabia à FUJB. Schechter apresentou à reportagem e-mails de 2004 e 2005 em que cobra o sumiço de valores de R$ 470 mil e de mais R$ 674 mil da fundação. A FUJB declara que as mensagens foram tiradas de contexto. E atribui parte do descontrole aos altos custos administrativos do projeto e a oscilações no câmbio.
Schechter diz ainda que a FUJB cobra taxa de administração vedada pelo NIH, o que somaria mais de R$ 1 milhão. A fundação apresentou à reportagem contrato de 1995, assinado pelo pesquisador, em que a cobrança está prevista. Folha

5.7.09

O que move a greve na USP

O barulho de grupos de esquerda que não têm apoio de professores nem de alunos dá a falsa impressão de que a universidade entrou em colapso


Raquel Salgado

PARECE AULA, MAS É COMÍCIO Antonio Candido, de bigode, incita os estudantes ao "exagero". Marilena Chaui, ao microfone, confunde ditadura com democracia

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Quadro: A turma do fundão

A Universidade de São Paulo (USP) tem funcionários em greve há cinquenta dias. A paralisação começou com o sindicato dos servidores, que cobra aumentos salariais e anistia para seus líderes acusados de cometer crimes. Um mês depois, foi encampada pelas associações de professores e alunos. Quem observa de fora pode ter a impressão de que o movimento instalou o caos na maior instituição de ensino superior do país. Mas é só ir ao câmpus da USP em São Paulo para descobrir que o cotidiano lá pouco mudou. A maior parte dos 86.000 alunos e 5.400 professores continua frequentando aulas e ensinando. Além disso, uma parcela expressiva dos 15.500 funcionários – 30% do total – desempenha suas tarefas normalmente. Como em geral acontece nas universidades públicas, a greve da USP é restrita a grupos de representatividade limitada, ligados à esquerda radical, que disfarçam suas reivindicações muito particulares com a roupagem do interesse geral. As maiores assembleias feitas pelos grevistas não reuniram mais que 2% dos alunos, 5% dos professores e 3% dos funcionários.

O movimento só adquiriu corpo porque, neste mês, a reitora Suely Vilela convocou a polícia para dispersar piquetes armados em frente ao prédio da administração. Em sua gestão, iniciada no final de 2005, Suely Vilela não tem dado mostras de grande habilidade política. Mas a medida que tomou, mais que justificável, era um dever para alguém encarregado de zelar pelo patrimônio de uma instituição pública: há dois anos, alunos e os mesmos líderes dos servidores invadiram e ocuparam a reitoria por 51 dias, período no qual vandalizaram o prédio (uma das reivindicações dos grevistas, aliás, é a readmissão de Claudionor Brandão, um servidor demitido por justa causa por participar daquela depredação). Apesar disso, a presença da PM causou comoção. Os grevistas provocadores entraram em confronto com a polícia no dia 9. Cinco manifestantes e cinco PMs acabaram no hospital. Foi o pretexto para a adesão de intelectuais panfletários. As professoras Marilena Chaui e Maria Victoria Benevides participaram de um comício travestido de aula. "Exagerem. Sejam justos e injustos", exortou um Antonio Candido nada cândido que também deu as caras. A motivação ideológica de muitos grevistas – para os quais atingir o governo paulista é objetivo primordial – tornou-se evidente. Até mesmo o delegado Protógenes Queiroz, afastado da Polícia Federal por conduzir suas investigações de maneira irregular mas acolhido como herói por certa esquerda, tirou uma casquinha ao lado de um deputado do PSOL.

Na última quinta-feira, uma passeata na Avenida Paulista juntou 3 000 apoiadores da greve. Esse número nem de longe representa a maioria dos estudantes e dos docentes. Tampouco é unanimidade o "Fora PM" bradado pelos manifestantes. Na engenharia, por exemplo, 84% dos alunos gostariam que a PM fizesse rondas no câmpus para evitar estupros e assaltos. Tanto o slogan quanto o argumento de intelectuais como Marilena Chaui, de que a presença da polícia ameaça a liberdade de pensamento na universidade, denotam uma confusão mental digna dos relatórios do delegado Protógenes. "A PM que esteve na USP é muito diferente daquela que silenciava professores e alunos durante a ditadura militar. Desta vez, a polícia compareceu para dar proteção a um patrimônio que é de todos", diz o advogado Dalmo Dallari, ligado à esquerda.

Maior universidade do país, a USP fica apenas no 877° lugar em um ranking de mais de 1.200 instituições de ensino superior recém-consolidado com base nas informações do Scopus, entidade internacional que mede a eficiência da produção acadêmica mundial. Para muitos professores e alunos, até mesmo a ideia de aplicar o Enade à USP é anátema – o teste do Ministério da Educação afere a qualidade de ensino em cada universidade. Essa é a verdadeira lástima. E não a presença de policiais no câmpus para conter piqueteiros que gostariam de ver a USP transformada num bunker, livre de prestar contas à sociedade que investe nela.Veja

À sombra da Constituição

Ao defender o senador José Sarney de denúncias de irregularidade, o presidente Lula cria no Brasil duas categorias de cidadão: os "comuns", nós, e os "incomuns", a quem tudo se permite


Otávio Cabral e Diego Escosteguy

Fotos Andre Dusek/AE e Ricardo Stuckert/PR

A VERDADE LIBERTA E FORTALECE
O presidente Lula sempre encontra argumentos para defender aliados envolvidos em escândalos, como Sarney e Renan Calheiros (foto ao centro). "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo"


Há meio século, quando o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira inaugurou Brasília, um coro de descontentes fez-se ouvir. Nada contra a arquitetura de gosto duvidoso da nova capital federal. O que se temia era a possibilidade de que, uma vez isolados no interior do país, longe da vigilância próxima e permanente dos cidadãos de uma metrópole como o Rio de Janeiro, antiga sede do governo, os políticos perdessem de uma vez a compostura e passassem a comportar-se como senhores feudais, acima das leis. Infelizmente, os descontentes revelaram-se proféticos. Brasília tornou-se uma ilha da fantasia para deputados e senadores, que usam seus cargos de representantes do povo para locupletar-se e obter vantagens para seus apaniguados. O corolário evidente é que a capital se transformou numa imagem de pesadelo para os que pagam a conta: nós, os milhões de contribuintes; nós, as dezenas de milhões de pessoas comuns. É tal o resumo da ópera brasiliense – eles, os poderosos, os "incomuns", se lixam cada vez mais para a opinião pública, para os bons modos, para a Constituição. Minam, assim, a crença na democracia e os alicerces de uma nação que almeja a civilização.

Esse espetáculo deprimente teve outra cena triste na semana passada. Seu protagonista: o presidente Lula. Desde que se viu na contingência política de ter de defender os crimes dos seus partidários envolvidos no mensalão, Lula teve de entregar a bandeira da ética – que ele empunhou com desenvoltura antes de chegar ao Palácio do Planalto. A rendição do presidente se deu naquela célebre entrevista concedida em Paris, em 2005, nos tempos em que a corrupção causava ainda algum constrangimento. Sem os corretivos vindos de cima, a turma do baixo, do médio e do alto clero da base aliada sentiu-se mais livre do que nunca. Sempre que um de seus integrantes está prestes a se afogar, eis que surge o presidente, solidário, oferecendo o conforto de suas palavras amigas. Nem precisa ser compadre de pitar cigarrilha, como o leal companheiro Delúbio Soares, estrela do mensalão. Pode ser do PMDB, do PP ou do PTB. Pode até ser, vá lá, um "grande ladrão", adjetivo com o qual Lula descrevia o senador José Sarney quando este era presidente da República. Há cinco meses o Congresso Nacional enfrenta uma infindável onda de escândalos. Ela envolve parlamentares e altos funcionários com mordomias, nepotismo e suspeitas de corrupção. Aos 79 anos de idade, 54 de política, Sarney, o mais longevo e experiente dos políticos brasileiros, é apontado como mentor e beneficiário da máquina clandestina que operava a burocracia do Senado. Inerte diante das denúncias, o senador tentou defender-se no plenário, com argumentos tão frágeis quanto os azulejos portugueses de São Luís. Do Cazaquistão, onde se encontrava em visita oficial, Lula atirou-lhe a boia.

Fotos Sergio Dutti/AE e Leonardo Costa/Esp. Em/D.A. Press

ROTEIRO DE IMPUNIDADE
O deputado Edmar Moreira e seu castelo de 25 milhões de reais: o relator do Conselho de Ética da Câmara pediu sua cassação por quebra de decoro, mas colegas se preparam para absolvê-lo na próxima semana

"O senador tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum", disse o presidente. E continuou: "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo no Brasil. Quando o Congresso foi desmoralizado e fechado, foi muito pior para a democracia". Não satisfeito, acrescentou: "Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim e depois não acontece nada". Ao afirmar que Sarney merece um tratamento diferenciado, o presidente atropelou o preceito constitucional expresso no artigo 5º, que estabelece a igualdade de todos perante a lei. "Lula foi absolutamente infeliz. Reforçou a ideia de que um é melhor do que o outro. Restabeleceu a lógica do ‘você sabe com quem está falando?’. Bateu de frente na Constituição e no princípio basilar da democracia", resume o historiador Marco Antonio Villa.

Dono de uma biografia comovente e de uma popularidade acachapante, Lula não parece preocupado com arranhões em sua imagem pessoal. Parece fiar-se nas cicatrizações promovidas pelo tempo. Espontâneo como nos tempos de sindicalista barbudão, ele não é, ainda, afeito a liturgias do cargo que ocupa. Nada disso representa um grande problema. A questão é que, no exercício da Presidência da República, Lula personifica muito mais do que o operário que chegou ao poder. Ele é ao mesmo tempo o mestre e o servo dos brasileiros ao se investir dos poderes de uma instituição, a Presidência da República. Entre seus inúmeros e vitais papéis está o de zelar pela Constituição. Ao declarar que Sarney é um personagem que paira sobre tudo e todos, o presidente da República foi bem além de cometer uma gafe pessoal. Ele feriu a Carta que jurou defender. E isso nem um presidente popular, simpático e bem-sucedido como Lula pode fazer impunemente.

Há uma mensagem perturbadora na recorrente retórica presidencial em defesa dos aliados envolvidos em escândalos: a minimização da corrupção, o estímulo à transgressão das regras e o aval à impunidade. A lista dos socorridos por Lula saiu direto dos escaninhos da polícia (veja o quadro). Há nela gente como o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical, acusado pela PF de faturar propina. Ele recebeu uns belos cafunés de Lula, em agosto de 2008, num discurso a sindicalistas: "O que aconteceu com Paulinho já aconteceu com outros. Nessas horas, é momento de andar de cabeça erguida". A defesa do presidente deve ter tocado o coração dos deputados do Conselho de Ética da Câmara. Logo depois, eles inocentaram Paulinho. Outro notável da política brasileira que mereceu um paparico de Lula foi Renan Calheiros, do PMDB, quando vieram a público os rolos do senador alagoano com amantes, bois, lobistas e malas cheias de dinheiro – essas coisas de Brasília. No ápice do escândalo, há dois anos, o presidente entrou em cena para confundir a plateia: "Isso é um assunto que o Senado poderia ter resolvido em uma semana. Não sei por que não resolveram. É o típico caso de gente que acha que quanto pior, melhor. Estou vendo pela imprensa que o Renan apresenta documentos em sua defesa e não aceitam". Acabaram aceitando. Meses depois, os senadores inocentaram Renan.

É necessário cautela ao estabelecer uma relação automática de causa e efeito entre as declarações conciliadoras de Lula e a posterior pizza servida aos encalacrados. Seria um disparate afirmar que Renan foi absolvido diretamente em razão do que disse o presidente. Mas é ingenuidade acreditar que um fato esteja completamente dissociado do outro. Resta incontornável a percepção de que, todas as vezes em que o presidente se pronuncia a favor de um político enrolado (o que é frequente demais), o político enrolado safa-se (o que é tão frequente quanto).

Ana Araújo

RADICAIS CALADOS
Mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula

As declarações de Lula fortaleceram Sarney, que havia iniciado a semana passada na berlinda. Ele chegou a discutir a possibilidade de se afastar da presidência do Senado, como um último ato para resgatar sua biografia. Desde que deixou a Presidência da República, em 1990, Sarney elegeu-se senador e se transformou na principal liderança política do Congresso. Preside o Senado pela terceira vez e, nos intervalos entre um mandato e outro, ajudou a eleger apadrinhados, como Jader Barbalho (que renunciou por corrupção) e Renan Calheiros. É dele também a montagem da burocracia alvo dos últimos escândalos. Durante catorze anos, o ex-datilógrafo Agaciel Maia comandou a máquina que administra o Senado. Nomeado por Sarney e mantido no cargo por todos os presidentes que lhe sucederam, Agaciel foi afastado no início do ano quando se descobriu que ele era dono de uma mansão, não declarada ao Fisco, avaliada em 5 milhões de reais. Recentemente, soube-se também que Agaciel era responsável pela montagem de uma estrutura administrativa clandestina usada para contratar parentes, amigos e correligionários de senadores sem percorrer os caminhos normais da burocracia. Não se conhece a totalidade da lista dos beneficiados, mas já foram encontrados oito parentes do senador José Sarney entre os "secretas" parlamentares. A maior parte deles jamais pisou no Congresso. No último dia 10, em meio ao escândalo, Agaciel Maia casou a filha. Sarney foi padrinho.

Na véspera da declaração de apoio de Lula, o senador "incomum" subiu à tribuna. Em um discurso de pouco mais de meia hora, disse que a crise não é dele, mas de todo o Senado, e que não aceita ser julgado por questões menores, o que é uma "falta de respeito para quem tem mais de cinquenta anos de vida pública". VEJA ouviu uma centena de pessoas "comuns" em várias partes do país, para saber como receberam a defesa do tratamento diferenciado aos políticos proposto pelo presidente. As opiniões estão reproduzidas ao longo das páginas desta reportagem. Em 1890, Benjamin Constant, ardoroso republicano brasileiro, saiu de uma audiência com o marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do Brasil, indignado com o tratamento que lhe fora dispensado. "Não era esta a República com que eu sonhava", disse Constant. Mais de um século depois, é como se sua frase continuasse a ressoar entre os milhões de cidadãos que vivem sob o império da lei, sem privilégios e pagando a conta dos "incomuns" de Brasília.

Com reportagem de Expedito Filho, Naiara Magalhães, Natalia Manczyk, Leandro Beguoci, Leandro Narloch, Leonardo Coutinho (de Salvador), José Edward (de Manaus), Igor Paulin (de Porto Alegre), Ronaldo Soares, Carolina Vaisman, Kalleo Coura e Gabriele Jimenez

Entrevista de Wilson Santarosa ao jornal O Globo

Entrevista de Wilson Santarosa ao jornal O Globo

4 de julho de 2009 / 22:30
*Concedida em 29/06/2009 ao jornalista Chico Otávio na sede da Petrobras. Wilson Santarosa é gerente executivo da Comunicação Institucional da Petrobras

O GLOBO - A Petrobras está demandando um pouco dos nossos esforços, Particularmente depois da CPI, e evidentemente a historia do blog também.

SANTAROSA – Eu acho que viria mais cedo ou mais tarde. Até brinco com o pessoal: infelizmente, ou felizmente, veio com a gente, agora nós não criamos isso, você sabe, quem criou foi a UFMG.

O GLOBO - Não sabia.

SANTAROSA – Eles criaram numa crise há um ano e meio dois anos atrás. Nós estávamos trabalhando já algum tempo na criação de um veículo mais ágil. Quando chegou a CPI surgiu a informação que a UFMG tinha usado esta ferramenta. Nós fomos procurar, saber como e descobrimos. Por um lado, foi ótimo porque a gente conseguiu dar vazão às informações para o povo conhecer. Por outro lado, no início criou um ruído com a imprensa, que em seguida ajustamos e tudo se acomodou. Ele veio para ser uma ferramenta nova, que vamos tentar consolidar.

O GLOBO - Na minha opinião, foi o que eu percebi, acho que o que mais causou um certo desconforto foi só aquela história de divulgar as perguntas e as respostas antes.

SANTAROSA – Nós percebemos um apelo de vocês. Nós sentimos o apelo de vocês e ajustamos para proteger o profissional.

O GLOBO - Uma curiosidade minha é que, tendo essa oportunidade aqui, é te perguntar o que mudou no seu discurso… O senhor foi um líder sindical importante.

SANTAROSA – Nem tanto…

O GLOBO - Ah, foi… O movimento petroleiro nos anos 80, anos 90, é só pegar os jornais.

SANTAROSA – Para falar a verdade, foi de 84 a 92.

O GLOBO - Mas não teve uma greve importante em 95?

SANTAROSA – Mas eu não era mais do movimento sindical… Eu participei de 84 a 92, foi a minha vida sindical. Depois eu me afastei.

O GLOBO - O senhor entrou em 84 no próprio sindicato dos petroleiros de Campinas, ou não?

SANTAROSA – É.

O GLOBO - Mas como diretor?

SANTAROSA – É.

O GLOBO - E aí ficou…

SANTAROSA – Até 92.

O GLOBO - Oito anos. Foram quantos mandatos?

SANTAROSA – Foram dois, e não encerrou o terceiro. Eu era o presidente, começou a se discutir em Brasília, no Congresso, a alteração da lei para aposentadoria da previdência…

O GLOBO - Isso é que eu queria perguntar para o senhor também, a questão da previdência.

SANTAROSA – É. E eu corria o risco de perder a especial, que eu tinha a especial. Minha aposentadoria era especial. Aí, um grupo que se aposentava naquela época, 25 mil, foi uma debandada na Petrobras em função da possibilidade de perder a especial. Porque ia alterar a lei da Previdência. Aí, no momento da minha aposentadoria, para não perder a especial, eu me aposentei e no dia seguinte eu pedi minha renúncia do sindicato, porque sendo aposentado eu não podia dirigir o sindicato.

O GLOBO - O senhor era operador de refinaria?

SANTAROSA – Eu era operador de transferência e estocagem.

O GLOBO - O senhor saiu em 92?

SANTAROSA – 92.

O GLOBO - O senhor já tinha quanto tempo de casa, digamos assim?

SANTAROSA – Na Petrobras?

O GLOBO - Sim.

SANTAROSA – Dezessete anos. Que eu sempre considerei mais. Como era especial, eu sempre fiz essa conta. E a conta era 1,4.

O GLOBO - O senhor sempre trabalhou na refinaria em Campinas?

SANTAROSA – Sim, Replan. Eu saí em 92. Em 95, eu me elegi conselheiro da Petros, que na época se chamava conselho de curadores. Depois, a legislação mudou para Conselho Deliberativo. Fiquei de 95 a 2000.

O GLOBO - Nessa época, o senhor resistiu a algum tipo de mudança que a patrocinadora, o governo federal, tentava fazer com o plano de previdência dos funcionários da Petrobras?

SANTAROSA – Enquanto conselheiro eleito, eu levantei todos os problemas que a Petros tinha ao longo dos anos. Porque qualquer ação de RH, aqui na Petrobras, tinha algum tipo de impacto na Petros. E eu, como eleito, fiz esse papel. Eu fui lá e levantei tudo o que tinha. Só que, foi caminhando o tempo, e não houve uma negociação no governo anterior, nós tentamos um processo em dezembro de 98, quando houve uma alteração na Constituição, que dava para as empresas dois anos para os fundos se adaptarem. Então, nós entramos na época para garantir o direito adquirido antes da alteração da Constituição, que se alterou, deu dois anos, então foi em 2000. Aí, inverteu: eu vim pra cá em 2003. Na época, era o mais capacitado pelos cinco anos de Petros.

O GLOBO - O senhor trabalhou muito com essa questão da Previdência?

SANTAROSA – Trabalhei muito. O presidente, na época, José Eduardo Dutra, falou: “você vai ter que assumir a presidência do conselho”. E ainda falou: “vamos botar você e o Lima”, que era o RH, na época, e hoje é o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia (José Lima de Andrade Neto). Aí, eu passei pro lado de cá. Eu tive que pensar pelo lado de gestão empresarial. Em vez de eu ficar na guerra entre sindicatos na Justiça e tal, nós buscamos a via da negociação. Levou seis anos de negociação para chegarmos a um acordo. E aí, o pessoal acabou topando, fizeram a repactuação e a Petrobras se comprometeu a colocar R$ 5,7 bilhões, fruto daquele estudo que fiz lá atrás.

O GLOBO - Está no acordo?

SANTAROSA – Está no acordo. Foi um bom acordo.

O GLOBO – Ativo?

SANTAROSA – Não, fundo de pensão da Petrobras e os participantes. Política natural de qualquer sociedade, contrária, trabalharam contra a readaptação, uma votação que todos participaram, a maioria acabou vencendo, o acordo foi consolidado e a repactuação foi feita. Foi instalado novo plano, que em vez de ser BD passou para CD.

O GLOBO – A gente tem percentual?

SANTAROSA – Na votação, a aceitação do acordo foi de 73%.

SANTAROSA – Com relação à gestão, quando nós assumimos, a despesa administrativa da Petros girava em torno de 11,5%.

O GLOBO – Que ano foi?

SANTAROSA – Nós assumimos em 2003. A despesa administrativa girava em torno de 11,5%. Estabelecemos como meta 8%. No terceiro ano, atingiu 8% e hoje está em 6,4%. A rentabilidade era em torno 9,5% do patrimônio na nossa gestão, muito embora eu reconheça que a estabilidade econômica influenciou nesse total, mas também não tinha o rendimento estratosférico de antes. Isso está no nosso balanço e é público.

O GLOBO – O senhor ainda é presidente do conselho?

SANTAROSA – Sou.

O GLOBO – Qual é o seu prêmio mais importante?

SANTAROSA – O mais importante é o Caboré, que todo publicitário quer, que todo mundo quer a indicação. É o mais importante na área de marketing e publicidade.

No dia da entrega, ninguém falta, todo mundo está lá. São só três indicados no Brasil inteiro, isso já é um prêmio. Duvido que alguém de empresa pública tenha sido indicado.

O GLOBO – O senhor tem noção de quantos prêmios são da sua gestão, já somou alguma vez?

SANTAROSA – Mais de 100.

O GLOBO – Só para entender melhor, estes prêmios tem a ver com a gerência executiva da Comunicação Institucional, não tem nada a ver com Petros.

SANTAROSA – Não.

O GLOBO – Tá ótimo.

SANTAROSA – Agora, o prêmio de comunicação empresarial, que é o da Aberje, eu ganhei por três anos consecutivos. É o mais serio de todos eles na área empresarial.

O GLOBO – Por que na área de comunicação? O senhor veio para cá porque tinha uma certa aptidão, interesse?

SANTAROSA – No meio sindical, me notabilizei com campanhas, ideias. As pessoas da área me conheciam. Como eu sempre fui um grande estudioso da Petrobras, em função do monopólio, também conheci muito a empresa. Com os cinco anos de conselho de Petros, eu trabalhei na divulgação daqueles problemas e convenci todo mundo que aquilo era real. Fui reconhecido como homem de comunicação. Antes de trabalhar na Petrobras, eu trabalhei numa empresa de consultoria. Durante dez anos eu dirigi a empresa. Eu sou formado em contabilidade. Nesse período, de 2000 a 2002, eu dirigi a Ceasa de Campinas, que é a quarta maior do Brasil, ela é gigantesca.

O GLOBO – Imagino.

SANTAROSA – Então vinha todo esse acúmulo de gestão e o Dutra, sabendo disso, ele me conhecia há muito tempo, me convidou: “Olha, preciso de alguém ali e eu gostaria que você assumisse”. Vim pra isso e por isso.

O GLOBO – São seis anos…

SANTAROSA – Seis anos e meio.

O GLOBO – Qual é a sua impressão da imprensa brasileira?

SANTAROSA - Está passando por fase de transição. Saiu do jornalismo investigativo, de pesquisa, acredito que em função de crises financeiras dos veículos, que reduziram pessoal, custos; do advento da internet, que facilita pesquisa de assunto. As assessorias empresariais vieram nesse período. Agora, com as novas mídias, os jornalistas do mundo inteiro terão que voltar à essência do jornalismo.

O GLOBO – Agora, tem outros ex-Sindipetro também, nessa área de comunicação.

SANTAROSA - Sim. Estão nas Regionais de Comunicação. Desde a década de 90, essa é a comunicação institucional. As refinarias têm, todas elas, os terminais, o E&P. A empresa passou por alguns momentos de muita greve, e noutros momentos, de acidentes. Ela teve essa fase. A década de 90 foram as greves, no início; depois, nós tivemos alguns acidentes. Antigamente, se chamava Asscom – Assessoria de Comunicação das unidades. Isso foi na época do Rennó, depois o Reischstul. O que o pessoal preferiu: escolher gente da operação para ser os assessores de imprensa, porque eles conheciam o processo. O processo produtivo, eu digo. Não foi com a gente. Porque era uma relação constante e tinha que explicar o que estava acontecendo nas refinarias, ou naquele terminal, ou naquela plataforma. E isso veio vindo, de lá pra cá. Porque que eu os trouxe? Esse pessoal fez isso a vida inteira, eles sabem fazer: se relacionar com as comunidades, se relacionar com aqueles projetos que nós temos nas regiões Brasil afora. Eles são especialistas nisso. Eles só nos ajudam. Quem é o gerente deles não sou eu, é o Fernando Moura, que é engenheiro de produção. Há gerente que é jornalista, psicólogo, geólogo, médico. Às vezes criam alguns mitos. Dos 34 gerentes, 4 são ex-sindicalistas.

O GLOBO – Dentro dessa estrutura aqui são quantos funcionários?

SANTAROSA – 440. Na Comunicação, 440. São 1.150 na empresa inteira.

O GLOBO – Hoje o senhor fez uma referência à CPI, lá no seu discurso, não foi?

SANTAROSA - Fiz.

O GLOBO – Por quê?

SANTAROSA - Porque nós estávamos anunciando justamente a área de patrocínio. E a apresentação do nosso balanço social é o resultado do que a gente faz. Eu me referi a ela no seguinte sentido: nós estamos no meio de um burburinho. E nós temos que dar respostas à opinião pública, à imprensa, e à CPI. E que vai nos dar um belíssimo trabalho. Mas nós estamos preparados e prontos para fazer.

O GLOBO – O senhor está preparado para ir à CPI?

SANTAROSA – Não tenho problema em ir. Acho que temos que ir, já que a área de patrocínio é um dos itens do requerimento da CPI. A Petrobras está pronta e o presidente Gabrielli tem reiterado isso. Todos os supostos problemas foram esclarecidos no blog.

SANTAROSA – Outro mito: aumentou a verba para a comunicação da Petrobras. Aumentou o orçamento. E isso é real. O que nós fizemos? Já se fazia isso tudo. Já se fazia nas pontas. As pontas que eu digo é lá na unidade. Lá em Paulínia, lá em Mataripe, lá no Nordeste inteiro, lá na plataforma. O que nós fizemos? Não tem controle, tem que ter controle. O gerente lá da ponta faz e a administração aqui não fica nem sabendo. E é desse jeito. Por que é que nós juntamos…

O GLOBO – Padronizaram…

SANTAROSA – Juntamos, alinhamos dentro de seis programas com critérios conhecidos e estabelecidos e, se não se enquadrar ali, não tem patrocínio. Não tem. Quando pode ter um que fuja, aí a gente tenta enquadrar.

O GLOBO – Há um tema assim, que sempre me mobilizou um pouquinho: samba. Quando o Lula diz: “o governo vai ajudar”, e determina que a Petrobras resolva o problema lá com a Liga. Aí eu acho que esse protocolo, no caso, fica prejudicado.

SANTAROSA – Esse não é um patrocínio social, mas já fazemos patrocínio social das comunidades das escolas de samba aqui no Rio de Janeiro. É patrocínio social não é carnaval. A gente vai na Portela, a gente vai na Vila, a gente vai na Mangueira, que já é velha conhecida. Acho que é a mais antiga.

O GLOBO – Mas a Mangueira continua?

SANTAROSA – Continua.

O GLOBO – Vila, Portela, Mangueira, Salgueiro… Você falou o quê?

SANTAROSA – Rocinha.

O GLOBO – Beija Flor?

SANTAROSA – Beija Flor. Agora, tudo com projeto social. O que aconteceu esse ano? O pessoal das escolas solicitou uma audiência com o Lula via Sérgio Cabral. Disseram que o carnaval do Rio de Janeiro corria um risco de ser pífio. Foi solicitado ao Presidente da República ajuda para que não parasse o Carnaval. Em função da forte presença da Petrobras no Rio de Janeiro – a sede, os investimentos maiores aqui no Rio de Janeiro, e a bacia do pré-sal que já vinha vindo. A diretoria decidiu: “Vale a pena o investimento”. E aí nós fizemos o quê? Um investimento de seis milhões. Mas não foi assim, o Presidente da República mandou. Foi feita uma análise da viabilidade e do interesse da companhia. A diretoria decidiu em função de tudo o que está acontecendo no Rio de Janeiro.

O GLOBO – Mas eles deram a contrapartida?

SANTAROSA – Total.

O GLOBO – Tipo espaço para a Petrobras na passarela do samba…

SANTAROSA – O espaço, a visibilidade, todas as quadras por um período de um ano. Acho que está até hoje em todas as quadras a nossa marca exibida, a obrigatoriedade de todo ensaio técnico. A contrapartida foi cumprida.

O GLOBO – Já que a ideia é atacar todos os mitos, posso atacar mais um?

SANTAROSA – Claro, fique à vontade.

O GLOBO – O senhor tem pretensões políticas?

SANTAROSA – Não.

O GLOBO – Lá em Campinas?

SANTAROSA – Não. Se eu quisesse eu dava uma entrevista por dia para aparecer. Eu nunca quis misturar função com a pessoa física. Eu nunca quis isso. Acho que aqui eu não preciso disso.

O GLOBO – Não tá dentro aí do seu projeto?

SANTAROSA – Não.

O GLOBO – O senhor pretende fazer algum tipo de… Essa sua experiência, de por isso no papel?

SANTAROSA – De registrar? É, pode até ser, porque o projeto de memória da Petrobras fui eu que idealizei, antes de vir para cá. Dois anos e meio, quase três anos antes. Portanto, deve ter sido 2000, por aí… Eu idealizei um projeto de memória porque eu falei: não tem memória, não tem história, nós vamos perder essa história toda…

O GLOBO – Mas o senhor idealizou isso no tempo da Petros, o senhor estava na Petros?

SANTAROSA – Não. Eu era só conselheiro e me reunia uma vez por mês. Eu idealizei lá fora. Eu procurei os sindicatos de São Paulo e mostrei que era possível fazer um projeto para resgatar a memória do movimento sindical dos trabalhadores da Petrobras, até a memória da própria Petrobras. Fiz o projeto, trouxe aqui, pedi patrocínio para a Dulce Ângela, que era a Gerente. Teve uma demora, mas um dia eles me procuraram e disseram: “Olha, interessa à Petrobras patrocinar isso”. E aí surgiu esse projeto. Depois de um tempo…

O GLOBO – Em que ano foi iniciado o projeto?

SANTAROSA – Foi iniciado em 2001.

O GLOBO – Tipo memória oral?

SANTAROSA - Também.

O GLOBO – Ele foi trazido pra…

SANTAROSA – Ele foi trazido pra dentro porque interessa a empresa preservar a memória, a memória tecnológica, dos trabalhadores, da estrutura, de tecnologia, de tudo. Então, tem um baita de um projeto.

O GLOBO – Imagino.

SANTAROSA – Algumas empresas copiaram.

O GLOBO – Isso já produziu algum tipo de material? Livro, vídeo?

SANTAROSA – Tem muito vídeo.

O GLOBO – Chama-se Memória…

SANTAROSA – Memória Petrobras. Linha do tempo, com as unidades. Se você procurar Reduc: quero saber tudo o que aconteceu na Reduc. Mas eu quero saber no ano de 1978. Você vai lá em Reduc, 1978, e cruza a história de todo mundo que fez um depoimento, coisa e tal. É legal, mesmo. Muito bom.

O GLOBO – Mas é tipo um multimídia?

SANTAROSA – É.

O GLOBO – Muito legal.

SANTAROSA – Dá uma olhada que é interessante.

O GLOBO – O senhor é paparicado? Pelo fato de ter controle de publicidade, mídia, patrocínio cultural?

SANTAROSA – Eu não diria paparicado. As pessoas me procuram, mas eu procuro sempre fazer o caminho correto, porta de entrada. Projeto de patrocínio cultural é com a Eliane Costa; projeto social é com Nery. Eu procuro evitar que chegue tudo por meu intermedio. Tem gente que diz assim: “Não, não aceito. Tem que ser com você”. Eu chamo o gerente da área responsável para receber as pessoas.

O GLOBO – O senhor tem a agenda sempre cheia?

SANTAROSA – Muito.

O GLOBO – Chega a que horas aqui?

SANTAROSA – Chego normalmente às 9 horas e vou embora às 21 horas.

O GLOBO – O senhor disse pra mim que não tem nenhuma restrição em ir à CPI.

SANTAROSA – A Petrobras está pronta pra esclarecer tudo.

SANTAROSA – Uma coisa que eu não coloquei foi que nós demos uma organizada, uma alinhada, e os nossos processos e procedimentos de controle melhoraram muito e tem muito a melhorar. Nós instituímos uma sistemática de controle dos nossos projetos, um negócio inédito no mundo empresarial e que a área de estratégia da companhia é que vai controlar.

O GLOBO – O senhor me dá um exemplo prático, pra poder entender?

SANTAROSA – Nós instituímos uma fórmula, que está no nosso sistema SAP, na qual as informações sobre cada projeto serão introduzidas pelo pessoal da comunicação e, a partir daí, a área de Estratégia vai ficar acompanhando. Por exemplo, se o projeto é para alfabetizar X pessoas em 2 anos com idade tal. A Estratégia é que vai checar se aquilo lá atingiu o resultado. Se não atingiu, vem o alerta do desempenho dessa área.

O GLOBO – Mas a estratégia faz auditoria ou ela vai controlar remotamente?

SANTAROSA – Remotamente. Mas quem vai introduzir as informações é o fiscal do contrato, que tem a responsabilidade e não tem como enganar, mesmo que ele queira enganar, porque no início ele pontua as informações e no final ele checa se atingiu aquela meta ou não. Então, vamos trabalhar com meta. Se não atingir a meta, não tem mais patrocínio. Só mais uma coisa que eu também não lhe disse: nós não patrocinamos ONG’s. A Petrobras não patrocina ONG`s, patrocina projetos. E como é que funciona? Tem um projeto, com uma conta especial, que normalmente é de uma ONG, ou não. Os recursos vão para essa conta, sempre por etapas. Se cumpriu a primeira etapa, presta conta e recebe o resto. Se não prestar conta, não recebe. Nós já punimos, já fomos ao Ministério Público, notificamos extra-judicialmente, algumas vão até a inquérito policial.

O GLOBO – Quem hoje gere crises da Petrobras?

SANTAROSA – O coordenador do comitê de crise é o Erasmo Granado. Ele não é gerente, ele coordena o Sistema de Comunicação de Crise, que se instala num momento de crise. O Erasmo é o cara que se dedicou a isso e especializou-se nisso.

O GLOBO – Ele é especialista em quê?

SANTAROSA – Ele faz isso desde a época do Rennó. Era da área de Segurança, Meio Ambiente e Saúde, SMS.

4.7.09

Olha o Santarosa aí, gente!!!

O Globo informa:
Pelo menos 22 ex-sindicalistas ocupam postos estratégicos em gerências da Petrobras, da Transpetro e da Petros, o fundo de pensão da estatal, informam Chico Otavio e Tatiana Farah na edição deste domingo em O GLOBO. Desses, 14 são ligados ao PT - como ex-candidatos, ex-parlamentares, colaboradores de governo, doadores de campanha - e um ao PCdoB. Três processaram a Petrobras e a Agência Nacional do Petróleo (ANP), e um acompanhou o MST na invasão à sede da ANP. Hoje comandam a distribuição de verbas da estatal, girando uma máquina que financia projetos em 938 prefeituras.

'Passei para o lado de cá, da gestão empresarial'

As gerências de Comunicação da Petrobras estão entregues a ex-sindicalistas, a maioria ligada à CUT e ao PT, porque eles conhecem bem os setores de produção e têm facilidade com projetos sociais. A explicação foi dada pelo gerente executivo de Comunicação Institucional da Petrobras, Wilson Santarosa, ele próprio um ex-sindicalista, em entrevista ao GLOBO.

Santarosa se considera um especialista em previdência social. Eleito, em 1995, conselheiro do fundo de pensão da Petrobras (Petros), disse que levantou detalhes de todos os problemas dos planos de aposentadoria da estatal, razão pela qual foi convidado pelo então presidente da estatal, José Eduardo Dutra, para assumir a presidência do Conselho em 2003.

- Passei para o lado de cá, da gestão empresarial. Em vez de guerra judicial, buscamos a via da negociação com os participantes. Foram seis anos até chegarmos a um acordo. Houve a repactuação, e a Petrobras se comprometeu a depositar R$ 5,7 bilhões no fundo - disse.

Até parece uma cadeira elétrica - Veja

Diminuído como presidente do Senado e quase ferido de morte política, José Sarney recorre à ajuda do presidente Lula e do PT para tentar escapar do mesmo destino de seus antecessores


Otávio Cabral


Os excelentíssimos senhores abaixo - e outros que podem ser vistos nas páginas seguintes - não se deram conta de que o Brasil está mudando e a sociedade elevou o grau de intolerância com os políticos descompromissados com o interesse público. Prova disso é que nos últimos anos três ex-presidentes do Congresso perderam o cargo por envolvimento em casos de corrupção, fraudes e irregularidades variadas. O senador Antonio Carlos Magalhães, que já morreu, usou sua autoridade para permitir, entre outras coisas, a violação do sigilo do painel de votações. O senador Jader Barbalho se aproveitava das prerrogativas de presidente para obter vantagens financeiras, por meio das quais conseguiu acumular uma vistosa fortuna. O senador Renan Calheiros, o último a deixar pela porta dos fundos a presidência, mantinha uma rede de amigos empreiteiros para todo tipo de obra, inclusive bancar suas despesas pessoais. Há cinco meses, o senador José Sarney, o atual presidente, vaga por um labirinto de acusações que a cada dia apequenam sua biografia. Acuado, ele chegou a pensar na semana passada em comunicar a renúncia - hipótese que ainda não está descartada. Seria o quarto presidente a deixar o cargo em oito anos.

Existe um problema envolvendo aquela imponente cadeira azul de couro, desenhada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e um dos símbolos maiores do poder da democracia - e não é ergonômico. José Sarney e os nela fritados Renan Calheiros, Jader Barbalho e ACM têm uma característica essencial em comum. Todos são oriundos de poderosas oligarquias políticas do Norte e Nordeste, acostumadas a apoiar o governo de plantão, seja ele qual for. Essa simbiose alimenta a liderança política regional e, em contrapartida, garante estabilidade ao governo no Congresso. Sarney, Renan, Jader e ACM apoiaram todos os governos desde a redemocratização, em 1985. A única exceção, mesmo assim temporária, foi o senador ACM, que tentou aproximar-se de Lula, mas foi rejeitado por divergências históricas com o PT - quando o PT, é claro, ainda tinha divergências históricas. O problema é que tal sociedade de interesses políticos é mantida à custa da indicação de milhares de pessoas para ocupar cargos na administração federal e da distribuição nem sempre republicana de bilhões de reais em verbas do Orçamento da União. Traduzindo: usa-se dinheiro público, o nosso dinheiro, literalmente como moeda de estabilidade. É nesse ambiente que florescem o clientelismo, o fisiologismo, o nepotismo e a corrupção - as antigas más práticas que estão na raiz da recente crise do Congresso.

Nasser Nasser/AP
ELE MANDA E O PT OBEDECE
Da Líbia, onde fez rapapés ao ditador Kadafi, Lula enquadrou o PT - e Mercadante, como sempre, cedeu a sua combatividade


O presidente Sarney tenta convencer seus colegas de que a avalanche de denúncias de irregularidades é um problema institucional que passa ao largo de sua responsabilidade. Não é. Nas últimas duas décadas, Sarney presidiu o Congresso três vezes e participou decisivamente da eleição de seus sucessores - todos, à exceção de ACM, ex-ministro das Comunicações do governo Sarney, peemedebistas próximos a ele. A máquina administrativa do Senado, que tem incríveis 10 000 funcionários e é pontuada de casos escabrosos de irregularidades, também era conduzida por um servidor indicado por Sarney, o ex-diretor-geral Agaciel Maia. Em sua gestão, descobriu-se que um neto do presidente da Casa intermediava empréstimos consignados no Senado, que outro neto era funcionário-fantasma, que um parente morava na Espanha e recebia salário do Senado, que o mordomo da casa da filha recebia 12 000 reais como funcionário do Senado, que outros sete parentes do senador também faziam parte da folha de pagamento da Casa. O próprio Sarney recebeu durante quatro meses auxílio-moradia de 3 800 reais, embora tivesse residência própria em Brasília. Residência que, aliás, não constava na declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral do Amapá, como revelou o jornal O Estado de S. Paulo na última sexta-feira. Sarney também emprestou de maneira irregular um apartamento funcional para um ex-senador e outro para a viúva de um de seus motoristas.

São pecados relativamente pequenos diante dos imensos absurdos cometidos em Brasília, mas suficientes para fragilizar a liderança política do senador. Na semana passada, três partidos pediram o afastamento de Sarney da presidência, entre eles o DEM, um velho parceiro do consórcio. Envolto numa incomum aura de moralidade, até o PT se mostrou indignado. Acuado, Sarney comentou que renunciaria e, diante da falta de solidariedade dos petistas, fez chegar ao governo quais seriam as prováveis consequências de sua saída do cargo: a imediata instalação da CPI da Petrobras, um fantasma do qual o Planalto quer distância, e o fim do compromisso prévio de o PMDB apoiar a candidatura da ministra Dilma Rousseff à Presidência em 2010, o que poderia significar um desastre eleitoral para o PT. Além disso, o senador tucano Marconi Perillo, o primeiro vice-presidente, assumiria interinamente o cargo. Como o oposicionista teria trinta dias para promover novas eleições, ele, nesse período, poderia provocar uma guerrilha no Senado, deixando o governo ainda mais refém da turma que gosta de cargos e verbas. No momento, por incrível que pareça, o PMDB, o maior partido do Congresso, não tem um candidato natural à presidência da Casa. Lula e o governo querem estender a ajuda a Sarney até encontrar um nome confiável para substituí-lo. A maioria dos outros dezoito senadores do partido não tem condições éticas ou políticas de ocupar o cargo. Os poucos sem problemas éticos são vetados pela cúpula justamente por isso, como Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon (veja quadro).

A estratégia da ameaça de Sarney produziu efeitos imediatos. Da Líbia, onde estava em visita oficial, o presidente Lula ligou para seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, e mandou que acalmasse pessoalmente o senador. Depois, telefonou para Dilma e para o presidente do PT, Ricardo Berzoini. Pediu à ministra que fosse até Sarney e o convencesse a não tomar nenhuma atitude antes de sua volta do exterior. A Berzoini, ele ordenou que enquadrasse a bancada do PT no apoio ao presidente do Senado. Dilma telefonou a Sarney logo em seguida e marcou um encontro pessoal, que aconteceu na casa dele no início da tarde de quarta-feira. Ela lhe garantiu que o presidente e o governo estavam a seu lado e que uma eventual renúncia serviria apenas à oposição. Dilma ainda deu a garantia de que o PT deixaria de fazer carga pelo seu afastamento da presidência. Saiu de lá com o compromisso de Sarney de que não daria nenhum passo político antes de conversar com Lula.

Em mais uma impressionante demonstração de que controla o partido com mão de ferro, o presidente da República desautorizou o senador Aloizio Mercadante, líder do PT que adotara um discurso anti-Sarney. Passou a coordenação dos movimentos petistas no Senado a Ideli Salvatti, a cumpridora de missões do Planalto. A falta de conexão do governo e do PT com a sociedade quando o assunto é ética ficaria mais evidente após a chegada de Lula ao Brasil. Ele, que já dissera que Sarney não era uma pessoa comum e, por isso, merecia ser tratado de uma maneira diferenciada, ligou para o senador e afirmou que não lhe faltaria apoio político para ficar no cargo. Quanto à bancada petista que queria o afastamento imediato do presidente do Senado... Na noite de quarta-feira, dez senadores do partido foram à casa de Sarney lhe prestar solidariedade. Só dois senadores não compareceram: Marina Silva e Tião Viana (veja entrevista com ele abaixo). Na quinta-feira, em um discurso de mais de duas horas, Mercadante mostrou a face do novo PT, de joelhos para Lula e de costas para a sociedade. "Minha combatividade está a serviço do governo Lula", disse ele, para justificar sua súbita mudança de posição. O estilo de Mercadante, reconheça-se, é inconfundível. Mesmo que venha a se afastar da presidência do Senado nas próximas horas, o que permanece bastante provável, Sarney poderá mostrar gratidão aos petistas e continuar trabalhando pela aliança com vistas à sucessão presidencial. É isso que interessa a Lula.

Na semana passada, Sarney entrou e saiu da Casa fugindo da imprensa e comandou apenas uma sessão de homenagem. Ao todo, passou pouco mais de duas horas sentado na cadeira azul. Se continuar na cadeira azul, deverá anunciar uma faxina no Senado. Nos próximos dias, a Fundação Getulio Vargas (FGV), contratada para elaborar uma reforma administrativa, sugerirá o corte de 40% dos 6.000 servidores que ocupam cargos de confiança ou foram contratados por meio de empresas que prestam serviços ao Senado - os "terceirizados". No total, a Casa tem hoje 10 000 servidores, dos quais 4 000 são estáveis. Com a ceifa proposta pela FGV, restariam, portanto, 7 600 funcionários. Seria uma limpeza e tanto na folha de pagamentos senatorial e um baita detergente na própria biografia de Sarney. De um ponto de vista otimista, poderia representar também um ponto de inflexão na absurda escalada do custo do setor público como um todo. E, quem sabe, uma diminuição do poder das oligarquias.

Entrevista: Senador Tião Viana

"Lula nada fez para evitar a desconstrução
e a perda moral do Congresso"

Cristiano Mariz
MAU PARTIDO
Tião Viana: "O PMDB é a essência do fisiologismo. Tem bons quadros, mas vive de troca de favores"


Nesta entrevista à repórter Sandra Brasil, o senador petista Tião Viana (AC) diz que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem responsabilidade pela crise moral que assola o Senado e que seu governo controla a Câmara dos Deputados na base do fisiologismo. Aos 48 anos, Viana tem autoridade para falar sobre o assunto. Já foi líder do PT e do governo Lula no Senado. Em fevereiro, disputou a presidência da Casa. Perdeu para José Sarney (PMDB-AP), que tomou o apoio que o Palácio do Planalto lhe havia prometido. Agora afirma que não aceitaria mais o cargo.

Como o Senado chegou a um nível tão baixo?
Até 2002, ainda havia no Senado um debate conceitual, ideológico. No início do governo Lula, ainda votamos a Reforma da Previdência. Mas logo o mensalão substituiu esses projetos na agenda da Casa. Daí em diante, nada mais andou, e perdemos a conexão com os interesses do cidadão.

O Senado ainda faz algo relevante?
A Casa está em chamas. Perde 80% do tempo em debates vazios e gasta os 20% restantes numa disputa entre governo e oposição que não leva a lugar nenhum. No Senado, o governo tem uma maioria apertada e vive no fio da navalha. Negocia voto a voto. Na Câmara dos Deputados, é mais fácil porque lá o fisiologismo impera.

Poderia explicar melhor?
É da cultura política brasileira. O governo controla a Câmara atendendo aos pedidos dos deputados com emendas parlamentares e com nomeações para cargos no Executivo.

A forma como o presidente Lula negocia com o Senado é adequada?
Lula é o melhor presidente que o Brasil já elegeu. Os resultados econômicos e sociais do seu governo nos orgulham. No entanto, ele deixa uma grande frustração no que se pensava ser uma de suas maiores habilidades: a política partidária. Lula nada fez para evitar a desconstrução e a perda de autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes de sua posse. E é papel do chefe de estado fazer com que as instituições como o Parlamento sejam vigorosas.

O que explica a omissão dele?
Dá para entender as razões do presidente Lula. Ele sofreu muito com as ofensas pessoais durante o mensalão. Depois disso, com 82% de aprovação popular, adotou o pragmatismo para manter a maioria no Parlamento e resolveu que não precisava do Congresso. Tanto que José Dirceu foi o último ministro (da Casa Civil até 2005) que dialogou com o Senado.

O presidente Lula defende um tratamento privilegiado ao senador Sarney. E o senhor?
Sarney deve ser tratado como uma pessoa comum. Acontece que o presidente Lula é muito generoso com quem está em dificuldade. Marcou a vida dele o fato de Sarney tê-lo defendido na eleição de 2002, quando enfrentou o (governador paulista) José Serra, e de ter sido solidário no episódio do mensalão. Por isso, Lula foi até onde pôde com a minha candidatura à presidência do Senado. Depois, olhou com pragmatismo para as eleições de 2010, que são fundamentais para o seu projeto de nação.

O presidente Lula o traiu na eleição do Senado?
Ele levou em conta que o PMDB é essencial para 2010. Decidiu respeitar as forças que impuseram a candidatura Sarney, porque privilegiou a candidatura Dilma Rousseff e a necessidade de coalizão. Não guardo mágoas, mas é uma tragédia um partido dirigir as duas casas do Congresso. Ainda mais quando esse partido é o PMDB.

Por quê?
O PMDB é a essência do fisiologismo. Tem bons quadros, mas vive de troca de favores. Ignora concepção programática, visão doutrinária, tudo para acomodar os interesses dos seus parlamentares, que só querem assegurar suas reeleições.

O senhor ainda quer ser presidente do Senado?
Se me oferecessem o cargo hoje, a cadeira ficaria vazia. Eu não romperia com meus ideais por um ato de vaidade. Nós, idealistas, achamos que o Legislativo não sobreviverá se continuar funcionando apenas na base do beija-mão do governo. O Senado deveria cuidar da regulação e da proteção do estado sem ultrapassar o limite de revisor das leis. Não dá para presidir a Casa hoje sem forças para fazer o resgate desse papel. Aliás, Sarney deveria tomar consciência de que, sozinho, ele é insuficiente para mudar o Senado. Por uma razão: foi eleito com o apoio daquela casta de servidores para manter a estrutura atual. Ele deveria radicalizar na transparência e adotar medidas moralizadoras.

O senhor fala em idealismo, mas confundiu o bem público com o privado ao emprestar um celular do Senado para sua filha usar em uma viagem de férias ao México.
Eu errei. Foi um ato irrefletido de um pai superprotetor. A minha filha ia para um lugar estranho e, para encontrá-la a qualquer momento, entreguei o celular. Mas, um mês e meio antes da chegada da conta, que é trimestral, acessaram minha fatura e me denunciaram. Isso me causou uma dor profunda, comprometeu toda uma vida baseada na humildade e na coerência. Paguei a conta antes que o Senado gastasse um centavo.

De onde o senhor tirou dinheiro para pagar a conta de 14 000 reais se recebe um salário líquido de 12 000 reais?
Fiz um empréstimo bancário para pagar em 72 vezes. A minha filha levou o celular só para receber ligações minhas ou da sua mãe. Tomei um susto com a conta, que chegou a essa soma por uma fatalidade. A mãe do namorado dela teve ruptura de um aneurisma cerebral no dia seguinte à viagem e passou dez dias em coma. Ela se descontrolou com as ligações.

O senhor lhe deu uma bronca?
Não, fiquei com pena. Ela sofreu tanto pelo namorado e, depois, por mim. Mas quem não erra na vida na condição de pai? Esse caso me fez refletir sobre o tênue limite entre o público e o privado. Tenho uma cota mensal de 250 reais para telefone fixo em casa, mas não posso proibir que um filho faça um interurbano para o avô no Acre. É difícil separar o público do privado nessas pequenas coisas.

O Cordeiro do presidente!!!

por Diogo Mainardi

O Cordeiro do presidente

"O blogueiro de Lula considera que a ‘grande mídia’ – da qual ele e Franklin Martins foram demitidos – ‘é apenas uma ferramenta para perpetuar o status quo de uma elite, veículo de pré-conceitos, defesa de interesses escusos e muito, mas muito cinismo mesmo’"

Jorge Cordeiro? Isso mesmo: Jorge Cordeiro. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe o que ele faz. Mas Franklin Martins acabou de contratá-lo para comandar o blog do Lula. O blog do Planalto.

Lula declarou recentemente que, com a internet, a imprensa perdeu "o poder que tinha alguns anos atrás". E, de acordo com ele, quanto menos poder a imprensa tiver, melhor. Porque isso impede que os jornais tentem "dar um golpe de estado", manipulando os fatos. Lula, a Arianna Huffington de Caetés, acredita que só agora, com o Blogger, o Facebook e o Twitter, "este país está tendo o gosto da liberdade de informação". Segundo ele, "estamos vivendo um momento revolucionário da humanidade".

Jorge Cordeiro, o blogueiro de Lula, tem o perfil do revolucionário da internet. Depois de trabalhar por seis anos como assessor de imprensa da Odebrecht, no período em que a empreiteira se enroscou com Fernando Collor de Mello, ele se distinguiu por sua passagem em jornais como O Fluminense. Quando Marta Suplicy foi eleita, ele ganhou um cargo na área de internet da prefeitura paulistana. Em 2005, arrumou um emprego no Globo Online, sendo demitido menos de um ano depois. Ultimamente, até ser contratado por Franklin Martins, ele mantinha um blog que era lido e comentado sobretudo por ele mesmo. A internet tem esse aspecto revolucionário: o autor de um blog pode ser também o seu único leitor.

Assim como Lula, Jorge Cordeiro dispara contra a imprensa. Seu blog solitário é sua Sierra Maestra. Ele considera que a "grande mídia" – da qual ele e Franklin Martins foram demitidos – "é apenas uma ferramenta para perpetuar o status quo de uma elite, veículo de pré-conceitos, defesa de interesses escusos e muito, mas muito cinismo mesmo". VEJA, Folha, Estado, Globo: o blogueiro de Lula condena todo o "(tu)baronato" da imprensa, acusando-o de irresponsabilidade, de tendenciosidade, de forjar a roubalheira dos mensaleiros e de montar uma farsa golpista no episódio dos aloprados, a fim de evitar o triunfo histórico de "Lulaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!".

O blogueiro de Lula, como o próprio Lula, argumenta que há mais liberdade e mais pluralidade nos blogs do que na imprensa. Os elogios aos blogs cessam no momento em que eles abusam dessa liberdade e dessa pluralidade para – epa! – falar mal de Lula. Ricardo Noblat se torna automaticamente "dissimulado, prepotente, mentiroso". E Reinaldo Azevedo é ironizado por seus tumores, que o blogueiro de Lula apelida de "bolotinhas".

Eu? Eu sou um "dândi". Tenho de levar "uma bela cusparada" e, como Paulo Francis, "sucumbir a inúmeros processos". Na semana passada, renunciei espontaneamente ao meu trabalho na internet. O blogueiro de Lula comemorou minha despedida com o seguinte comentário: "U-huuuuu!!". Agora que Lula tem um blog, e que pretende trocar a imprensa por spams, sou eu que comemoro minha saída da internet: "U-huuuuu!!".

3.7.09

Nota do Sarney!!!

Esclarecimentos:

"A casa foi comprada em leilão público, realizado em 19 de agosto de 1997, em São Paulo, pelo leiloeiro Ronaldo Milan, conforme anúncio publicado nos jornais em 13 de agosto do mesmo ano. A quitação foi feita em 10 parcelas.

Durante esse período, o imóvel permaneceu em domínio de seu antigo proprietário, motivo pelo qual não foi incluído na declaração de Imposto de Renda de 1998 do senador e, por consequência, não foi informado à Justiça Eleitoral naquele ano.

A partir de 1999, a casa passou a constar na declaração à Receita Federal. O registro do contrato de compra e venda foi lavrado em cartório em 2 de setembro de 1997. Somente a formalização em escritura se realizou em 2007.

Além da Receita Federal, a propriedade consta das declarações entregues pelo senador anualmente ao Tribunal de Contas da União e ao Senado Federal desde 1999.

Por equívoco do contador, em 2006, foi apresentada à Justiça Eleitoral a mesma lista de bens de 1998.

Todos esses esclarecimentos estavam prometidos ao O Estado de S. Paulo para hoje, por envolver pesquisa em documentos de arquivo, mas o jornal preferiu não esperar, embora o assunto seja atemporal".

2.7.09

Confira a íntegra do artigo de Fidel Castro sobre Honduras

Um erro suicida

Na reflexão escrita na noite da quinta-feira, 25, há três dias, eu disse: "Ignoramos o que acontecerá esta noite ou amanhã em Honduras, mas o comportamento valoroso de Zelaya passará à história."

Dois parágrafos antes, tinha assinalado: "Aquilo que lá aconteça será uma prova para A OEA e para a atual administração dos Estados Unidos."

A pré-histórica instituição interamericana se reuniu no dia seguinte, em Washington, e, em uma apagada e fraca resolução, prometeu realizar as gestões pertinentes imediatamente para procurar uma harmonia entre as partes em conflito. Quer dizer, uma negociação entre o golpistas e o presidente constitucional de Honduras.

O alto chefe militar, que continuava a comandar as Forças Armadas hondurenhas, fazia pronunciamentos públicos em discrepância com as posições do presidente, enquanto só de um modo meramente formal reconhecia a sua autoridade.

Não precisavam os golpistas de outra coisa da OEA. Não lhes importou nada a presença de um grande número de observadores internacionais que viajaram a esse país para dar fé de uma consulta popular, aos quais Zelaya falou até altas horas da noite.

Antes do amanhecer de hoje, eles lançaram cerca de 200 soldados profissionais bem treinados e armados contra a residência do presidente, que, separando brutalmente a esquadra de Guarda de Honra, seqüestraram Zelaya, que dormia. Ele foi conduzido à base aérea, colocado à força em um avião e transportado a um aeroporto na Costa Rica.

Às 8h30 da manhã, conhecemos pela Telesur a notícia do assalto à casa presidencial e o seqüestro. O presidente não pôde assistir ao ato inicial da consulta popular, que aconteceria este domingo. Era desconhecido o que tinham feito com ele.

A emissora da televisão oficial foi silenciada. Desejavam impedir a divulgação prematura da traiçoeira ação através de Telesur e Cubavisión Internacional, que informavam dos fatos. Suspenderam por isso os centros de retransmissão e acabaram cortando a eletricidade em todo o país. Ainda o Congresso e os altos tribunais envolvidos na conspiração não tinham publicado as decisões que justificavam o conluio. Primeiro levaram a cabo o inqualificável golpe militar e depois o legalizaram.

O povo acordou com os fatos consumados e começou a reagir com grande indignação.

Não se conhecia o destino de Zelaya. Três horas depois, a reação popular era tal, que foram vistas mulheres batendo com o punho nos soldados, cujos fuzis quase caiam das suas mãos por puro desconcerto e nervosismo.

Inicialmente, os seus movimentos pareciam os de um estranho combate contra fantasmas, depois tentavam cobrir com as mãos as câmaras de Telesur, apontavam tremendo os fuzis contra os repórteres, e, às vezes, quando as pessoas avançavam, os soldados recuavam. Enviaram transportadores blindados com canhões e metralhadoras. A população discutia sem medo com os soldados nos blindados; a reação popular era surpreendente.

Ao redor das 2h da tarde, em coordenação com os golpistas, uma maioria domesticada do Congresso depôs Zelaya, presidente constitucional de Honduras, e designou um novo Chefe de Estado, afirmando ao mundo que aquele tinha renunciado, apresentando uma falsificada assinatura. Minutos depois, Zelaya, de um aeroporto na Costa Rica, informou todo o acontecido e desmentiu categoricamente a notícia da sua renúncia. Os conspiradores fizeram o ridículo perante o mundo.

Muitas coisas aconteceram hoje. Cubavisión dedicou-se completamente a desmascarar o golpe, informando o tempo todo a nossa população.
Aconteceram fatos de caráter totalmente fascista, que não por esperados deixam de surpreender.

Patrícia Rodas, a ministra de Relações Exteriores de Honduras, foi depois de Zelaya o objetivo fundamental dos golpistas. Outro destacamento foi enviado a sua residência. Ela, valente e decidida, se moveu rápido, não perdeu um minuto em denunciar por todos os meios o golpe.

O nosso embaixador tinha estabelecido contato com Patrícia para conhecer a situação, como o fizeram outros embaixadores. Num momento determinado, pediu aos representantes diplomáticos da Venezuela, da Nicarágua e Cuba que se reunissem com ela, que, ferozmente acossada, precisava de proteção diplomática. O nosso embaixador, que desde o primeiro instante estava autorizado a oferecer o máximo apoio à ministra constitucional e legal, partiu para visitá-la na sua própria residência.

Quando estavam já na sua casa, o comando golpista enviou o Major Oceguera para prendê-la. Eles se colocaram diante da mulher e lhe disseram que estava sob a proteção diplomática, e que só poderia mover-se em companhia dos embaixadores. Oceguera discutiu com eles e o fez de maneira respeitosa.

Minutos depois, entraram na casa entre 12 e 15 homens uniformizados e encapuzados. Os três embaixadores se abraçaram a Patrícia; os mascarados atuaram de forma brutal e conseguiram separar os embaixadores da Venezuela e Nicarágua; Hernández a pegou tão fortemente por um dos braços, que os mascarados arrastaram ambos até um furgão ; levaram-nos à base aérea onde conseguiram separá-los, e levam-na com eles.

Estando ali detido, Bruno, que tinha notícias do sequestro, se comunicou com ela através do celular; um mascarado tentou de arrebatar-lhe rudemente o telefone; o embaixador cubano que já tinha sido golpeado na casa de Patrícia, grita-lhe: "Não me empurre, porra!" Não me lembro se a palavra que pronunciou foi alguma vez usada por Cervantes, mas sem dúvida o embaixador Juan Carlos Hernández enriqueceu a nossa língua.

Depois o deixaram em uma rodovia longe da missão e antes de abandoná-lo lhe disseram que, se falasse, poderia acontecer-lhe alguma coisa pior. "Nada é pior do que a morte! ", respondeu-lhes com dignidade, "e não sinto medo de vocês por isso”. Os vizinhos da área o ajudaram a voltar à embaixada, de onde imediatamente comunicou-se mais uma vez com Bruno.

Com esse alto comando golpista não se pode negociar, é necessário exigir a sua renúncia e que outros oficiais mais jovens e não comprometidos com a oligarquia ocupem o comando militar, ou não haverá jamais um governo "do povo, pelo povo e para o povo" em Honduras.

Os golpistas, encurralados e isolados, não têm salvação possível se o problema for encarado com firmeza.

Até a Senhora Clinton declarou que Zelaya é o único Presidente de Honduras, e os golpistas hondurenhos nem sequer respiram sem o apoio dos Estados Unidos.

De pijamas até há algumas horas, Zelaya será reconhecido pelo mundo como o único presidente constitucional de Honduras".

Fidel Castro Ruz
28 de junho de 2009