À moda de Delúbio, Palocci vai sendo posto sozinho na berlinda como réu
Dentro do jogo de simulações e impressões em que o governo Luiz Inácio da Silva vem se especializando desde sua estréia como protagonista de escândalos de corrupção, o ex-ministro Antonio Palocci agora é sério candidato à condição de autor quase solitário de uma operação criminosa executada coletivamente.
Palocci vai, assim, sucedendo Delúbio Soares no posto de o réu ideal frente à premência das circunstâncias.
Em poucos dias, a situação dele se inverteu: de inocente absoluto, protegido por todos os meios e modos, tornou-se a origem, o meio e o fim do episódio da quebra de sigilo bancário de Francenildo Costa.
Há uma semana ainda se buscava na burocracia alguém que pudesse assumir a responsabilidade no lugar de Palocci, a fim de preservar no cargo o ministro da Fazenda.
Demitido, às voltas com a polícia e a Justiça, Antonio Palocci vê acumularem-se sobre suas costas todas as culpas, enquanto outras vão sendo aliviadas do fardo da parceria muito claramente exposta nas últimas duas semanas.
Todos os personagens envolvidos na tentativa de anarquizar com uma testemunha e anular o efeito de uma acusação grave contra o ministro da Fazenda agora surgem em cena como paladinos da honorabilidade pública.
Isso a despeito de, desde o início do caso, terem se empenhado com afinco na consecução de um plano que, se foi arquitetado a partir do gabinete do ministro da Fazenda, teve, no mínimo, a colaboração e a conivência de outras autoridades de primeiro escalão.
A intenção é evidente: circunscrever o desastre a Palocci, deixar que o episódio se esvazie a partir daí, dar por resolvida a questão e evitar que as conseqüências atinjam outros setores do governo e até o presidente Lula.
Junto com a confirmação de que Palocci mandou o presidente da Caixa Econômica Federal quebrar o sigilo da conta do caseiro, divulga-se que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e dois assessores teriam resistido a participar da ilegalidade e até orientado a Polícia Federal a investigar o ministro.
Se ocorreu assim, tiveram comportamento digno, resistiram calados. Embora em silêncio parcial.
A reprovação do ministro da Justiça e as ações da polícia no sentido de preservar os instrumentos de Estado do abuso pretendido (e levado a termo) pelo colega da Fazenda foram mantidos em sigilo, mas a existência de uma investigação da PF tendo o caseiro como alvo foi amplamente divulgada.
Só se soube das "atitudes republicanas" depois de o presidente da Caixa, Jorge Mattoso, ser obrigado a confessar que entregara o extrato do caseiro diretamente a Palocci.
Do dia 16 de março até o início de abril nem o ministro da Justiça nem seus assessores disseram coisa alguma que pudesse incriminar ou levantar suspeitas sobre Palocci. Muito antes pelo contrário.
Thomaz Bastos, a despeito do conhecimento e acompanhamento estreito dos fatos, deixou para se pronunciar sobre a ilegalidade da quebra de sigilo 48 horas depois de as contas de Francenildo terem se tornado públicas e repercutido muito mal para o governo.
Dias antes havia rejeitado com veemência a possibilidade de a PF investigar a denúncia do caseiro.
O presidente da Caixa - que nas versões mais recentes é descrito como funcionário quase exemplar pois teria se negado a ampliar quebra do sigilo aos últimos meses de 2005 - pediu 15 dias para a CEF apurar as ocorrências em sindicância interna. Isto, tendo sido ele o mensageiro do extrato a Palocci.
Quanto ao presidente da República, cabe o benefício da dúvida: pode ser que desconhecesse os estratagemas de defesa. Mas, para que seja verídica a possibilidade é preciso também que seus dois ministros, da Fazenda e da Justiça, escondessem dele os assuntos discutidos naqueles dias.
Palocci e Thomaz Bastos, a ser verossímil a versão corrente, esconderam de Lula que discordavam sobre o método de ação para defender o titular da pasta da Fazenda e, quando falavam com o presidente, mantinham-no desinformado.
E ele, o presidente, dava-se não só por satisfeito, estava convencido da inocência de Palocci a quem conhece há anos e sequer desconfiava de movimentos erráticos ocorridos muito perto dele.
Lula defendeu o ministro da Fazenda, mostrou-se despreocupado quanto às acusações e nem uma só palavra de reparo impôs ao fato de um cidadão ter seu sigilo violado dentro da Caixa Econômica Federal.
Durante muitos dias, Palocci despachou no Palácio do Planalto. Ficou ali lado a lado com o presidente da República, enquanto era alvo de suspeita por parte do ministro da Justiça, cujos assessores haviam sabido da trama da quebra do sigilo, sem que a Lula nenhum fato fosse dado a conhecer e coisa alguma ao presidente ocorresse perguntar.
A demissão de Palocci não resolveu nem esclareceu esse episódio em tudo e por tudo escabroso. Nele, há abundância de meias-verdades e ausência de respeito ao cidadão que é obrigado a votar, mas não tem reconhecido seu direito de saber o que fazem no governo seus governantes.
Dora Kramer
4.4.06
Mais Palocci!
Palocci teria pedido para PF assumir casos de Ribeirão
Além de tentar desqualificar o caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci planejou usar o Ministério da Justiça para transferir os inquéritos abertos em Ribeirão Preto contra ele para a Polícia Federal. A manobra está narrada no depoimento sigiloso prestado anteontem à PF por dois assessores do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. São eles: o chefe de gabinete de Bastos, Cláudio Alencar, e o secretário do Direito Econômico, Daniel Goldberg.
Os dois disseram ter sido chamados por Palocci em 16 de março para fazer duas consultas ao ministério: como fazer a PF investigar suspeitas de que Nildo teria recebido depósitos vultosos da oposição e também assumir as investigações de Ribeirão Preto.
Alencar e Goldberg frisaram que em nenhum momento Palocci avisou que havia sido quebrado ilegalmente o sigilo bancário do caseiro. Apesar de os dois terem deixado dúvidas no depoimento, a Polícia Federal informou que ainda não vê razões para tomar o depoimento do ministro.
No dia da consulta de Palocci, o ministro da Justiça participava, em Rondônia, de uma operação da Polícia Federal para fortalecer o policiamento de fronteira do Brasil com a Bolívia. Alencar e Goldberg disseram que só conseguiram avisar ao chefe sobre a consulta no dia 18, um sábado.
Estadão
Além de tentar desqualificar o caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci planejou usar o Ministério da Justiça para transferir os inquéritos abertos em Ribeirão Preto contra ele para a Polícia Federal. A manobra está narrada no depoimento sigiloso prestado anteontem à PF por dois assessores do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. São eles: o chefe de gabinete de Bastos, Cláudio Alencar, e o secretário do Direito Econômico, Daniel Goldberg.
Os dois disseram ter sido chamados por Palocci em 16 de março para fazer duas consultas ao ministério: como fazer a PF investigar suspeitas de que Nildo teria recebido depósitos vultosos da oposição e também assumir as investigações de Ribeirão Preto.
Alencar e Goldberg frisaram que em nenhum momento Palocci avisou que havia sido quebrado ilegalmente o sigilo bancário do caseiro. Apesar de os dois terem deixado dúvidas no depoimento, a Polícia Federal informou que ainda não vê razões para tomar o depoimento do ministro.
No dia da consulta de Palocci, o ministro da Justiça participava, em Rondônia, de uma operação da Polícia Federal para fortalecer o policiamento de fronteira do Brasil com a Bolívia. Alencar e Goldberg disseram que só conseguiram avisar ao chefe sobre a consulta no dia 18, um sábado.
Estadão
Palocci e Abin
Palocci tentou utilizar Abin em operação contra caseiro
Ex-ministro foi a general pedir que área de inteligência do governo descobrisse quem estava querendo prejudicá-lo
O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci tentou mobilizar todo o aparato do governo com o objetivo de desmoralizar o caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo, que em entrevista ao Estado o desmentira, acusando-o de ter freqüentado mansão alugada em Brasília por lobistas da chamada república de Ribeirão Preto. Nessa ofensiva, da qual tomaram conhecimento os principais auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Palocci queria até mesmo que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) vasculhasse a vida do caseiro.
O primeiro movimento de Palocci para reagir às denúncias do caseiro - publicadas inicialmente no dia 14, uma terça-feira - foi determinar à Caixa Econômica Federal que violasse a conta bancária mantida por Nildo na instituição. Esse fato foi revelado à Polícia Federal pelo ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso, que consumou a violação no dia 16. Em seguida, já de posse dos extratos do caseiro, Palocci orientou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, a sugerir à PF a abertura de uma investigação sobre Nildo.
O objetivo era dar um ar de legalidade aos dados obtidos de forma irregular e o Coaf seguiu a orientação de Palocci, acionando a PF no dia 17. No mesmo dia, os dados bancários de Nildo vieram a público, por meio de uma nota divulgada no site da revista Época.
Na semana seguinte, diante da repercussão negativa da violação da conta do caseiro, o ex-ministro procurou o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Armando Félix, a quem a Abin está subordinada. O GSI é responsável por passar informações ao presidente Lula.
Palocci pediu que a área de inteligência do governo descobrisse quem estava tentando "prejudicá-lo", supostamente incentivando o caseiro a fazer as denúncias. A proposta foi rejeitada, sob o argumento de que os agentes de inteligência investigam questões de interesse do Estado, não de pessoas.
Palocci insistiu que era preciso revirar a vida do caseiro e de outras pessoas que estivessem envolvidas na operação para "desmoralizá-lo". Saiu da conversa com a negativa do general, fato que irritou profundamente o ex-ministro, que chegou a se queixar a interlocutores. De acordo com Palocci, os servidores que se negavam a ajudá-lo não entendiam que na verdade seus inimigos buscavam "sangrar o governo", numa disputa marcada pelo interesse eleitoral.
A Polícia Federal investiga a informação de que Palocci teria recomendado ao secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, que reunisse o Coaf e a Receita Federal numa ofensiva contra o caseiro. Portugal teria se negado a cumprir a determinação e ameaçado pedir demissão no ato. A idéia foi esquecida. A PF também apura se os extratos foram passados à Época pelo assessor de imprensa de Palocci, o jornalista Marcelo Netto.
A avaliação de que se deveria investigar quem estava "orquestrando" iniciativas contra o governo Lula era compartilhada por outros integrantes do Planalto. Palocci transformou num bunker sua sala no terceiro andar do palácio, a poucos passos do gabinete de Lula. O ex-ministro era o único que tinha acesso livre à sala presidencial, sem precisar passar pelos ajudantes-de-ordens e secretárias que costumam dificultar a abordagem.
Passaram-se dez dias entre a divulgação dos dados bancários do caseiro e a demissão de Palocci, anunciada no dia 27. Da segunda-feira, dia 20, até a sexta-feira daquela semana, servidores graduados do Planalto e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, acompanharam de perto a movimentação de Palocci e se convenceram de que sua saída era a única forma de evitar que Lula fosse atingido pela crise provocada pela violação da conta do caseiro.
Houve a tentativa de achar um abnegado que se dispusesse a assumir a responsabilidade pela violação. A idéia era que um funcionário subalterno da Caixa "matasse no peito", ficando com todo o encargo pela quebra ilegal do sigilo bancário e poupando os escalões superiores.
De acordo com a revista Veja, chegou a se discutir, numa reunião realizada na casa do ex-ministro, a hipótese de se oferecer R$ 1 milhão para quem encarasse a tarefa, mas não se encontrou ninguém inclinado a fazer isso. Do encontro na residência de Palocci, teriam participado, segundo a revista, Mattoso e o advogado Arnaldo Malheiros.
As primeiras suspeitas contra o caseiro foram levantadas a partir dos comentários do jardineiro de uma casa vizinha à mansão da república de Ribeirão. Ele sabia que Nildo recebera um bom dinheiro e pretendia comprar um lote. Por meio de jornalistas, a informação chegou a parlamentares petistas, que avisaram o Planalto.
Antes mesmo da divulgação dos dados da conta do caseiro, o senador Tião Viana (PT-AC) e o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, difundiam a expectativa de que o caseiro Nildo seria desqualificado por uma história envolvendo dinheiro. Só não sabiam que o caseiro tinha uma explicação: recebera depósitos de um empresário, que seria seu pai. O empresário confirmou a história.
Estadão
Ex-ministro foi a general pedir que área de inteligência do governo descobrisse quem estava querendo prejudicá-lo
O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci tentou mobilizar todo o aparato do governo com o objetivo de desmoralizar o caseiro Francenildo dos Santos Costa, o Nildo, que em entrevista ao Estado o desmentira, acusando-o de ter freqüentado mansão alugada em Brasília por lobistas da chamada república de Ribeirão Preto. Nessa ofensiva, da qual tomaram conhecimento os principais auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Palocci queria até mesmo que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) vasculhasse a vida do caseiro.
O primeiro movimento de Palocci para reagir às denúncias do caseiro - publicadas inicialmente no dia 14, uma terça-feira - foi determinar à Caixa Econômica Federal que violasse a conta bancária mantida por Nildo na instituição. Esse fato foi revelado à Polícia Federal pelo ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso, que consumou a violação no dia 16. Em seguida, já de posse dos extratos do caseiro, Palocci orientou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda, a sugerir à PF a abertura de uma investigação sobre Nildo.
O objetivo era dar um ar de legalidade aos dados obtidos de forma irregular e o Coaf seguiu a orientação de Palocci, acionando a PF no dia 17. No mesmo dia, os dados bancários de Nildo vieram a público, por meio de uma nota divulgada no site da revista Época.
Na semana seguinte, diante da repercussão negativa da violação da conta do caseiro, o ex-ministro procurou o chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Armando Félix, a quem a Abin está subordinada. O GSI é responsável por passar informações ao presidente Lula.
Palocci pediu que a área de inteligência do governo descobrisse quem estava tentando "prejudicá-lo", supostamente incentivando o caseiro a fazer as denúncias. A proposta foi rejeitada, sob o argumento de que os agentes de inteligência investigam questões de interesse do Estado, não de pessoas.
Palocci insistiu que era preciso revirar a vida do caseiro e de outras pessoas que estivessem envolvidas na operação para "desmoralizá-lo". Saiu da conversa com a negativa do general, fato que irritou profundamente o ex-ministro, que chegou a se queixar a interlocutores. De acordo com Palocci, os servidores que se negavam a ajudá-lo não entendiam que na verdade seus inimigos buscavam "sangrar o governo", numa disputa marcada pelo interesse eleitoral.
A Polícia Federal investiga a informação de que Palocci teria recomendado ao secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, que reunisse o Coaf e a Receita Federal numa ofensiva contra o caseiro. Portugal teria se negado a cumprir a determinação e ameaçado pedir demissão no ato. A idéia foi esquecida. A PF também apura se os extratos foram passados à Época pelo assessor de imprensa de Palocci, o jornalista Marcelo Netto.
A avaliação de que se deveria investigar quem estava "orquestrando" iniciativas contra o governo Lula era compartilhada por outros integrantes do Planalto. Palocci transformou num bunker sua sala no terceiro andar do palácio, a poucos passos do gabinete de Lula. O ex-ministro era o único que tinha acesso livre à sala presidencial, sem precisar passar pelos ajudantes-de-ordens e secretárias que costumam dificultar a abordagem.
Passaram-se dez dias entre a divulgação dos dados bancários do caseiro e a demissão de Palocci, anunciada no dia 27. Da segunda-feira, dia 20, até a sexta-feira daquela semana, servidores graduados do Planalto e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, acompanharam de perto a movimentação de Palocci e se convenceram de que sua saída era a única forma de evitar que Lula fosse atingido pela crise provocada pela violação da conta do caseiro.
Houve a tentativa de achar um abnegado que se dispusesse a assumir a responsabilidade pela violação. A idéia era que um funcionário subalterno da Caixa "matasse no peito", ficando com todo o encargo pela quebra ilegal do sigilo bancário e poupando os escalões superiores.
De acordo com a revista Veja, chegou a se discutir, numa reunião realizada na casa do ex-ministro, a hipótese de se oferecer R$ 1 milhão para quem encarasse a tarefa, mas não se encontrou ninguém inclinado a fazer isso. Do encontro na residência de Palocci, teriam participado, segundo a revista, Mattoso e o advogado Arnaldo Malheiros.
As primeiras suspeitas contra o caseiro foram levantadas a partir dos comentários do jardineiro de uma casa vizinha à mansão da república de Ribeirão. Ele sabia que Nildo recebera um bom dinheiro e pretendia comprar um lote. Por meio de jornalistas, a informação chegou a parlamentares petistas, que avisaram o Planalto.
Antes mesmo da divulgação dos dados da conta do caseiro, o senador Tião Viana (PT-AC) e o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, difundiam a expectativa de que o caseiro Nildo seria desqualificado por uma história envolvendo dinheiro. Só não sabiam que o caseiro tinha uma explicação: recebera depósitos de um empresário, que seria seu pai. O empresário confirmou a história.
Estadão
3.4.06
Coaf censura movimentação Okamoto
Okamotto: governo censura movimentação bancária
Mesmo quando a CPI dos Bingos consegue ter acesso às movimentações financeiras do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, as informações são censuradas. O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, sobre as atividades bancárias do amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está parcialmente coberto com várias tarjas negras, supostamente sobre os nomes dos parentes dele.
A CPI dos Bingos aprofunda esta semana a devassa na vida pessoal de Okamotto. Os parlamentares querem descobrir como o Japonês, como é conhecido, se transformou no mecenas da família do presidente Lula.
Na semana passada, a CPI quebrou o sigilo do relatório do Coaf para descobrir todo o conteúdo sob as tarjas negras.
Um deputado, também amigo de Lula, admite situações em que empresários teriam pago ""pequenas despesas"" de cabeças coroadas do PT, incluindo o próprio Lula. Mas o caso de Okamotto é especial. Esteve por mais de duas décadas na área financeira das campanhas de Lula e ganhou a presidência do Sebrae, onde administra R$ 900 milhões por ano.
A primeira contribuição oficial de Okamotto a Lula aconteceu na campanha de 2002 à Presidência, quando doou tímidos R$ 500. Em abril do mesmo ano, ele teria quitado dívida de R$ 26 mil da filha do presidente, Lurian, segundo a revista Veja.
O mecenato de Okamotto ficou mais forte a partir do fim de 2003 e início de 2004. Ele não soube explicar à CPI dos Bingos, em novembro, a razão de ter quitado dívida de R$ 29.400 de Lula. Uma parcela de R$ 13.600 foi destinada ao pagamento de viagem da primeira-dama Marisa Letícia à China.
Okamotto disse que, para pagar as dívidas da família Lula, pegou R$ 12 mil da esposa, Dalva Aparecida Okamotto, uma das sócias da empresa Red Star, que vende broches e canetas do PT. O nome em português é Estrela Vermelha, símbolo do partido. Okamotto saiu da sociedade da Red Star em junho de 2003.
Apesar do dinheiro suficiente para financiar a família de Lula, a empresa de Dalva não conseguiu até a última sexta-feira tirar uma certidão negativa na página da Receita Federal na internet, por supostos problemas com o Fisco.
Também em 2004, Okamotto contribuiu com R$ 24.800 para a campanha do deputado Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-SP), na eleição para a Prefeitura de São Bernardo do Campo. Okamotto foi 14 vezes mais generoso que o próprio Vicentinho, que doou R$ 1.700 para a própria campanha.
Somadas as doações para a família Lula e para Vicentinho, chega-se a um total de R$ 54.200. A CPI pediu a quebra de sigilo de Okamotto, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) negou. No mandado de segurança impetrado no STF foram anexadas petições com informações prestadas pelos bancos Intercap, Indusval, Sofisa, Industria e Comercial, BPN, VR e Banco do Estado de Sergipe. Só a quebra do sigilo pedida pela CPI poderá revelar que informações confidenciais são essas.
A agenda da CPI prevê ainda, para nesta semana, a acareação entre Okamotto e o ex-militante petista Paulo de Tarso Venceslau.
JBonline
Mesmo quando a CPI dos Bingos consegue ter acesso às movimentações financeiras do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, as informações são censuradas. O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, sobre as atividades bancárias do amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está parcialmente coberto com várias tarjas negras, supostamente sobre os nomes dos parentes dele.
A CPI dos Bingos aprofunda esta semana a devassa na vida pessoal de Okamotto. Os parlamentares querem descobrir como o Japonês, como é conhecido, se transformou no mecenas da família do presidente Lula.
Na semana passada, a CPI quebrou o sigilo do relatório do Coaf para descobrir todo o conteúdo sob as tarjas negras.
Um deputado, também amigo de Lula, admite situações em que empresários teriam pago ""pequenas despesas"" de cabeças coroadas do PT, incluindo o próprio Lula. Mas o caso de Okamotto é especial. Esteve por mais de duas décadas na área financeira das campanhas de Lula e ganhou a presidência do Sebrae, onde administra R$ 900 milhões por ano.
A primeira contribuição oficial de Okamotto a Lula aconteceu na campanha de 2002 à Presidência, quando doou tímidos R$ 500. Em abril do mesmo ano, ele teria quitado dívida de R$ 26 mil da filha do presidente, Lurian, segundo a revista Veja.
O mecenato de Okamotto ficou mais forte a partir do fim de 2003 e início de 2004. Ele não soube explicar à CPI dos Bingos, em novembro, a razão de ter quitado dívida de R$ 29.400 de Lula. Uma parcela de R$ 13.600 foi destinada ao pagamento de viagem da primeira-dama Marisa Letícia à China.
Okamotto disse que, para pagar as dívidas da família Lula, pegou R$ 12 mil da esposa, Dalva Aparecida Okamotto, uma das sócias da empresa Red Star, que vende broches e canetas do PT. O nome em português é Estrela Vermelha, símbolo do partido. Okamotto saiu da sociedade da Red Star em junho de 2003.
Apesar do dinheiro suficiente para financiar a família de Lula, a empresa de Dalva não conseguiu até a última sexta-feira tirar uma certidão negativa na página da Receita Federal na internet, por supostos problemas com o Fisco.
Também em 2004, Okamotto contribuiu com R$ 24.800 para a campanha do deputado Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-SP), na eleição para a Prefeitura de São Bernardo do Campo. Okamotto foi 14 vezes mais generoso que o próprio Vicentinho, que doou R$ 1.700 para a própria campanha.
Somadas as doações para a família Lula e para Vicentinho, chega-se a um total de R$ 54.200. A CPI pediu a quebra de sigilo de Okamotto, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) negou. No mandado de segurança impetrado no STF foram anexadas petições com informações prestadas pelos bancos Intercap, Indusval, Sofisa, Industria e Comercial, BPN, VR e Banco do Estado de Sergipe. Só a quebra do sigilo pedida pela CPI poderá revelar que informações confidenciais são essas.
A agenda da CPI prevê ainda, para nesta semana, a acareação entre Okamotto e o ex-militante petista Paulo de Tarso Venceslau.
JBonline
2.4.06
PT cria nova língua!
PT cria nova língua para salvar imagem
Mentira vira 'imprecisão terminológica' e caixa 2, sinônimo de 'recurso não contabilizado'
Vazamento, definem os dicionários Aurélio e Houaiss, é um "ato ou efeito de vazar", escoamento, vazão e vale também para a divulgação indevida de uma notícia. Na semana passada, passou a significar também algo bem mais grave: violação de sigilo. Fez dobradinha com "afastamento voluntário", que substituiu "demissão". Assim os assessores do Ministério da Fazenda puderam informar que "em virtude de um vazamento, ocorreu na segunda-feira o afastamento voluntário do ministro". Escondiam-se, por trás dessa frase vaga, quase inocente, um dos mais graves crimes praticados pelo governo contra um cidadão (a divulgação do extrato bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa) e a demissão do ministro Antonio Palocci, aceita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As duas invenções vieram enriquecer o manual de preservação da pureza ideológica com que o PT procura manter sua imagem, sua inocência, sua militância e seus objetivos. É um rico anedotário de fórmulas vagas, propositadamente fluidas, destinadas a enfeitar, esconder ou negar as feiúras da ação política. Nele o PT não erra nunca e não cabem coisas como roubo, erro, crime, traição, inveja, vingança.
Uma descoberta inesquecível desse manual foram os "recursos não contabilizados", invenção apresentada ao País em 2005 pelo então tesoureiro petista Delúbio Soares. Ele não podia dizer "roubo", que é crime de improbidade, nem "caixa 2", que é crime eleitoral.
Os "recursos não contabilizados" fizeram escola. O deputado João Magno (PT-MG) denominou-os "desvios dentro da lei" e o sucessor de Delúbio na Tesouraria do PT, Paulo Ferreira, chamou-os de "fenômeno de informalidade da política brasileira". Um pouco mais e já iria parecer elogio.
Esse palavreado oportuno ensina também que a invasão de uma fazenda ou de uma sede do INSS é "ocupação". Pobres são "despossuídos" - para não ofender - e até a fome atende nos relatórios por "insegurança alimentar". As crises em que afundou o partido são "desafios". Erros, quando inevitável mencioná-los, são "desvios". Se envolvem graves questões morais, tornam-se "deslizes éticos". Ao ceder um avião, o empresário "o disponibiliza". Fica tudo frio, técnico, sem espaço para julgamentos morais.
Outra pérola do manual é "imprecisão terminológica" - um novo equivalente para mentira. Foi a contribuição do ex-ministro Palocci ao não explicar o episódio de sua viagem em um jatinho do empresário e amigo Roberto Colnaghi. Este revelou ao País que o ministro não dissera a verdade, no depoimento à CPI dos Bingos, ao contar que o PT tinha alugado o avião. Para se explicar, o ministro lamentou ter "cometido uma imprecisão terminológica" no depoimento. "Recorri inadvertidamente à expressão 'alugou', sem me apegar à acepção restrita do termo", desculpou-se.
O PT não é o primeiro, nem o único partido no poder a valer-se de tais recursos. Como lembra a cientista política Luciana Veiga, pesquisadora do Doxa/Iuperj e professora da Universidade Federal do Paraná, já na Grécia clássica Aristóteles abordou a relação entre palavras e poder, em sua Arte da Retórica. A esquerda desde sempre diferenciou "roubo", que é praticado pela burguesia corrupta, de "expropriação", ato revolucionário do poder operário. Nos anos 40 George Orwell antecipou, em 1984, a novilíngua, a linguagem do poder do futuro. Em nome do poder, verdade podia tornar-se mentira, sempre era nunca e submissão era o verdadeiro nome da liberdade. Lenin também escreveu que "uma mentira é muitas vezes justificada pelo fim". Delúbio atualizou a obra ao discordar da idéia de obrigar um partido a prestar contas à sociedade. "Transparência assim é burrice", ensinou o professor goiano.
A estratégia que se adota, observa Luciana Veiga, é "obscurecer qualquer associação desse ato (o roubo) com uma atitude premeditada". É tudo sempre casual, uma brevíssima falha corrigida com imediata volta aos trilhos. Por isso, diz a professora, Palocci "admite ter viajado de avião, mas argumenta que não sabia que ele estava sendo emprestado ao partido". Se não sabia, não cometeu crime. Argumento semelhante ao apresentado pelo presidente Lula, que por duas vezes declarou-se "traído" - quando veio à luz o mensalão e quando soube da violação de sigilo do caseiro. "O que está por trás desse discurso", observa Luciana, "é mostrar que ações do partido devem ser julgadas no máximo como erros ou deslizes. Atos desprovidos de má-fé, nunca delitos procedentes da perversidade."
Gabriel Manzano Filho
Mentira vira 'imprecisão terminológica' e caixa 2, sinônimo de 'recurso não contabilizado'
Vazamento, definem os dicionários Aurélio e Houaiss, é um "ato ou efeito de vazar", escoamento, vazão e vale também para a divulgação indevida de uma notícia. Na semana passada, passou a significar também algo bem mais grave: violação de sigilo. Fez dobradinha com "afastamento voluntário", que substituiu "demissão". Assim os assessores do Ministério da Fazenda puderam informar que "em virtude de um vazamento, ocorreu na segunda-feira o afastamento voluntário do ministro". Escondiam-se, por trás dessa frase vaga, quase inocente, um dos mais graves crimes praticados pelo governo contra um cidadão (a divulgação do extrato bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa) e a demissão do ministro Antonio Palocci, aceita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As duas invenções vieram enriquecer o manual de preservação da pureza ideológica com que o PT procura manter sua imagem, sua inocência, sua militância e seus objetivos. É um rico anedotário de fórmulas vagas, propositadamente fluidas, destinadas a enfeitar, esconder ou negar as feiúras da ação política. Nele o PT não erra nunca e não cabem coisas como roubo, erro, crime, traição, inveja, vingança.
Uma descoberta inesquecível desse manual foram os "recursos não contabilizados", invenção apresentada ao País em 2005 pelo então tesoureiro petista Delúbio Soares. Ele não podia dizer "roubo", que é crime de improbidade, nem "caixa 2", que é crime eleitoral.
Os "recursos não contabilizados" fizeram escola. O deputado João Magno (PT-MG) denominou-os "desvios dentro da lei" e o sucessor de Delúbio na Tesouraria do PT, Paulo Ferreira, chamou-os de "fenômeno de informalidade da política brasileira". Um pouco mais e já iria parecer elogio.
Esse palavreado oportuno ensina também que a invasão de uma fazenda ou de uma sede do INSS é "ocupação". Pobres são "despossuídos" - para não ofender - e até a fome atende nos relatórios por "insegurança alimentar". As crises em que afundou o partido são "desafios". Erros, quando inevitável mencioná-los, são "desvios". Se envolvem graves questões morais, tornam-se "deslizes éticos". Ao ceder um avião, o empresário "o disponibiliza". Fica tudo frio, técnico, sem espaço para julgamentos morais.
Outra pérola do manual é "imprecisão terminológica" - um novo equivalente para mentira. Foi a contribuição do ex-ministro Palocci ao não explicar o episódio de sua viagem em um jatinho do empresário e amigo Roberto Colnaghi. Este revelou ao País que o ministro não dissera a verdade, no depoimento à CPI dos Bingos, ao contar que o PT tinha alugado o avião. Para se explicar, o ministro lamentou ter "cometido uma imprecisão terminológica" no depoimento. "Recorri inadvertidamente à expressão 'alugou', sem me apegar à acepção restrita do termo", desculpou-se.
O PT não é o primeiro, nem o único partido no poder a valer-se de tais recursos. Como lembra a cientista política Luciana Veiga, pesquisadora do Doxa/Iuperj e professora da Universidade Federal do Paraná, já na Grécia clássica Aristóteles abordou a relação entre palavras e poder, em sua Arte da Retórica. A esquerda desde sempre diferenciou "roubo", que é praticado pela burguesia corrupta, de "expropriação", ato revolucionário do poder operário. Nos anos 40 George Orwell antecipou, em 1984, a novilíngua, a linguagem do poder do futuro. Em nome do poder, verdade podia tornar-se mentira, sempre era nunca e submissão era o verdadeiro nome da liberdade. Lenin também escreveu que "uma mentira é muitas vezes justificada pelo fim". Delúbio atualizou a obra ao discordar da idéia de obrigar um partido a prestar contas à sociedade. "Transparência assim é burrice", ensinou o professor goiano.
A estratégia que se adota, observa Luciana Veiga, é "obscurecer qualquer associação desse ato (o roubo) com uma atitude premeditada". É tudo sempre casual, uma brevíssima falha corrigida com imediata volta aos trilhos. Por isso, diz a professora, Palocci "admite ter viajado de avião, mas argumenta que não sabia que ele estava sendo emprestado ao partido". Se não sabia, não cometeu crime. Argumento semelhante ao apresentado pelo presidente Lula, que por duas vezes declarou-se "traído" - quando veio à luz o mensalão e quando soube da violação de sigilo do caseiro. "O que está por trás desse discurso", observa Luciana, "é mostrar que ações do partido devem ser julgadas no máximo como erros ou deslizes. Atos desprovidos de má-fé, nunca delitos procedentes da perversidade."
Gabriel Manzano Filho
Motorista de Mattoso envolve Marcelo Netto
Motorista de Mattoso depõe na PF e envolve ex-assessor de Palocci
A Polícia Federal está tentando localizar o jornalista Marcelo Netto, ex-assessor do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Segundo levantamento da PF, há seis dias ele não aparece em sua residência em Brasília, um apartamento no bairro da Asa Norte.
Surgiu na noite de sexta-feira o principal indicativo de que Marcelo Netto estaria envolvido no vazamento para a imprensa dos extratos bancários do caseiro Francenildo Costa, obtidos por meio de uma operação ilegal da Caixa Econômica Federal.
Em depoimento na PF, o motorista do ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso afirmou que, ao levar o antigo chefe à residência de Palocci, na noite de 16 de março, viu que na casa havia um veículo Mercedes, modelo Classe A, "escuro". Marcelo Netto possui um veículo que corresponde à descrição. A Folha apurou que ele estava lá, mas, para a PF, o que importa é que agora há um indício que justifica sua intimação.
Antes de ser exonerado, "a pedido", conforme publicado no Diário Oficial da União, na sexta-feira, diariamente ele chegava ao Ministério da Fazenda dirigindo um Classe A preto. Exceção feita a Ademirson Ariosvaldo da Silva e Juscelino Dourado, que acompanham o ex-ministro desde os tempos em que Palocci era prefeito de Ribeirão Preto, Marcelo Netto foi o assessor mais próximo de Palocci na Fazenda.
Digitais
Desde que os dados bancários de Francenildo foram veiculados pela imprensa, na noite de 17 de março, o nome de Marcelo Netto surgiu como o responsável pela ponte entre duas operações ilegais: a quebra de sigilo e o vazamento para a revista "Época".
O nome do motorista ouvido na noite de sexta-feira é mantido sob sigilo. Seu depoimento trouxe o primeiro indício formal de que o ex-assessor de Palocci tem algum envolvimento no episódio.
Em depoimento à PF, no dia 27 de março, Jorge Mattoso assumiu ter pedido ao consultor Ricardo Schumann dados relacionados ao caseiro. A ordem foi dada e cumprida na noite de 16 de março.
Schumann colocou os extratos bancários em um envelope e os levou a Mattoso, que jantava no restaurante La Torreta com dois outros assessores da Caixa, Antonio Carlos Ferreira, do departamento jurídico, e Gabriel Nogueira, da assessoria de imprensa.
Ouvidos pela PF, ambos afirmam ter presenciado a entrega do envelope. Negam, porém, ter conhecimento de seu conteúdo ou participação no episódio.
Ao final do jantar, de posse do envelope, Mattoso seguiu em seu carro oficial para entregá-lo a Palocci. Ao chegar à casa, o motorista que conduzia o veículo encontrou o Mercedes Classe A, que pertenceria a Marcelo Netto.
Mattoso, que foi indiciado pela PF por violação de sigilo funcional e quebra ilegal de sigilo (cujas penas podem chegar a seis anos de prisão), será ouvido novamente. Seu depoimento não foi marcado porque ele não foi encontrado para receber a intimação.
A PF aguarda para segunda-feira a decisão judicial relativa a quebras de sigilo bancário, telefônico e telemático requisitadas no caso.
Folha
A Polícia Federal está tentando localizar o jornalista Marcelo Netto, ex-assessor do ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Segundo levantamento da PF, há seis dias ele não aparece em sua residência em Brasília, um apartamento no bairro da Asa Norte.
Surgiu na noite de sexta-feira o principal indicativo de que Marcelo Netto estaria envolvido no vazamento para a imprensa dos extratos bancários do caseiro Francenildo Costa, obtidos por meio de uma operação ilegal da Caixa Econômica Federal.
Em depoimento na PF, o motorista do ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso afirmou que, ao levar o antigo chefe à residência de Palocci, na noite de 16 de março, viu que na casa havia um veículo Mercedes, modelo Classe A, "escuro". Marcelo Netto possui um veículo que corresponde à descrição. A Folha apurou que ele estava lá, mas, para a PF, o que importa é que agora há um indício que justifica sua intimação.
Antes de ser exonerado, "a pedido", conforme publicado no Diário Oficial da União, na sexta-feira, diariamente ele chegava ao Ministério da Fazenda dirigindo um Classe A preto. Exceção feita a Ademirson Ariosvaldo da Silva e Juscelino Dourado, que acompanham o ex-ministro desde os tempos em que Palocci era prefeito de Ribeirão Preto, Marcelo Netto foi o assessor mais próximo de Palocci na Fazenda.
Digitais
Desde que os dados bancários de Francenildo foram veiculados pela imprensa, na noite de 17 de março, o nome de Marcelo Netto surgiu como o responsável pela ponte entre duas operações ilegais: a quebra de sigilo e o vazamento para a revista "Época".
O nome do motorista ouvido na noite de sexta-feira é mantido sob sigilo. Seu depoimento trouxe o primeiro indício formal de que o ex-assessor de Palocci tem algum envolvimento no episódio.
Em depoimento à PF, no dia 27 de março, Jorge Mattoso assumiu ter pedido ao consultor Ricardo Schumann dados relacionados ao caseiro. A ordem foi dada e cumprida na noite de 16 de março.
Schumann colocou os extratos bancários em um envelope e os levou a Mattoso, que jantava no restaurante La Torreta com dois outros assessores da Caixa, Antonio Carlos Ferreira, do departamento jurídico, e Gabriel Nogueira, da assessoria de imprensa.
Ouvidos pela PF, ambos afirmam ter presenciado a entrega do envelope. Negam, porém, ter conhecimento de seu conteúdo ou participação no episódio.
Ao final do jantar, de posse do envelope, Mattoso seguiu em seu carro oficial para entregá-lo a Palocci. Ao chegar à casa, o motorista que conduzia o veículo encontrou o Mercedes Classe A, que pertenceria a Marcelo Netto.
Mattoso, que foi indiciado pela PF por violação de sigilo funcional e quebra ilegal de sigilo (cujas penas podem chegar a seis anos de prisão), será ouvido novamente. Seu depoimento não foi marcado porque ele não foi encontrado para receber a intimação.
A PF aguarda para segunda-feira a decisão judicial relativa a quebras de sigilo bancário, telefônico e telemático requisitadas no caso.
Folha
Planalto tenta ficar fora da violação!
Operação para manter Palocci e desacreditar caseiro ruiu em 11 dias
Planalto tenta demonstrar que nada teve a ver com a violação do sigilo bancário de Francenildo na Caixa Econômica Federal
O dia 16 de março pode ter selado a sorte do governo Lula. O relato parcial dos fatos daquela quinta-feira já levou à demissão de Antonio Palocci e Jorge Mattoso de postos-chave da economia 11 dias depois. E a operação para salvar o então ministro do testemunho do caseiro Francenildo Costa pode revelar o envolvimento de outros membros do governo num crime, segundo investigações da Polícia Federal.
O principal desafio do governo é convencer que a interrupção do depoimento do caseiro à CPI dos Bingos naquela quinta-feira -uma estratégia arquitetada com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva- nada teve a ver com a violação do sigilo bancário da conta poupança de Francenildo na Caixa Econômica Federal e o vazamento dos dados, numa tentativa de desqualificar o caseiro. Ambas as operações foram engendradas supostamente no Palácio do Planalto.
A quinta-feira começou tensa no Planalto, onde a situação de Palocci foi tema de reunião logo cedo. Pouco após as 10h, o PT obtinha liminar no Supremo Tribunal Federal para calar o caseiro que vira Palocci na "casa do lobby", alugada por ex-assessores na Prefeitura de Ribeirão Preto investigados por suspeita de corrupção. Lula avalizou a ida ao STF em reiterada manifestação de apoio ao ministro da Fazenda.
O autor da ação no STF, senador Tião Viana (PT-AC), repetia nos corredores do Congresso: "O caseiro é culpado". Animara-se com a promessa do testemunho de um jardineiro que ouvira Francenildo falar em dinheiro e supôs que o caseiro teria sido pago para testemunhar contra Palocci.
"Todo mundo sabia, aqui [no Congresso] e no Ministério da Fazenda", relatou o senador dias depois, sobre o circuito percorrido no governo pela informação de que Francenildo registrara movimentações bancárias atípicas.
A tal testemunha não apareceu. O que apareceu na imprensa, no outro dia, foi o extrato do caseiro. Os dados foram levados pelo então presidente da Caixa ao então ministro da Fazenda, num encontro breve na residência de Palocci. Eram cerca de 23h de 16 de março. Palocci tinha em mãos o que acreditava ser uma poderosa prova contra o caseiro. Não imaginava que o envelope trazia também sua sentença de morte no cargo.
Lavagem
É provável que Palocci só tenha se dado conta do estrago depois de ter se tornado o suspeito número um da Polícia Federal pela ordem de violar o sigilo bancário de Francenildo. Alegou estresse para adiar o depoimento em que terá de explicar seus atos.
Na carta em que se despediu do governo, Palocci nega tudo com veemência. "Não tive nenhuma participação nem no mando nem operacional", escreveu. Quase na mesma hora, Jorge Mattoso insistia, em nota, que agira nos "estritos limites da legalidade".
As palavras de ambos ruíram em depoimentos dados à PF. Pressionado por testemunhos de funcionários, Mattoso reconheceu que determinara o acesso aos dados do caseiro e revelou que levara os extratos a Palocci.
À PF, o então presidente da Caixa deixara claro que o assunto havia sido discutido com Palocci antes da entrega do envelope. Foi durante o jantar num restaurante que Mattoso recebeu do consultor Ricardo Schumman a encomenda feita no início daquela noite. Mattoso chegava de reunião no Planalto quando chamou Schumman. Passou nome e CPF do caseiro com a ordem: "Veja o que ele tem na Caixa".
O expediente já se encerrara para a maior parte dos executivos. Schumman só localizou Sueli Mascarenhas, superintendente de recursos humanos, para tocar a tarefa. Tratava-se de "assunto sigiloso", contou a funcionária à PF sobre o pedido "não usual".
Sueli tinha o chamado perfil de acesso à base de dados da Caixa, mas precisou da ajuda de um gerente, Jeter Ribeiro. Segundo Ribeiro, o prédio já estava "à meia-luz" quando fez o serviço de seu laptop, do qual cuidou depois de apagar os rastros da invasão.
A PF ouviu funcionários da Superintendência de Controles Internos, que deveria rastrear operações atípicas e colher indícios de lavagens de dinheiro. Eles receberam o pedido de avisar o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) das movimentações de Francenildo na sexta-feira, 17 de março, quando o blog da revista "Época" já divulgava dados do caseiro. Contaram mais: Mattoso sabia do vazamento.
Durante uma semana, Mattoso fingiu investigar o caso. A investigação interna poderia chegar ao fim sem conclusão, não fosse uma falha: os extratos entregues à revista "Época" circularam em Brasília. O formato mostrou que os dados só poderiam ter saído do sistema central da Caixa. Mais: no extrato havia o código H4A00000, que permitiu o rastreamento da violação de sigilo. Os depoimentos forneceram as outras peças.
Folha
Planalto tenta demonstrar que nada teve a ver com a violação do sigilo bancário de Francenildo na Caixa Econômica Federal
O dia 16 de março pode ter selado a sorte do governo Lula. O relato parcial dos fatos daquela quinta-feira já levou à demissão de Antonio Palocci e Jorge Mattoso de postos-chave da economia 11 dias depois. E a operação para salvar o então ministro do testemunho do caseiro Francenildo Costa pode revelar o envolvimento de outros membros do governo num crime, segundo investigações da Polícia Federal.
O principal desafio do governo é convencer que a interrupção do depoimento do caseiro à CPI dos Bingos naquela quinta-feira -uma estratégia arquitetada com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva- nada teve a ver com a violação do sigilo bancário da conta poupança de Francenildo na Caixa Econômica Federal e o vazamento dos dados, numa tentativa de desqualificar o caseiro. Ambas as operações foram engendradas supostamente no Palácio do Planalto.
A quinta-feira começou tensa no Planalto, onde a situação de Palocci foi tema de reunião logo cedo. Pouco após as 10h, o PT obtinha liminar no Supremo Tribunal Federal para calar o caseiro que vira Palocci na "casa do lobby", alugada por ex-assessores na Prefeitura de Ribeirão Preto investigados por suspeita de corrupção. Lula avalizou a ida ao STF em reiterada manifestação de apoio ao ministro da Fazenda.
O autor da ação no STF, senador Tião Viana (PT-AC), repetia nos corredores do Congresso: "O caseiro é culpado". Animara-se com a promessa do testemunho de um jardineiro que ouvira Francenildo falar em dinheiro e supôs que o caseiro teria sido pago para testemunhar contra Palocci.
"Todo mundo sabia, aqui [no Congresso] e no Ministério da Fazenda", relatou o senador dias depois, sobre o circuito percorrido no governo pela informação de que Francenildo registrara movimentações bancárias atípicas.
A tal testemunha não apareceu. O que apareceu na imprensa, no outro dia, foi o extrato do caseiro. Os dados foram levados pelo então presidente da Caixa ao então ministro da Fazenda, num encontro breve na residência de Palocci. Eram cerca de 23h de 16 de março. Palocci tinha em mãos o que acreditava ser uma poderosa prova contra o caseiro. Não imaginava que o envelope trazia também sua sentença de morte no cargo.
Lavagem
É provável que Palocci só tenha se dado conta do estrago depois de ter se tornado o suspeito número um da Polícia Federal pela ordem de violar o sigilo bancário de Francenildo. Alegou estresse para adiar o depoimento em que terá de explicar seus atos.
Na carta em que se despediu do governo, Palocci nega tudo com veemência. "Não tive nenhuma participação nem no mando nem operacional", escreveu. Quase na mesma hora, Jorge Mattoso insistia, em nota, que agira nos "estritos limites da legalidade".
As palavras de ambos ruíram em depoimentos dados à PF. Pressionado por testemunhos de funcionários, Mattoso reconheceu que determinara o acesso aos dados do caseiro e revelou que levara os extratos a Palocci.
À PF, o então presidente da Caixa deixara claro que o assunto havia sido discutido com Palocci antes da entrega do envelope. Foi durante o jantar num restaurante que Mattoso recebeu do consultor Ricardo Schumman a encomenda feita no início daquela noite. Mattoso chegava de reunião no Planalto quando chamou Schumman. Passou nome e CPF do caseiro com a ordem: "Veja o que ele tem na Caixa".
O expediente já se encerrara para a maior parte dos executivos. Schumman só localizou Sueli Mascarenhas, superintendente de recursos humanos, para tocar a tarefa. Tratava-se de "assunto sigiloso", contou a funcionária à PF sobre o pedido "não usual".
Sueli tinha o chamado perfil de acesso à base de dados da Caixa, mas precisou da ajuda de um gerente, Jeter Ribeiro. Segundo Ribeiro, o prédio já estava "à meia-luz" quando fez o serviço de seu laptop, do qual cuidou depois de apagar os rastros da invasão.
A PF ouviu funcionários da Superintendência de Controles Internos, que deveria rastrear operações atípicas e colher indícios de lavagens de dinheiro. Eles receberam o pedido de avisar o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) das movimentações de Francenildo na sexta-feira, 17 de março, quando o blog da revista "Época" já divulgava dados do caseiro. Contaram mais: Mattoso sabia do vazamento.
Durante uma semana, Mattoso fingiu investigar o caso. A investigação interna poderia chegar ao fim sem conclusão, não fosse uma falha: os extratos entregues à revista "Época" circularam em Brasília. O formato mostrou que os dados só poderiam ter saído do sistema central da Caixa. Mais: no extrato havia o código H4A00000, que permitiu o rastreamento da violação de sigilo. Os depoimentos forneceram as outras peças.
Folha
Pertence protege Lula!!
Okamotto vai voltar à CPI, mas não para falar de Lula
O amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, terá de voltar à CPI dos Bingos depois de amanhã, mas poderá deixar sem respostas as perguntas que não tratem de denúncias de corrupção em prefeituras petistas no início dos anos 90.
É o que lhe garante decisão do ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal, em mais um ato da batalha jurídica que Okamotto trava desde que virou alvo de investigações no Congresso. Okamotto tentou evitar a volta ao Congresso menos de cinco meses depois de seu primeiro depoimento. Na ocasião, não convenceu os membros da CPI dos Bingos que pagou uma dívida de R$ 29,4 mil do presidente Lula com o PT, no início de 2003. A CPI investiga a suspeita de que o pagamento tenha sido feito com dinheiro do caixa dois do partido.
A vitória do amigo de Lula foi parcial no STF. Ele terá de participar de acareação com o ex-militante petista Paulo de Tarso Vesceslau, que acusa Okamotto de comandar um esquema de corrupção em prefeituras comandadas pelo PT. Mas poderá calar-se se questionado sobre o pagamento da dívida de Lula ou outras despesas da família do presidente.
De acordo com a decisão do ministro do STF, as perguntas deverão se limitar a pontos de divergência entre declarações anteriores dos acareados "sobre fatos ou circunstâncias relevantes, considerado o objeto do inquérito parlamentar". Na avaliação do advogado de Okamotto, Marcos Augusto Perez, a decisão "constitui mais um passo importante no sentido de coibir os desvios da CPI dos Bingos". Antes, o STF já havia impedido um segundo depoimento do amigo de Lula, assim como a quebra de seus sigilos fiscal, bancário e telefônico.
Em agosto de 2005 (e já diante de suspeitas de uso de recursos do caixa dois para pagamento de despesas do presidente Lula), Okamotto assumiu a responsabilidade pela quitação de uma dívida com o PT registrada na prestação de contas ao TSE em 2003.
Desde então, se recusa a identificar datas e valores dos saques que supostamente ele e a mulher teriam feito em agências de Brasília, São Paulo e São Bernardo do Campo para honrar a dívida do presidente. Os depósitos teriam sido feitos em dinheiro vivo para que Lula constasse como autor dos pagamentos. Anteontem, a Folha questionou a assessoria do presidente do Sebrae sobre datas e valores dos saques, mas não teve resposta.
Folha
O amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, terá de voltar à CPI dos Bingos depois de amanhã, mas poderá deixar sem respostas as perguntas que não tratem de denúncias de corrupção em prefeituras petistas no início dos anos 90.
É o que lhe garante decisão do ministro Sepúlveda Pertence, do Supremo Tribunal Federal, em mais um ato da batalha jurídica que Okamotto trava desde que virou alvo de investigações no Congresso. Okamotto tentou evitar a volta ao Congresso menos de cinco meses depois de seu primeiro depoimento. Na ocasião, não convenceu os membros da CPI dos Bingos que pagou uma dívida de R$ 29,4 mil do presidente Lula com o PT, no início de 2003. A CPI investiga a suspeita de que o pagamento tenha sido feito com dinheiro do caixa dois do partido.
A vitória do amigo de Lula foi parcial no STF. Ele terá de participar de acareação com o ex-militante petista Paulo de Tarso Vesceslau, que acusa Okamotto de comandar um esquema de corrupção em prefeituras comandadas pelo PT. Mas poderá calar-se se questionado sobre o pagamento da dívida de Lula ou outras despesas da família do presidente.
De acordo com a decisão do ministro do STF, as perguntas deverão se limitar a pontos de divergência entre declarações anteriores dos acareados "sobre fatos ou circunstâncias relevantes, considerado o objeto do inquérito parlamentar". Na avaliação do advogado de Okamotto, Marcos Augusto Perez, a decisão "constitui mais um passo importante no sentido de coibir os desvios da CPI dos Bingos". Antes, o STF já havia impedido um segundo depoimento do amigo de Lula, assim como a quebra de seus sigilos fiscal, bancário e telefônico.
Em agosto de 2005 (e já diante de suspeitas de uso de recursos do caixa dois para pagamento de despesas do presidente Lula), Okamotto assumiu a responsabilidade pela quitação de uma dívida com o PT registrada na prestação de contas ao TSE em 2003.
Desde então, se recusa a identificar datas e valores dos saques que supostamente ele e a mulher teriam feito em agências de Brasília, São Paulo e São Bernardo do Campo para honrar a dívida do presidente. Os depósitos teriam sido feitos em dinheiro vivo para que Lula constasse como autor dos pagamentos. Anteontem, a Folha questionou a assessoria do presidente do Sebrae sobre datas e valores dos saques, mas não teve resposta.
Folha
Palocci ordenou a violação!
Palocci ordenou a Mattoso violação do sigilo do caseiro
Assessor de Márcio Thomaz Bastos estava na casa de Palocci quando extrato foi entregue
Antonio Palocci Filho, ministro da Fazenda em 16 de março, ordenou diretamente ao então presidente da Caixa, Jorge Mattoso, que violasse o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Pressionou o colega Márcio Thomaz Bastos a pedir que a Polícia Federal acobertasse sua conduta, ameaçando revelar a presença de um auxiliar direto do ministro da Justiça em sua casa na noite daquela quinta, quando Mattoso lhe entregou o extrato do caseiro.
Segundo relatos obtidos pela Folha, Palocci fez pressões até a última hora para permanecer no cargo. Discutiu com Mattoso e Thomaz Bastos duramente na segunda-feira passada, dia de sua queda. Mattoso rejeitou assumir sozinho a culpa.
Por telefone, Palocci chegou a pedir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não fosse demitido, mas afastado temporariamente. Lula, porém, respondeu secamente que não dava. Havia acabado de ser informado de que não havia mais dúvida de que Palocci ordenara a violação do sigilo do caseiro, apesar de o então ministro ter negado isso várias vezes no decorrer do imbróglio.
Palocci deu a ordem para Mattoso quebrar o sigilo na tarde de 16 de março, quando lhe disse que tinha a informação de que o caseiro recebera soma de dinheiro e que suspeitava que havia sido comprado pela oposição para atacá-lo. De noite, Palocci convidou o secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg, para ir à sua casa. Lá, encontrou também Mattoso. A membros do governo, Goldberg disse que não presenciou a entrega do extrato.
Na sua versão, Palocci e Mattoso teriam se reunido a sós no escritório, e o então ministro da Fazenda teria pedido que a PF investigasse Francenildo por falso testemunho e suborno para mentir sobre uma autoridade.
Palocci, que estava acompanhado por seu assessor Marcelo Netto, disse que "a imprensa" divulgaria que o caseiro havia recebido recursos incompatíveis com sua renda de R$ 700 mensais. Segundo seu relato, ele não viu o extrato, mas ouviu pedido de Palocci para acionar a PF.
No dia seguinte, o chefe-de-gabinete de Thomaz Bastos, Cláudio Alencar, relatou ao ministro que Palocci havia pedido a Goldberg para a PF investigar Francenildo. No mesmo dia, o extrato vazou por meio do blog da revista "Época".
Oficialmente, a PF começou a investigar o caseiro na quinta-feira seguinte, dia 23, e o colocou sob suspeita de lavagem de dinheiro devido a um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras encaminhado no dia 20. Antes, o contato de Francenildo com a PF havia ocorrido entre a quinta, 16, e a sexta, 17, quando entrou e saiu do programa de proteção a testemunhas do órgão.
Últimos dias
Uma semana depois, no domingo passado, Lula e Palocci tiveram uma conversa pessoal. O então ministro da Fazenda continuava a negar as evidências de sua participação no caso. Mas Lula já havia recebido informações de Thomaz Bastos de que a PF tinha convicção da participação de Palocci.
O ministro da Justiça disse que o depoimento de Mattoso no dia seguinte não lhe deixaria saída. Lula informou a Palocci que a situação era insustentável e que ele deveria se preparar para sair.
Antes de viajar para Curitiba, ainda no domingo, dia 26, Lula se reuniu com auxiliares na Base Aérea de Brasília, atrasando seu vôo em mais de uma hora. Pediu que fizessem uma apuração final durante a manhã de segunda e que lhe apresentassem um resultado definitivo em reunião à tarde.
Solicitou ainda que o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Guido Mantega, fosse a Brasília no dia seguinte. Já queria demitir Palocci, contrariado com as negativas do ministro, que só admitira que sua assessoria poderia ter vazado o extrato.
Na manhã de segunda, em conversa tensa com Mattoso, Palocci disse ao presidente da Caixa que ele não diminuiria sua culpa em nada se o responsabilizasse. Depois de soltar um palavrão, Mattoso afirmou que Palocci acabara com sua vida e que ele não pagaria o pato sozinho.
Com a recusa de Mattoso, Palocci ficou nervoso e trocou ofensas com Thomaz Bastos. Disse que contrataria um detetive particular para investigar Francenildo porque a Polícia Federal trabalharia só a favor da oposição e contra o governo.
Palocci disse que o caseiro teria viajado para o Piauí com passagem paga por um senador e que nem isso a PF conseguia apurar.
Palocci fez pressão em forma de ameaça. Disse que Thomaz Bastos poderia se complicar porque Goldberg estivera na sua casa na quinta em que Mattoso lhe entregara o extrato de Francenildo.
Thomaz Bastos respondeu com um palavrão. Disse que Palocci chamara o secretário sem seu conhecimento, que ele estava em Rondônia e que não permitiria que a PF fosse usada politicamente ou forçada a acobertar eventual prática criminosa de membros da cúpula do governo. Em público, o ministro não informou que seu assessor havia presenciado o encontro entre Mattoso e Palocci.
Quando Lula chegou de Curitiba, foi informado por auxiliares de que Mattoso estava na PF naquele momento e que diria que entregou os extratos a Palocci. Lula agradeceu o relato, pediu que deixassem a sala e solicitou um telefonema para o ministro da Fazenda. Não chamou Palocci para seu gabinete e afirmou que seria uma conversa rápida.
O presidente disse a Palocci que, diante das circunstâncias, ele deveria deixar o governo. O auxiliar pediu que não fosse demitido, mas afastado, a fim de tentar provar sua eventual inocência e retornar ao posto. Lula não aceitou.
A auxiliares, Lula se queixou de Palocci ter insistido em negar participação na violação do sigilo. Outros membros da cúpula do governo também se mostraram surpresos. Ciro Gomes, que chegou a chamar de "golpista" setores da imprensa, disse que ia escrever uma carta para um jornal pedindo desculpa por sua crítica.
Oferta de R$ 1 milhão
Segundo a edição desta semana da revista "Veja", em conversa de Palocci com Mattoso e o advogado criminalista Arnaldo Malheiros, amigo de Thomaz Bastos, foi aventada a idéia de oferecer R$ 1 milhão "a algum funcionário da Caixa que se dispusesse a assumir a culpa pela quebra do sigilo".
Segundo a revista, "não se sabe se a proposta teve andamento prático". Ainda segundo a "Veja", o empresário Eurípedes Soares da Silva, o suposto pai biológico de Francenildo, também teria tido sigilos fiscal e bancário violados.
Folha
Assessor de Márcio Thomaz Bastos estava na casa de Palocci quando extrato foi entregue
Antonio Palocci Filho, ministro da Fazenda em 16 de março, ordenou diretamente ao então presidente da Caixa, Jorge Mattoso, que violasse o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. Pressionou o colega Márcio Thomaz Bastos a pedir que a Polícia Federal acobertasse sua conduta, ameaçando revelar a presença de um auxiliar direto do ministro da Justiça em sua casa na noite daquela quinta, quando Mattoso lhe entregou o extrato do caseiro.
Segundo relatos obtidos pela Folha, Palocci fez pressões até a última hora para permanecer no cargo. Discutiu com Mattoso e Thomaz Bastos duramente na segunda-feira passada, dia de sua queda. Mattoso rejeitou assumir sozinho a culpa.
Por telefone, Palocci chegou a pedir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não fosse demitido, mas afastado temporariamente. Lula, porém, respondeu secamente que não dava. Havia acabado de ser informado de que não havia mais dúvida de que Palocci ordenara a violação do sigilo do caseiro, apesar de o então ministro ter negado isso várias vezes no decorrer do imbróglio.
Palocci deu a ordem para Mattoso quebrar o sigilo na tarde de 16 de março, quando lhe disse que tinha a informação de que o caseiro recebera soma de dinheiro e que suspeitava que havia sido comprado pela oposição para atacá-lo. De noite, Palocci convidou o secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, Daniel Goldberg, para ir à sua casa. Lá, encontrou também Mattoso. A membros do governo, Goldberg disse que não presenciou a entrega do extrato.
Na sua versão, Palocci e Mattoso teriam se reunido a sós no escritório, e o então ministro da Fazenda teria pedido que a PF investigasse Francenildo por falso testemunho e suborno para mentir sobre uma autoridade.
Palocci, que estava acompanhado por seu assessor Marcelo Netto, disse que "a imprensa" divulgaria que o caseiro havia recebido recursos incompatíveis com sua renda de R$ 700 mensais. Segundo seu relato, ele não viu o extrato, mas ouviu pedido de Palocci para acionar a PF.
No dia seguinte, o chefe-de-gabinete de Thomaz Bastos, Cláudio Alencar, relatou ao ministro que Palocci havia pedido a Goldberg para a PF investigar Francenildo. No mesmo dia, o extrato vazou por meio do blog da revista "Época".
Oficialmente, a PF começou a investigar o caseiro na quinta-feira seguinte, dia 23, e o colocou sob suspeita de lavagem de dinheiro devido a um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras encaminhado no dia 20. Antes, o contato de Francenildo com a PF havia ocorrido entre a quinta, 16, e a sexta, 17, quando entrou e saiu do programa de proteção a testemunhas do órgão.
Últimos dias
Uma semana depois, no domingo passado, Lula e Palocci tiveram uma conversa pessoal. O então ministro da Fazenda continuava a negar as evidências de sua participação no caso. Mas Lula já havia recebido informações de Thomaz Bastos de que a PF tinha convicção da participação de Palocci.
O ministro da Justiça disse que o depoimento de Mattoso no dia seguinte não lhe deixaria saída. Lula informou a Palocci que a situação era insustentável e que ele deveria se preparar para sair.
Antes de viajar para Curitiba, ainda no domingo, dia 26, Lula se reuniu com auxiliares na Base Aérea de Brasília, atrasando seu vôo em mais de uma hora. Pediu que fizessem uma apuração final durante a manhã de segunda e que lhe apresentassem um resultado definitivo em reunião à tarde.
Solicitou ainda que o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Guido Mantega, fosse a Brasília no dia seguinte. Já queria demitir Palocci, contrariado com as negativas do ministro, que só admitira que sua assessoria poderia ter vazado o extrato.
Na manhã de segunda, em conversa tensa com Mattoso, Palocci disse ao presidente da Caixa que ele não diminuiria sua culpa em nada se o responsabilizasse. Depois de soltar um palavrão, Mattoso afirmou que Palocci acabara com sua vida e que ele não pagaria o pato sozinho.
Com a recusa de Mattoso, Palocci ficou nervoso e trocou ofensas com Thomaz Bastos. Disse que contrataria um detetive particular para investigar Francenildo porque a Polícia Federal trabalharia só a favor da oposição e contra o governo.
Palocci disse que o caseiro teria viajado para o Piauí com passagem paga por um senador e que nem isso a PF conseguia apurar.
Palocci fez pressão em forma de ameaça. Disse que Thomaz Bastos poderia se complicar porque Goldberg estivera na sua casa na quinta em que Mattoso lhe entregara o extrato de Francenildo.
Thomaz Bastos respondeu com um palavrão. Disse que Palocci chamara o secretário sem seu conhecimento, que ele estava em Rondônia e que não permitiria que a PF fosse usada politicamente ou forçada a acobertar eventual prática criminosa de membros da cúpula do governo. Em público, o ministro não informou que seu assessor havia presenciado o encontro entre Mattoso e Palocci.
Quando Lula chegou de Curitiba, foi informado por auxiliares de que Mattoso estava na PF naquele momento e que diria que entregou os extratos a Palocci. Lula agradeceu o relato, pediu que deixassem a sala e solicitou um telefonema para o ministro da Fazenda. Não chamou Palocci para seu gabinete e afirmou que seria uma conversa rápida.
O presidente disse a Palocci que, diante das circunstâncias, ele deveria deixar o governo. O auxiliar pediu que não fosse demitido, mas afastado, a fim de tentar provar sua eventual inocência e retornar ao posto. Lula não aceitou.
A auxiliares, Lula se queixou de Palocci ter insistido em negar participação na violação do sigilo. Outros membros da cúpula do governo também se mostraram surpresos. Ciro Gomes, que chegou a chamar de "golpista" setores da imprensa, disse que ia escrever uma carta para um jornal pedindo desculpa por sua crítica.
Oferta de R$ 1 milhão
Segundo a edição desta semana da revista "Veja", em conversa de Palocci com Mattoso e o advogado criminalista Arnaldo Malheiros, amigo de Thomaz Bastos, foi aventada a idéia de oferecer R$ 1 milhão "a algum funcionário da Caixa que se dispusesse a assumir a culpa pela quebra do sigilo".
Segundo a revista, "não se sabe se a proposta teve andamento prático". Ainda segundo a "Veja", o empresário Eurípedes Soares da Silva, o suposto pai biológico de Francenildo, também teria tido sigilos fiscal e bancário violados.
Folha
1.4.06
Vale o escrito
Ainda que se mude o relatório da CPI, não há como voltar a fita da memória nacional
Exibem juízo, mais que isso, senso de risco político, os petistas que defendem a aprovação - mediante alguns ajustes negociados com a oposição - do relatório da CPI dos Correios apresentado pelo deputado Osmar Serraglio na quarta-feira.
Reafirmarão o inábil destemor de sempre os que porventura pretenderem virar as conclusões da CPI de cabeça para baixo, apresentando-as à imagem e semelhança das conveniências eleitorais do PT, ao arrepio dos fatos e do entendimento médio de que Serraglio apresentou o relatório possível, em acordo com as investigações, minucioso, denso e, com linguagem por vezes propositadamente ambígua, não deixou nada de fora sem cair na tentação de fazer um panfleto. Mais que satisfatório, pois.
Há quem tenha considerado o documento ameno, um atestado mesmo de absolvição ao presidente da República e um monumento ao português desconhecido com seus "cúspide", "sabença" e "lobrigar" - ponta, sabedoria e perceber, respectivamente.
Mas não há fora das fileiras governistas quem o tenha avaliado como injusto, absurdo, irreal, fruto da imaginação eleitoreira do relator.
Portanto, se insistir em produzir um relatório paralelo para inocentar os seus e negar as evidências, o PT seguramente entrará outra vez em rota de colisão com o bom senso e, mais grave para o partido nessa altura da pré-campanha, com o eleitorado.
Vai criar um barulho daqueles para outra vez chegar ao pior resultado. A oposição pode até não ter votos suficientes dentro da comissão para garantir sozinha a aprovação do relatório. Mas o governo também não tem. Haja vista a aprovação, dez meses atrás, dos nomes do relator e do presidente da CPI que acreditava capazes de manipular a seu favor a CPI (ledíssimo engano), por apenas um voto.
O assunto agora em pauta é muito mais polêmico e posto ao exame da opinião pública à luz em retrospectiva do espetáculo de dados objetivos e manobras subjetivas ocorridos de maio do ano passado para cá.
Por isso mesmo, indica a lógica que, se quiserem impor suas vontades, os governistas mais radicais terão necessariamente de se expor a um desgaste em tudo e por tudo altamente desaconselhável. Inclusive porque vão perder. Em qualquer hipótese, mesmo na mais remota delas, a derrubada do relatório no voto.
Ainda que se altere o texto para consignar que a dinheirama amealhada por Marcos Valério e Delúbio Soares e entregue a parlamentares de partidos aliados não teve o condão de comprar antigos opositores e facilitar a vida de velhos companheiros, mesmo assim valerá para todos os efeitos políticos o relatório escrito e lido pelo deputado Serraglio na quarta-feira. Aquele foi o fato consumado, o mais é esperneio, tentativa de zerar o jogo para confundir e apostar na socialização do prejuízo.
DORA KRAMER
Exibem juízo, mais que isso, senso de risco político, os petistas que defendem a aprovação - mediante alguns ajustes negociados com a oposição - do relatório da CPI dos Correios apresentado pelo deputado Osmar Serraglio na quarta-feira.
Reafirmarão o inábil destemor de sempre os que porventura pretenderem virar as conclusões da CPI de cabeça para baixo, apresentando-as à imagem e semelhança das conveniências eleitorais do PT, ao arrepio dos fatos e do entendimento médio de que Serraglio apresentou o relatório possível, em acordo com as investigações, minucioso, denso e, com linguagem por vezes propositadamente ambígua, não deixou nada de fora sem cair na tentação de fazer um panfleto. Mais que satisfatório, pois.
Há quem tenha considerado o documento ameno, um atestado mesmo de absolvição ao presidente da República e um monumento ao português desconhecido com seus "cúspide", "sabença" e "lobrigar" - ponta, sabedoria e perceber, respectivamente.
Mas não há fora das fileiras governistas quem o tenha avaliado como injusto, absurdo, irreal, fruto da imaginação eleitoreira do relator.
Portanto, se insistir em produzir um relatório paralelo para inocentar os seus e negar as evidências, o PT seguramente entrará outra vez em rota de colisão com o bom senso e, mais grave para o partido nessa altura da pré-campanha, com o eleitorado.
Vai criar um barulho daqueles para outra vez chegar ao pior resultado. A oposição pode até não ter votos suficientes dentro da comissão para garantir sozinha a aprovação do relatório. Mas o governo também não tem. Haja vista a aprovação, dez meses atrás, dos nomes do relator e do presidente da CPI que acreditava capazes de manipular a seu favor a CPI (ledíssimo engano), por apenas um voto.
O assunto agora em pauta é muito mais polêmico e posto ao exame da opinião pública à luz em retrospectiva do espetáculo de dados objetivos e manobras subjetivas ocorridos de maio do ano passado para cá.
Por isso mesmo, indica a lógica que, se quiserem impor suas vontades, os governistas mais radicais terão necessariamente de se expor a um desgaste em tudo e por tudo altamente desaconselhável. Inclusive porque vão perder. Em qualquer hipótese, mesmo na mais remota delas, a derrubada do relatório no voto.
Ainda que se altere o texto para consignar que a dinheirama amealhada por Marcos Valério e Delúbio Soares e entregue a parlamentares de partidos aliados não teve o condão de comprar antigos opositores e facilitar a vida de velhos companheiros, mesmo assim valerá para todos os efeitos políticos o relatório escrito e lido pelo deputado Serraglio na quarta-feira. Aquele foi o fato consumado, o mais é esperneio, tentativa de zerar o jogo para confundir e apostar na socialização do prejuízo.
DORA KRAMER
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